21 outubro 2026

margaret atwood / suite do plasticeno

  
 
5. apontamentos editoriais

 
Um apontamento poderia ser (disse ela)
para recuar um pouco
da exortação do desespero
 
Em vez disso (disse ela)
tentar providenciar
uma experiência com
 
compreensão do humano
o humano (disse ela) impacto
o jacto humano
 
depois deixar as pessoas
deixar as pessoas virem
deixar as pessoas virem a ter as suas próprias
 
conclusões.
Ter as suas próprias conclusões.
Disse ela:
 
Há algum perigo nisso.
 
 
 
margaret atwood
afectuosamente
trad. joão luis barreto guimarães
bertrand editora
2021




20 outubro 2026

eva gerlach / dos seus mínimos vestidos

 


 

 
Dos seus mínimos vestidos vejo-a levitar
muito por cima do horizonte.
Prende as árvores como se fossem molas de roupa,
as terras e os prados caem com a corda
em finas dobras nos meus olhos.
 
Enquanto imóvel a vejo desaparecer,
por entre nuvens recolho os secos
campos nos meus braços, para os separar.
 
 
 
eva  gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994
 




19 outubro 2026

fernando pinto do amaral / sete degraus para a escada de jacob

  
 
3
 
«Tudo consigo arrasta o ano breve»
em doces labaredas. Cada dia
uma talvez-infância recuperando
as ilusões dos deuses, o enigma
de sermos sem fonteiras. Sonolentos,
abrimos cem caminhos, cremos nosso
o verde ainda húmido nas folhas,
o rápido cenário que nos leva
em troca de palavras, hesitantes
irmãos de toda a sombra, repetindo
o mais secreto nome. Quem engana
o vento pelas ruas?, quem semeia
segredos rente às horas vegetais
enquanto a chuva próxima dissolve
a cor de cada rosto? Vai ser noite
pra muita gente igual, um só momento
de responder ao céu. Como sabemos,
a terra fala em gritos inesperados
e o coração foge, não adianta:
as memórias apagam-se, ninguém
capaz de renascer-me. Ao som dos cães
volteiam os morcegos – como eu,
são náufragos de luzes invisíveis
cercando a madrugada, o seu desejo,
a sua amarga sede, o puro álcool
de tão cruel beleza! assim voltamos
ao fogo de mil sóis, assim revemos
o tempo e seus inúmeros perfis,
invulneráveis olhos sem sentidos
e a máquina das vozes orquestrando
felizes brownianos movimentos
de todo o quase-nada respirando
connosco, sem razão. As bocas ardem
na íntima loucura de sentirem
mover-se o labirinto, mas o fumo
dissipa as vãs auréolas, anuncia
a mão que escreve, o sangue, a boca anónima
guiando-nos a vida: «um pobre rio
que negro mar com altas ondas bebe.»
 
 
 
fernando pinto do amaral
sete degraus para escada de jacob
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000



18 outubro 2026

sebastião belfort cerqueira / vento

  
 
Já ninguém ouve o vento
Mas se ouvisse
O que é que nos salvava
Se um só vento forte
Se o mesmo vento norte
Varresse o vale de vida
E nos mentisse?
 
 
 
sebastião belfort cerqueira
está um dia lindo
edições sempre-em-pé
2021
 


17 outubro 2026

josé carlos barros / as primeiras coisas

  
 
Em seu redor tudo era como se começasse
sempre. Chegava habitando um ar onde
as abelhas pela tarde entravam já
exaustas do seu exame de pólen, e abria
as mãos até que a noite adormecesse
nas suas margens fatigadas. Quem aprendeu
com a madrugada a subir os degraus do
mundo, talvez uma ou outra vez com ela
e seu comum de amor ousasse repetir as
duas ou três sílabas da alegria frágil
dos vidoeiros, o pólen ainda luzindo
nos lábios, à beira do rio. Mas eu
falava era dos seus olhos, das suas pálpebras
inexperientes em respirar com a água.
 
 
 
josé carlos barros
estação
on y va
2020
 



16 outubro 2026

joaquim manuel magalhães / desciam pela rua de asfalto esburacado

  
 
Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com faltas de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.
 
Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.
 
O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.
 
Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
6x14 aos da educação
os dias, pequenos charcos
editorial presença
1981




 

15 outubro 2026

joão habitualmente / metropolitano

  
 
na paragem do metro
à mesma hora
ao mesmo bocejo
os mesmos corpos
a mesma gente
a mesma viagem
a mesma janela para os sítios repetidos
pirilampos no túnel
destino retilíneo
metro a metro
 
onde não passam as estações
 
 
joão habitualmente
um dia tudo isto será meu
(uma antologia)
porto editora
2019




14 outubro 2026

josé miguel silva / enfim


 

Essa cara cor de beco sem saída,
sorriso de apagar quarenta velas,
o nariz em agonia – não te canses.
A justiça, o remoinho da beleza,
a liberdade são paixões impopulares,
desaprovadas pela gorda humanidade.
 
Já sabias. Não te queixes. Colhe as favas,
as medonhas, do momento. Podes sempre
cozinhá-las com temperos escolhidos.
Sabe a pouco? Paciência. Satisfaz-te
com a fomes e compreende: o proveito
do banquete é estudar os comensais.
 
 
 
josé miguel silva
erros individuais
relógio d´água
2010





 

13 outubro 2026

antónio franco alexandre / duende

  
 
7.

Choro por ti, interminavelmente.
Sem poesia alguma, será que assim fico
mais feminino, diz? Na aula de boxe
hei-de esmagar um crânio, e levantá-lo
num plinto de cristal sobre esta cama
onde esqueci o clube a que pertenço.
Que farei eu, se me acontece
amor sem corpo ao corpo atravessado
e, contra tudo, quero o que não sou?
Também tu és criança, mulher, homem,
bicho tardio que me consome o rosto,
misturado comigo é quando existes.
Já de olhos secos me vesti de tudo,
até quando quiseres que seja nada.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002





 

12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

11 outubro 2026

natália correia / o livro dos amantes

  
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
 
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
 
 
 
natália correia
poemas
antologia poética
dom quixote
2018




10 outubro 2026

maria do rosário pedreira / este foi o nosso último abraço

  
 
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
 
 
 
maria do rosário pedreira
o canto do vento nos ciprestes
gótica
2001




 

09 outubro 2026

louise glück / o poder de circe

  
 
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
 
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
 
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
 
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
 
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
 
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
 
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
 
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
 
podia ter-te aprisionado.
 
 
 
louise glück
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
tradução de José alberto oliveira
assírio & alvim
2001




08 outubro 2026

jorge luís borges / o cúmplice

  
 
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




07 outubro 2026

gottfried benn / vinde cá

  
 
Vinde cá, juntos falemos,
pois quem fala não morreu,
as labaredas já temos
para a fome que nos deu.
 
«Azuis», «vermelhos», digamos,
vinde cá, digo-vos eu,
vemos, ouvimos, ‘spiamos,
pois quem fala não morreu.
 
Só na tua solidão,
no ermo pardo que tiveres,
estás só, não há bustos, não
há diálogo nem mulheres,
 
e já quase escolhos toca,
e é bem fraco, o barco teu –
vinde cá, abri a boca,
pois quem fala não morreu.
 
 
 
gottfried benn
50 poemas
tradução vasco graça moura
relógio d’água
1998




06 outubro 2026

joão miguel fernandes jorge / um dia resta uma paisagem

  
 
Um dia resta uma paisagem
 
sobre as dunas a asa da ave
 
sobre as ondas o remo do barco
 
a viagem do sol
a água azul sonora.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019





05 outubro 2026

fiama hasse pais brandão / no equinócio

 



 

Descendo, recomeça a olhar-se o sol
com as pálpebras
no equinócio, e pensa-se:
este lugar é firme tem colunas
de árvores
– muda-se o nome:
não é declive é o nível
todo liso do horizonte.
 
Muda-se o passo; o ócio
de quantas pedras estáveis tem a estrada,
de o monte
estar coberto de luz própria.
 
Agora tem-se próximo
o mínimo ser vivo:
o insecto descoberto sob a pedra
na humidade. Vê-se o caos:
a pedra muda-se, mostra
a sua face frígida,
a terra aí é secura
e tem inúmeros vermes desfazendo-a.
 
 
 
fiama hasse pais brandão
o texto de João zorro
o ar os tectos
editorial inova
1974





04 outubro 2026

Isabel de sá / prova de amor

  
 
Atingido por uma motivação avassaladora o poeta persegue o ofício. Surpreender-se com um olhar, uma palavra, escrever o poema que será a prova de amor sem cair no ridículo, não conseguir cortar o fio do imaginário.
 
Por que não resiste o poeta à beleza, eis a interrogação primeira
 
 
 
isabel de sá
semente em solo adverso (poesia reunida)
em nome do corpo (1985)
officium lectionis edições
2022
 



03 outubro 2026

ana luísa amaral / biografia (curtíssima)

  
 
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
 
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
 
(mas hoje penso
que, se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
 
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
 
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
 
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
 
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
 
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
 
e mais:
imperfeição
 
 
 
ana luísa amaral
vozes
dom quixote
2011
 




02 outubro 2026

konstandinos kavafis / passagem


 

 

As coisas que, aluno, assustado imaginou, estão escancaradas,
reveladas diante de si. E anda por aí, e faz noitadas,
e deixa-se arrastar. E pois é (para a nossa arte) conveniente,
o seu sangue, jovem e quente,
a volúpia deita-se com ele. Seu corpo baixa a cerviz
por embriaguez erótica sem lei; e os jovens
membros a ela cedem.
                                                      E um simples rapaz desta maneira
Torna-se digno do nosso olhar, pela altaneira
Esfera da Poesia também ele passa momentaneamente –
o estético rapaz com o seu sangue jovem e quente.
 
 
 
konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994 


 



01 outubro 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
 
338
 
Aos domingos de manhã encontro-me com aquele que mais admiro neste momento. É um encontro fortuito sabiamente planeado. Ele vê-me sempre primeiro. Avança para mim e fala com animação. É tão elegante, tão chique. Fico emocionada. Oh desejo, que queres de mim? pergunto a mim mesma tristemente alegre.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006



 

30 setembro 2026

alejandra pizarnik / os trabalhos e as noites

  
               
para reconhecer na sede o meu emblema
para significar o único sonho
para não me sustentar nunca outra vez no amor
 
fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
 
para dizer a palavra inocente
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
los trabajos y las noches (1965)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 



29 setembro 2026

antónio osório / mãe

  
Mãe que amavas como Florença,
a tua língua, ciprestes,
oliveiras, brancos bois;
Mãe que eras a ponte velha,
estrume jacente na campina,
o cemitério com laranjeiras
sobre o Arno
onde me levaste ao pé do teu Pai:
desterrada aqui continuas.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
ponte velha
editorial presença
1982
 




28 setembro 2026

artur do cruzeiro seixas / canto

  
Canto
canto como um desesperado!
O que julgas tu que faz mil milhões de reflexos
na superfície exausta do Tejo?
Por certo um desacordo
que atinge no coração o sol
os peixes
a tua visão impressionista.
A árvore não dá saborosos frutos
apenas porque te ama
e a tempestade
desespera-se da sua impotência.
O amor é uma ilusão
uma excepção ou um excesso?
Oh tu homem civilizado julgas-te vivo
quando és apenas uma perpétua imitação
um vil ressuscitado de mortas civilizações.
O sonho é o que te resta
mas o seu peso é excessivo
para a imensa fragilidade das palavras
que são afinal a tua coluna vertebral.
 
Todo o espaço é compacto
e tu homem
és o oco
o vazio.
 
Áfricas, 70
 
 
 
cruzeiro seixas
viagem sem regresso
tiragem limitada
2001
 




27 setembro 2026

ricardo reis / aguardo, equânime, o que não conheço

  
 
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
 
13-12-1933
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




26 setembro 2026

bernardo soares / nenhum problema tem solução

  
Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
 
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
 
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.
 
18-7-1916
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990
 


25 setembro 2026

pedro homem de mello / povo

  
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
 
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
 
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
 
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
 
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
 
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
 
pedro homem de mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983





24 setembro 2026

antónio pedro / devagar

  
X
 
Sei lá das coisas que eu não fiz, apenas
Nunca tive remorso de as fazer…
Não tenho mágoas nem penas,
Tenho apenas
Muita pena
De não ter
Esses remorsos e penas
Que me vinham de viver:
 
Morto-vivo que ando apenas
Sem coragem p’ra morrer.
 
 
 
antónio pedro
devagar 1929
poesia (1926-1929)
edições cosmorama
2016


 

23 setembro 2026

golgona anghel / não gosto de contar

  
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
 
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
 
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
 
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam os dedos.
 
 
 
golgona anghel
resumo, a poesia em 2011
documenta
2012



22 setembro 2026

inês lourenço / a galinha

  
 
Não era bem galinha, mas
um bicho desses ainda menor. Compravam-se
nos mercados populares ou às
galinheiras que com grandes cestos à cabeça
apregoavam na rua. O pai pediu
para agarrar com força as patas
enquanto com um cheiro de vinagre no ar
e uma faca afiada na pedra da banca
se vergava sobre a vítima
que cessava gradualmente. Foi o
primeiro episódio sangrento
que me mostrou para sempre
a insegurança do mundo.
 
 
 
inês lourenço
telhados de vidro n.º 19
maio de 2014
averno
2014





 

21 setembro 2026

miguel torga / vazio

  
Todo o mar nos meus olhos, e não basta!
Enche-os mais uma lágrima furtiva…
Neste banquete azul, há um só conviva
Farto e feliz.
É o céu, que se debruça sobre as ondas
Sem amargura.
É ele, que não procura
Por detrás da verdade outra verdade.
Serenamente, lá da eternidade,
Bebe e come
A imagem reflectida do seu nome.
 
 
 
miguel torga
diário VII (1956)
poesia completa vol. II
dom quixote
2007



20 setembro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
 
4
 
Podes desenhar um gato sem levantar o lápis do papel – a orelha, a tíbia curva do dorso, a brancura do ventre, o nariz, outra vez a orelha? Podes cartografar as constelações do hemisfério norte sem levantar o dedo para o céu, ir da Andrómeda à Cassiopeia, da Cassiopeia à Ursa Maior, e voltar à Andrómeda sem que o fio se parta? Ao fim e ao cabo, assim é a vida, um passatempo, passar o tempo que requer a máxima habilidade para a vivermos toda de um só traço. Por muito que a mão mirre de frio e desamparo, lembra-te de não levantar o lápis.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021
 



19 setembro 2026

günther eich / inventário

  
 
Isto é o meu boné,
isto é o meu casaco,
aqui, as coisas da barba
no saco de linho.
 
Lata de conservas:
prato e copo,
gravei na folha
o meu nome.
 
Gravei-o com este
precioso prego
que escondo
de olhares cobiçosos.
 
No saco do pão tenho
um par de peúgas de lã
e outras coisas
que não digo a ninguém;
 
assim, de noite, serve-me
de almofada para a cabeça.
Este papelão aqui está
entre mim e a terra.
 
A mina do lápis
é o que mais amo:
de dia escreve-me versos
que inventei de noite.
 
Isto é o meu bloco de notas,
isto é a minha lona,
isto é a minha toalha,
isto é o meu carrinho de linha.
 
 
 
günther eich
a palavra interdita
tradução de joão barrento
campo das letras
2001
 




18 setembro 2026

arsenii tarkovskii / pela manhã

  
 
PELA MANHÃ dentro esperei ontem,
Diziam eles que não virias, supunham.
Maravilhoso dia, lembras-te?
Um feriado! – Dispensa casaco.
 
 
arsenii tarkovskii
8 ícones
versão de paulo da costa domingos
assírio & alvim
1987
 



17 setembro 2026

eugéne guillevic / carnac (fragmentos)

  

 
8
 
SEI bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
 
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
 
E quando digo mar
É sempre o de Carnac.
 
 
 
guillevic
poesias de guillevic
tradução de david mourão-ferreira
editora ulisseia
1965
 


16 setembro 2026

eugénio de andrade / as mãos e os frutos

  
 
XI
 
Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.
 
 
 
eugénio de andrade
as mãos e os frutos
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 



15 setembro 2026

salah stétié / às árvores




 

 
Eis-te adormecida no leito do aroma
À tua volta pedras
Reunidas na única rosa respirada
Na hora em que a água vai gerar o leite nocturno
Timidamente, socorrida pelas estrelas
Temíveis e que a recusarão
 
Por amizade das árvores!
Não deixem, árvores minhas, os vossos braços fecharem-se
Nem voarem para longe as vossas folhas livres
Guardiãs das nossas portas varridas pelo vento azulado
Sendo as casas aqui a casa do pai
A criança sonhada iluminando com a sua lanterna
O incêndio das colheitas
 
 
 
salah stétié
poemas                           
tradução de rosa alice branco
encontros de Talábriga
1999




 

14 setembro 2026

nazmi ağıl / a cisterna


 

 
Então assim, levei-te até à “Cisterna, o subconsciente
da imensa cidade… – não, o metro não é o mesmo
quando, lá dentro, tende alguém a desaparecer e não
se sabe por quanto tempo… – ou tal como água da chuva, filtrada
no solo e por entre seixos, deixando tudo o que é desnecessário
à superfície, nós mesmos nos esvaecemos como duas almas, Beatrice e eu;
a agitação que deixámos para trás, a ruidosa multidão e os carros, o
eléctrico e toda a intensa actividade mercantil… se mantiveram
afastadas, longe, no sereno e materno ventre, da antiguidade.
Então na penumbra, lembro-me de ti como uma bola de luz flutuando
no ar e enquanto os peixes vinham nadando sobre
a tua reflexão tocando uma curiosidade instintiva;
tu te lamentavas com a música, que, no entanto,
com o som da tua voz, se tinha então transformado
numa melodia e começado a fazer derreter a parede congelada
ameaçando ainda a temível influência da Medusa.
Assim por isso ela nos fixou com tanta ira e lançou seu olhar frio
que por nós passou milagrosamente sem um arranhão
que caiu sobre a lente da câmara, que estava prestes a captar
as nossas imagens para as reter enquanto a memória electrónica
durar, mas que, agora, nos fará viver ante o seu olhar hirto
e suspenso até à eternidade.
 
 
 
nazmi ağıl
trad de rui cóias
nervo 28 set/dez 2026
colectivo de poesia
2026
 
 
 

 

 

13 setembro 2026

eduarda chiote / usamo-nos e abusamo-nos

  
 
Vítimas do seu mau uso, os comboios
reflectem a dor dilacerante
dos atirados aos magotes e ainda muito jovens
para um campo de concentração, algures,
onde, um deles, porventura
mais diferenciado, sente verdadeira gratidão
face à honra que lhe foi concedida
de repartir igualmente por todos os prisioneiros
o pão: milímetro a milímetro.
Poupado, este futuro desertor, de ser atirado à vala
como os sem enterro, terá tido o privilégio,
claro e inequívoco
de vivenciar
que se pode ultrapassar um qualquer ideológico conflito,
se a sua compreensão
estiver mais interessada na transformação do que
na combinação.
Por tal, quando. Faminto e iluminado
Consegue, finalmente, e a pé
Chegar à pouca,
Parca – minha e dele -, esquecida e atrasada terra
nossa
de cabras afogadas em rochas,
de moiras em muralhas de castelos cativas,
este fugitivo
de um campo de concentração, cultíssimo e anónimo,
se fez voluntária e verifícavelmente
alimentador de comboios.
Ora. Sabendo eu
que Brecht pensava em abolir os
comboios, preferindo ao velho e bom
e por motivos vários
o novo e o mau, suponho poder ainda escrever
cantigas de escárnio e mal dizer
apenas para me fazer entender sobre o que terá
significado em e para duras terras de neve e de geada,
uma linha férrea abandonada:
sem comentários!
 
 
 
eduarda chiote
nervo/16 outubro 2022
colectivo de poesia
2022
 



12 setembro 2026

yvette k. centeno / a almofada

  
 
Onde pousamos a cabeça
afundamos um pouco
a almofada.
Nessa pequena cova
ficam guardados os sonhos
que ainda falta sonhar
 
9 de Julho, 2021
 
 
 
yvette k. centeno
existir
eufeme
2022





 

11 setembro 2026

javier salvago / correcções

  
 
A vida perece-se com esses poemas
que brotam, a princípio, intermináveis,
retóricos, grandiosos e banais.
 
Depois vais corrigindo até deixá-los
no pouco que importa: nos dois versos
que dizem o que todos já sabemos.
 
 
 
javier salvago
poesia espanhola de agora vol. I
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1997




10 setembro 2026

gonçalo m. tavares / aprender

  
 
             Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais.
             E quer escrever isso no papel: que odeia os pais.
          Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.



gonçalo m. tavares
short movies
caminho
2011


 

09 setembro 2026

elio pecora / também este verão

  
Também este Verão
(e agora começa
com os longos ocasos,
com as largas tépidas tardes)
também este passará
desiludindo;
são fracas as vozes,
incertas as vizinhanças.
E já pressinto o Outono
das chuvas subtis,
dos temporais nocturnos,
e de novo a espera
incauta de Junho.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
motivetto (1978)
tradução de simoneta neto
quasi
2008
 




08 setembro 2026

douglas coupland / a vida depois de deus



 

 
Quando somos novos, estamos sempre a contar que o mundo vá acabar. Depois vamos ficando mais velhos e o mundo continua a bulir e vemo-nos obrigados a rever a nossa posição quanto ao apocalipse, bem como a nossa relação com o tempo e com a morte. Percebemos que o mundo vai mesmo continuar, connosco ou sem nós e sem as imagens que temos dentro da cabeça. E tentamos perceber antes as imagens.
 
 
douglas coupland
a vida depois de deus
trad. telma costa
teorema
1994




 

07 setembro 2026

joão rebocho / lento

 


 
 
lento
quer dizer:
perto da porta
 
aliás, em outras palavras, vale dizer ou melhor
dizendo
reformular uma ideia?
esclarecer:
todas palavras inúteis
 
lento
só quer dizer:
perto da porta
 
 
 
joão rebocho
salvo erro
edições fantasma
2026
 




06 setembro 2026

herberto helder / um nome que me digas ou me não digas duas vezes

 



 

 

um nome que me digas ou me não digas duas vezes
em dois abismos de sono, esse nome
faz-se carne no mais âmago de mim mesmo,
esse nome trabalha-me,
é igual ao segredo: pão,
eu cômo-o no mais escuro do mundo,
cortado a água e mais nada,
quase como quando se morre mais devagar,
se é noite que entra: pão profundo mastigado
acaso na maior das noites seguidas umas às outras
 
 
 
herberto helder
letra aberta
porto editora
2016




05 setembro 2026

alexandre o'neill / velhos

  
1
 
Tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno.
Tira-o não se sabe donde.
Guarda os baraços dos embrulhos,
desfaz-lhes os nós («Os japoneses põem os meninos nas escolas a desfazer nós!»)
e, baraço a baraço, fabrica um novelo multicor
que pode fornecer fio para atar um embrulho,
por exemplo, o da louça chinesa que, peça a peça,
vai pondo no prego.
Não se engana (e já trepou aos oitenta e muitos)
a declinar o rosa-rosae que aprendeu em coro quando pequena.
Gosta de cães, mas tem medo, desde que outro dia,
isto é, há vinte anos,
lhe morreu o Kiss atropelado,
das trelas sentimentais.
Numa gaveta defendida a naftalina,
dentro duma caixa de cânfora,
guarda palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos,
longos alfinetes ornamentais (aqueles de chapéu).
Arrasta consigo um passado a sépia de fotografias.
Diante de cada uma, recita parentescos, genealogias.
E a fechar o cortejo mostra sempre a do seu casamento.
Era formosa, cheiinha, um verdadeiro quanto-baste de mulher.
Enviuvou: sobreviveu a dois filhos; vive com uma amiga.
Às vezes está amuada, não sai do seu quarto e passa o dia inteiro a tisanas.
Quando visita o bisneto,
insiste em ensinar-lhe o rosa-rosae:
quer que ele seja um causídico.
Já não escolhe a comida; escolhe os dentes.
É um passarinho.
Mas nos seus olhos doces, azuis e moços,
uma gaiata traquina.
 
 
 
alexandre o´neill
a saca de orelhas (1979)
poesias completas
assírio & alvim
2000
 




04 setembro 2026

luiza neto jorge / anos quarenta, os meus

  
De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma
 
alma e ar reféns dentro do pulmão
(como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão).
Salazar três vezes, no eco da aula.
 
As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos
 
que hoje ainda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita «Viva».
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.
 
Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas mil, um fictício arco-
 
-íris como que é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.
 
 
 
luiza  neto jorge
postais antigos
poesia
assírio & alvim
1993
 




03 setembro 2026

maria alberta menéres / água memória

  
 
IX
 
Para o mesmo caminho
por atalhos diferentes,
tu a cansada mãe,
eu pérola perdida
na escuridão do mar.
 
Que caminho temer
agora que chegámos?
Por diferentes atalhos,
sobre os ombros trouxemos
a solidão de os ter.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 



02 setembro 2026

maria teresa horta / as mãos

  
 
Porque das mãos
toda a importância
está no que seguram
 
Digo-vos:
 
naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite
 
nem ternura
 
Porque das mãos
toda a razão
está no que descuram
 
Digo-vos:
 
naquilo que desfrutam
e manipulam
por vezes sem vontade
 
nem brandura
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
educação sentimental
dom quixote
2009
 




01 setembro 2026

fátima maldonado / são as tardes mais quentes

  
 
São as tardes mais quentes
que recordo
rendas pelos amor dilaceradas
tranças desfeitas e puxadas
nós fendidos, impaciência
e gritos.
A toada, dossel sobre a cama,
não secou ainda nos ouvidos.
Mas traiu-me
só porque me ausentei.
Ao gravar-lhe o selo
ao ensinar-lhe o vício
expus-me no pelourinho
da fraqueza,
a paixão não tolera
a ausência.
 
 
 
fátima maldonado
sem rasto
painéis de vigilância
averno
2021
 




31 agosto 2026

luís miguel nava / o mar

  
As ondas fazem-se às imagens, a manhã
do sol caindo os raios
esticam-na
na água despenteada.
 
O macho cujo peito em poderosos
e lentos haustos é
para Melville o mar
do sol servem-lhe os raios de cabelos.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



30 agosto 2026

nuno júdice / imagem

  
 
Desce do verão com as suas mãos cansadas
de sombra. Encosta-se ao ombro da nuvem
mais branca, onde o seu rosto se reflecte.
Deixa que os meus dedos a toquem, como
se fosse uma harpa de silêncio. A música
demora-se no abraço da tarde. e os seus
olhos têm a luz lenta de uma despedida.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 



29 agosto 2026

manuel antónio pina / todas as palavras

  
 
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
 
 
 
manuel antónio pina
atropelamento e fuga (2001)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



28 agosto 2026

herberto helder / teoria das cores




  

 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
 
 
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001


27 agosto 2026

louise glück / na praça

  
 
Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.
 
 
 
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de frederico pedreira
relógio d´água
2021


26 agosto 2026

lawrence ferlinghetti / conheça a miss metro

  
 
Conheça a Miss Metro
1957
Veja a Miss Metro
1957
girando no Rápido de Times Square
ida e volta
às quatro da madrugada
 
Conheça a Miss Metro
1957
com rolhas de algodão do tamanho de moedas
de meio dólar no nariz negro e chato
indo e voltando a correr
no Rápido de Times Square
às quatro da madrugada
bem agarrada
às argolas de ferro celestes
com braços de ouro retalhados
uma prisca negra numa mão negra
 
Pode conhecer a Miss Metro
Pode ver a Miss Metro
1957
com umas calças de licra tristes
uma mala a condizer
a navegar pelas carruagens
sempre agarrada
com braços negros cansados
uma beata negra numa mão negra
E os vagões de ferro
para sempre indo e voltando
para a morte e as trevas
 
ó perdido rio Ubangui
 
cambaleando
pelas «ogivas sucessivas» do Inferno
até à última escada
de incêndio de Dante
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



25 agosto 2026

pier paolo pasolini / poemas mundanos

  
 
23 de Abril de 1962
 
 
Um manto de prímulas. Ovelhas
em contraluz (use a cinquenta, Tonino,
use a cinquenta, não tenha medo
que a luz se degrade – vamos filmar isto
contra a natureza!).
a erva fria tépida, murcha tenta,
velha nova – sobre Acqua Santa.
Ovelhas e pastor, uma cena
de Masaccio (experimente com a setenta e cinco,
e chariot para um primeiro plano).
Primavera medieval. Um Santo herético
(a quem os comparsas chamam Blasfémia.
Será um chulo, como de costume. Pedir
ao dolente Leonetti um parecer
sobre a prostituição na Idade Média).
Depois, aparição. A paixão popular
(um travelling infinito com Maria
a avançar, perguntando em úmbrio
pelo filho, cantando em úmbrio a agonia).
A Primavera traz um manto
de carqueja-brava tenrazinha, de prímulas…
e um misto de atonia dos sentidos e luxúria.
Depois da aparição (orgias
Mortuárias, ímpias – de putas),
uma «prece» nos prados ardentes.
Putas, chulos, ladrões, camponeses
de mãos juntas sob o rosto
(tudo com a cinquenta em contraluz).
Filmarei os mais ensolarados Apeninos.
Quando os Anos Sessenta
tiverem passado como o Ano Mil,
e o meu esqueleto já não tiver
saudades deste mundo,
que importará a minha «vida privada»,
que importará, míseros esqueletos sem vida
privada ou pública, chantagistas?
O que importará serão as minhas ternuras,
serei eu, depois da morte, na Primavera,
a ganhar a aposta, na fúria
do meu amor por Acqua Santa ao sol.
 
 
 
pier paolo pasolini
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




24 agosto 2026

wislawa szymborska / grande sorte é

  
 
Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
 
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998
 



23 agosto 2026

antonia pozzi / pensamento

  
 
Ter duas longas asas
de sombra
e dobrá-las sobre essa tua dor;
ser sombra, paz
nocturna
à volta do teu apagado
sorriso.
 
 
 
antonia pozzi
morte de uma estação
trad. inês dias
averno
2019
 



22 agosto 2026

paul bowles / canção de amor

  
 
A cabeça está onde o grilo canta
As faces são aquilo que os dentes hão-de morder
O lago está onde o amante se atira
Ao outro pela calada da noite
Os lábios estão onde está o sangue
Os olhos são o que os dedos prendem
Sabendo agora o que podia ter sido
Dirão os lábios o que os olhos viram?
 
                                            1940
 
 
paul bowles
poemas
trad. josé agostinho baptista
assírio & alvim
2008