30 abril 2021

josé gomes ferreira / a morte de d. quixote

 
 
III
 
Pobres, gritai comigo:
 
Abaixo o D. Quixote
com cabeça de nuvens
e espada de papelão!
– E viva o Chicote
no silêncio da nossa Mão!
 
Pobres, gritai comigo:
 
Abaixo o D. Quixote
que só nos emperra
de neblina!
– E viva o Archote
que incendeia a terra,
mas ilumina!
 
Pobres, gritai comigo:
 
Abaixo o cavaleiro
de lança de soluços
e bola de sabão
no elmo de barbeiro!
– E vivam os nossos Pulsos
que, num repelão,
hão-de rasgar o nevoeiro!
 
 
 
josé gomes ferreira
a morte de d. quixote 1935-1936
poesia I
portugália
1972





29 abril 2021

vladimir maiakóvski / nós outros

 
 
Nós deslizamos sob as palmeiras, cílios da terra,
para perfurar as fronhas dos desertos,
para apanhar os sorrisos dos couraçados –
nos lábios ressequidos dos canais.
Alto aí, cólera!
Para a pira das constelações inflamadas
não permitirei que façam subir a minha velha mãe enfurecida.
Caminho – corno do inferno – embriaga os roncos dos condutores
       de camiões!
Que a embriaguez dilate as narinas fumegantes dos vulcões!
Vamos atirar-nos às nossas amadas para colocar nos seus chapéus as
       plumas descoloradas dos anjos,
cortar a cauda dos cometas para que delas façam jiboias.
 
 
vladimir maiakovski
33 poesias
trad. adolfo luxúria canibal
edições snob
2019

 




28 abril 2021

abelardo linares / como foi curta a noite

 
 
Cheiram a ti os lençóis, meu amor, e ainda
está aberto em cima da mesa o teu livro
e há roupa pelo chão e discos e tabaco.
 
Embora já não estejas aqui, os meu braços ainda te procuram.
E neste fingimento de abraçar-te na almofada
persigo a tua lembrança, a tua cintura, os teus ombros.
 
O teu corpo não foi um sonho e talvez na casa de banho
a minha escova me espere, molhada pela tua boca,
ou húmidas toalhas que secaram o teu cabelo.
 
Cheiram a ti os lençóis. O quarteirão desperta.
Há vozes na rua e luz detrás da persiana.
Deve ir alto o sol. Como foi curta a noite.
 
 
 
 
abelardo linares
trípticos espanhóis 1º
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1998





 

27 abril 2021

r. lino / livro de rigor

 
 
um
 
o tempo é manso e não escorre
enquanto um homem
segue pelo caminho dos homens
aguçada como o vento
no rigor de quem se vê
cai a morte
entre a dor e a certeza
 
 
 
r. lino
livro de rigor
políptico
companhia das ilhas
2016





26 abril 2021

joaquim manuel magalhães / pedra em negativo

 
Enquanto ia o dia escurecia
foi de noite que te encontrei.
A ti, passarinheiro. No cinzento
entre cabos de tensão e guindaste
e o fantasma em arco-íris
das vigas a cinzel.
 
Na cadeira de pau negro e alto espaldar
estava o teu casaco. Subia sobre os móveis
o seu aroma de febre
onde tantas vezes antes que chegasses
escondi a cara que me parecia inchar de castração.
 
Voltando-me para a despedida
encontrei as lágrimas que mudavam em areia
as pálpebras, no escárneo do tempo findo.
Pior. Na certeza do tempo findo com
ainda mais tempo para sofrer o tempo,
o devaste da espera do fim.
 
Quando as cartas chegam (na fronteira mudada
em que já não nos lembra esse que se lembrou,
com aquelas palavras, de nós num anterior momento
em que o esquecíamos) um vitríolo afaga
a retina que perdeu mansamente a ternura.
Dizias que me fui embora sem nada mais te dizer.
E pensava eu que tinhas sido tu a ter partido.
Logros, nuvens inúteis, carregadas de água que desaba
noutro lugar, inóspito, mais real.
 
Ao olhar o rosto definitivamente imóvel,
todo o sangue coagulado, uma pedra a desfazer-se,
 esse objecto medonho
ainda será o corpo pelo qual chorámos,
a quem trouxemos a última chávena, o último
comprimido, o último aterrado sorriso?
Alguma coisa nos afirma que é uma totalidade
diferente; que nada está ali; que não é
por aquilo a nossa dor.
 
Descobrimos que tudo quanto era partiu.
E o que seria? Então o corpo é a alma,
rapaz? A rebentação das artérias a crença final?
 
Potes de barro frísio e de latão,
dois pregos com uma trança de cebolas,
a máquina de moer café no lambril
da escada que sobe para o pátio,
poalha de farinha pelo chão.
A tua mãe tinha a testa descoberta,
os cabelos puxados para trás. Na fotografia.
Sobre a camilha forrada a estopa
segurava miolo de pão e com a esquerda
despejava para um alguidar uma caneca
de leite. O açúcar, os ovos, as compotas
estavam a meio do tampo; e numa cerca,
com um plástico na mão e o cabelo alvo
e a luz amarelecida, estavas tu
com a boca escancarada de choro,
os lábios ainda por formar.
 
 

joaquim manuel magalhães
sloten
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990





25 abril 2021

eugénio de andrade / matéria solar

 
 
23
 
Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.
 
O país de que te falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs.
 
Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos – somos amigos.
 
 
 
 
eugénio de andrade
matéria solar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000






 

24 abril 2021

manuel antónio pina / palavras não

 
 
Palavras não me faltam (quem diria o quê?),
faltas-me tu poesia cheia de truques.
De modo que te amo em prosa, eis o
lugar onde guardarei a vida e a morte.
 
De que outra maneira poderei
assim te percorrer até à perdição?
Porque te perderei para sempre como
o viajante perde o caminho de casa.
 
E, tendo-te perdido, te perderei para sempre.
Nunca estive tão longe e tão perto de tudo.
Só me faltavas tu para me faltar tudo,
as palavras e o silêncio, sobretudo este.
 
 
 
 
manuel antónio pina
ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde (1974)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012

 




23 abril 2021

benjamin péret / onde está ele

 
 
Onde está ele
Entre as estrelas agachadas
ou os minerais desconhecidos
que ardem nas corolas das flores fatais
Se eu sonhasse poderia responder
Ele desce do bico da pomba
ou então
Ele sobe a escadaria de neve que leva às rochas suspirantes
a grande escadaria benévola
onde vivem os poetas de borracha
 
 
 
benjamin péret
sonhador definitivo e perpétua insónia
uma antologia de poemas
surrealistas escritos em língua francesa
trad. regina guimarães
contracapa
2021






22 abril 2021

daniel maia-pinto rodrigues / parágrafo posterior

 
 
Silente vale de escancaro sol
Serpentear de salobra água
de árvore em árvore enlameada
Manada dúbia de ruminantes
Forja de pequenas aves insectívoras
e de grandes insectos roxos
 
Preciso é que caldeie
ainda mais os elementos
Preciso é também, Deus
que mande interceptar
o bíbulo animal da tranquilidade
 
 
 
 
daniel maia-pinto rodrigues
hífen 2 abr/ set 88
cadernos semestrais de poesia
1988




 
 

21 abril 2021

nuno vidal / primeira oração

 
 
O orvalho da manhã
na caneca de café com leite.
A luz sem sombras
Que vem do oleado do céu
pelos vidros de poeira
presa da precipitação.
O brilho dos arruamentos
conduz ao cotovelo
onde podias vir estacionar
por mim. Pela saudade.
Eu apagava o cigarro embaraçado
do hálito e do desalinho.
Queres café?
Sem conseguir olhar-te
como se não estivesse em minha casa
como se remediar não fosse um predicado.
O teu cabelo cresceu.
As mãos fortuitas no cós da saia.
Sinais apagados como a prece
na janela desembaciada
por onde estarias a olhar
o subúrbio da alegria franciscana
se isto fosse mentira de mercê
obrigado à minha irmã chuva.
 
 
nuno vidal
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990





 

20 abril 2021

antónio osório / para ti

 
 
Para ti
guardei em Abril
o branco das cilindras.
 
 
Toma, agasalha-as no peito,
protege a primavera já morta.
 
 
 
antónio osório
casa térrea
o lugar do amor
gota de água
1981





 

19 abril 2021

antónio gancho / terceira voz

  
Enquanto a gaita toca e o quintal da vizinha
tem uma Idade Média pendurada no chão
vagueia estonteada a minha alma a minha
por sobre a minha o coração de avião
 
De avião o coração por sobre a alma minha
imagem de fomento e organização
a que o tempo levou a solidão vizinha
do quintal da vizinha onde a gaita uma canção
 
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã
1960 / 1967
o ar da manhã
assírio & alvim
1995






18 abril 2021

luiza neto jorge / sítio sorvido

 
 
I
 
A tranquilidade de um sítio é como
o limiar náutico da beleza
esse reduto assaltado isso
que não existe talvez
 
que ninguém resumiu com ardor
com total tranquilidade
mesmo a dormir
 
Eis-me num café longínquo onde o que há
são cadeiras
de facto não são joelhos
ou animais transportadores para as duas
margens.
 
Apenas um objecto
menos contaminado
uma chávena, pego-lhe,
bem cheia bem reflectida
 
secreção de gestos fortuitos
em honra de um sítio invadido
 
ou evadido
 
 
II
 
Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.
 
Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste
 
Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova
 
a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?
 
É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório
 
 
 
 
luiza  neto jorge
os sítios sitiados
poesia
assírio & alvim
1993
 



17 abril 2021

richard minne / eles

 
 
Eles, as pessoas com dignidade
nesta vida, com chama interior,
andam aí disperso sobre a terra
e trazem um chapéu inferior.
 
Caminham asseados, silenciosos,
rente às casas preferem deslizar
e escutam, se possível no Outono,
os choupos todos a rumorejar.
 
Espaço não costumam ocupar
como o dourado nas folhas dum livro,
e se acaso o eléctrico vem cheio
o seu lugar é sempre no estribo.
 
Ontem levei uma pessoa dessas
à estação. Era uma noite assaz
brumosa e fria. O meu cansado amigo
tinha bilhete da terceira classe.
 
 
richard minne
uma migalha na saia do universo
antologia da poesia neerlandesa do século vinte
selecção de gerrit komrij
tradução de fernando venâncio
assírio & Alvim
1996



 

16 abril 2021

cesare pavese / trabalhar cansa

 
Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não foge de casa.
 
                                                                     Há no Verão
tardes em que até as praças ficam vazias, estendidas
ao sol que vai pôr-se, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis para.
Vale a pena ser-se só, para se estar cada vez mais sozinho?
Percorrê-las apenas – as praças e as ruas
estão vazias. Havia que parar uma mulher
e falar-lhe e convencê-la a viverem junto.
Doutro modo fala-se sozinho. É por isso que às vezes
vem abordar-nos o bêbado nocturno
e conta os projectos de toda a vida.
 
Não é certamente ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
de vez em quando para. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa seria
onde está essa mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
nem as luzes inúteis, já não levanta olhos:
sente apenas o empedrado, que outros homens fizeram
com mãos calejadas, como são as suas.
 
Não é justo ficar na praça deserta.
Anda certamente na rua aquela mulher
que, rogada, havia de querer dar uma mão à casa.
 
  
 
 
cesare pavese
cidade no campo
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997






 

15 abril 2021

camille goemans / três homens seguem a sua própria sombra



 
Três homens seguem a sua própria sombra
O primeiro, impaciente,
corre atrás dela.
Ainda está a correr.
O segundo para e diz:
«Vou esperar.»
Ainda está à espera.
O terceiro vira-se
e desata a caminhar.
A sombra, como um carneiro, vai no seu encalço.
 
 
camille goemans
sonhador definitivo e perpétua insónia
uma antologia de poemas
surrealistas escritos em língua francesa
trad. regina guimarães
contracapa
2021
 




14 abril 2021

denise levertov / mês veloz

 
 
O espírito de cada dia passa, cabisbaixo
sob o vento, braços cruzados.
ambíguos irmão daquelas idealizadas
“filhas do Tempo”, nem dons nem escárnio
proferindo, as mãos prendendo
os cotovelos, escondidas em mangas largas
de túnicas cor de sombra. Dia após dia
e nenhuma em demoras, a cadência do seu passo
sem pressa, e ainda assim veloz, demasiado veloz.
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021






13 abril 2021

isabel meyreles / todos os dias vivemos

 
 
Todos os dias vivemos
os nossos apocalipses
como se nada fosse,
carregamos
a indiferença como um lenço de seda
à volta do pescoço,
a morte faz-nos sinal
em cada olha primaveril
da árvore-noite,
aquela que nos chama
com uivos de lobo
quando a olhamos,
barricadas atrás das nossas janelas
de presos à residência
sobre este planeta que corre
na negra água cósmica.
 
1995
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o mensageiro dos sonhos
tradução de vitor castro
quasi
2004




12 abril 2021

yvette k. centeno / venho

 
Venho
com as mãos carregadas
de passado
venho agora
porque não sei o dia
nem a hora
e dentro de mim o tempo
está parado
 
 
 
yvette k. centeno
o barco na cidade
entre silêncios
poesia 1961-2018
glaciar
2019






 

11 abril 2021

carlos de oliveira / descida aos infernos

 
 
10
«Lá em cima, terra,
parecias em torpor
adormecida
no sonho espesso do teu sono.
 
E quantas noites
com luar a murmurar à nossa porta
pensámos nós que te fingias morta
só para não acordares com a tua vida
os filhos que criaste
e de novo chamaste
ao teu silêncio.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001




10 abril 2021

joão almeida / atalho com lama e escuridão

 
 
pela mão me levou à procura de água
quando seguia sem desejar saber
por outro beco regular e limpo
 
não cumpri a minha jura
era o vinho a falar
 
uma merda esta culpa às costas
em todo o caso
gostava de ver o centro cultural arder
 
 
joão almeida
canto skin
língua morta
2019




 

09 abril 2021

luís filipe parrado / orquídeas

 
Foi um erro substituir
por orquídeas
as flores artificiais
no centro da mesa.
Exigem luz, cuidados,
uma humidade temperada.
Bem as conheço:
flores venenosas
donas de uma beleza gratuita.
Às outras bastava passar
o pano do pó às vezes,
nem olhava para elas,
para as suas folhas baças,
para os seus ramos secos de arame;
estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,
a ferida com que o mundo vai acabar.
 
 
luís filipe parrado
entre a carne e o osso
língua morta
2019





 

08 abril 2021

inês lourenço / sessão literária

 
 
Falam de perfeição. De perseguir
ao menos em verso, esse vórtice de luzes
e excelsa beleza ou
beatitude que logrará
 
a canónica obra. Velho
enredo já sem graça divina
nem humana.
 
Melhor falassem
das batatas novas, que
costumam aparecer
antes da Páscoa.
 
 
 
inês lourenço
o segundo olhar
companhia das ilhas
2015






 

07 abril 2021

josé gomes ferreira / cabaré

  
III
 
Perto das árvores
sob as estrelas
olho com orgulho para o céu
e sinto que pertenço ao universo.
 
A minha carne é de terra,
os olhos são de terra
e a minh’ alma, um pássaro sem corpo…
 
mas junto de ti,
no meio destas flores de papel
perfumadas de música,
sinto-me tímido e infeliz,
a tropeçar no corpo inútil.
 
E apetece-me não viver,
mas apenas existir.
Ser uma coisa qualquer
esquecida de criar.
 
 
 
 
josé gomes ferreira
cabaré 1932
poesia I
portugália
1972





06 abril 2021

rené char / artine

 
 
Na cama que me tinham preparado havia: um animal ferido e sanguinolento, do tamanho de um brioche, um cano de chumbo, uma rajada de vento, uma concha gelada, um cartucho de bala disparada, dois dedos de uma luva, uma mancha de óleo; não havia porta de prisão, havia o sabor da amargura, um diamante de vidraceiro, um cabelo, um dia, uma cadeira partida, um bicho da seda, o objecto roubado, uma corrente de gabardine, uma mosca verde domesticada, um ramo de coral, um prego de sapateiro, uma roda de autocarro.
(…)
 
 
rené char
este fanático das nuvens
furor e mistério
martelo sem dono (1930)
tradução y. k. centeno
cotovia
1995



05 abril 2021

juan luis panero / um velho em veneza

 
 
Em Veneza, velho e envelhecido, quase mudo,
rodeado de livros, de solidão, de gatos
o poeta Ezra Pound,
falou, num breve, muito breve encontro, com Grazia Levi.
Comentou-lhe, sem autocompaixão e sem desprezo,
secamente, com voz entrecortada:
«No fim penso que não sei nada.
Não tenho nada para dizer, nada.»
Se depois de tão alto exemplo, de tão clara sentença,
ainda continuo a escrever e risco palavras no fumo,
não é, que a morte me livre,
por bastardo interesse ou absurda vaidade,
mas apenas por uma simples razão,
porque não conheço outro meio, a não ser o suicídio
- desnecessário é um poema como um cadáver –,
para dar testemunho de nada a ninguém,
do mundo que contemplo, desta vida,
do seu horror gasto e quotidiano.
Que o velho Pound, na sua cova,
me perdoe por ligar o seu nome
a estas sórdidas palavras desesperadas.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003