27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




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