09 junho 2026

gil t sousa / era o tempo

  
 
era o tempo
que a um do outro nos roubava
levando-te
e a mim
até à última solidão
 
aquela ainda não conhecida
por ti e por mim
ainda não sofrida
 
era o tempo
que nos reuniu
que nos enlaçou
pelo sangue e pela ternura
 
era o tempo
que agora nos deixava
a ti na última margem
a mim na traição
do último rio
 
7/5/2026
 
 
 
gil t. sousa
 
 
 

08 junho 2026

manuel antónio pina / saudade da prosa

  
 
Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
 
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou que sabia.
 
E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava
 
senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,
 
o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.
 
Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
a minha alheia melancolia?
 
 
 
manuel antónio pina
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



07 junho 2026

gomes leal / o visionário ou som e cor

  
I
 
Eu sou um visionário, um sábio apedrejado,
Passo a vida a fazer e a desfazer quimeras,
Enquanto o mar produz o monstro azulejado
E Deus, em cima, faz as verdes Primaveras.
 
Sobre o mundo onde estou encontro-me isolado,
E erro como estrangeiro ou homem de outras eras,
Talvez por um contrato irónico lavrado
Que fiz já e não sei noutras subtis esferas.
 
A espada da Teoria, o austero Pensamento,
Não mataram em mim o antigo sentimento,
Embriagam-me o Sol e os cânticos do dia…
 
E obedecendo ainda a meus velhos amores,
Procuro em toda a parte a música das cores,
– E nas tintas da flor achei a Melodia.
 
 
 
gomes leal
edoi lelia doura
antologia das vozes comunicantes
da poesia moderna portuguesa
organizada por herberto helder
assírio & alvim
1985


06 junho 2026

irene lisboa / outro dia

  
 
Vou de umas casas
para as outras
à procura de fresco.
Por toda a parte sinto
o ar denso,
impregnado da calma da noite.
í Mas não posso abrir as janelas!
Os pedreiros já chegaram,
a mulher da fava-rica
passa esganiçada,
faz um vento doido…
As palmeiras
de umas casas apalaçadas,
de aqui perto,
abanam-se com gestos largos,
desorientados…
O melro, o divino, canta,
creio que para mim.
 
Esta noite acordei
com os rumores do vento,
se me não engano,
e, durante horas,
estive pensando, como quem escreve,
neste breve estilo…
 
 
 
irene lisboa
um dia e outro dia…
e outono havias de vir
poesia I
obras de irene lisboa  I
editorial presença
1991





 

05 junho 2026

antónio franco alexandre / (domínio público)

  
 
Amo todos os teus. Pouco me importam
o corpo em que dormitam,
a língua dos seus sonhos desabridos.
Mas a quem minto agora? o menor gesto
abre na terra abrigo; uma palavra
vale todo um cinema, é bem sabido.
 
Tantas canções e versos pelo mundo fora
e só um, em querendo, será teu.
Querendo tu e ele, como corpos que
na secura dos corpos se saciam
terá o mundo alheio uma outra face
e outro novo passado nos será futuro.
 
Ah também tu és vaidoso, meu querido.
Também tu queres vestir-te
de rimas e kalamanknes leibserdak
e ver o manto rasgado
numa cave transcendente.
De terra em terra foste deixando as asas.
Não mintas mais: só conheceste imagens.
 
 
 
antónio franco alexandre
poemas
carrocel
assírio & alvim
2021
 



04 junho 2026

armando silva carvalho / le beau séjour

  
 
Também este não dorme de noite
mas parece dormir dentro dos meus olhos.
Entre nós não há nada a ser o corpo
de uma cerveja turva de sangue.
 
Estamos tão perto desse Beau Séjour
onde tudo se passa em panorama turístico
cenário de marquesas de azulejo
ou de sedutores com o pé no estribo.
 
São coisas velhas. E o novo aqui é o Brasil
do Ronaldo e a minha elegante camisa
azul-turquesa que soube delicadamente
enxugar uma lágrima de espuma.
 
Não sei com que respeito ele me faz cúmplice
do seu tédio e eu a ele do meu riso
de tradutor traído.
Eu sei. Claro que sei. Também vi esse filme.
 
Sai uma dose de mãozinhas de vitela
para as mãos deste príncipe
que me deixa passar por entre cortesãs
que não vê nem ouve e lhe pedem tremoços.
 
A cidade por dentro é um novelo de medos
e alguma ternura de papel pintado.
Não há como sermos grandes na cozinha
dizem as facas limpas já na sobremesa.
 
E o meu senhor dos escalopes traz-me a melancolia
na bandeja de chapa negra da memória,
talvez quisesse dar-ma na da avó de prata
que não saiu das berças para entrar na história.
 
 
 
armando silva carvalho
lisboas roteiro sentimental (2000)
o que foi passado a limpo, obra poética
assírio & alvim
2007
 




03 junho 2026

herberto helder / de tal maneira no tempo

 


 

 
de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira
sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer –
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca –
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda –
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro –
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras –
mas que procuram eles? nomes?
apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou
a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, os olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbedo ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ele a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um
                                                                     só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas
 
 
 
herberto helder
poemas canhotos
porto editora
2015



02 junho 2026

antónio osório / na pele

  
 
Sou o teu guia,
tu o meu.
 
Por grutas, astúcias,
viagens ancestrais.
 
Nada de quem amou ignoras.
Sabes
e eu seu dar-te
na pele
o prazer do sol.
 
 
antónio osório
casa das sementes, poesia escolhida
a teia dupla
assírio & alvim
2006
 


01 junho 2026

henri michaux / a minha vida

  
 
Partes sem mim, minha vida.
Giras.
E eu ainda à espera de dar um passo.
Levas a guerra para outra parte.
Abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
 
Não percebo bem as tuas ofertas.
O poucochinho que eu quero, tu nunca me trazes.
Por causa disso que me falta, aspiro a tanto.
A tantas coisas, quase ao infinito…
Por causa desse pouco que falta, que tu nunca trazes.
 
1932
 
 
 
henri michaux
a noite revolta (1935)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999
 




31 maio 2026

daniel faria / outra explicação do homem

  
 
Sem sede nem repouso
Perdido no andar nos lembra
A amplitude
 
De pés juntos desce à água
E nem o gume da corrente poderá
Desatar-lhe os tornozelos
 
E ao descer nos lembra
O torvelinho
 
 
 
daniel faria
poesia
últimas explicações
quasi
2003




 

30 maio 2026

claudio rodríguez / ouve

  
 
Ouve: em qualquer corrente, em qualquer onda,
algo me impele para ti, pois sabe
que tu me ressuscitas, como a ave
ressuscita o ramo em que se imola.
 
E tu já nunca estás sozinha, olha,
que embora longe todo eu te abrace,
encosta o ouvido, deixa que to lave
como um búzio o meu coração: toda
 
a minha terra hás-de ouvir, não a maresia,
terra feita do espaço mais aberto.
E a sua voz, a minha, que eu quisera
 
meter-te alma adentro noite e dia,
clara como o teu nome, a descoberto
como este mar de amor meu que te espera.
 
[1953]
 
 
 
claudio rodríguez
sem epitáfio
trad.miguel filipe mochila
língua morta
2019
 




29 maio 2026

roberto juarroz / há que cair e não se pode escolher onde

  
 
Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas há uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar enquanto caímos.
 
É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.
 
Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
Num texto que não podemos corrigir.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018




28 maio 2026

roger wolfe / à espera

  
 
Observo o trânsito
que passa
no bar em que espero
não recordo quem.
Duas mulheres
tagarelam
à beirinha do passeio.
Não seria mau
que acontecesse de uma vez alguma coisa.
Que se pusessem a atravessar a rua,
por exemplo,
e um camião as convertesse em carne picada.
Travessuras da mente.
Digo eu.
É melhor deixar o trânsito
sossegado. Pedir outro café.
 
 
 
roger wolfe
fazer o trabalho sujo
tradução de luís pedroso
língua morta
2020
 




27 maio 2026

adam zagajewski / lá onde a respiração

  
 
Está só em cena
e não tem nenhum instrumento.
 
Coloca as mãos sobre o peito,
lá, onde nasce a respiração
e onde se extingue.
 
Não são as mãos a cantarem
nem o peito.
 
Canta o que está calado.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017




26 maio 2026

adonis / espelho do carrasco

  
 
– Dizes tu que és poeta?
 
De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce.
 
Carrasco, ouves-me?
Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo
 
A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo
 
Disseste que és poeta?
 
 
 
adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016
 




25 maio 2026

ángél gonzález / outras vezes

  
 
Queria estar noutro sítio,
melhor, noutra pele,
e averiguar se dali a vida,
pelas janelas de outros olhos,
se vê assim grotesca em certas tardes.
 
Gostava muito de conhecer
o efeito abrasivo do tempo noutras vísceras,
confirmar se o passado
impregna os tecidos com o mesmo sumo amargo,
se todas as lembranças em todas as memórias
libertam este cheiro
a fruta murcha e a jasmim podre.
 
Desejaria fitar-me
com as duras pupilas de quem mais me odeia,
para que assim o desprezo
destruísse os despojos
de tudo o que o esquecimento não há-de enterrar.
 
 
ángél gonzález
para que eu me chame ángel gonzález
uma antologia
selecção e tradução de miguel filipe mochila
língua morta
2018





 

24 maio 2026

anna akhmatova / no quadragésimo ano

  
 
3.
 
SOMBRA
 

                                                   Que sabe certa mulher
                                                           Sobre a hora da morte?
 
                                                                     O. Mandelshtam


 
Sempre mais elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura – tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me, mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti – bela de 1913 –
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar… Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
 
9 de Agosto de 1940. De noite.
 
 
 
anna akhmatova
poemas
trad. joaquim manuel magalhães e
vadim dmitriev
relógio d´água
2003






 

23 maio 2026

e e cummings / xix poemas

  
 
[xv]
 
quando as serpentes regatearem o direito a colear
e o sol fizer greve para ganhar o salário mínimo –
quando os espinhos olharem as suas rosas alarmados
e os arco-íris estiverem seguros contra a velhice
 
quando um tordo não puder cantar nenhuma lua nova
se todas as corujas não tiverem aprovado a sua voz
– e qualquer onda assinar sobre a linha ponteada
Senão um oceano é obrigado a fechar
 
quando o carvalho pedir licença à bétula
para criar uma bolota – os vales acusarem as suas
montanhas de terem altitude – e março
denunciar abril por sabotagem
 
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal(e não antes)
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998



 

22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026
 



21 maio 2026

denise levertov / uma nova flor

  
 
Quase todas as vivas pétalas do girassol
tinham caído, então arranquei as poucas
que faltavam e encontrei-me
com uma nova flor: o centro,
redonda almofada escura
da cor de café torrado, tocada de inúmeras
ínfimas florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e brilhante amarelo,
e à volta um verde anel, as pétalas
por sob as pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a forma de chamas sagradas
as folhas de figueira dos pagodes,
forma lúdica, jubilante
(subestimada em padrões Paisley)
e a luz vindo por entre elas, de modo que
quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo
de anjos da Renascença, se sobrepunham,
havia sombra, um tom mais denso
do mesmo verde de rebentos – uma nova flor
neste dia de outono, revelada
no outono da sua própria floração.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021


20 maio 2026

fiama hasse pais brandão / campo de refugiados

  
 
A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?
 
 
 
fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002




19 maio 2026

josé miguel silva / conclusão

  
 
E eu que já fui a infância benigna,
o pão com geleia, a cara lavada,
o jovem galante de ganga feliz,
semi-penteado, tonto de Maio,
 
perdi-me em desvãos que não quero lembrar,
por uma doença chamada senão
e tudo cedi, raízes e ramos,
como se a nada pudesse falar.
 
Passaram os anos mas não a tristeza,
passaram os golpes, não o cuidado.
Praias de brita, rios de breu.
Por pouco não tive que me chatear.
 
Cheguei até aqui com a falta de dentes,
ombros de sal, futuro fanado,
e mesmo se isto parece um lamento,
de nada me queixo – sobrevivi.
 
Amigos alguns, mortos também,
versos de vidro ferindo-me os pés,
os olhos amados, a sorte no corpo.
O resto é ruído, inferno de sobra.
 
Com quatro cadeiras e um lenço na mão,
já faço um batel para as ondas levarem.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014





18 maio 2026

diogo vaz pinto / do trono espinhoso destas horas


 

Do trono espinhoso destas horas
elevei o meu silêncio até dele
se ouvirem campos de trigo
num rés-do-chão em Campolide,
o vento ferido cortando caminho,
um zumbido que houvesse virado navios
e o mar depois calmo exibindo
cicatrizes antigas. As mãos no tanque,
o queixo na pedra e um suspiro
conduzindo as folhas, como cadáveres
flutuando de sorriso na cara.
 
A noite treme nos seus sonâmbulos afazeres,
persegue sombras de estrelas há muito sumidas,
abrindo os contornos de quem somos
no limite da nossa obscuridade.
 
Tudo contido, tudo transborda.
Beberei das próprias palavras,
dolorosamente cercado,
um universo à parte, outras vistas.
No mais, passar ao largo,
perdido numa cadeira de balanço
com as mãos cerradas no colo,
contando os dias,
até que olhar seja desmoronar-se.
 
 
 
diogo vaz pinto
aurora para os cegos da noite
maldoror
2020



 

17 maio 2026

vitorino nemésio / canção à maneira e à memória de antónio boto

  

Ai, restos de António Boto,
Canção de veludo tinto
Em caixa de zinco estreito:
Não somos nada no mundo!
Digo-o e pareço que minto
Se desta ilusão me enfeito
Pensando ter a valia
De quem canta perdoando
Ou chora para salvar
Um viver à revelia
Que destino miserando,
Como casca, atira ao mar.
 
Ai, chapéu de António Boto,
Cortina de disfarçar
Sentimentos proibidos,
Quem sabe até se fingidos
Prà triste vida ganhar?!
 
Pobre camarada altivo
Com fraquezas de tostão
E ar de pirata cativo
No reino da solidão,
Enterrado na tristeza
Com velas da sua altura
Pingando amor e a nobreza
De alguma palavra pura!
 
Da terra pátria esquecido
Como o marinheiro novo
E a gaivota horizontal,
Acabando adoecido
Por fadário do seu povo
Numa enxerga de hospital!
 
Ai, triste de António Boto,
Se assim não foi, não faz mal,
Que maior glória não vejo
Para um poeta, em Portugal!
 
Desviado adolescente
Como niño só deixado
Por mãe de quem tanto gosta:
Entornou-se o candeeiro,
Julga-se cravo de aposta
Nas cinzas do pardieiro!
 
Ai, pobre de António Boto
Tão dandy naquele Chiado!
Antes sujinho, antes roto
Que suspeito condenado!
 
Roxo de rosas salobras
E de chagas procuradas:
Eis o salário que cobras
Nas salas abandonadas
Por galãs entontecidos
De princesas fastientas:
Sorrisos compadecidos
Na vida, que lhes aguentas!
Devolvendo uma cantiga
Por cada insinuação
E pondo a faca na liga
(Nossa maior distinção
Portuguesa!...)
À que a não merece, não!
 
António Boto! A beleza
Ninguém a compra, é condão:
Durma à paz da natureza
Teu remoto coração!
 
                RIO, 23.8.1965.
 
 
 
vitorino nemésio
colóquio letras 113-114
fundação calouste gulbenkian
1990




16 maio 2026

robert walser / a meu lado

  
 
Faço a minha caminhada;
a volta é larga e traz-me
a casa; então, sem som
ou palavra, sou eu que estou a meu lado.
 
 
 
robert walser
descida brusca de temperatura
alguma poesia suíça
tradução de luís filipe parrado
contracapa
2021
 


15 maio 2026

jane kenyon / agasalhos

  
 
Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ele não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.
 
E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.
 
 
jane kenyon
trocando dólares por cêntimos
alguma poesia norte-americana
trad. luís filipe parrado
contracapa
2020




14 maio 2026

luís falcão / o táxi à espera

 


 

 
O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento
 
 
 
luís falcão
bruma luminosíssima
artefacto
2016



13 maio 2026

luís carlos patraquim / por te haver, de acesa cinza

 



 

 
Por te haver, de acesa cinza
a eléctrica luz sou
e a sombra dela.
este pendor a renúncia
do que a outros distrai
é quanto amas?
Respiramos. Em tua pele
é que singro, rasgado
grito em quilha
na areia do mundo.
 
 
 
luís carlos patraquim
morada nómada
poesia 1980-1920
língua morta
2020
 


12 maio 2026

louise glück / a íris selvagem

  
 
No fim do meu sofrimento
havia uma porta.
 
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
 
Por sobre mim, barulhos, ramos ondulantes de pinheiro.
Depois, nada. o sol fraco
a cintilar na superfície seca.
 
É muito duro sobreviver assim,
a consciência
sepultada na terra escura.
 
Depois, o fim: aquilo que se teme, ser
alma e incapaz
de falar, termina bruscamente, a terra hirta
curvando-se um pouco. E o que eu achei serem
pássaros lançando-se em voo pelos ramos baixos.
 
A vós que não recordais
a passagem do outro mundo
digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz:
 
do centro da minha brotou
uma fonte fresca, sombras
em azul profundo sobre o azul da água do mar.
 
 
 
louise glück
a íris selvagem
tradução de ana luísa amaral
relógio d´água
2020




11 maio 2026

yánnis kondós / pequeno jardim zoológico

  
Teus dois pequenos seios
sorriem dentro da tarde.
Eu de noite acendo fósforos
para ver como dormem.
 
Teus dois pequenos roedores
me comem os dedos
no escuro.
 
De manhã, asas de pássaro
nas minhas mãos.
 
 
 
yánnis kondós
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
trad. josé paulo pães
assírio & alvim
2001




 

10 maio 2026

alberto caeiro / o que nós vemos das coisas são as coisas.

  
 
XXIV
 
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
 
13-3-1914
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994



09 maio 2026

ricardo reis / frutos, dão-os as árvores que vivem,

  
 
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
 
6-12-1926
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




08 maio 2026

eugénio de andrade / para onde

  
 
Apesar da luz ter já começado a roer-me os olhos, não é ainda tempo para me entregar a colecionar caixinhas de rapé ou luzes crepusculares, nem para fazer coro com essa gente do norte que recebe o nevoeiro em casa e o convida, pelo menos uma vez por semana, para jantar.
 
Desde a vulva inicial, o homem é só caminho. Para onde? Eis o que não sabemos. Mas será caso para perguntar?
 
14.1.86
 
 
eugénio de andrade
vertentes do olhar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 



07 maio 2026

pedro homem de mello / segredo

  
 
Tinha aqueles cabelos que ondulara
A ventania trágica do mar…
 
Em lhe eu falando, uma palavra clara
Era o bastante o ver corar.
 
Então, num gesto rápido, ancestral,
Pendia, logo, a boina para a fronte.
 
Se eu me calasse, ele voltava: – Conte…
(O Povo é todo assim em Portugal!)
 
Algumas vezes passeou comigo
Na praia, a horas mortas, no Verão.
 
Como esquecer, agora, o que nem digo
Ao meu desabitado coração?
 
 
 
pedro homem de mello
os poetas ignorados (1957)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983



06 maio 2026

egito gonçalves / o sistema interrogativo

  
 
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
 
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
 
 
 
egito gonçalves
o fósforo na palha (1970)
antologia da novíssima poesia portuguesa
m. alberta menéres e e. m. melo e castro
livraria moraes editora
1971
 



05 maio 2026

vasco graça moura / sequência da baleia

  
 
I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 


04 maio 2026

luiza neto jorge / as sofridas amoras

  
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
 
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.
 
 
 
luiza  neto jorge
fragmentos
poesia
assírio & alvim
1993




 

03 maio 2026

luís miguel nava / através da nudez

  
 
Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.
 
Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



02 maio 2026

billy collins / desenho

  
 
Pinceladas de tinta em papel de arroz –
uma ponte de madeira
arqueada sobre um rio,
 
montanhas ao longe
e em primeiro plano
uma árvore sacudida pelo vento.
 
Rodo o livro na mesa
para que a árvore
fique inclinada para a tua aldeia.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023




01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



30 abril 2026

jack gilbert / o vale abandonado

  
 
Sabes o que é estar sozinho por tanto tempo
que sais a meio da noite
e enfias o balde no poço
só para sentires algo lá em baixo
a puxar a outra ponta da corda?
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




29 abril 2026

paul éluard / enterrar y callar

  
 
Irmãos esta aurora é vossa
Esta aurora à flor da terra
É a vossa derradeira aurora
Deitastes-vos nela
Irmãos esta aurora é nossa
Sobre este abismo de dor
 
E de cor e de cólera
Irmãos convosco contamos
Nós queremos eternizar
Essa aurora que partilha
A vossa sepultura preta e branca
A esperança e a desesperança
 
O ódio saindo da terra
E combatendo pelo amor
O ódio na poeira
Tendo satisfeito o amor
O amor brilhando em pleno dia
Sempre vive a esperança em terra.
 
 
 
paul éluard
a cama a mesa
tradução de luís lima
barco bêbado
2021




28 abril 2026

heiner müller / vaso coronário

  
 
O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes
 
 
 
heiner müller
poemas (1949-1995)
trad. adolfo luxúria canibal
oficina noctua
2021




 

27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




26 abril 2026

miguel-manso / campéstico, paisagens e interiores

  
40
 
escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais
 
não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer
 
corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer
 
 
miguel-manso
persianas
tinta da china
2015
 



25 abril 2026

jorge de sena / «quem a tem…»



 

 
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
 
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
 
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade
 
 
 
jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







 

24 abril 2026

josé carlos ary dos santos / retrato do herói

  
 
Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar     de morte certa.
 
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome     fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica aberta.
 
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo     nem mártir     nem soldado
Mas apenas     por último     indefeso.
 
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro     e fica ileso
pois lutando apagado     morre aceso.
 
 
 
ary dos santos
fotos-grafias (1970)
ary, obra poética
edições avante!
2017





 

23 abril 2026

mário-henrique leiria / última solidão

  
  
 
distante
mais distante
que a nuvem mais remota
está agora
a tua voz amor
a tua voz que um dia
um dia que já esqueceste
me falou de nós
me disse que seríamos
só um
que seríamos para sempre
como o dia e o sol
agora amor
exactamente neste momento
perdido na noite solitária
oiço apenas o eco
do que disseste
recordando a luz perdida
dos teus olhos
enquanto meus lábios
sangram
amargos
ouve amor
ouve em silêncio
este último grito
que
como um sonho perdido
vai desaparecendo ao longe
pela noite
pela solidão
ouve-o amor
ouve-o em silêncio
nunca o esqueças
com ele vão os meus olhos
com ele vai a recordação
das minhas mãos
que uma vez
foram tuas
ouve-o amor
ouve-o em silêncio…
 
 
 
mário-henrique leiria
obras completas
poesia
e-primatur
2018
 



22 abril 2026

konstantinos kaváfis / o deus abandona antónio

  
 
Se, abruptamente, à meia-noite ouvires
um tíaso invisível a passar,
com músicas divinas e algazarra –
a tua fraca sorte, as tuas obras
frustradas, os teus planos que afinal
eram miragens, não os lamentes em vão.
Como se há muito pronto, como um bravo,
despede-te da Alexandria que te foge.
E, sobretudo, não te enganes, e não digas
que te mente o ouvido; não consintas
albergar essas ocas esperanças.
Como se há muito pronto, como um bravo,
como cabe a quem merece tal cidade,
vai, chega-te à janela resoluto
e ouve com emoção, mas não com
os prantos e protestos cobardes,
num último deleite, os sons lá fora,
a divina toada do cortejo oculto e
diz adeus à Alexandria que vais perder.
 
1911
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017




21 abril 2026

juan luis panero / mensagem de cleópatra a antónio

  
 
            II
 
Não teças louvores à minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelas costas,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, o teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai com coragem – Kavafis já o escreveu –
nesse poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003
 

20 abril 2026

juan luis panero / mensagem de antónio a cleópatra

  
 
            I
 
Outros teçam louvores
à tua adormecida beleza,
à suavidade da tua pele em repouso,
à medida perfeição dos teus membros.
Eu não vim a isso,
vim apenas para te penetrar
pelo peito e pelas costas,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se afunda e se perde
no poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003




19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

18 abril 2026

maria do rosário pedreira / bárbaros

  
 
Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem mais cedo.
 
Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam
ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram
mais longe do céu.
 
Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.
 
De manhã, a planície estava ainda mais plana.
 
 
 
maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002
 

17 abril 2026

maria alberta menéres / canção antecipada

  

Talvez não saiba esperar.
Talvez impacientemente
eu force as horas e os dias,
as horas e os leves anos
para um mar de lentidão.
Talvez na certa intenção
de os afogar de repente
e ficar livre boiando,
talvez ainda esperando
o que não saiba esperar.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 

16 abril 2026

maria teresa horta / encontro

  
 
silenciosamente diremos
amanhã
 
nas cidades os jardins
são abertos
ao céu
 
na noite
os joelhos do oceano
perturbam as árvores
 
caminhar é palavra
de existir
durante a madrugada
 
gritaremos de sol
com as mãos
e com os ombros
 
país onde
os homens são raros
com silêncios grandes
 
é a pausa dos objectos
é o nosso encontro
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
cidadelas submersas
dom quixote
2009
 





15 abril 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
 
192
 
«De onde vêm todas as nossas vidas?», é a pergunta
De quem escreve. Nesse «nossas» tanto pode esconder-se
Uma pergunta inquietante como jorrar uma fonte de
Prazer inaudito como alguém que senta ao colo o seu
Exterior. O verso ao bater no reverso pode realizar
Uma simples fotogramassíntese irreversível. É, assim,
Mário. Nada de meios complicados.
E para lhe fazer compreender como o encadeado dos elos
É mais forte do que o encadeamento das acções, dou-lhe
O exemplo da rapariga que temia a impostura da língua ______________
Anda em Campo de Ourique a passear na mira de comprar
Uma saia para levar ao mar. passa, por acaso, diante de
Uma loja. Na montra, vê cadernos de folhas soltas, mais
Baratos e, sobretudo, mais aptos para a escrita que
Procura. Entra e compra-o.
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 

14 abril 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
310
 
É Primavera. No jardim do palácio pairam nuvens de sementes aladas. Enchem o ar, batem-nos no rosto, infiltram-se na casa. São belas, quase brancas, estas aéreas naves persistentes. Rolam pelo chão em pequenos novelos ocos e levíssimos. Caindo no lago em massa são mantos de espuma que o vento arruma. Olho calada toda esta vida prometida que se afoga.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006
 


13 abril 2026

pertti nieminen / nestes tempos

  
 
Nestes tempos
nestes tempos de consenso
que ensinam ao pobre
                a amar o rico
                ao dirigido a amar o dirigente
                ao espancado a amar o espancador
                e a todos nós humildade,
                obediência e submissão
ante o poder e a força e a honra:
nestes tempos
faz falta um destruidor,
precisam-se de milhares, dezenas de milhar
de sérios e honrados
iconoclastas
 
Não amo o rico,
só amo os pobres.
Nós não obedecemos
ao poder nem à força nem à honra:
nem separados, nem tão pouco juntos,
nem sequer mutuamente.
 
Vaikka aammum on vicla aikka, 1989
 
 
 
pertti nieminen
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021
 




12 abril 2026

amalia bautista / as regras do jogo

  
 
Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
 
 
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021





11 abril 2026

álvaro de campos / a clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

  
 
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
 
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
 
29-1-1933
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 abril 2026

jorge luís borges / não és os outros

  
 
Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. e és cada solitário instante.
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a moeda de ferro (1976)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




09 abril 2026

francisco brines / apontamento de viagem

  
 
                                        (De automóvel)
 
 
     As janelas reflectem o fogo do poente
e flutua uma luz cínzea que chegou do mar.
Quer ficar dentro de mim o dia que agoniza
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
 
     E Quem há que me olhe e que possa salvar-me?
A luz tornou-se negra e apagou-se o mar.
 
 
francisco brines
a última costa
trad. josé bento
assírio & alvim
1997