11 julho 2026

jorge velhote / fria é a água na escuridão

  
 
.4.
 
Quando amanhece é veloz o frio azul
 
das lágrimas a paixão fareja ainda
 
os lábios e os dedos –
 
ferve na humidade arrastada
 
da respiração um resto de vinho
 
uma canção ardendo na memória – assim
 
sem destino são os teus passos
 
como despidos são no inverno
 
os ramos ou fria é a água
 
na escuridão.
 
 
 
jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018




 

10 julho 2026

jorge reis-sá / o quarto

  
 
Também aqui o tempo passou. A janela aberta trouxe o bosque
para a colcha, entre os lençóis há agora bichos-de-conta dizendo
da sua intimidade. As aranhas relatam as teias em paciência.
 
E um pequeno mamífero escolheu a mesinha de cabeceira para respirar.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008




09 julho 2026

jorge de sousa braga / gerês

  
 
Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva
 
 
 
 
 
Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram
 
 
 
jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991




 

08 julho 2026

joaquim manuel magalhães / road and trees

 



 
 
De noite. A meio coração. Perto da barra.
As traineiras, as luzes de mercúrio,
as felinas gaivotas,
a hulha do fortim,
as janelas ao luar da cerração.
 
A luz cega da felicidade
acende no escuro de cada rocha
a ardente natureza dos pinheiros,
de freixos e salgueiros, da mal-amada
árvores dos figos e do pez.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
uma exposição
consequência do lugar
relógio d´água
2001
 



07 julho 2026

gonçalo m. tavares / poema raro

  
 
Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004





 

06 julho 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
II
 
e havia a casa
onde,
na armadilha das horas
e no arbítrio da luz,
íamos crescendo,
crescendo
até esta memória
mas não era a casa
não apenas a casa
era o caminho
as dunas, o pinhal,
o mar e o cheiro do mar
o voo dos pássaros
ou apenas os pássaros
caídos sobre
o caniçal, espalhados
no que parecia ser
o azul do céu
o branco imperfeito
duma nuvem ou dum muro
tudo tão insconstruído
tudo tão desenhado,
imaginado,
não se sabe por que
destino.
Não sabíamos
que era o amor
podia ser
mas não sabíamos
o amor só se sabe
muito mais tarde
quando já não há tempo
quando já não é possível
estar dentro
do tempo do amor
 
talvez seja por isso:
a felicidade
é sempre uma recordação
uma memória, sim
algo que era
e não sabíamos
 
qualquer coisa
que nos aparece construída
muito mais tarde
mas sobre a qual
já não temos qualquer domínio
uma perda, uma ausência
uma impossibilidade
 
 
 
gil. t. sousa






 

05 julho 2026

rui diniz / ode e esboço do sonho

  
 
A veemência do mar repousava-me de um sonho:
Uma mulher doida corria pela praia quente.
(De vez em quando o céu, olhando essa doente,
Lembrava um sôfrego olho, cego desse sonho).
 
Dias escorriam na memória lenta,
Dias desembocados no bordado das vagas,
Dias finais, sem mágoa, sem tormenta,
sem voz, sem tempo, dias sujas asas.
 
A mulher dedicava as mãos ao sol:
Com uma faca retalhava-as e chorava.
Com o seu sangue e ria e o lambia.
 
Por fim do corpo exausto e sem controlo,
extraía um filho morto e o olhava,
antes de dá-lo ao mar que o acolhia.
 
 
 
rui diniz
noemas
noemas
língua morta
2022





04 julho 2026

agustina bessa-luís / férias

  
 
As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – h~? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.
 
 
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008




03 julho 2026

vitorino nemésio / navio

  
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves,
Partindo, tão gordas vão!
 
Como eu goto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar.
– Olha um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.
 
 
vitorino nemésio
nem toda a noite a vida
antologia poética
asa
2002













02 julho 2026

paul celan / fala também tu

  
Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.
 
Fala –
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.
 
Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanto exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.
 
Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! –
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.
 
Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia no ar.
Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se cintilar: na ondulação
das palavras errantes.
 
 
 
paul celan
sete rosas mais tarde
antologia poética
trad. joão barrento e y. k. centeno
relógio d´água
2023





01 julho 2026

zbigniew herbert / o nosso medo

  
 
o nosso medo
não usa camisa de dormir
não tem olhos de coruja
não levanta a tampa
não apaga a vela
 
também não tem o rosto de um cadáver
 
o nosso medo
é um pedaço de papel
encontrado no bolso
«avisar o Wójcik
esconderijo da Rua Dhuga incendiado»
 
o nosso medo
não voa nas asas da ventania
não se senta na torre da igreja
é terra-a-terra
 
tem a forma
de uma trouxa feita à pressa
com agasalhos
provisões secas
e uma arma
 
o nosso medo
não tem o rosto de um cadáver
os mortos são gentis para connosco
levamo-los às costas
 
dormimos debaixo da mesma manta
fechamos-lhes os olhos
retocamos-lhes os lábios
escolhemos lugares secos
para os enterrar
 
não demasiado fundo
nem demasiado à superfície
 
 
 
zbigniew herbert 
estudo do objecto (1961)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




30 junho 2026

franz kafka / diários

  
1911, 19 de janeiro
 
 
Como pareço estar completamente arrumado – durante o ano passado não estive acordado mais do que cinco minutos – terei de desejar todos os dias ver-me fora do mundo, ou,  sem no entanto ser capaz de encontrar a mais leve esperança nisso, terei de começar tudo do princípio como uma criança. Ser-me-á, extraordinariamente mais fácil do que então. Porque nesses dias eu ainda lutava com um pressentimento débil e por um estilo que de palavra a palavra estivesse ligado à minha vida, que eu deveria apertar ao peito e que me transportaria para fora de mim próprio. Com que dor (claro, não se pode comparar com a presente dor) eu comecei! Que golpes me perseguiam todo o dia vindos do que eu tinha escrito! Como era grande o perigo e como operava ininterruptamente, de tal modo que eu não sentia o gelo, o que no fundo não minorava em muito a minha infelicidade.
 
Um dia imaginei um romance em que dois irmão lutavam um contra o outro, tendo um deles ido para a América e o outro ficado numa prisão da Europa. Comecei só de vez em quando a escrever umas linhas, porque logo me cansava. Por isso escrevi uma vez sobre a minha prisão numa tarde de domingo, quando estávamos de visita aos meus avós e tínhamos comido um pão especialmente mole, barrado de manteiga, que costumava haver lá. É bem possível que tenha feito aquilo em grande parte por vaidade, e, ao mexer com o papel na toalha, ao bater com o lápis na mesa, ao olhar em volta por sob o candeeiro, queria tentar alguém a tirar-me o que tinha escrito, a olhar para aquilo e a admirar-me. Era principalmente o corredor da prisão que aquelas linhas descreviam, acima de tudo o silêncio e o frio; também havia uma palavra de simpatia para com o irmão que por cá ficou, porque era o bom irmão. Talvez tivesse sentido momentaneamente que a minha descrição não tinha qualquer valor, só que antes daquela tarde eu prestava muita atenção a tais sentimentos quando estava entre família a quem estava habituado (a minha timidez era tal que a habituação me fazia sentir já meio feliz), sentado à mesa redonda numa sala conhecida, e não podia esquecer que era jovem e destinado a grandes coisas a partir desta minha tranquilidade presente. Um tio que gostava de fazer troça das pessoas acabou por tirar a folha que eu segurava mal, olhou para ela de relance, voltou a dar-ma, até mesmo sem se rir, e só disse para os outros que o estavam a seguir com os olhos: «O costume»; não me disse nada a mim. Continuei sentado, debruçado como antes sobre a minha folha agora sem uso, mas de facto tinha sido expulso do convívio com um empurrão, a apreciação do meu tio repetia-se em mim com um significado já quase real, e eu tive, mesmo sentindo que pertencia a uma família, o vislumbre do lugar gelado do nosso mundo, que teria de aquecer com um fogo que eu queria primeiro procurar.
 
 
 
franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986





 

29 junho 2026

wallace stevens / paráfrase lunar

  
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
Quando, no mais fastidioso fim de Novembro,
A sua velha luz se alonga pelos ramos,
Frágil, lentamente, dependendo deles;
Quando o corpo de Jesus queda num palor,
Humanamente próximo, e a figura de Maria,
Tocada pelo orvalho, se recolhe num abrigo
Feito de folhas, que apodreceram caíram;
Quando sobre as casas, uma ilusão dourada
Traz de volta uma época primitiva de paz
E sonhos pacificadores às pantufas no escuro –
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
 
 
wallace stevens
harmónio
trad. jorge fazenda Lourenço
relógio d´água
2006
 



28 junho 2026

sophia de mello breyner andresen / há muito

  
 
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vazia
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
dual
caminho
2004
 





27 junho 2026

inês lourenço / gravura

  
 
Era o quarto da Mãe
com uma cama escura, uma gravura
da gruta de Lourdes, uma colcha
verde, uma Singer
de cabeça escondida, panos
de crochet com fotos de parentes perdidos,
o roupeiro ainda com as toucas de baptismo
e o grande gavetão com as mantilhas de ir à missa
e uma bisnaga de perfume vazia.
 
 
 
inês lourenço
o segundo olhar
companhia das ilhas
2015
 



26 junho 2026

antónio reis / poemas quotidianos

  
16
 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos
 
 
 
antónio reis
poemas quotidianos
tinta da china
2017
 



25 junho 2026

josé miguel silva / lamento de calipso

  
 
Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
 
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
 
A distância dos teus olhos, não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
 
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
 
regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor das tardes,
 
quando ainda não sabia
da dureza do cimento
nem dos modos de quebrar e ser quebrado.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




24 junho 2026

eugénio de andrade / passeio alegre

  
 
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis – assim nuas.
 
 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 




23 junho 2026

vasco graça moura / romance do passeio alegre

  
 
as résteas do sol morrendo
por sobre os renques de espuma
 
nos mirantes da foz velha
e no granito das ruas
 
nas árvores recortadas
a negro em finas nervuras
 
alinhando no silêncio
suas rendas pontiagudas
 
na volta das lavadeiras
cantando uma leve música
 
e no cabelo ardendo
com sua areia insegura
 
no vento feito de nada
no coração que sussurra
 
quando as crianças regressam
da escola duas a duas
 
e há-de no passeio alegre
perpassar coisa nenhuma
 
e os teus olhos recolhendo
grãos doirados de penumbra
 
que hão-de misturar à noite
com a água azul da lua
 
enquanto pousam gaivotas
sobre as barcaças escuras
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 




22 junho 2026

ruy belo / a autêntica estação

  
 
É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação
 
 
 
ruy belo
todos os poemas I
verão
assírio & alvim
2004





21 junho 2026

luís miguel nava / atrás da página

  
 
As mãos no poema, pelas páginas
acima escoam-se os espelhos, a trovoada
vermelha emerge das imagens. A trovoada
redonda. Uma revoada
de espelhos é a alba, há poços nos espelhos
onde a nudez
se precipita, a luz mordendo a água.
 
Do poema vêem-se as trovoadas
imóveis
atrás da página, as imagens,
da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros
a afluírem-lhe aos cabelos. Vêem-se
à tona da trovoada os lenços
caindo na manhã, com as veias do rapaz
as desta a confundirem-se, depois
os poços da nudez abertos pelos astros.
 
Esse rapaz as suas próprias veias
o amarram à manhã.
Não me olhar ele ateia-me. Pequenos
incêndios, os da abóbada
do poema, arrancam-lhe a nudez.
Está alguém ao poema como a um espelho.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 




20 junho 2026

nuno júdice / poema

  
 
Com o vento do norte,
as cigarras não cantam.
 
De noite, é como se nos falassem
de dentro dos arbustos:
 
vozes que o dia rejeita,
frases vestidas de terra.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997
 



19 junho 2026

yves bonnefoy / a árvore, a lâmpada

 



 

 

A árvore envelhece na árvore, é o verão.
A ave supera o canto da ave e evade-se.
O vermelho do vestido ilumina e dispersa
Longe, no céu, a carroça da dor antiga.
 
Oh frágil país,
Como a chama de uma lâmpada que se transporta,
Estando próximo o sono na seiva do mundo,
Simples o batimento da alma partilhada.
 
Também tu amas o instante em que a luz das lâmpadas
Se descora e sonha durante o dia.
Tu sabes que é a obscuridade do teu coração que cura.
A barca que alcança a margem e cai.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
pedra escrita (1965)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026
 


18 junho 2026

rené char / a ordem legítima é por vezes desumana

  
 
Àqueles que partilham as suas lembranças,
Repreende-os a solidão, imediatamente impondo o silêncio.
A erva que os acaricia brota com a sua fidelidade.
 
Que dizias? Falavas-me de um amor tão distante
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas empregues pela memória!
 
 
 
rené char
furor e mistério
os leais adversários
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




17 junho 2026

maria gabriela llansol / LXXIV. de que falava?

  
 
Carta:
«lendo, não se sabe de que se fala. Mas, demorando a ler, verifica que se lê. E o que não se aprende directamente, sente-se no fulgor que emana do sentido do sentimento.
          Sensualmente, a inteligência vai buscar o seu referente. O fulgor oscilante da leitura
que é o verso e reverso deste enigma sem nenhum mistério contundente».
 
 
 
maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & alvim
2006



 

16 junho 2026

vergílio ferreira / a hora do fim

  
 
249 – A hora do fim. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Intriga-me, não me aflige muito. É o meu modo de subir um pouco acima do vulgar, de mim, para quem dói muito e intriga pouco. Coisas, lugares, mesmo afectos, a partir de certa idade não pertencem ao real mas à memória, onde o seu destino é já o de cada um. Há todavia um desespero manso em nós que é o de não termos realizado não bem o que se diz ser-nos o «sonho», porque ter um «sonho» é já saber o que é, mas o que trouxesse a paz de termos esgotado todo o possível o que em nós quer responder a uma voz incerta que nos fala e não conseguimos ouvir, que fala mas não sabemos de quê. Tenho em mim mais possibilidades do que todas as realizações que realizasse. Mas o mais insuportável é que essas realizações deixem as possibilidades absolutamente intactas. Como o fígado de Prometeu, reconstituem-se logo que se efectivam numa realização. Como o ventre de uma mulher que fica inteiro para outro filho. Uma realização existe em si e portanto não existe na possibilidade que se é. E é o que levaremos para a morte, essa falha enorme do nosso impossível. E é o que mais dói aos avisos do fim – esta absoluta nulidade do que fiz e a alucinação de fazer, antes que a hora chegue.



vergílio ferreira
pensar
bertrand editora
2004




15 junho 2026

samuel beckett / desistir, mas eu já desisti de tudo

 


 

X
 
Desistir, mas eu já desisti de tudo, não é coisa recente, eu não sou recente. Portanto, houve uma vez alguma coisa. Vamos acreditar que sim, mas saber que não, nunca houve nada, a não ser a desistência. Já que se falou em desistir fala-se em desistência, sem pensar. Mas admitamos que não, ou seja admitamos que sim, que houve uma vez alguma coisa, numa cabeça, num coração, entre duas mãos, antes de tudo ser aberto, esvaziado, voltado a fechar, petrificado. E ficamos sossegados, depois de termos tido medo, e preparados para continuar, mais uma vez. Mas isso não é silêncio. Não, é algo que fala, alguém está a falar num sítio qualquer. Para não dizer nada, de acordo, mas será o suficiente para ter algum sentido? Já sei o que é, a cabeça está atrasada, em relação ao resto, e o seu ânus é a sua boca, ou então continua sozinha, continua sozinha a seguir as suas velhas pisadas, cagando a mesma merda velha e voltando a engoli-la, de novo presa nos beiços, como no tempo em que se julgava um naco de comida. Só que já não há prazer, nem apetite. E cá está, cá volta a estar, sem embustes, no meu activo o velho passado, nunca igual, mas terminado para sempre, para sempre prestes a terminar, e tudo o que ele comporta, de promessas para o amanhã, e de consolo no imediato. E estou de novo em boas mãos, as mãos amparam-me a cabeça, por detrás, pormenor curioso, como no barbeiro, e com os indicadores fecham-me os olhos, e com os médios as narinas, e com os polegares os ouvidos, mas pouco, para eu ouvir, mas pouco, e com os outros quatro mexem-me nos maxilares e na língua, para eu sufocar, mas pouco, e dizer, para meu bem, o que tenho de dizer, para meu bem futuro, ária conhecida, e nomeadamente neste momento que é apenas um mau momento a passar, um momento de trégua, que sem os maxilares e a língua poderia ser-me fatal, e que um dia saberei outra vez que fui, e mais ou menos quem, e como continuar, e falar sozinho, delicadamente, de mim, e dos meus pálidos semelhantes.
 
(…)
 
 
 
samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006



14 junho 2026

bernardo soares / à minha incapacidade de viver chamariam génio,

 

À minha incapacidade de viver chamariam [?] génio, à minha cobardia [...] requinte.

Pus-me a mim — Deus dourado com ouro falso —, num altar de papelão pintado para parecer mármore.
(...)
s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982





13 junho 2026

álvaro de campos / ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!

 
 
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
 
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
 
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993 




12 junho 2026

cesário verde / manhãs brumosas

  
 
Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época e banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
 
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
 
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
 
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024





 

11 junho 2026

miguel serras pereira / antes do dia

  
 
Ausência natal de toda a terra
que outro abismo ou altura poderia
entretecer-me disperso em águas vivas
no dédalo do delta dos teus dedos
 
ou recolher-me ao longe e dar-me leito
à sombra da árvore côncava mais esguia
que alta silhueta ardente nos perfila
linha a linha de fuga outro começo?
 
Uma palavra só enfrenta a morte
na distância que um pássaro atravessa
dos frémitos do esplendor e da agonia
 
para me deixar contigo ao fim do voo
no silêncio das águas inquietas
onde o mundo flutua antes do dia.
 
 
 
miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993
 



10 junho 2026

luís vaz de camões / quando a suprema dor muito me aperta

  
 
Quando a suprema dor muito me aperta,
se digo que desejo esquecimento,
é força que se faz ao pensamento,
de que a vontade livre desconcerta.
 
Assi, de erro tão grave me desperta
a luz do bem regido entendimento,
que mostra ser engano ou fingimento,
dizer que em tal descanso mais se acerta.
 
Porque essa própria imagem, que na mente
me representa o bem de que careço,
faz-mo de um certo modo ser presente.
 
Ditosa é, logo, a pena que padeço,
pois que da causa dela em mi se sente
um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.
 
 
 
luís de camões
poesia lírica
ulisseia
1988
 



09 junho 2026

gil t sousa / era o tempo

  
 
era o tempo
que a um do outro nos roubava
levando-te
e a mim
até à última solidão
 
aquela ainda não conhecida
por ti e por mim
ainda não sofrida
 
era o tempo
que nos reuniu
que nos enlaçou
pelo sangue e pela ternura
 
era o tempo
que agora nos deixava
a ti na última margem
a mim na traição
do último rio
 
7/5/2026
 
 
 
gil t. sousa
 
 
 

08 junho 2026

manuel antónio pina / saudade da prosa

  
 
Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
 
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou que sabia.
 
E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava
 
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,
 
o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.
 
Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
a minha alheia melancolia?
 
 
 
manuel antónio pina
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



07 junho 2026

gomes leal / o visionário ou som e cor

  
I
 
Eu sou um visionário, um sábio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer quimeras,
Enquanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus, em cima, faz as verdes Primaveras.
 
Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem de outras eras,
Talvez por um contrato irónico lavrado
Que fiz já e não sei noutras subtis esferas.
 
A espada da Teoria, o austero Pensamento,
Não mataram em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os cânticos do dia…
 
E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a música das cores,
– E nas tintas da flor achei a Melodia.
 
 
 
gomes leal
edoi lelia doura
antologia das vozes comunicantes
da poesia moderna portuguesa
organizada por herberto helder
assírio & alvim
1985


06 junho 2026

irene lisboa / outro dia

  
 
Vou de umas casas
para as outras
à procura de fresco.
Por toda a parte sinto
o ar denso,
impregnado da calma da noite.
í Mas não posso abrir as janelas!
Os pedreiros já chegaram,
a mulher da fava-rica
passa esganiçada,
faz um vento doido…
As palmeiras
de umas casas apalaçadas,
de aqui perto,
abanam-se com gestos largos,
desorientados…
O melro, o divino, canta,
creio que para mim.
 
Esta noite acordei
com os rumores do vento,
se me não engano,
e, durante horas,
estive pensando, como quem escreve,
neste breve estilo…
 
 
 
irene lisboa
um dia e outro dia…
e outono havias de vir
poesia I
obras de irene lisboa  I
editorial presença
1991





 

05 junho 2026

antónio franco alexandre / (domínio público)

  
 
Amo todos os teus. Pouco me importam
o corpo em que dormitam,
a língua dos seus sonhos desabridos.
Mas a quem minto agora? o menor gesto
abre na terra abrigo; uma palavra
vale todo um cinema, é bem sabido.
 
Tantas canções e versos pelo mundo fora
e só um, em querendo, será teu.
Querendo tu e ele, como corpos que
na secura dos corpos se saciam
terá o mundo alheio uma outra face
e outro novo passado nos será futuro.
 
Ah também tu és vaidoso, meu querido.
Também tu queres vestir-te
de rimas e kalamanknes leibserdak
e ver o manto rasgado
numa cave transcendente.
De terra em terra foste deixando as asas.
Não mintas mais: só conheceste imagens.
 
 
 
antónio franco alexandre
poemas
carrocel
assírio & alvim
2021
 



04 junho 2026

armando silva carvalho / le beau séjour

  
 
Também este não dorme de noite
mas parece dormir dentro dos meus olhos.
Entre nós não há nada a ser o corpo
de uma cerveja turva de sangue.
 
Estamos tão perto desse Beau Séjour
onde tudo se passa em panorama turístico
cenário de marquesas de azulejo
ou de sedutores com o pé no estribo.
 
São coisas velhas. E o novo aqui é o Brasil
do Ronaldo e a minha elegante camisa
azul-turquesa que soube delicadamente
enxugar uma lágrima de espuma.
 
Não sei com que respeito ele me faz cúmplice
do seu tédio e eu a ele do meu riso
de tradutor traído.
Eu sei. Claro que sei. Também vi esse filme.
 
Sai uma dose de mãozinhas de vitela
para as mãos deste príncipe
que me deixa passar por entre cortesãs
que não vê nem ouve e lhe pedem tremoços.
 
A cidade por dentro é um novelo de medos
e alguma ternura de papel pintado.
Não há como sermos grandes na cozinha
dizem as facas limpas já na sobremesa.
 
E o meu senhor dos escalopes traz-me a melancolia
na bandeja de chapa negra da memória,
talvez quisesse dar-ma na da avó de prata
que não saiu das berças para entrar na história.
 
 
 
armando silva carvalho
lisboas roteiro sentimental (2000)
o que foi passado a limpo, obra poética
assírio & alvim
2007
 




03 junho 2026

herberto helder / de tal maneira no tempo

 


 

 
de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira
sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer –
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca –
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda –
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro –
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras –
mas que procuram eles? nomes?
apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou
a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, os olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbedo ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ele a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um
                                                                     só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas
 
 
 
herberto helder
poemas canhotos
porto editora
2015



02 junho 2026

antónio osório / na pele

  
 
Sou o teu guia,
tu o meu.
 
Por grutas, astúcias,
viagens ancestrais.
 
Nada de quem amou ignoras.
Sabes
e eu seu dar-te
na pele
o prazer do sol.
 
 
antónio osório
casa das sementes, poesia escolhida
a teia dupla
assírio & alvim
2006
 


01 junho 2026

henri michaux / a minha vida

  
 
Partes sem mim, minha vida.
Giras.
E eu ainda à espera de dar um passo.
Levas a guerra para outra parte.
Abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
 
Não percebo bem as tuas ofertas.
O poucochinho que eu quero, tu nunca me trazes.
Por causa disso que me falta, aspiro a tanto.
A tantas coisas, quase ao infinito…
Por causa desse pouco que falta, que tu nunca trazes.
 
1932
 
 
 
henri michaux
a noite revolta (1935)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999
 




31 maio 2026

daniel faria / outra explicação do homem

  
 
Sem sede nem repouso
Perdido no andar nos lembra
A amplitude
 
De pés juntos desce à água
E nem o gume da corrente poderá
Desatar-lhe os tornozelos
 
E ao descer nos lembra
O torvelinho
 
 
 
daniel faria
poesia
últimas explicações
quasi
2003




 

30 maio 2026

claudio rodríguez / ouve

  
 
Ouve: em qualquer corrente, em qualquer onda,
algo me impele para ti, pois sabe
que tu me ressuscitas, como a ave
ressuscita o ramo em que se imola.
 
E tu já nunca estás sozinha, olha,
que embora longe todo eu te abrace,
encosta o ouvido, deixa que to lave
como um búzio o meu coração: toda
 
a minha terra hás-de ouvir, não a maresia,
terra feita do espaço mais aberto.
E a sua voz, a minha, que eu quisera
 
meter-te alma adentro noite e dia,
clara como o teu nome, a descoberto
como este mar de amor meu que te espera.
 
[1953]
 
 
 
claudio rodríguez
sem epitáfio
trad.miguel filipe mochila
língua morta
2019
 




29 maio 2026

roberto juarroz / há que cair e não se pode escolher onde

  
 
Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas há uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar enquanto caímos.
 
É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.
 
Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
Num texto que não podemos corrigir.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018




28 maio 2026

roger wolfe / à espera

  
 
Observo o trânsito
que passa
no bar em que espero
não recordo quem.
Duas mulheres
tagarelam
à beirinha do passeio.
Não seria mau
que acontecesse de uma vez alguma coisa.
Que se pusessem a atravessar a rua,
por exemplo,
e um camião as convertesse em carne picada.
Travessuras da mente.
Digo eu.
É melhor deixar o trânsito
sossegado. Pedir outro café.
 
 
 
roger wolfe
fazer o trabalho sujo
tradução de luís pedroso
língua morta
2020
 




27 maio 2026

adam zagajewski / lá onde a respiração

  
 
Está só em cena
e não tem nenhum instrumento.
 
Coloca as mãos sobre o peito,
lá, onde nasce a respiração
e onde se extingue.
 
Não são as mãos a cantarem
nem o peito.
 
Canta o que está calado.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017




26 maio 2026

adonis / espelho do carrasco

  
 
– Dizes tu que és poeta?
 
De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce.
 
Carrasco, ouves-me?
Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo
 
A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo
 
Disseste que és poeta?
 
 
 
adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016
 




25 maio 2026

ángél gonzález / outras vezes

  
 
Queria estar noutro sítio,
melhor, noutra pele,
e averiguar se dali a vida,
pelas janelas de outros olhos,
se vê assim grotesca em certas tardes.
 
Gostava muito de conhecer
o efeito abrasivo do tempo noutras vísceras,
confirmar se o passado
impregna os tecidos com o mesmo sumo amargo,
se todas as lembranças em todas as memórias
libertam este cheiro
a fruta murcha e a jasmim podre.
 
Desejaria fitar-me
com as duras pupilas de quem mais me odeia,
para que assim o desprezo
destruísse os despojos
de tudo o que o esquecimento não há-de enterrar.
 
 
ángél gonzález
para que eu me chame ángel gonzález
uma antologia
selecção e tradução de miguel filipe mochila
língua morta
2018





 

24 maio 2026

anna akhmatova / no quadragésimo ano

  
 
3.
 
SOMBRA
 

                                                   Que sabe certa mulher
                                                           Sobre a hora da morte?
 
                                                                     O. Mandelshtam


 
Sempre mais elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura – tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me, mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti – bela de 1913 –
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar… Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
 
9 de Agosto de 1940. De noite.
 
 
 
anna akhmatova
poemas
trad. joaquim manuel magalhães e
vadim dmitriev
relógio d´água
2003






 

23 maio 2026

e e cummings / xix poemas

  
 
[xv]
 
quando as serpentes regatearem o direito a colear
e o sol fizer greve para ganhar o salário mínimo –
quando os espinhos olharem as suas rosas alarmados
e os arco-íris estiverem seguros contra a velhice
 
quando um tordo não puder cantar nenhuma lua nova
se todas as corujas não tiverem aprovado a sua voz
– e qualquer onda assinar sobre a linha ponteada
Senão um oceano é obrigado a fechar
 
quando o carvalho pedir licença à bétula
para criar uma bolota – os vales acusarem as suas
montanhas de terem altitude – e março
denunciar abril por sabotagem
 
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal(e não antes)
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998



 

22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026
 



21 maio 2026

denise levertov / uma nova flor

  
 
Quase todas as vivas pétalas do girassol
tinham caído, então arranquei as poucas
que faltavam e encontrei-me
com uma nova flor: o centro,
redonda almofada escura
da cor de café torrado, tocada de inúmeras
ínfimas florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e brilhante amarelo,
e à volta um verde anel, as pétalas
por sob as pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a forma de chamas sagradas
as folhas de figueira dos pagodes,
forma lúdica, jubilante
(subestimada em padrões Paisley)
e a luz vindo por entre elas, de modo que
quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo
de anjos da Renascença, se sobrepunham,
havia sombra, um tom mais denso
do mesmo verde de rebentos – uma nova flor
neste dia de outono, revelada
no outono da sua própria floração.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021


20 maio 2026

fiama hasse pais brandão / campo de refugiados

  
 
A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?
 
 
 
fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002




19 maio 2026

josé miguel silva / conclusão

  
 
E eu que já fui a infância benigna,
o pão com geleia, a cara lavada,
o jovem galante de ganga feliz,
semi-penteado, tonto de Maio,
 
perdi-me em desvãos que não quero lembrar,
por uma doença chamada senão
e tudo cedi, raízes e ramos,
como se a nada pudesse falar.
 
Passaram os anos mas não a tristeza,
passaram os golpes, não o cuidado.
Praias de brita, rios de breu.
Por pouco não tive que me chatear.
 
Cheguei até aqui com a falta de dentes,
ombros de sal, futuro fanado,
e mesmo se isto parece um lamento,
de nada me queixo – sobrevivi.
 
Amigos alguns, mortos também,
versos de vidro ferindo-me os pés,
os olhos amados, a sorte no corpo.
O resto é ruído, inferno de sobra.
 
Com quatro cadeiras e um lenço na mão,
já faço um batel para as ondas levarem.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014





18 maio 2026

diogo vaz pinto / do trono espinhoso destas horas


 

Do trono espinhoso destas horas
elevei o meu silêncio até dele
se ouvirem campos de trigo
num rés-do-chão em Campolide,
o vento ferido cortando caminho,
um zumbido que houvesse virado navios
e o mar depois calmo exibindo
cicatrizes antigas. As mãos no tanque,
o queixo na pedra e um suspiro
conduzindo as folhas, como cadáveres
flutuando de sorriso na cara.
 
A noite treme nos seus sonâmbulos afazeres,
persegue sombras de estrelas há muito sumidas,
abrindo os contornos de quem somos
no limite da nossa obscuridade.
 
Tudo contido, tudo transborda.
Beberei das próprias palavras,
dolorosamente cercado,
um universo à parte, outras vistas.
No mais, passar ao largo,
perdido numa cadeira de balanço
com as mãos cerradas no colo,
contando os dias,
até que olhar seja desmoronar-se.
 
 
 
diogo vaz pinto
aurora para os cegos da noite
maldoror
2020