06 maio 2026

egito gonçalves / o sistema interrogativo

  
 
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
 
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
 
 
 
egito gonçalves
o fósforo na palha (1970)
antologia da novíssima poesia portuguesa
m. alberta menéres e e. m. melo e castro
livraria moraes editora
1971
 



05 maio 2026

vasco graça moura / sequência da baleia

  
 
I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 


04 maio 2026

luiza neto jorge / as sofridas amoras

  
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
 
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.
 
 
 
luiza  neto jorge
fragmentos
poesia
assírio & alvim
1993




 

03 maio 2026

luís miguel nava / através da nudez

  
 
Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.
 
Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



02 maio 2026

billy collins / desenho

  
 
Pinceladas de tinta em papel de arroz –
uma ponte de madeira
arqueada sobre um rio,
 
montanhas ao longe
e em primeiro plano
uma árvore sacudida pelo vento.
 
Rodo o livro na mesa
para que a árvore
fique inclinada para a tua aldeia.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023




01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



30 abril 2026

jack gilbert / o vale abandonado

  
 
Sabes o que é estar sozinho por tanto tempo
que sais a meio da noite
e enfias o balde no poço
só para sentires algo lá em baixo
a puxar a outra ponta da corda?
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




29 abril 2026

paul éluard / enterrar y callar

  
 
Irmãos esta aurora é vossa
Esta aurora à flor da terra
É a vossa derradeira aurora
Deitastes-vos nela
Irmãos esta aurora é nossa
Sobre este abismo de dor
 
E de cor e de cólera
Irmãos convosco contamos
Nós queremos eternizar
Essa aurora que partilha
A vossa sepultura preta e branca
A esperança e a desesperança
 
O ódio saindo da terra
E combatendo pelo amor
O ódio na poeira
Tendo satisfeito o amor
O amor brilhando em pleno dia
Sempre vive a esperança em terra.
 
 
 
paul éluard
a cama a mesa
tradução de luís lima
barco bêbado
2021




28 abril 2026

heiner müller / vaso coronário

  
 
O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes
 
 
 
heiner müller
poemas (1949-1995)
trad. adolfo luxúria canibal
oficina noctua
2021




 

27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




26 abril 2026

miguel-manso / campéstico, paisagens e interiores

  
40
 
escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais
 
não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer
 
corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer
 
 
miguel-manso
persianas
tinta da china
2015
 



25 abril 2026

jorge de sena / «quem a tem…»



 

 
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
 
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
 
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade
 
 
 
jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







 

24 abril 2026

josé carlos ary dos santos / retrato do herói

  
 
Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar     de morte certa.
 
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome     fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica aberta.
 
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo     nem mártir     nem soldado
Mas apenas     por último     indefeso.
 
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro     e fica ileso
pois lutando apagado     morre aceso.
 
 
 
ary dos santos
fotos-grafias (1970)
ary, obra poética
edições avante!
2017





 

23 abril 2026

mário-henrique leiria / última solidão

  
  
 
distante
mais distante
que a nuvem mais remota
está agora
a tua voz amor
a tua voz que um dia
um dia que já esqueceste
me falou de nós
me disse que seríamos
só um
que seríamos para sempre
como o dia e o sol
agora amor
exactamente neste momento
perdido na noite solitária
oiço apenas o eco
do que disseste
recordando a luz perdida
dos teus olhos
enquanto meus lábios
sangram
amargos
ouve amor
ouve em silêncio
este último grito
que
como um sonho perdido
vai desaparecendo ao longe
pela noite
pela solidão
ouve-o amor
ouve-o em silêncio
nunca o esqueças
com ele vão os meus olhos
com ele vai a recordação
das minhas mãos
que uma vez
foram tuas
ouve-o amor
ouve-o em silêncio…
 
 
 
mário-henrique leiria
obras completas
poesia
e-primatur
2018
 



22 abril 2026

konstantinos kaváfis / o deus abandona antónio

  
 
Se, abruptamente, à meia-noite ouvires
um tíaso invisível a passar,
com músicas divinas e algazarra –
a tua fraca sorte, as tuas obras
frustradas, os teus planos que afinal
eram miragens, não os lamentes em vão.
Como se há muito pronto, como um bravo,
despede-te da Alexandria que te foge.
E, sobretudo, não te enganes, e não digas
que te mente o ouvido; não consintas
albergar essas ocas esperanças.
Como se há muito pronto, como um bravo,
como cabe a quem merece tal cidade,
vai, chega-te à janela resoluto
e ouve com emoção, mas não com
os prantos e protestos cobardes,
num último deleite, os sons lá fora,
a divina toada do cortejo oculto e
diz adeus à Alexandria que vais perder.
 
1911
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017




21 abril 2026

juan luis panero / mensagem de cleópatra a antónio

  
 
            II
 
Não teças louvores à minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelas costas,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, o teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai com coragem – Kavafis já o escreveu –
nesse poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003
 

20 abril 2026

juan luis panero / mensagem de antónio a cleópatra

  
 
            I
 
Outros teçam louvores
à tua adormecida beleza,
à suavidade da tua pele em repouso,
à medida perfeição dos teus membros.
Eu não vim a isso,
vim apenas para te penetrar
pelo peito e pelas costas,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se afunda e se perde
no poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003




19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

18 abril 2026

maria do rosário pedreira / bárbaros

  
 
Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem mais cedo.
 
Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam
ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram
mais longe do céu.
 
Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.
 
De manhã, a planície estava ainda mais plana.
 
 
 
maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002
 

17 abril 2026

maria alberta menéres / canção antecipada

  

Talvez não saiba esperar.
Talvez impacientemente
eu force as horas e os dias,
as horas e os leves anos
para um mar de lentidão.
Talvez na certa intenção
de os afogar de repente
e ficar livre boiando,
talvez ainda esperando
o que não saiba esperar.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 

16 abril 2026

maria teresa horta / encontro

  
 
silenciosamente diremos
amanhã
 
nas cidades os jardins
são abertos
ao céu
 
na noite
os joelhos do oceano
perturbam as árvores
 
caminhar é palavra
de existir
durante a madrugada
 
gritaremos de sol
com as mãos
e com os ombros
 
país onde
os homens são raros
com silêncios grandes
 
é a pausa dos objectos
é o nosso encontro
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
cidadelas submersas
dom quixote
2009
 





15 abril 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
 
192
 
«De onde vêm todas as nossas vidas?», é a pergunta
De quem escreve. Nesse «nossas» tanto pode esconder-se
Uma pergunta inquietante como jorrar uma fonte de
Prazer inaudito como alguém que senta ao colo o seu
Exterior. O verso ao bater no reverso pode realizar
Uma simples fotogramassíntese irreversível. É, assim,
Mário. Nada de meios complicados.
E para lhe fazer compreender como o encadeado dos elos
É mais forte do que o encadeamento das acções, dou-lhe
O exemplo da rapariga que temia a impostura da língua ______________
Anda em Campo de Ourique a passear na mira de comprar
Uma saia para levar ao mar. passa, por acaso, diante de
Uma loja. Na montra, vê cadernos de folhas soltas, mais
Baratos e, sobretudo, mais aptos para a escrita que
Procura. Entra e compra-o.
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 

14 abril 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
310
 
É Primavera. No jardim do palácio pairam nuvens de sementes aladas. Enchem o ar, batem-nos no rosto, infiltram-se na casa. São belas, quase brancas, estas aéreas naves persistentes. Rolam pelo chão em pequenos novelos ocos e levíssimos. Caindo no lago em massa são mantos de espuma que o vento arruma. Olho calada toda esta vida prometida que se afoga.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006
 


13 abril 2026

pertti nieminen / nestes tempos

  
 
Nestes tempos
nestes tempos de consenso
que ensinam ao pobre
                a amar o rico
                ao dirigido a amar o dirigente
                ao espancado a amar o espancador
                e a todos nós humildade,
                obediência e submissão
ante o poder e a força e a honra:
nestes tempos
faz falta um destruidor,
precisam-se de milhares, dezenas de milhar
de sérios e honrados
iconoclastas
 
Não amo o rico,
só amo os pobres.
Nós não obedecemos
ao poder nem à força nem à honra:
nem separados, nem tão pouco juntos,
nem sequer mutuamente.
 
Vaikka aammum on vicla aikka, 1989
 
 
 
pertti nieminen
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021
 




12 abril 2026

amalia bautista / as regras do jogo

  
 
Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
 
 
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021





11 abril 2026

álvaro de campos / a clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

  
 
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
 
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
 
29-1-1933
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 abril 2026

jorge luís borges / não és os outros

  
 
Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. e és cada solitário instante.
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a moeda de ferro (1976)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




09 abril 2026

francisco brines / apontamento de viagem

  
 
                                        (De automóvel)
 
 
     As janelas reflectem o fogo do poente
e flutua uma luz cínzea que chegou do mar.
Quer ficar dentro de mim o dia que agoniza
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
 
     E Quem há que me olhe e que possa salvar-me?
A luz tornou-se negra e apagou-se o mar.
 
 
francisco brines
a última costa
trad. josé bento
assírio & alvim
1997



 

08 abril 2026

josé gomes ferreira / cidade inexacta

  
 
XXIX
 
O segredo
está em não deixar o tempo devorar-me,
mas devorá-lo eu
com dentes de terra
e medo.
 
Mastigar tudo,
as sombras, as bocas,
as pedras,
o céu,
os ossos pendentes das caras
e as deusas a cavalo
– patas nas searas,
crinas de faúlhas ao vento…
 
Devorar o tempo sem relógios
que não deixa sinais
senão nos olhos
das palavras mortais.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia V
cidade inexacta (1959-1960)
portugália
1973




07 abril 2026

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
V
 
                O ouvido vê.
Depois que aprendeu a perspectiva não se engana na diferença
entre as distâncias, distingue
o longe do perto pelo som do guizo que a mão atou na perna.
E com a bruma do olhar vai cerzindo
os vários horizontes numa linha só
sobre a qual um dia o pano irá descer.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 


06 abril 2026

mário dionísio / o riso dissonante

  
40.
 
uma cancela entreaberta
a erva pisada em volta
um cão ladrando no escuro
alguma que se passa
 
alguma coisa se passa
enquanto as rosas e os cravos cheiram
ao pé da cancela um lenço
mas felizmente sem marca
 
 
mário dionísio
poesia completa
o riso dissonante (1950)
imprensa nacional-casa da moeda
2016





05 abril 2026

manuel antónio pina / os livros

  
 
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?
 
 
 
manuel antónio pina
ruínas
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



04 abril 2026

ruy belo / o poeta num eléctrico

  
 
De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar agora após haver falado
nesse farmácia onde comprei há pouco o antiasmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso do o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim
 
 
ruy belo
nau dos corvos
todos os poemas II
assírio & alvim
2004




03 abril 2026

fernando pinto do amaral / piazza governo

  
 
Alguém tão parecido contigo. Porquê
sentar-me ali à espera que brilhasses
por interposta imagem? Não se sabe
onde começa exactamente um corpo. A água
irrompia, branquíssima de espuma,
e era ela a hipnotizar-me,
irreal e real
como a própria cidade a que chamaram
«zona de guerra» - ainda hoje lá estão
os três castelos entre ruas, praças
e essa mesma fonte: uma foca de pedra
acesa pela noite, olhando o céu,
as ingratas estrelas de setembro.
 
 
 
fernando pinto do amaral
amor hereos
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000




02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




01 abril 2026

eloy sánchez rosillo / a casa vazia



 

 
     Abre a porta e acende a luz.
                                              É muito tarde
E sabe que ninguém o espera em sua casa.
                                                               Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
                              Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
                                     Depois, ouve
enfadado uma música.
                                 Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
                             Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
 
 
 
eloy sánchez rosillo
as coisas como foram
trad. josé bento
assírio & alvim
2004
 


 


31 março 2026

rui caeiro / mas principalmente

  
 
Mas principalmente não cobiçar nada, nem sequer a paz. E à falta de melhor, viver de inquietação. Que paz seria essa afinal, a deste ou daquele?
Porque em matéria de paz, só vale a que for de ninguém, a maior de todas. Sem uma única pomba a voar no céu. A doce paz dos grandes naufrágios.
 
 
 
rui caeiro
sobre a nossa morte bem muito obrigado
baba de caracol
maldoror
2019





30 março 2026

rui coias / a função do geógrafo




 
 
2.
 
Poderás afirmar,
passageiro há muito conhecido,
que o decorrer dos anos não te enganou?
Não reparaste nas zonas extintas por que
passámos, com suas estátuas sereníssimas,
e os casais fingindo-se dormitar ao sol?
Vê como já não falam e balançam os braços
como quando davam passeios nos parques,
decifrando a botânica,
regressando depois a casa demoradamente.
Será simples e calada assim a morte – e
que só é ordenado que afaguemos, após o labor,
os cabelos escorridos de nós mesmos
como a nossos pais?
E assim nos amemos nas
cidades desfeitas
arrependidos de não ouvirmos quem nos avisou?
 
 
 
rui coias
a função do geógrafo
quasi edições
2000
 
 
 
 

29 março 2026

rui knopfli / café de penumbra

  
 
Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.
 
Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.
 
Na mesa dos fundos, sob o claro
Quadrilátero da janela – e para nossa
edificação – um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.
 
 
 
rui knopfli
roteiro
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional -casa da moeda
1982
 



28 março 2026

rui lage / corvo

  
 
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
 
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada
inútil protesto
de utilíssimo nada.
 
 
 
rui lage
corvo
quasi
2008
 




27 março 2026

rui nunes / vésperas da guerra

  
 
a pena desenhou os cavaleiros e simulou
a paz do seu afastamento. Na mesa, o herbário
mostra a corriola; do claustro vem o movimento
da roldana, o som dos pingos de água
a caírem no poço. Esta é uma sede amável:
os lábios entreabrem-se ao sorriso e alguém diz:
a guerra escreve-se
escreve-se o nome de Deus
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



26 março 2026

jorge reis-sá / vou para casa, mãe

 



 
Vou para casa, mãe. As ramadas estão à espera
dos meus passos. Sei que me aguardas entre o tanque
e a roupa que entardece ao secar – o sol a expirar
 
 
e a dizer: vou para casa.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008



25 março 2026

joaquim pessoa / apenas caminhar

  
 
Morder este frio passar esta tarde
com os dentes cerrados corpo mudo.
Pisar um chão de cores arrumadas
entre o fácil calcário dos lancis.
 
Resvalar pelo tempo arremessado
contra a dura fronteira destes passos
e levar um outro livro sob o braço
repetindo até ao sangue outras palavras.
 
 
 
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982




24 março 2026

gonçalo m. tavares / a guerra

  

O zero entre os números, é de longe o mais estável;
no entanto, o mundo prossegue.
Como o fim de uma coisa, de um objecto
ou de uma guerra: os homens querem esquecer e
não têm projectos: limpam o sangue de cada fio de erva
como as empregadas domésticas dedicadas
fazem ao pó dos seus livros.
Mas ninguém é tão paciente ou corajoso que consiga
Limpar ao pormenor os mortos e os seus vestígios no espaço.
Ficam sempre coisas, mudas e ruidosas,
que testemunham um peso. Ali, a vida foi violenta demais
para a carregares: eis uma descrição possível
para o abandono da mulher que amas.
Como vês nem sempre a causa é a traição habitual: por vezes
os homens chegam tarde à esposa
porque morreram numa batalha. Se ligares a televisão
ainda vais a tempo de escutar
os comentários de um general que estudou em Londres
                    e é muito inteligente.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 

23 março 2026

antónio josé forte / este cérebro…

  
 
Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar
 
 
 
antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003




22 março 2026

nuno júdice / o lugar das coisas

 
 
 
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
 
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
 
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
 
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
 
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
 
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele e as possamos ver nos seus lugares.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 




21 março 2026

gastão cruz / o tempo anterior

  
 
Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na
 
água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci
 
mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço
 
 
gastão cruz
as pedras negras
os poemas (1960-2006)
assírio & alvim
2009





20 março 2026

pedro tamen / só me separa intenso do que foge

 
 
 
Só me separa intenso do que foge
pelo meio dos fumos e das micas
a bala que me apontes e se aloje
onde resido eu, e tu te ficas:
 
nesse lugar de goma almiscarada,
e mascarada (que não é possível
de modo outro ser-se), tu, a fada
de cor e pele e carne mais doível,
 
ergues a mão de lacre no que sou
e tocas essa vara, vime e lenho
no que passar, ou passe, ou já passou
 
– e assim é que me perco e que me ganho,
pois que por ti tudo o que tenho dou,
pois que de ti o que te dou retenho.
 
 
 
pedro tamen
os quarenta e dois sonetos (1973)
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




19 março 2026

manuel cintra / tinha filhos escondidos

 
 
 
Tinha filhos escondidos
Nos olhares plantados entre os filhos
Dos outros
 
 
E se nessa época o ar fosse fértil,
Caramba,
Muito o havia de emprenhar.
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981




18 março 2026

adília lopes / para escrever

 
 
 
1
 
Para escrever
é preciso
ter pouco
que fazer
 
(tirando
esta quadra
não consegui hoje
escrever mais nada)
 
 
2
 
Quando a vida
é madrasta
a arte
não basta
 
(entre pato e peru
este bicho
cruza-se comigo
no Campo Sant’ Ana
Eva não faria melhor
do que eu
ao mundo para quadro de Isabelino
nada lhe falta, Rosa Alice)
 
Para escrever
é preciso
dinheiro
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
versos verdes (1999)
assírio & alvim
2021




17 março 2026

albano martins / o mesmo nome

 
 
 
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
 
 
 
albano martins
por ti eu daria
o mesmo nome (1996)
glaciar
2021
 




16 março 2026

cristovam pavia / improviso aos poetas

 
 
 
Ó mastigadores do mundo:
Nas vossas veias de suba,
Nos vossos olhos se transmude,
Pelos vossos lábios se exprima…
Vós o desflorais tão dentro,
Com uma angústia tão profunda!:
Parece o corpo da amada
E é terra que se ilumina.
 
 
 
cristovam pavia
poesia
dom quixote
2010
 
 


15 março 2026

fernando namora / identificação

 
 
Não sei se conhecem
a lucidez de quando
a loucura se aproxima
e a sentimos no estalar
dos ossos.
Já não demora
o fatal amplexo,
ei-lo no sue gélido pacto
com o que dentro de nós
se despede
para ser sacrificado
ao alívio de o deixar.
 
 
 
fernando namora
nome para uma casa
livraria bertrand
1984
 




14 março 2026

antónio osório / catorze de março

 
 
 
Catorze de Março, dia de teus anos.
Nascentes cachos de uva, glicínia,
vestígios da olaia, multidões de ervas.
Mondo as primeiras sobre a sepultura
e custa fazer-lhes mal, tocar-te.
Em torno pinheiros e colinas levedam
a primavera. Entre canteiros correm
dois rapazes, sua avó varre a meseta
daquele corpo ao lado do teu.
Leio: piloto. Nunca o viste. Sem bússola.
Plâncton, ambos, no mar desconhecido.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
os cavalos de tróia
editorial presença
1982
 



13 março 2026

cesare pavese / paisagem II

 
 
 
Com o céu estrelado, a colina branqueja, de terra desnudada;
poder-se-iam ver os ladrões lá no alto. Na cova do vale
os bardos estão todos na sombra. Lá em cima também os há,
mas é terra de quem não precisa, aí não vão eles:
cá em baixo, na humidade, com a desculpa de andarem às trufas,
entram nas vinhas e roubam as uvas.
 
O meu velho deu com dois engaços caídos
entre as cepas e esta noite até ferve. A vinha já é pouca:
dia e noite na humidade, só nascem folhas.
Entre as cepas, vê-se sob o céu a terra desnudada
que de dia lhe rouba o sol. Lá em cima o sol queima
do nascer até se pôr e a terra está calcinada: vê-se mesmo de noite.
Lá não nascem folhas, a força vai toda para as uvas.
 
Apoiado a um bordão, na erva milhada, o meu velho
tem tremuras na mão: se os ladrões vêm esta noite,
salta do meio dos bardos e dá-lhes cabo do canastro.
A essa gente há que dar-lhes sem piedade, como animais,
que não hão-de ir contar. De vez em quando levanta a cabeça
cheirando o ar: parece-lhe que lhe chega, no escuro,
uma ponta de cheiro a terra, trufas arrancadas.
 
Nas encostas altas, que se estendem até ao céu,
não há sombra das árvores: os cachos arrastam-se pela terra,
tanto é o peso. Não se podem esconder:
distinguem-se lá no alto as manchas das árvores,
negras e escassas. Se tivesse a vinha lá em cima,
o meu velho esperá-los-ia de casa, na cama,
de espingarda apontada. Aqui no fundo nem sequer a espingarda
serve para alguma coisa: no escuro só há folhagem.
 
 
 
cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997
 



12 março 2026

josé emílio pacheco / aguarela

 
 
 
O ar sangra sobre a cidade,
leve pomba que o falcão trespassa.
 
Não é ainda noite e o céu
cerrado está como em tormenta. Répteis
abandonam as suas tocas
com o medo feroz às costas.
 
Mas não passarão.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



11 março 2026

leopoldo maría panero / saint malcolm parmi les oiseaux

 
 
 
 
                                                                    Ao álcool
 
 
 
Quem grita, vingativo, no palácio sem nome,
quem grita, quem me força a viver como seu
látego estalando todos os dias nas minhas costas,
quem senão esta
perpétua tentação para… a dor do nada,
desta morte que convida, esta
perpétua obsessão de sofrer por nada, pelo
que não tem valor, e pelo que não é
esta morte, e esta
doce dor para ninguém e para todos,
esta doce dor como um pecado.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019
 




10 março 2026

andrea cohen / aquilo que se

 
 
 
Aquilo que se
pode matar com
 
uma mão não
se pode – com
 
um milhar
de mãos –
 
reaver.
 
 
 
andrea cohen
serenamente sobre as lanternas
trad. francisco josé craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2024




09 março 2026

alejandra pizarnik / árbol de diana

 
 
               
6
 
ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o feroz destino
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
árbol de diana (1962)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 


08 março 2026

aleksander kushner / a história não nos ensina nada

  
 
A história não nos ensina nada,
Mas, como um historiador disse uma vez – e não
Há razões para não acreditarmos nele  - por não a
                                                     conhecermos,
A história castiga-nos.
Não ensina, castiga. Olhos
E mais olhos é do que precisamos, e de prestar atenção.
 
Mais que uma preceptora
Ela é uma professora primária. Tantos temas terríveis
Nos seus manuais, nas suas crónicas…
Mas nós, sabes, não somos assim tão grandes.
Somos, sim, teimosos, de acordo
Com as palavras iniciais da desgastada professora:
“Pensem, está bem. sentem-se. Não se mexam.
                                               Escrevam isto.”
No fundo da sala, sonhamos com notas satisfatórias.
 
 
 
aleksander kushner
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 


 

07 março 2026

macky corbalán / humanos

  
 
Leio-os como páginas escritas.
Atravesso os seus órgãos opacos, a sua pele,
o susceptível fio dos nervos.
É sempre o mesmo, em cada época:
rixas, acordos e desânimo. Mas há uma coisa
que eu não entendo: essa obscura,
repentina agitação
quando recordam.
 
 
 
macky corbalán
por alguma razão
antologia de poesia argentina
selecção e tradução de hugo miguel santos
contracapa
2024


06 março 2026

lawrence ferlinghetti / que podia ela dizer

  
 
7
 
Que podia ela dizer ao ursinho maravilha
e que podia ela dizer ao seu irmão
e que podia ela dizer
                              ao tipo com os pés virados para o futuro
que podia ela dizer à mamã
depois daquela vez que se deitou tão tesa
                                                             entre as flores de rebuçado
               naquela soalheira margem de um rio
                         onde pendiam fetos no ar recortado
                                   da respiração do amante
          e os pássaros enlouqueceram
                                               e atiraram-se das árvores
  para provar ainda quentes no terreno
                                                      as sementes dispersas de esperma
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



05 março 2026

john ashbery / decisões loucas

  
Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.
 
De noite soltaram-se as amarras
Ao romper do dia tinham desaparecido.
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.
 
Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante…
Uma vista do parque de estacionamento.
 
Algumas frequências
Ainda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou
A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992