20 agosto 2026

john updike / despida

  
Jovens homens belos – brasileiros, com
um capataz grego de ar fúnebre – vieram
e rasparam cem anos de tinta desta nossa
casa. Como método, foi árduo,
bicadas a cercarem o ar todo, raspando-me
também o interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu em madeira crua, de cor
mais loura do que o esperado, morna
 
e vulnerável, como uma mulher que viveu
cem anos em branco de noiva e agora
está nua para um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira substância macia, o seu granulado
e matiz tão carnais que vemos por fim que,
nestes anos nossos, ela nos envolveu e nos amou.
 
 
 
john updike
ponto último e outros poemas
trad. ana luísa amaral
civilização editora
2009




19 agosto 2026

primo levi / agosto

  
 
Quem fica na cidade em Agosto?
Só os pobres e os loucos,
As velhas esquecidas,
Os reformados com os seus canitos,
Os ladrões, alguns cavalheiros e os gatos.
Pelas estradas desertas
Ouve-se um percutir fincado de tacões;
Vêem-se mulheres com sacos de plástico
Na linha de sombra ao longo dos muros.
Junto da fontezinha com o pequeno touro
Dentro da poça verde de algas
Está uma náiade de meia idade
Com cerca de dez centímetros e meio:
Traz vestido apenas o soutien.
Alguns metros mais para lá,
Apesar da célebre proibição,
Os pombos mendigantes
Circundam-se em bando
E roubam-te o pão da mão.
Ouves farfalhar no céu, em voo
Estafado, o demónio do meio-dia.
 
                            22 de Julho, 1986
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 



18 agosto 2026

paul celan / a arte paga o seu preço

  
 
A ARTE PAGA O SEU PREÇO, O SER HUMANO
não paga nenhum.
Vós sois pela liberdade da arte,
do ser humano
falais apenas sob
este
signo.
E afinal
existe em todos nós
o mesmo Deus, feio-
-belo,
e verdadeiro.
 
 
 
paul celan
a morte é uma flor
trad. de joão barrento
relógio d´água
2022




17 agosto 2026

s. kierkegaard / estranho

  


 
Estranho! Com quanta angústia ambígua, de perder e conservar, se agarra um homem nesta vida. Por vezes, pensei em dar um passo decisivo, em comparação com o qual todos os anteriores seriam meras brincadeiras de criança  – partir para a grande viagem de descoberta. Tal como um navio, quando é lançado à água, é saudado com salvas de canhão, assim quereria eu saudar-me a mim mesmo. E no entanto… É coragem que me falta? Se uma pedra caísse e me matasse, isso seria, ainda assim, uma saída
 
 
s. kierkegaard
diapsalmata
trad. de bárbara silva, m. jorge de carvalho,
nuno ferro e sara carvalhais
assírio & alvim
2011 




16 agosto 2026

sophia de mello breyner andresen / pranto pelo dia de hoje

  
 
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
obra poética
as grades
assírio & alvim
2015
 



15 agosto 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
III
 
a solidão dos navios
na palma
duma mão antiga
 
e o tempo generoso
preso no mármore azul
do mar
cantando, cantando
 
 
 
gil. t. sousa




14 agosto 2026

yves bonnefoy / uma pedra

  
 
Os livros, o que ele rasgou,
A página devastada, mas a luz
Sobre a página, o acréscimo da luz,
Compreendeu ele que se transformava na página branca.
 
Saiu. O rosto do mundo, dilacerado,
Pareceu-lhe de uma outra beleza, mais humana.
A mão do céu procurava a sua mão no meio das sombras,
A pedra, onde se vê que o seu nome se apaga,
Entreabria-se, transformava-se em palavra.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
as tábuas curvas (2001)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026
 




13 agosto 2026

josé emílio pacheco / encontro

  
 
Já me encontrei comigo numa esquina do tempo.
Preferi não me dirigir palavra,
em vingança por tudo o que a mim mesmo fiz com sanha.
E passei ao largo, e deixei-me a falar sozinho.
– com grande ressentimento, pois claro.
 
 
 
josé emílio pacheco
siglo passado (desenlace)  (1999-2000)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



12 agosto 2026

carlos de oliveira / estrelas

  
 
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
 
 
carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982




11 agosto 2026

victor oliveira mateus / o retrato de wilde

  
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
não era de nenhum jovem
que ele tivesse conhecido
nos lupanares de londres
ou nas deambulações que fizera
pelo norte de áfrica
com gide ou com bosie
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
trouxera-o ele de dublim
era uma parte de si
(a consciência moral)
que ele plantara no parapeito da janela
mas veio um pássaro e comeu-a
 
o retrato não passava de um fantasma
(clone dele mesmo)
de que nem ele se apercebia
mas que encarquilhava apodrecia
exatamente como acontece connosco
quando decidimos ser nós próprios
sem atenuantes nem desculpas
 
 
 
victor oliveira mateus
uma casa no outro lado do mundo
labirinto
2021




10 agosto 2026

egito gonçalves / o anjo do relógio / chartres

  

Ainda o vi, o anjo do relógio. Era como Rilke
nos dissera: nada sabia do nosso ser,
sorria no seu pétreo resplendor, apenas
segurando a mensagem da sombra
que obedecia à convenção das horas. Asas curtas
nos ombros, demasiado curtas
para o voo, para qualquer viagem…
 
Na segunda vez já não estava. O sorriso
estatelara-se
no solo. Rilke saberia já da tempestade
que assaltaria a forte catedral
para deixar o poema solitário?
Ou o anjo
tentara com as suas asas frágeis
quebrar o tempo, o cansaço das horas
negadas às estrelas?
 
                                            24.7.91
                    de E No Entanto Move-se
 
 
 
egito gonçalves
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


09 agosto 2026

maria f. roldão / carne de ébano

 
 
O sangue castanho do pau-ferro
sobe pelos pés baloiçando as traves.
Sustém os movimentos síncronos
dos músculos – breves estalidos de
 
caruncho, tão alegre nos túneis
abertos. Os pés da cama enchem-se
de febre – tesão no trepidar dos veios.
Líquido amniótico que atravessa
 
o estrado e as barras laterais
quase a fazer nascer, amparar,
com mãos de madeira,
o orgasmo em cima dela.
 
A cama recolhe o cansaço
                    e embala-o.
 
 
 
maria f. roldão
a cadeira de mogno
edição do autor
2025
 




08 agosto 2026

paulo campos dos reis / as chávenas do meu tio agora são minhas

  

A minha mãe não as queria usar
porque são muito lindas
e podiam estragar-se na máquina
de lavar a loiça.
 
Fiquei com as chávenas do meu tio
mas lavo-as à mão com cautela.
 
A minha mãe deu-mas e não a quis decepcionar.
 
Com o uso imoderado, entretanto
porque são muito lindas
parti-as todas.
 
As chávenas do meu tio que
a minha mãe me deu.
 
Guardei os cacos num papel dobrado.
 
 
 
paulo campos dos reis
habilitações literárias
volta d´mar
2022
 



07 agosto 2026

emily dickinson / sem saber

  
 
Sem saber quando virá a Aurora,
Abro todas as Portas,
Ou terá Asas, como se fosse Pássaro,
Ou, como Praia, Vagas –
 
 
emily dickinson
duzentos poemas
trad. ana luísa amaral
relógio d´água
2014
 





06 agosto 2026

allen ginsberg / um asfódelo

 



 

 
Ó meu caro doce e rosado
                inalcançável desejo
… que triste, não há maneira
                de mudar o doido
asfódelo cultivado, a
                realidade visível…
 
e as pétalas espantosas
                da pele – o quanto me inspira
estar assim deitado na sala que vive
                de visitas é brio e nu
e sonhando, na ausência
                da electricidade…
vezes sem conta a comer a raiz baixa
                do asfódelo,
destino de cinza…
 
                rolando em ímpeto de geração
no sofá às flores
                como numa margem de Arden –
minha rosa hoje à noite tão só
                a prenda da minha própria nudez.
 
 
                                                        Outono, 1953
 
 
 
allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014



05 agosto 2026

antónio gancho / segunda

  
 
Por sobre a noite uma voz me preenche
e assim se dirige uma voz por sobre a noite
uma ausente luz desce, mexe e enche
o coração açoitado e onde o açoite
 
E é por sobre a noite que uma voz assim
e que assim dirigida se me a mim, se me a mim
e assim por sobre ausente uma desce e enche
luz que preenche o coração em açoite
 
E assim o poema e assim finalizado
e por sobre a noite ai uma luz a mim
e onde o açoite o coração açoitado
e é por sobre a noite que uma voz assim
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã (1960 - 1967)
o ar da manhã
assírio & alvim
1995




04 agosto 2026

eugénio de andrade / eu começara a ganhar raízes

  
 
Eu começara a ganhar raízes pelas barreiras. Ia aprendendo a conhecer os répteis pelo rumor. Quando o sol apertava, uma cobra azul, não, verde, não, azul, aproximava-se, os olhos cor de basalto. Ficava por ali a olhar-me, eu a olhá-la. Fascinados. Um dia não sei que me deu, corri atrás dela, entrou num buraco de silvas, ainda lhe acertei com a pedra, por momentos a cauda agitou-se crispada em convulsões, depois desapareceu, talvez lhe tivesse quebrado a espinha, nunca mais a vi. Era azul. Verde. Um braço de sol.
 
 
 
eugénio de andrade
limiar dos pássaros
limiar
1976
 


03 agosto 2026

federico garcia lorca / norma e paraíso dos negros





 
 
Odeiam a sombra do pássaro
na preia-mar da branca face
e o conflito de luz e vento
no salão da neve fria.
 
Odeiam a flecha sem corpo,
o lenço exacto da despedida,
a agulha que mantém pressão e rosa
no rubor gramíneo do sorriso.
 
Amam o azul deserto,
as vacilantes expressões bovinas,
a mentirosa luz dos pólos,
a dança curva das águas na margem.
 
Com a ciência do tronco e do ancinho
enchem o barro de nervos luminosos
e patinam lúbricos por águas e areais
provando o frescor amargo à sua saliva milenária.
 
É no azul crepitante,
azul sem nenhum verme nem pegada adormecida,
onde os ovos de avestruz são para sempre
e vagueiam intactas as chuvas bailarinas.
 
É no azul sem história,
azul de uma noite sem temor de dia,
azul onde a nudez do vento vai partindo
os camelos sonâmbulos das nuvens vazias.
 
É ali que os torsos sonham sob a gula da erva.
Ali os corais embebem o desespero da tinta,
os que dormem apagam o perfil sob a madeixa dos seus caracóis
e fica o espaço da dança sobre as derradeiras cinzas.
 
 
 
federico garcia lorca
nova iorque num poeta
trad. antónio moura
hiena editora
1995
 
 


02 agosto 2026

ricardo reis / prefiro rosas, meu amor, à pátria,

  
 
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
 
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
 
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
 
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
 
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
 
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
 
1-6-1916
 
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




01 agosto 2026

cesário verde / heroísmos

  
 
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
 
Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
 
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’ água quase assente,
 
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
 
                                                                                       Lisboa
                                          Porto, Diário da Tarde, 7 de fevereiro de 1874
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024




 

31 julho 2026

nuno guimarães / bergen-belsen

  
 
Abre-se alvorecida a chaga que nos toca
arde infindável como
se fruto acalentasse. Ou rio. Ou tocha
de cegueira.
Infindável como se
doesse à lage à superfície o corpo que lhe pesa
(linear)
morrendo.
 
 
 
nuno guimarães
o estio
entre sílabas e lavas
poesia completa
assírio & alvim
2024
 



30 julho 2026

rui diniz / lisboa

  
 
Nas sacadas das casas uma mulher
de febre degola outra mulher com
o som das persianas. A cidade cada
vez mais anoitece. Vende-se a noite.
Cais do Sodré, duas da manhã.
Nas janelas fechadas da beira do cais
uma mulher tece as desdémonas de sangue.
Há rixas mortais nas adegas.
E os copos de grossos bordos destilam
espesso vinho. Nas varandas de ferro
junto ao rio a mulher suicida-se.
Questão de um amor no corpo e
Uma doença no mar. Os barcos,
êxito haja, deflagram sua vela
rôta no mar, e abalam do
fétido porto, a caminho de voltar.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022




29 julho 2026

manuel de freitas / aurora(s)

  
«Era um cão com muita teoria»
– explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequentou a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja), juro) das paredes
ou dos dias – não há diferença.
 
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
– não é um verso, apenas um dado
Estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, com «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram – tanto faz.
 
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P’ra mim é tinto» – repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
 
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
 
 
 
manuel de freitas
[ sic ]
assírio & alvim
2002




28 julho 2026

manuel alegre / que somos nós

  
 
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
 
Que somos nós senão permanecemos
no por nós transformado em espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
 
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que
 
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
 
 
manuel alegre
o canto e as armas
centelha
1974
 



27 julho 2026

joão pedro grabato dias / a arca

  
CCXCVII
 
Se o teu chefe não for o mais humilde
no falar e na acção e no aceitar
da alheia fala e do agir alheio,
retira-lhe a chefia. Se ele não
souber pedir, não saberá, no
mando, ver e encontrar quem execute
alta ou baixa função. E se baseia
em pura força impura autoridade
é porque já, poedeira, agita a asa
e prepara a postura, o bocacú.
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
a arca, ode didáctica na primeira pessoa, 1971
tinta da china
2021
 



26 julho 2026

fernando pessoa / no limiar que não é meu

  
 
No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver; de campo e céu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer coisa que eu
Possa gozar.
 
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
 
Na inútil hora
Eu, mais inútil que ela, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma coisa mora
Para eu fruir.
 
Apenas, vaga
Não uma esperança, mas uma saudade
Do tempo em que a esperança, como vaga,
Dava na praia da minha ansiedade,
Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga
De vacuidade.
 
Mas acordo e com vão
Olhar ainda, mas já diferente,
Por estar ausente dele o coração,
E eu outra vez, nem mesmo descontente,
Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão
Inconsciente.
 
Nada, só o dia
— Se é tarde ou cedo continuo a errar —,
Alheio a mim, a tudo dá a alegria
De não ter coração com que agitar
O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria
Mas sem chorar.
 
Isto e eu comigo
Posto no eterno aquém das coisas calmas
Que a vida externa mostra ao céu amigo —
Campos ao sol, vivas flores almas.
Isto só e não ter o coração abrigo
Nem sol as almas.
 
16-2-1920
 
 
fernando pessoa
novas poesias inéditas
ática
1993




25 julho 2026

álvaro de campos / o sono que desce sobre mim,

  
 
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
 
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
 
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
 
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
 
Meu Deus, tanto sono!...
 
28-8-1935
 
 
 
álvaro de campos
poesias de álvaro de campos
fernando pessoa
ática
1993


24 julho 2026

adília lopes / psycho

  
 
Assassinada no duche
como Marat
mas sem revolução
nem razão
e o sangue aguado dela
vai-se pelo ralo
da banheira
no sentido
dos ponteiros do relógio
nos antípodas
seria ao contrário
porquê?
 
 
adilia lopes
florbela espanca espanca (1999)
caras  baratas
antologia
relógio d´água
2004



23 julho 2026

albano martins / a mesma canção

  
 
A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.
 
 
 
albano martins
escrito a vermelho
campo das letras
1999
 



22 julho 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
8
 
envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciante das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer
 
colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos… as bocas
do gado triturando o restolho… as correrias inesperadas
das aves rasteiras
 
e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 


21 julho 2026

antónio dacosta / no meio das águas

  
 
NO MEIO das águas está a fresca ilha
Onde do leite de sereia mamaste
No seio daquela que de lá o trouxe
 
Pobre de ti das praias ardentes esquecido
Da Dinamarca te elegeste príncipe
Do veneno bebeste quanto restou
Na corte onde Ofélia amou
 
Da janela do teu bairro com quiosque
De alma aos pés e pénis na mão
Pensaste o ser e não ser de outros que ti
 
E se da ilha só sargaços Circe te deu
Na outra de Próspero foste o grande amigo
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994




20 julho 2026

antónio franco alexandre / segundas moradas

  
 
1
 
ligeiramente suspenso, pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chão, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
 
mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!
 
as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
 
 
 
antónio franco alexandre
segundas moradas
poemas
assírio & alvim
1996
 


19 julho 2026

cesare pavese / és a terra e a morte

  
 
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã.
 
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
 
             3 de Dezembro de 1945
 
 
 
cesare pavese
virá a morte e terá os teus olhos (11 Março-11 Abril, 1950)
virá a morte e terá os teus olhos
trad. rui caeiro
edições do saguão
2021
 




18 julho 2026

charles bukowski / a zona de pausa

  
 
tens de a ter, caso contrário, as paredes
cercar-te-ão.
tens de desistir de tudo, deitar
fora, deitar tudo fora.
tens de olhar para o que estás a olhar
ou pensar no que estás a pensar
ou fazer o que está a fazer
ou
a não fazer
sem considerar proveito
pessoal
sem aceitar orientação.
 
as pessoas estão consumidas com
o esforço,
escondem-se em hábitos
comuns.
as suas preocupações são preocupações de
manada.
 
poucos têm capacidade de olhar
para um sapato velho durante
dez minutos
ou de pensar em coisas estranhas
como: quem é que inventou
a maçaneta?
 
tornam-se desvivas
por serem incapazes de fazer
uma pausa
de se desarmarem
de se desdobrarem
de desverem
de desaprenderem
de se exporem.
 
escuta o seu riso
falso, depois
vai-te
embora.
 
 
 
charles bukowsky
os cães ladram facas
trad. rosalina marshall
alfaguara
2018




17 julho 2026

léo ferré / os bichos enfim desenfreados

  
 
 
    Os bichos enfim desenfreados
    A prioridade à Esquerda, com licença!
 
    Já não morreremos de nada
    Viveremos de tudo
 
    E os micróbios da estupidez que não tereis deixado de
nos legar, erguendo-se
    Das vossas estrumeiras
    Dos vossos livros armazenados nas vossas silotecas
    Dos vossos documentos públicos
    Dos vossos regulamentos de administração penitenciária
    Dos vossos decretos
    Até das vossas orações,
    Todos esses micróbios jurídico-pantufas
    Ficai tranquilos
    Teremos já as máquinas para os revogar
 
    TEREMOS TUDO
 
    Daqui a dez mil anos
 
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017




16 julho 2026

leonard cohen / corrente

  
 
Saí uma destas noites
Com a maré vazia
E sinais no céu
Mas mal sabia eu
Que seria apanhado
Pela força da corrente
 
E largado numa praia
Aonde o mar odeia ir
Com uma criança nos braços
Um calafrio na alma
E o coração em forma
De tigela de pedinte



leonard cohen
a chama
poemas
tradução de inês dias
relógio d´agua
2019




15 julho 2026

bob dylan / não penses duas vezes, está bem assim

  
 
É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
 
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008
 



14 julho 2026

laurie anderson / andar & cair

  
 
Eu queria-te. E andava à tua procura.
Mas não conseguia encontrar-te.
Eu queria-te. E procurava-te todo o dia.
Mas não conseguia encontrar-te. Não conseguia encontrar-te.
 
Vais a andar. E nem sempre dás por isso
Mas estás sempre a cair.
A cada passo cais um pouco para a frente
E logo suspendes a queda num instante.
Uma e outra vez tu cais
E logo suspendes a queda num instante.
É desse modo que consegues andar e cair ao mesmo tempo.
 
 
 
laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997



13 julho 2026

till lindemann / só que

  
 
O que se perde
num piscar de olhos?
O momento?
Muitos perdem o tempo
Alguns, a consciência
A maioria, a vida
 
 
 
till lindemann
nas noites tranquilas
trad. pedro garcia rosado
alma mater
2018
 



12 julho 2026

rui nunes / vésperas palestinas

  
 
nestes lugares que rodeiam a cidade
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira:
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
 
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



11 julho 2026

jorge velhote / fria é a água na escuridão

  
 
.4.
 
Quando amanhece é veloz o frio azul
 
das lágrimas a paixão fareja ainda
 
os lábios e os dedos –
 
ferve na humidade arrastada
 
da respiração um resto de vinho
 
uma canção ardendo na memória – assim
 
sem destino são os teus passos
 
como despidos são no inverno
 
os ramos ou fria é a água
 
na escuridão.
 
 
 
jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018




 

10 julho 2026

jorge reis-sá / o quarto

  
 
Também aqui o tempo passou. A janela aberta trouxe o bosque
para a colcha, entre os lençóis há agora bichos-de-conta dizendo
da sua intimidade. As aranhas relatam as teias em paciência.
 
E um pequeno mamífero escolheu a mesinha de cabeceira para respirar.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008




09 julho 2026

jorge de sousa braga / gerês

  
 
Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva
 
 
 
 
 
Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram
 
 
 
jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991




 

08 julho 2026

joaquim manuel magalhães / road and trees

 



 
 
De noite. A meio coração. Perto da barra.
As traineiras, as luzes de mercúrio,
as felinas gaivotas,
a hulha do fortim,
as janelas ao luar da cerração.
 
A luz cega da felicidade
acende no escuro de cada rocha
a ardente natureza dos pinheiros,
de freixos e salgueiros, da mal-amada
árvores dos figos e do pez.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
uma exposição
consequência do lugar
relógio d´água
2001
 



07 julho 2026

gonçalo m. tavares / poema raro

  
 
Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004





 

06 julho 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
II
 
e havia a casa
onde,
na armadilha das horas
e no arbítrio da luz,
íamos crescendo,
crescendo
até esta memória
mas não era a casa
não apenas a casa
era o caminho
as dunas, o pinhal,
o mar e o cheiro do mar
o voo dos pássaros
ou apenas os pássaros
caídos sobre
o caniçal, espalhados
no que parecia ser
o azul do céu
o branco imperfeito
duma nuvem ou dum muro
tudo tão insconstruído
tudo tão desenhado,
imaginado,
não se sabe por que
destino.
Não sabíamos
que era o amor
podia ser
mas não sabíamos
o amor só se sabe
muito mais tarde
quando já não há tempo
quando já não é possível
estar dentro
do tempo do amor
 
talvez seja por isso:
a felicidade
é sempre uma recordação
uma memória, sim
algo que era
e não sabíamos
 
qualquer coisa
que nos aparece construída
muito mais tarde
mas sobre a qual
já não temos qualquer domínio
uma perda, uma ausência
uma impossibilidade
 
 
 
gil. t. sousa






 

05 julho 2026

rui diniz / ode e esboço do sonho

  
 
A veemência do mar repousava-me de um sonho:
Uma mulher doida corria pela praia quente.
(De vez em quando o céu, olhando essa doente,
Lembrava um sôfrego olho, cego desse sonho).
 
Dias escorriam na memória lenta,
Dias desembocados no bordado das vagas,
Dias finais, sem mágoa, sem tormenta,
sem voz, sem tempo, dias sujas asas.
 
A mulher dedicava as mãos ao sol:
Com uma faca retalhava-as e chorava.
Com o seu sangue e ria e o lambia.
 
Por fim do corpo exausto e sem controlo,
extraía um filho morto e o olhava,
antes de dá-lo ao mar que o acolhia.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





04 julho 2026

agustina bessa-luís / férias

  
 
As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – h~? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.
 
 
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008




03 julho 2026

vitorino nemésio / navio

  
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves,
Partindo, tão gordas vão!
 
Como eu goto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar.
– Olha um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.
 
 
vitorino nemésio
nem toda a noite a vida
antologia poética
asa
2002













02 julho 2026

paul celan / fala também tu

  
Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.
 
Fala –
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.
 
Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanto exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.
 
Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! –
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.
 
Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia no ar.
Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se cintilar: na ondulação
das palavras errantes.
 
 
 
paul celan
sete rosas mais tarde
antologia poética
trad. joão barrento e y. k. centeno
relógio d´água
2023





01 julho 2026

zbigniew herbert / o nosso medo

  
 
o nosso medo
não usa camisa de dormir
não tem olhos de coruja
não levanta a tampa
não apaga a vela
 
também não tem o rosto de um cadáver
 
o nosso medo
é um pedaço de papel
encontrado no bolso
«avisar o Wójcik
esconderijo da Rua Dhuga incendiado»
 
o nosso medo
não voa nas asas da ventania
não se senta na torre da igreja
é terra-a-terra
 
tem a forma
de uma trouxa feita à pressa
com agasalhos
provisões secas
e uma arma
 
o nosso medo
não tem o rosto de um cadáver
os mortos são gentis para connosco
levamo-los às costas
 
dormimos debaixo da mesma manta
fechamos-lhes os olhos
retocamos-lhes os lábios
escolhemos lugares secos
para os enterrar
 
não demasiado fundo
nem demasiado à superfície
 
 
 
zbigniew herbert 
estudo do objecto (1961)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




30 junho 2026

franz kafka / diários

  
1911, 19 de janeiro
 
 
Como pareço estar completamente arrumado – durante o ano passado não estive acordado mais do que cinco minutos – terei de desejar todos os dias ver-me fora do mundo, ou,  sem no entanto ser capaz de encontrar a mais leve esperança nisso, terei de começar tudo do princípio como uma criança. Ser-me-á, extraordinariamente mais fácil do que então. Porque nesses dias eu ainda lutava com um pressentimento débil e por um estilo que de palavra a palavra estivesse ligado à minha vida, que eu deveria apertar ao peito e que me transportaria para fora de mim próprio. Com que dor (claro, não se pode comparar com a presente dor) eu comecei! Que golpes me perseguiam todo o dia vindos do que eu tinha escrito! Como era grande o perigo e como operava ininterruptamente, de tal modo que eu não sentia o gelo, o que no fundo não minorava em muito a minha infelicidade.
 
Um dia imaginei um romance em que dois irmão lutavam um contra o outro, tendo um deles ido para a América e o outro ficado numa prisão da Europa. Comecei só de vez em quando a escrever umas linhas, porque logo me cansava. Por isso escrevi uma vez sobre a minha prisão numa tarde de domingo, quando estávamos de visita aos meus avós e tínhamos comido um pão especialmente mole, barrado de manteiga, que costumava haver lá. É bem possível que tenha feito aquilo em grande parte por vaidade, e, ao mexer com o papel na toalha, ao bater com o lápis na mesa, ao olhar em volta por sob o candeeiro, queria tentar alguém a tirar-me o que tinha escrito, a olhar para aquilo e a admirar-me. Era principalmente o corredor da prisão que aquelas linhas descreviam, acima de tudo o silêncio e o frio; também havia uma palavra de simpatia para com o irmão que por cá ficou, porque era o bom irmão. Talvez tivesse sentido momentaneamente que a minha descrição não tinha qualquer valor, só que antes daquela tarde eu prestava muita atenção a tais sentimentos quando estava entre família a quem estava habituado (a minha timidez era tal que a habituação me fazia sentir já meio feliz), sentado à mesa redonda numa sala conhecida, e não podia esquecer que era jovem e destinado a grandes coisas a partir desta minha tranquilidade presente. Um tio que gostava de fazer troça das pessoas acabou por tirar a folha que eu segurava mal, olhou para ela de relance, voltou a dar-ma, até mesmo sem se rir, e só disse para os outros que o estavam a seguir com os olhos: «O costume»; não me disse nada a mim. Continuei sentado, debruçado como antes sobre a minha folha agora sem uso, mas de facto tinha sido expulso do convívio com um empurrão, a apreciação do meu tio repetia-se em mim com um significado já quase real, e eu tive, mesmo sentindo que pertencia a uma família, o vislumbre do lugar gelado do nosso mundo, que teria de aquecer com um fogo que eu queria primeiro procurar.
 
 
 
franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986





 

29 junho 2026

wallace stevens / paráfrase lunar

  
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
Quando, no mais fastidioso fim de Novembro,
A sua velha luz se alonga pelos ramos,
Frágil, lentamente, dependendo deles;
Quando o corpo de Jesus queda num palor,
Humanamente próximo, e a figura de Maria,
Tocada pelo orvalho, se recolhe num abrigo
Feito de folhas, que apodreceram caíram;
Quando sobre as casas, uma ilusão dourada
Traz de volta uma época primitiva de paz
E sonhos pacificadores às pantufas no escuro –
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
 
 
wallace stevens
harmónio
trad. jorge fazenda Lourenço
relógio d´água
2006
 



28 junho 2026

sophia de mello breyner andresen / há muito

  
 
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vazia
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
dual
caminho
2004
 





27 junho 2026

inês lourenço / gravura

  
 
Era o quarto da Mãe
com uma cama escura, uma gravura
da gruta de Lourdes, uma colcha
verde, uma Singer
de cabeça escondida, panos
de crochet com fotos de parentes perdidos,
o roupeiro ainda com as toucas de baptismo
e o grande gavetão com as mantilhas de ir à missa
e uma bisnaga de perfume vazia.
 
 
 
inês lourenço
o segundo olhar
companhia das ilhas
2015
 



26 junho 2026

antónio reis / poemas quotidianos

  
16
 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos
 
 
 
antónio reis
poemas quotidianos
tinta da china
2017
 



25 junho 2026

josé miguel silva / lamento de calipso

  
 
Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
 
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
 
A distância dos teus olhos, não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
 
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
 
regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor das tardes,
 
quando ainda não sabia
da dureza do cimento
nem dos modos de quebrar e ser quebrado.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




24 junho 2026

eugénio de andrade / passeio alegre

  
 
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis – assim nuas.
 
 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000