13 abril 2026

pertti nieminen / nestes tempos

  
 
Nestes tempos
nestes tempos de consenso
que ensinam ao pobre
                a amar o rico
                ao dirigido a amar o dirigente
                ao espancado a amar o espancador
                e a todos nós humildade,
                obediência e submissão
ante o poder e a força e a honra:
nestes tempos
faz falta um destruidor,
precisam-se de milhares, dezenas de milhar
de sérios e honrados
iconoclastas
 
Não amo o rico,
só amo os pobres.
Nós não obedecemos
ao poder nem à força nem à honra:
nem separados, nem tão pouco juntos,
nem sequer mutuamente.
 
Vaikka aammum on vicla aikka, 1989
 
 
 
pertti nieminen
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021
 




12 abril 2026

amalia bautista / as regras do jogo

  
 
Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
 
 
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021





11 abril 2026

álvaro de campos / a clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

  
 
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
 
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
 
29-1-1933
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 abril 2026

jorge luís borges / não és os outros

  
 
Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. e és cada solitário instante.
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a moeda de ferro (1976)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




09 abril 2026

francisco brines / apontamento de viagem

  
 
                                        (De automóvel)
 
 
     As janelas reflectem o fogo do poente
e flutua uma luz cínzea que chegou do mar.
Quer ficar dentro de mim o dia que agoniza
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
 
     E Quem há que me olhe e que possa salvar-me?
A luz tornou-se negra e apagou-se o mar.
 
 
francisco brines
a última costa
trad. josé bento
assírio & alvim
1997



 

08 abril 2026

josé gomes ferreira / cidade inexacta

  
 
XXIX
 
O segredo
está em não deixar o tempo devorar-me,
mas devorá-lo eu
com dentes de terra
e medo.
 
Mastigar tudo,
as sombras, as bocas,
as pedras,
o céu,
os ossos pendentes das caras
e as deusas a cavalo
– patas nas searas,
crinas de faúlhas ao vento…
 
Devorar o tempo sem relógios
que não deixa sinais
senão nos olhos
das palavras mortais.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia V
cidade inexacta (1959-1960)
portugália
1973




07 abril 2026

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
V
 
                O ouvido vê.
Depois que aprendeu a perspectiva não se engana na diferença
entre as distâncias, distingue
o longe do perto pelo som do guizo que a mão atou na perna.
E com a bruma do olhar vai cerzindo
os vários horizontes numa linha só
sobre a qual um dia o pano irá descer.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 


06 abril 2026

mário dionísio / o riso dissonante

  
40.
 
uma cancela entreaberta
a erva pisada em volta
um cão ladrando no escuro
alguma que se passa
 
alguma coisa se passa
enquanto as rosas e os cravos cheiram
ao pé da cancela um lenço
mas felizmente sem marca
 
 
mário dionísio
poesia completa
o riso dissonante (1950)
imprensa nacional-casa da moeda
2016





05 abril 2026

manuel antónio pina / os livros

  
 
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?
 
 
 
manuel antónio pina
ruínas
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



04 abril 2026

ruy belo / o poeta num eléctrico

  
 
De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar agora após haver falado
nesse farmácia onde comprei há pouco o antiasmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso do o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim
 
 
ruy belo
nau dos corvos
todos os poemas II
assírio & alvim
2004




03 abril 2026

fernando pinto do amaral / piazza governo

  
 
Alguém tão parecido contigo. Porquê
sentar-me ali à espera que brilhasses
por interposta imagem? Não se sabe
onde começa exactamente um corpo. A água
irrompia, branquíssima de espuma,
e era ela a hipnotizar-me,
irreal e real
como a própria cidade a que chamaram
«zona de guerra» - ainda hoje lá estão
os três castelos entre ruas, praças
e essa mesma fonte: uma foca de pedra
acesa pela noite, olhando o céu,
as ingratas estrelas de setembro.
 
 
 
fernando pinto do amaral
amor hereos
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000




02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




01 abril 2026

eloy sánchez rosillo / a casa vazia



 

 
     Abre a porta e acende a luz.
                                              É muito tarde
E sabe que ninguém o espera em sua casa.
                                                               Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
                              Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
                                     Depois, ouve
enfadado uma música.
                                 Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
                             Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
 
 
 
eloy sánchez rosillo
as coisas como foram
trad. josé bento
assírio & alvim
2004
 


 


31 março 2026

rui caeiro / mas principalmente

  
 
Mas principalmente não cobiçar nada, nem sequer a paz. E à falta de melhor, viver de inquietação. Que paz seria essa afinal, a deste ou daquele?
Porque em matéria de paz, só vale a que for de ninguém, a maior de todas. Sem uma única pomba a voar no céu. A doce paz dos grandes naufrágios.
 
 
 
rui caeiro
sobre a nossa morte bem muito obrigado
baba de caracol
maldoror
2019





30 março 2026

rui coias / a função do geógrafo




 
 
2.
 
Poderás afirmar,
passageiro há muito conhecido,
que o decorrer dos anos não te enganou?
Não reparaste nas zonas extintas por que
passámos, com suas estátuas sereníssimas,
e os casais fingindo-se dormitar ao sol?
Vê como já não falam e balançam os braços
como quando davam passeios nos parques,
decifrando a botânica,
regressando depois a casa demoradamente.
Será simples e calada assim a morte – e
que só é ordenado que afaguemos, após o labor,
os cabelos escorridos de nós mesmos
como a nossos pais?
E assim nos amemos nas
cidades desfeitas
arrependidos de não ouvirmos quem nos avisou?
 
 
 
rui coias
a função do geógrafo
quasi edições
2000
 
 
 
 

29 março 2026

rui knopfli / café de penumbra

  
 
Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.
 
Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.
 
Na mesa dos fundos, sob o claro
Quadrilátero da janela – e para nossa
edificação – um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.
 
 
 
rui knopfli
roteiro
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional -casa da moeda
1982
 



28 março 2026

rui lage / corvo

  
 
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
 
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada
inútil protesto
de utilíssimo nada.
 
 
 
rui lage
corvo
quasi
2008
 




27 março 2026

rui nunes / vésperas da guerra

  
 
a pena desenhou os cavaleiros e simulou
a paz do seu afastamento. Na mesa, o herbário
mostra a corriola; do claustro vem o movimento
da roldana, o som dos pingos de água
a caírem no poço. Esta é uma sede amável:
os lábios entreabrem-se ao sorriso e alguém diz:
a guerra escreve-se
escreve-se o nome de Deus
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



26 março 2026

jorge reis-sá / vou para casa, mãe

 



 
Vou para casa, mãe. As ramadas estão à espera
dos meus passos. Sei que me aguardas entre o tanque
e a roupa que entardece ao secar – o sol a expirar
 
 
e a dizer: vou para casa.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008



25 março 2026

joaquim pessoa / apenas caminhar

  
 
Morder este frio passar esta tarde
com os dentes cerrados corpo mudo.
Pisar um chão de cores arrumadas
entre o fácil calcário dos lancis.
 
Resvalar pelo tempo arremessado
contra a dura fronteira destes passos
e levar um outro livro sob o braço
repetindo até ao sangue outras palavras.
 
 
 
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982




24 março 2026

gonçalo m. tavares / a guerra

  

O zero entre os números, é de longe o mais estável;
no entanto, o mundo prossegue.
Como o fim de uma coisa, de um objecto
ou de uma guerra: os homens querem esquecer e
não têm projectos: limpam o sangue de cada fio de erva
como as empregadas domésticas dedicadas
fazem ao pó dos seus livros.
Mas ninguém é tão paciente ou corajoso que consiga
Limpar ao pormenor os mortos e os seus vestígios no espaço.
Ficam sempre coisas, mudas e ruidosas,
que testemunham um peso. Ali, a vida foi violenta demais
para a carregares: eis uma descrição possível
para o abandono da mulher que amas.
Como vês nem sempre a causa é a traição habitual: por vezes
os homens chegam tarde à esposa
porque morreram numa batalha. Se ligares a televisão
ainda vais a tempo de escutar
os comentários de um general que estudou em Londres
                    e é muito inteligente.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 

23 março 2026

antónio josé forte / este cérebro…

  
 
Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar
 
 
 
antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003




22 março 2026

nuno júdice / o lugar das coisas

 
 
 
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
 
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
 
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
 
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
 
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
 
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele e as possamos ver nos seus lugares.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 




21 março 2026

gastão cruz / o tempo anterior

  
 
Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na
 
água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci
 
mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço
 
 
gastão cruz
as pedras negras
os poemas (1960-2006)
assírio & alvim
2009





20 março 2026

pedro tamen / só me separa intenso do que foge

 
 
 
Só me separa intenso do que foge
pelo meio dos fumos e das micas
a bala que me apontes e se aloje
onde resido eu, e tu te ficas:
 
nesse lugar de goma almiscarada,
e mascarada (que não é possível
de modo outro ser-se), tu, a fada
de cor e pele e carne mais doível,
 
ergues a mão de lacre no que sou
e tocas essa vara, vime e lenho
no que passar, ou passe, ou já passou
 
– e assim é que me perco e que me ganho,
pois que por ti tudo o que tenho dou,
pois que de ti o que te dou retenho.
 
 
 
pedro tamen
os quarenta e dois sonetos (1973)
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




19 março 2026

manuel cintra / tinha filhos escondidos

 
 
 
Tinha filhos escondidos
Nos olhares plantados entre os filhos
Dos outros
 
 
E se nessa época o ar fosse fértil,
Caramba,
Muito o havia de emprenhar.
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981




18 março 2026

adília lopes / para escrever

 
 
 
1
 
Para escrever
é preciso
ter pouco
que fazer
 
(tirando
esta quadra
não consegui hoje
escrever mais nada)
 
 
2
 
Quando a vida
é madrasta
a arte
não basta
 
(entre pato e peru
este bicho
cruza-se comigo
no Campo Sant’ Ana
Eva não faria melhor
do que eu
ao mundo para quadro de Isabelino
nada lhe falta, Rosa Alice)
 
Para escrever
é preciso
dinheiro
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
versos verdes (1999)
assírio & alvim
2021




17 março 2026

albano martins / o mesmo nome

 
 
 
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
 
 
 
albano martins
por ti eu daria
o mesmo nome (1996)
glaciar
2021
 




16 março 2026

cristovam pavia / improviso aos poetas

 
 
 
Ó mastigadores do mundo:
Nas vossas veias de suba,
Nos vossos olhos se transmude,
Pelos vossos lábios se exprima…
Vós o desflorais tão dentro,
Com uma angústia tão profunda!:
Parece o corpo da amada
E é terra que se ilumina.
 
 
 
cristovam pavia
poesia
dom quixote
2010
 
 


15 março 2026

fernando namora / identificação

 
 
Não sei se conhecem
a lucidez de quando
a loucura se aproxima
e a sentimos no estalar
dos ossos.
Já não demora
o fatal amplexo,
ei-lo no sue gélido pacto
com o que dentro de nós
se despede
para ser sacrificado
ao alívio de o deixar.
 
 
 
fernando namora
nome para uma casa
livraria bertrand
1984
 




14 março 2026

antónio osório / catorze de março

 
 
 
Catorze de Março, dia de teus anos.
Nascentes cachos de uva, glicínia,
vestígios da olaia, multidões de ervas.
Mondo as primeiras sobre a sepultura
e custa fazer-lhes mal, tocar-te.
Em torno pinheiros e colinas levedam
a primavera. Entre canteiros correm
dois rapazes, sua avó varre a meseta
daquele corpo ao lado do teu.
Leio: piloto. Nunca o viste. Sem bússola.
Plâncton, ambos, no mar desconhecido.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
os cavalos de tróia
editorial presença
1982
 



13 março 2026

cesare pavese / paisagem II

 
 
 
Com o céu estrelado, a colina branqueja, de terra desnudada;
poder-se-iam ver os ladrões lá no alto. Na cova do vale
os bardos estão todos na sombra. Lá em cima também os há,
mas é terra de quem não precisa, aí não vão eles:
cá em baixo, na humidade, com a desculpa de andarem às trufas,
entram nas vinhas e roubam as uvas.
 
O meu velho deu com dois engaços caídos
entre as cepas e esta noite até ferve. A vinha já é pouca:
dia e noite na humidade, só nascem folhas.
Entre as cepas, vê-se sob o céu a terra desnudada
que de dia lhe rouba o sol. Lá em cima o sol queima
do nascer até se pôr e a terra está calcinada: vê-se mesmo de noite.
Lá não nascem folhas, a força vai toda para as uvas.
 
Apoiado a um bordão, na erva milhada, o meu velho
tem tremuras na mão: se os ladrões vêm esta noite,
salta do meio dos bardos e dá-lhes cabo do canastro.
A essa gente há que dar-lhes sem piedade, como animais,
que não hão-de ir contar. De vez em quando levanta a cabeça
cheirando o ar: parece-lhe que lhe chega, no escuro,
uma ponta de cheiro a terra, trufas arrancadas.
 
Nas encostas altas, que se estendem até ao céu,
não há sombra das árvores: os cachos arrastam-se pela terra,
tanto é o peso. Não se podem esconder:
distinguem-se lá no alto as manchas das árvores,
negras e escassas. Se tivesse a vinha lá em cima,
o meu velho esperá-los-ia de casa, na cama,
de espingarda apontada. Aqui no fundo nem sequer a espingarda
serve para alguma coisa: no escuro só há folhagem.
 
 
 
cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997
 



12 março 2026

josé emílio pacheco / aguarela

 
 
 
O ar sangra sobre a cidade,
leve pomba que o falcão trespassa.
 
Não é ainda noite e o céu
cerrado está como em tormenta. Répteis
abandonam as suas tocas
com o medo feroz às costas.
 
Mas não passarão.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



11 março 2026

leopoldo maría panero / saint malcolm parmi les oiseaux

 
 
 
 
                                                                    Ao álcool
 
 
 
Quem grita, vingativo, no palácio sem nome,
quem grita, quem me força a viver como seu
látego estalando todos os dias nas minhas costas,
quem senão esta
perpétua tentação para… a dor do nada,
desta morte que convida, esta
perpétua obsessão de sofrer por nada, pelo
que não tem valor, e pelo que não é
esta morte, e esta
doce dor para ninguém e para todos,
esta doce dor como um pecado.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019
 




10 março 2026

andrea cohen / aquilo que se

 
 
 
Aquilo que se
pode matar com
 
uma mão não
se pode – com
 
um milhar
de mãos –
 
reaver.
 
 
 
andrea cohen
serenamente sobre as lanternas
trad. francisco josé craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2024




09 março 2026

alejandra pizarnik / árbol de diana

 
 
               
6
 
ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o feroz destino
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
árbol de diana (1962)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 


08 março 2026

aleksander kushner / a história não nos ensina nada

  
 
A história não nos ensina nada,
Mas, como um historiador disse uma vez – e não
Há razões para não acreditarmos nele  - por não a
                                                     conhecermos,
A história castiga-nos.
Não ensina, castiga. Olhos
E mais olhos é do que precisamos, e de prestar atenção.
 
Mais que uma preceptora
Ela é uma professora primária. Tantos temas terríveis
Nos seus manuais, nas suas crónicas…
Mas nós, sabes, não somos assim tão grandes.
Somos, sim, teimosos, de acordo
Com as palavras iniciais da desgastada professora:
“Pensem, está bem. sentem-se. Não se mexam.
                                               Escrevam isto.”
No fundo da sala, sonhamos com notas satisfatórias.
 
 
 
aleksander kushner
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 


 

07 março 2026

macky corbalán / humanos

  
 
Leio-os como páginas escritas.
Atravesso os seus órgãos opacos, a sua pele,
o susceptível fio dos nervos.
É sempre o mesmo, em cada época:
rixas, acordos e desânimo. Mas há uma coisa
que eu não entendo: essa obscura,
repentina agitação
quando recordam.
 
 
 
macky corbalán
por alguma razão
antologia de poesia argentina
selecção e tradução de hugo miguel santos
contracapa
2024


06 março 2026

lawrence ferlinghetti / que podia ela dizer

  
 
7
 
Que podia ela dizer ao ursinho maravilha
e que podia ela dizer ao seu irmão
e que podia ela dizer
                              ao tipo com os pés virados para o futuro
que podia ela dizer à mamã
depois daquela vez que se deitou tão tesa
                                                             entre as flores de rebuçado
               naquela soalheira margem de um rio
                         onde pendiam fetos no ar recortado
                                   da respiração do amante
          e os pássaros enlouqueceram
                                               e atiraram-se das árvores
  para provar ainda quentes no terreno
                                                      as sementes dispersas de esperma
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



05 março 2026

john ashbery / decisões loucas

  
Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.
 
De noite soltaram-se as amarras
Ao romper do dia tinham desaparecido.
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.
 
Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante…
Uma vista do parque de estacionamento.
 
Algumas frequências
Ainda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou
A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992





 

04 março 2026

john freeman / rua 28

  
 
Todos aqueles anos em que vivemos
nas traseiras da florista, quando era hábito acordar
cedo para me pôr à janela a ver
homens de camisolas vermelhas a empurrar
carrinhos de hidrângeas, paletes de tulipas
da Holanda, ranúnculos
rosa-velho, magotes de jacinto
amarelo, uma fúria de cor debaixo
de lâmpadas de halogéneo ainda antes
das seis. Os donos dos restaurantes com
os seus casacos de pele pretos que chegavam
antes da alvorada obrigados a assistir como
cortesãos à passagem da beleza, aguardando
que esta se aprontasse enquanto do outro lado
da rua, no parque de estacionamento, não era raro
haver alguém, nas calmas, a mijar.
 
 
 
john freeman
mapas
trad. miguel cardoso
tinta da china
2019
 


03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999
 



 

28 fevereiro 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
7
 
tingir a ponta dos dedos e do sexo
na tinta permanente dos corpos… desejar-te
de olhos fechados sentado num jardim público
 
de vez em quando
sublinhar determinadas palavras que se confundem ao mel
escutar atentamente o latejar fogoso da terra… sentir
os escaravelhos enrolarem excrementos verdes
junto ao rumor imperceptível das casas desabitadas
 
ler apressadamente um jornal ou uma carta esquecida
escrever um bilhete postal:
 
                Cheguei bem. escrevo-te um dia destes
 
recolher folhas secas delgadas hastes quebradas
pedaços de musgo para uma insuspeita colecção
minúsculos lamentos escondidos pelos bichos
no jardim… perseguir um cão sem rumo que te recorda
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 




27 fevereiro 2026

daniel faria / a criança fecha os olhos no muro

  
 
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
 
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
 
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
 
 
 
daniel faria
poesia
das inúmeras águas
quasi
2003




 

26 fevereiro 2026

fiama hasse pais brandão / ermo

  
 
Esta onda recua deixando-me
presa ao mar pelo cheiro das marés.
Sentir como um elemento natural
se junta a outro numa só imagem.
Correr pelo declive atrás dos pequenos rolos
de espuma infantil e subir
como que empurrada pela leveza.
Ter surpresa e terror
e ontologicamente transformá-los um dia
numa erma visão, essência do verso.
 
 
fiama hasse pais brandão
eremitério
obra breve, poesia reunida
assírio & alvim
2017



25 fevereiro 2026

fernando alves dos santos / irmão

  
De Espanha me chama meu irmão,
chamamento andaluz
que vem de Leão.
 
A voz aranha do meu quintal
se enleia esbelta
no frágil pardal.
 
Baixelas de prata da solidão
das margens do rio onde sou delta
e sou irmão.
 
 
 
fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005
 



24 fevereiro 2026

henrique risques pereira / o tempo passa rápido

  
 
O tempo passa rápido entre as coisas não esquecidas
e tudo volta ao sonho que está ao meu lado
sombra maligna que se espalha por galáxias distantes
estranhos espaços
cores esvoaçantes
tudo impreciso
suspenso
sem memória
sem vida.
 
 
 
henrique risques pereira
transparência do tempo
(poesia)
edição de perfecto e. cuadrado
quasi
2003




23 fevereiro 2026

fátima maldonado / nocturno

  
 
Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, as folgas da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes,
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
 
 
 
fátima maldonado
os presságios
os encontros
editorial presença
1983
 




22 fevereiro 2026

álvaro de campos / quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?

  
 
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
 
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.
 
Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?
 
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.
 
Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.
 
Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!
 
28-10-1924
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010
 
 
 
 


14 fevereiro 2026

marcos foz / enublado dizes

  
[…]
 
& fulmina-nos o que vem de fora
simples estados pontilham
o valado na curvatura dos crânios
exibem um rasto movediço alegram
nos enfim em trajo despreocupado;
alheios estão às nossas falhas aos
destroços da caravela do prometido
anseio engarrafado fora do
alcance da decomposição natural
neste mundo de bicos garras ciladas
mais justo afinal que o esfarelar
da prosa e o esgotamento em verso;
o quê quem pontas celestes por
resolver no relatório do não-suicidado:
as lanças darão floresta, um estandarte
o sol, e o céu – acampamento, inspirado
fôlego imprevisto – de empréstimo
em empréstimo, de fevereiro a fevereiro,
nozes espalhadas fazendo obséquio
longe do texto junto à corrente do reanimado
por entre pequenas mazelas empele amorenada
as falanges esforçadas no quebrar –
desanuviado gostaria de ser,
neste exacto ponto, não pela estaca;
pelo segredo da vida – estão a ver?
 
[…]
 
 
 
marcos foz
enublado dizes
edição do autor
2024