27 maio 2026

adam zagajewski / lá onde a respiração

  
 
Está só em cena
e não tem nenhum instrumento.
 
Coloca as mãos sobre o peito,
lá, onde nasce a respiração
e onde se extingue.
 
Não são as mãos a cantarem
nem o peito.
 
Canta o que está calado.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017




26 maio 2026

adonis / espelho do carrasco

  
 
– Dizes tu que és poeta?
 
De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce.
 
Carrasco, ouves-me?
Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo
 
A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo
 
Disseste que és poeta?
 
 
 
adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016
 




25 maio 2026

ángél gonzález / outras vezes

  
 
Queria estar noutro sítio,
melhor, noutra pele,
e averiguar se dali a vida,
pelas janelas de outros olhos,
se vê assim grotesca em certas tardes.
 
Gostava muito de conhecer
o efeito abrasivo do tempo noutras vísceras,
confirmar se o passado
impregna os tecidos com o mesmo sumo amargo,
se todas as lembranças em todas as memórias
libertam este cheiro
a fruta murcha e a jasmim podre.
 
Desejaria fitar-me
com as duras pupilas de quem mais me odeia,
para que assim o desprezo
destruísse os despojos
de tudo o que o esquecimento não há-de enterrar.
 
 
ángél gonzález
para que eu me chame ángel gonzález
uma antologia
selecção e tradução de miguel filipe mochila
língua morta
2018





 

24 maio 2026

anna akhmatova / no quadragésimo ano

  
 
3.
 
SOMBRA
 

                                                   Que sabe certa mulher
                                                           Sobre a hora da morte?
 
                                                                     O. Mandelshtam


 
Sempre mais elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura – tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me, mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti – bela de 1913 –
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar… Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
 
9 de Agosto de 1940. De noite.
 
 
 
anna akhmatova
poemas
trad. joaquim manuel magalhães e
vadim dmitriev
relógio d´água
2003






 

23 maio 2026

e e cummings / xix poemas

  
 
[xv]
 
quando as serpentes regatearem o direito a colear
e o sol fizer greve para ganhar o salário mínimo –
quando os espinhos olharem as suas rosas alarmados
e os arco-íris estiverem seguros contra a velhice
 
quando um tordo não puder cantar nenhuma lua nova
se todas as corujas não tiverem aprovado a sua voz
– e qualquer onda assinar sobre a linha ponteada
Senão um oceano é obrigado a fechar
 
quando o carvalho pedir licença à bétula
para criar uma bolota – os vales acusarem as suas
montanhas de terem altitude – e março
denunciar abril por sabotagem
 
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal(e não antes)
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998



 

22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026
 



21 maio 2026

denise levertov / uma nova flor

  
 
Quase todas as vivas pétalas do girassol
tinham caído, então arranquei as poucas
que faltavam e encontrei-me
com uma nova flor: o centro,
redonda almofada escura
da cor de café torrado, tocada de inúmeras
ínfimas florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e brilhante amarelo,
e à volta um verde anel, as pétalas
por sob as pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a forma de chamas sagradas
as folhas de figueira dos pagodes,
forma lúdica, jubilante
(subestimada em padrões Paisley)
e a luz vindo por entre elas, de modo que
quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo
de anjos da Renascença, se sobrepunham,
havia sombra, um tom mais denso
do mesmo verde de rebentos – uma nova flor
neste dia de outono, revelada
no outono da sua própria floração.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021


20 maio 2026

fiama hasse pais brandão / campo de refugiados

  
 
A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?
 
 
 
fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002




19 maio 2026

josé miguel silva / conclusão

  
 
E eu que já fui a infância benigna,
o pão com geleia, a cara lavada,
o jovem galante de ganga feliz,
semi-penteado, tonto de Maio,
 
perdi-me em desvãos que não quero lembrar,
por uma doença chamada senão
e tudo cedi, raízes e ramos,
como se a nada pudesse falar.
 
Passaram os anos mas não a tristeza,
passaram os golpes, não o cuidado.
Praias de brita, rios de breu.
Por pouco não tive que me chatear.
 
Cheguei até aqui com a falta de dentes,
ombros de sal, futuro fanado,
e mesmo se isto parece um lamento,
de nada me queixo – sobrevivi.
 
Amigos alguns, mortos também,
versos de vidro ferindo-me os pés,
os olhos amados, a sorte no corpo.
O resto é ruído, inferno de sobra.
 
Com quatro cadeiras e um lenço na mão,
já faço um batel para as ondas levarem.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014





18 maio 2026

diogo vaz pinto / do trono espinhoso destas horas


 

Do trono espinhoso destas horas
elevei o meu silêncio até dele
se ouvirem campos de trigo
num rés-do-chão em Campolide,
o vento ferido cortando caminho,
um zumbido que houvesse virado navios
e o mar depois calmo exibindo
cicatrizes antigas. As mãos no tanque,
o queixo na pedra e um suspiro
conduzindo as folhas, como cadáveres
flutuando de sorriso na cara.
 
A noite treme nos seus sonâmbulos afazeres,
persegue sombras de estrelas há muito sumidas,
abrindo os contornos de quem somos
no limite da nossa obscuridade.
 
Tudo contido, tudo transborda.
Beberei das próprias palavras,
dolorosamente cercado,
um universo à parte, outras vistas.
No mais, passar ao largo,
perdido numa cadeira de balanço
com as mãos cerradas no colo,
contando os dias,
até que olhar seja desmoronar-se.
 
 
 
diogo vaz pinto
aurora para os cegos da noite
maldoror
2020



 

17 maio 2026

vitorino nemésio / canção à maneira e à memória de antónio boto

  

Ai, restos de António Boto,
Canção de veludo tinto
Em caixa de zinco estreito:
Não somos nada no mundo!
Digo-o e pareço que minto
Se desta ilusão me enfeito
Pensando ter a valia
De quem canta perdoando
Ou chora para salvar
Um viver à revelia
Que destino miserando,
Como casca, atira ao mar.
 
Ai, chapéu de António Boto,
Cortina de disfarçar
Sentimentos proibidos,
Quem sabe até se fingidos
Prà triste vida ganhar?!
 
Pobre camarada altivo
Com fraquezas de tostão
E ar de pirata cativo
No reino da solidão,
Enterrado na tristeza
Com velas da sua altura
Pingando amor e a nobreza
De alguma palavra pura!
 
Da terra pátria esquecido
Como o marinheiro novo
E a gaivota horizontal,
Acabando adoecido
Por fadário do seu povo
Numa enxerga de hospital!
 
Ai, triste de António Boto,
Se assim não foi, não faz mal,
Que maior glória não vejo
Para um poeta, em Portugal!
 
Desviado adolescente
Como niño só deixado
Por mãe de quem tanto gosta:
Entornou-se o candeeiro,
Julga-se cravo de aposta
Nas cinzas do pardieiro!
 
Ai, pobre de António Boto
Tão dandy naquele Chiado!
Antes sujinho, antes roto
Que suspeito condenado!
 
Roxo de rosas salobras
E de chagas procuradas:
Eis o salário que cobras
Nas salas abandonadas
Por galãs entontecidos
De princesas fastientas:
Sorrisos compadecidos
Na vida, que lhes aguentas!
Devolvendo uma cantiga
Por cada insinuação
E pondo a faca na liga
(Nossa maior distinção
Portuguesa!...)
À que a não merece, não!
 
António Boto! A beleza
Ninguém a compra, é condão:
Durma à paz da natureza
Teu remoto coração!
 
                RIO, 23.8.1965.
 
 
 
vitorino nemésio
colóquio letras 113-114
fundação calouste gulbenkian
1990




16 maio 2026

robert walser / a meu lado

  
 
Faço a minha caminhada;
a volta é larga e traz-me
a casa; então, sem som
ou palavra, sou eu que estou a meu lado.
 
 
 
robert walser
descida brusca de temperatura
alguma poesia suíça
tradução de luís filipe parrado
contracapa
2021
 


15 maio 2026

jane kenyon / agasalhos

  
 
Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ele não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.
 
E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.
 
 
jane kenyon
trocando dólares por cêntimos
alguma poesia norte-americana
trad. luís filipe parrado
contracapa
2020




14 maio 2026

luís falcão / o táxi à espera

 


 

 
O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento
 
 
 
luís falcão
bruma luminosíssima
artefacto
2016



13 maio 2026

luís carlos patraquim / por te haver, de acesa cinza

 



 

 
Por te haver, de acesa cinza
a eléctrica luz sou
e a sombra dela.
este pendor a renúncia
do que a outros distrai
é quanto amas?
Respiramos. Em tua pele
é que singro, rasgado
grito em quilha
na areia do mundo.
 
 
 
luís carlos patraquim
morada nómada
poesia 1980-1920
língua morta
2020
 


12 maio 2026

louise glück / a íris selvagem

  
 
No fim do meu sofrimento
havia uma porta.
 
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
 
Por sobre mim, barulhos, ramos ondulantes de pinheiro.
Depois, nada. o sol fraco
a cintilar na superfície seca.
 
É muito duro sobreviver assim,
a consciência
sepultada na terra escura.
 
Depois, o fim: aquilo que se teme, ser
alma e incapaz
de falar, termina bruscamente, a terra hirta
curvando-se um pouco. E o que eu achei serem
pássaros lançando-se em voo pelos ramos baixos.
 
A vós que não recordais
a passagem do outro mundo
digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz:
 
do centro da minha brotou
uma fonte fresca, sombras
em azul profundo sobre o azul da água do mar.
 
 
 
louise glück
a íris selvagem
tradução de ana luísa amaral
relógio d´água
2020




11 maio 2026

yánnis kondós / pequeno jardim zoológico

  
Teus dois pequenos seios
sorriem dentro da tarde.
Eu de noite acendo fósforos
para ver como dormem.
 
Teus dois pequenos roedores
me comem os dedos
no escuro.
 
De manhã, asas de pássaro
nas minhas mãos.
 
 
 
yánnis kondós
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
trad. josé paulo pães
assírio & alvim
2001




 

10 maio 2026

alberto caeiro / o que nós vemos das coisas são as coisas.

  
 
XXIV
 
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
 
13-3-1914
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994



09 maio 2026

ricardo reis / frutos, dão-os as árvores que vivem,

  
 
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
 
6-12-1926
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




08 maio 2026

eugénio de andrade / para onde

  
 
Apesar da luz ter já começado a roer-me os olhos, não é ainda tempo para me entregar a colecionar caixinhas de rapé ou luzes crepusculares, nem para fazer coro com essa gente do norte que recebe o nevoeiro em casa e o convida, pelo menos uma vez por semana, para jantar.
 
Desde a vulva inicial, o homem é só caminho. Para onde? Eis o que não sabemos. Mas será caso para perguntar?
 
14.1.86
 
 
eugénio de andrade
vertentes do olhar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 



07 maio 2026

pedro homem de mello / segredo

  
 
Tinha aqueles cabelos que ondulara
A ventania trágica do mar…
 
Em lhe eu falando, uma palavra clara
Era o bastante o ver corar.
 
Então, num gesto rápido, ancestral,
Pendia, logo, a boina para a fronte.
 
Se eu me calasse, ele voltava: – Conte…
(O Povo é todo assim em Portugal!)
 
Algumas vezes passeou comigo
Na praia, a horas mortas, no Verão.
 
Como esquecer, agora, o que nem digo
Ao meu desabitado coração?
 
 
 
pedro homem de mello
os poetas ignorados (1957)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983



06 maio 2026

egito gonçalves / o sistema interrogativo

  
 
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
 
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
 
 
 
egito gonçalves
o fósforo na palha (1970)
antologia da novíssima poesia portuguesa
m. alberta menéres e e. m. melo e castro
livraria moraes editora
1971
 



05 maio 2026

vasco graça moura / sequência da baleia

  
 
I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 


04 maio 2026

luiza neto jorge / as sofridas amoras

  
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
 
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.
 
 
 
luiza  neto jorge
fragmentos
poesia
assírio & alvim
1993




 

03 maio 2026

luís miguel nava / através da nudez

  
 
Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.
 
Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



02 maio 2026

billy collins / desenho

  
 
Pinceladas de tinta em papel de arroz –
uma ponte de madeira
arqueada sobre um rio,
 
montanhas ao longe
e em primeiro plano
uma árvore sacudida pelo vento.
 
Rodo o livro na mesa
para que a árvore
fique inclinada para a tua aldeia.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023




01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



30 abril 2026

jack gilbert / o vale abandonado

  
 
Sabes o que é estar sozinho por tanto tempo
que sais a meio da noite
e enfias o balde no poço
só para sentires algo lá em baixo
a puxar a outra ponta da corda?
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




29 abril 2026

paul éluard / enterrar y callar

  
 
Irmãos esta aurora é vossa
Esta aurora à flor da terra
É a vossa derradeira aurora
Deitastes-vos nela
Irmãos esta aurora é nossa
Sobre este abismo de dor
 
E de cor e de cólera
Irmãos convosco contamos
Nós queremos eternizar
Essa aurora que partilha
A vossa sepultura preta e branca
A esperança e a desesperança
 
O ódio saindo da terra
E combatendo pelo amor
O ódio na poeira
Tendo satisfeito o amor
O amor brilhando em pleno dia
Sempre vive a esperança em terra.
 
 
 
paul éluard
a cama a mesa
tradução de luís lima
barco bêbado
2021




28 abril 2026

heiner müller / vaso coronário

  
 
O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes
 
 
 
heiner müller
poemas (1949-1995)
trad. adolfo luxúria canibal
oficina noctua
2021




 

27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




26 abril 2026

miguel-manso / campéstico, paisagens e interiores

  
40
 
escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais
 
não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer
 
corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer
 
 
miguel-manso
persianas
tinta da china
2015
 



25 abril 2026

jorge de sena / «quem a tem…»



 

 
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
 
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
 
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade
 
 
 
jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







 

24 abril 2026

josé carlos ary dos santos / retrato do herói

  
 
Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar     de morte certa.
 
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome     fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica aberta.
 
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo     nem mártir     nem soldado
Mas apenas     por último     indefeso.
 
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro     e fica ileso
pois lutando apagado     morre aceso.
 
 
 
ary dos santos
fotos-grafias (1970)
ary, obra poética
edições avante!
2017





 

23 abril 2026

mário-henrique leiria / última solidão

  
  
 
distante
mais distante
que a nuvem mais remota
está agora
a tua voz amor
a tua voz que um dia
um dia que já esqueceste
me falou de nós
me disse que seríamos
só um
que seríamos para sempre
como o dia e o sol
agora amor
exactamente neste momento
perdido na noite solitária
oiço apenas o eco
do que disseste
recordando a luz perdida
dos teus olhos
enquanto meus lábios
sangram
amargos
ouve amor
ouve em silêncio
este último grito
que
como um sonho perdido
vai desaparecendo ao longe
pela noite
pela solidão
ouve-o amor
ouve-o em silêncio
nunca o esqueças
com ele vão os meus olhos
com ele vai a recordação
das minhas mãos
que uma vez
foram tuas
ouve-o amor
ouve-o em silêncio…
 
 
 
mário-henrique leiria
obras completas
poesia
e-primatur
2018
 



22 abril 2026

konstantinos kaváfis / o deus abandona antónio

  
 
Se, abruptamente, à meia-noite ouvires
um tíaso invisível a passar,
com músicas divinas e algazarra –
a tua fraca sorte, as tuas obras
frustradas, os teus planos que afinal
eram miragens, não os lamentes em vão.
Como se há muito pronto, como um bravo,
despede-te da Alexandria que te foge.
E, sobretudo, não te enganes, e não digas
que te mente o ouvido; não consintas
albergar essas ocas esperanças.
Como se há muito pronto, como um bravo,
como cabe a quem merece tal cidade,
vai, chega-te à janela resoluto
e ouve com emoção, mas não com
os prantos e protestos cobardes,
num último deleite, os sons lá fora,
a divina toada do cortejo oculto e
diz adeus à Alexandria que vais perder.
 
1911
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017




21 abril 2026

juan luis panero / mensagem de cleópatra a antónio

  
 
            II
 
Não teças louvores à minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelas costas,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, o teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai com coragem – Kavafis já o escreveu –
nesse poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003
 

20 abril 2026

juan luis panero / mensagem de antónio a cleópatra

  
 
            I
 
Outros teçam louvores
à tua adormecida beleza,
à suavidade da tua pele em repouso,
à medida perfeição dos teus membros.
Eu não vim a isso,
vim apenas para te penetrar
pelo peito e pelas costas,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se afunda e se perde
no poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003




19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

18 abril 2026

maria do rosário pedreira / bárbaros

  
 
Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem mais cedo.
 
Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam
ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram
mais longe do céu.
 
Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.
 
De manhã, a planície estava ainda mais plana.
 
 
 
maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002
 

17 abril 2026

maria alberta menéres / canção antecipada

  

Talvez não saiba esperar.
Talvez impacientemente
eu force as horas e os dias,
as horas e os leves anos
para um mar de lentidão.
Talvez na certa intenção
de os afogar de repente
e ficar livre boiando,
talvez ainda esperando
o que não saiba esperar.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 

16 abril 2026

maria teresa horta / encontro

  
 
silenciosamente diremos
amanhã
 
nas cidades os jardins
são abertos
ao céu
 
na noite
os joelhos do oceano
perturbam as árvores
 
caminhar é palavra
de existir
durante a madrugada
 
gritaremos de sol
com as mãos
e com os ombros
 
país onde
os homens são raros
com silêncios grandes
 
é a pausa dos objectos
é o nosso encontro
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
cidadelas submersas
dom quixote
2009
 





15 abril 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
 
192
 
«De onde vêm todas as nossas vidas?», é a pergunta
De quem escreve. Nesse «nossas» tanto pode esconder-se
Uma pergunta inquietante como jorrar uma fonte de
Prazer inaudito como alguém que senta ao colo o seu
Exterior. O verso ao bater no reverso pode realizar
Uma simples fotogramassíntese irreversível. É, assim,
Mário. Nada de meios complicados.
E para lhe fazer compreender como o encadeado dos elos
É mais forte do que o encadeamento das acções, dou-lhe
O exemplo da rapariga que temia a impostura da língua ______________
Anda em Campo de Ourique a passear na mira de comprar
Uma saia para levar ao mar. passa, por acaso, diante de
Uma loja. Na montra, vê cadernos de folhas soltas, mais
Baratos e, sobretudo, mais aptos para a escrita que
Procura. Entra e compra-o.
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 

14 abril 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
310
 
É Primavera. No jardim do palácio pairam nuvens de sementes aladas. Enchem o ar, batem-nos no rosto, infiltram-se na casa. São belas, quase brancas, estas aéreas naves persistentes. Rolam pelo chão em pequenos novelos ocos e levíssimos. Caindo no lago em massa são mantos de espuma que o vento arruma. Olho calada toda esta vida prometida que se afoga.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006
 


13 abril 2026

pertti nieminen / nestes tempos

  
 
Nestes tempos
nestes tempos de consenso
que ensinam ao pobre
                a amar o rico
                ao dirigido a amar o dirigente
                ao espancado a amar o espancador
                e a todos nós humildade,
                obediência e submissão
ante o poder e a força e a honra:
nestes tempos
faz falta um destruidor,
precisam-se de milhares, dezenas de milhar
de sérios e honrados
iconoclastas
 
Não amo o rico,
só amo os pobres.
Nós não obedecemos
ao poder nem à força nem à honra:
nem separados, nem tão pouco juntos,
nem sequer mutuamente.
 
Vaikka aammum on vicla aikka, 1989
 
 
 
pertti nieminen
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021
 




12 abril 2026

amalia bautista / as regras do jogo

  
 
Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
 
 
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021





11 abril 2026

álvaro de campos / a clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

  
 
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
 
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
 
29-1-1933
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 abril 2026

jorge luís borges / não és os outros

  
 
Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. e és cada solitário instante.
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a moeda de ferro (1976)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




09 abril 2026

francisco brines / apontamento de viagem

  
 
                                        (De automóvel)
 
 
     As janelas reflectem o fogo do poente
e flutua uma luz cínzea que chegou do mar.
Quer ficar dentro de mim o dia que agoniza
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
 
     E Quem há que me olhe e que possa salvar-me?
A luz tornou-se negra e apagou-se o mar.
 
 
francisco brines
a última costa
trad. josé bento
assírio & alvim
1997



 

08 abril 2026

josé gomes ferreira / cidade inexacta

  
 
XXIX
 
O segredo
está em não deixar o tempo devorar-me,
mas devorá-lo eu
com dentes de terra
e medo.
 
Mastigar tudo,
as sombras, as bocas,
as pedras,
o céu,
os ossos pendentes das caras
e as deusas a cavalo
– patas nas searas,
crinas de faúlhas ao vento…
 
Devorar o tempo sem relógios
que não deixa sinais
senão nos olhos
das palavras mortais.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia V
cidade inexacta (1959-1960)
portugália
1973




07 abril 2026

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
V
 
                O ouvido vê.
Depois que aprendeu a perspectiva não se engana na diferença
entre as distâncias, distingue
o longe do perto pelo som do guizo que a mão atou na perna.
E com a bruma do olhar vai cerzindo
os vários horizontes numa linha só
sobre a qual um dia o pano irá descer.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 


06 abril 2026

mário dionísio / o riso dissonante

  
40.
 
uma cancela entreaberta
a erva pisada em volta
um cão ladrando no escuro
alguma que se passa
 
alguma coisa se passa
enquanto as rosas e os cravos cheiram
ao pé da cancela um lenço
mas felizmente sem marca
 
 
mário dionísio
poesia completa
o riso dissonante (1950)
imprensa nacional-casa da moeda
2016





05 abril 2026

manuel antónio pina / os livros

  
 
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?
 
 
 
manuel antónio pina
ruínas
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



04 abril 2026

ruy belo / o poeta num eléctrico

  
 
De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar agora após haver falado
nesse farmácia onde comprei há pouco o antiasmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso do o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim
 
 
ruy belo
nau dos corvos
todos os poemas II
assírio & alvim
2004




03 abril 2026

fernando pinto do amaral / piazza governo

  
 
Alguém tão parecido contigo. Porquê
sentar-me ali à espera que brilhasses
por interposta imagem? Não se sabe
onde começa exactamente um corpo. A água
irrompia, branquíssima de espuma,
e era ela a hipnotizar-me,
irreal e real
como a própria cidade a que chamaram
«zona de guerra» - ainda hoje lá estão
os três castelos entre ruas, praças
e essa mesma fonte: uma foca de pedra
acesa pela noite, olhando o céu,
as ingratas estrelas de setembro.
 
 
 
fernando pinto do amaral
amor hereos
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000




02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




01 abril 2026

eloy sánchez rosillo / a casa vazia



 

 
     Abre a porta e acende a luz.
                                              É muito tarde
E sabe que ninguém o espera em sua casa.
                                                               Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
                              Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
                                     Depois, ouve
enfadado uma música.
                                 Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
                             Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
 
 
 
eloy sánchez rosillo
as coisas como foram
trad. josé bento
assírio & alvim
2004
 


 


31 março 2026

rui caeiro / mas principalmente

  
 
Mas principalmente não cobiçar nada, nem sequer a paz. E à falta de melhor, viver de inquietação. Que paz seria essa afinal, a deste ou daquele?
Porque em matéria de paz, só vale a que for de ninguém, a maior de todas. Sem uma única pomba a voar no céu. A doce paz dos grandes naufrágios.
 
 
 
rui caeiro
sobre a nossa morte bem muito obrigado
baba de caracol
maldoror
2019





30 março 2026

rui coias / a função do geógrafo




 
 
2.
 
Poderás afirmar,
passageiro há muito conhecido,
que o decorrer dos anos não te enganou?
Não reparaste nas zonas extintas por que
passámos, com suas estátuas sereníssimas,
e os casais fingindo-se dormitar ao sol?
Vê como já não falam e balançam os braços
como quando davam passeios nos parques,
decifrando a botânica,
regressando depois a casa demoradamente.
Será simples e calada assim a morte – e
que só é ordenado que afaguemos, após o labor,
os cabelos escorridos de nós mesmos
como a nossos pais?
E assim nos amemos nas
cidades desfeitas
arrependidos de não ouvirmos quem nos avisou?
 
 
 
rui coias
a função do geógrafo
quasi edições
2000
 
 
 
 

29 março 2026

rui knopfli / café de penumbra

  
 
Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.
 
Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.
 
Na mesa dos fundos, sob o claro
Quadrilátero da janela – e para nossa
edificação – um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.
 
 
 
rui knopfli
roteiro
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional -casa da moeda
1982
 



28 março 2026

rui lage / corvo

  
 
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
 
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada
inútil protesto
de utilíssimo nada.
 
 
 
rui lage
corvo
quasi
2008