19 abril 2021

antónio gancho / terceira voz

  
Enquanto a gaita toca e o quintal da vizinha
tem uma Idade Média pendurada no chão
vagueia estonteada a minha alma a minha
por sobre a minha o coração de avião
 
De avião o coração por sobre a alma minha
imagem de fomento e organização
a que o tempo levou a solidão vizinha
do quintal da vizinha onde a gaita uma canção
 
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã
1960 / 1967
o ar da manhã
assírio & alvim
1995






18 abril 2021

luiza neto jorge / sítio sorvido

 
 
I
 
A tranquilidade de um sítio é como
o limiar náutico da beleza
esse reduto assaltado isso
que não existe talvez
 
que ninguém resumiu com ardor
com total tranquilidade
mesmo a dormir
 
Eis-me num café longínquo onde o que há
são cadeiras
de facto não são joelhos
ou animais transportadores para as duas
margens.
 
Apenas um objecto
menos contaminado
uma chávena, pego-lhe,
bem cheia bem reflectida
 
secreção de gestos fortuitos
em honra de um sítio invadido
 
ou evadido
 
 
II
 
Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.
 
Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste
 
Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova
 
a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?
 
É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório
 
 
 
 
luiza  neto jorge
os sítios sitiados
poesia
assírio & alvim
1993
 



17 abril 2021

richard minne / eles

 
 
Eles, as pessoas com dignidade
nesta vida, com chama interior,
andam aí disperso sobre a terra
e trazem um chapéu inferior.
 
Caminham asseados, silenciosos,
rente às casas preferem deslizar
e escutam, se possível no Outono,
os choupos todos a rumorejar.
 
Espaço não costumam ocupar
como o dourado nas folhas dum livro,
e se acaso o eléctrico vem cheio
o seu lugar é sempre no estribo.
 
Ontem levei uma pessoa dessas
à estação. Era uma noite assaz
brumosa e fria. O meu cansado amigo
tinha bilhete da terceira classe.
 
 
richard minne
uma migalha na saia do universo
antologia da poesia neerlandesa do século vinte
selecção de gerrit komrij
tradução de fernando venâncio
assírio & Alvim
1996



 

16 abril 2021

cesare pavese / trabalhar cansa

 
Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não foge de casa.
 
                                                                     Há no Verão
tardes em que até as praças ficam vazias, estendidas
ao sol que vai pôr-se, e este homem que chega
por uma avenida de árvores inúteis para.
Vale a pena ser-se só, para se estar cada vez mais sozinho?
Percorrê-las apenas – as praças e as ruas
estão vazias. Havia que parar uma mulher
e falar-lhe e convencê-la a viverem junto.
Doutro modo fala-se sozinho. É por isso que às vezes
vem abordar-nos o bêbado nocturno
e conta os projectos de toda a vida.
 
Não é certamente ficando à espera na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
de vez em quando para. Se fossem dois,
mesmo a andar pelas ruas, a casa seria
onde está essa mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ficar deserta
e este homem que passa não vê as casas
nem as luzes inúteis, já não levanta olhos:
sente apenas o empedrado, que outros homens fizeram
com mãos calejadas, como são as suas.
 
Não é justo ficar na praça deserta.
Anda certamente na rua aquela mulher
que, rogada, havia de querer dar uma mão à casa.
 
  
 
 
cesare pavese
cidade no campo
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997






 

15 abril 2021

camille goemans / três homens seguem a sua própria sombra



 
Três homens seguem a sua própria sombra
O primeiro, impaciente,
corre atrás dela.
Ainda está a correr.
O segundo para e diz:
«Vou esperar.»
Ainda está à espera.
O terceiro vira-se
e desata a caminhar.
A sombra, como um carneiro, vai no seu encalço.
 
 
camille goemans
sonhador definitivo e perpétua insónia
uma antologia de poemas
surrealistas escritos em língua francesa
trad. regina guimarães
contracapa
2021
 




14 abril 2021

denise levertov / mês veloz

 
 
O espírito de cada dia passa, cabisbaixo
sob o vento, braços cruzados.
ambíguos irmão daquelas idealizadas
“filhas do Tempo”, nem dons nem escárnio
proferindo, as mãos prendendo
os cotovelos, escondidas em mangas largas
de túnicas cor de sombra. Dia após dia
e nenhuma em demoras, a cadência do seu passo
sem pressa, e ainda assim veloz, demasiado veloz.
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021






13 abril 2021

isabel meyreles / todos os dias vivemos

 
 
Todos os dias vivemos
os nossos apocalipses
como se nada fosse,
carregamos
a indiferença como um lenço de seda
à volta do pescoço,
a morte faz-nos sinal
em cada olha primaveril
da árvore-noite,
aquela que nos chama
com uivos de lobo
quando a olhamos,
barricadas atrás das nossas janelas
de presos à residência
sobre este planeta que corre
na negra água cósmica.
 
1995
 
 
 
isabel meyreles
poesia
o mensageiro dos sonhos
tradução de vitor castro
quasi
2004




12 abril 2021

yvette k. centeno / venho

 
Venho
com as mãos carregadas
de passado
venho agora
porque não sei o dia
nem a hora
e dentro de mim o tempo
está parado
 
 
 
yvette k. centeno
o barco na cidade
entre silêncios
poesia 1961-2018
glaciar
2019






 

11 abril 2021

carlos de oliveira / descida aos infernos

 
 
10
«Lá em cima, terra,
parecias em torpor
adormecida
no sonho espesso do teu sono.
 
E quantas noites
com luar a murmurar à nossa porta
pensámos nós que te fingias morta
só para não acordares com a tua vida
os filhos que criaste
e de novo chamaste
ao teu silêncio.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001




10 abril 2021

joão almeida / atalho com lama e escuridão

 
 
pela mão me levou à procura de água
quando seguia sem desejar saber
por outro beco regular e limpo
 
não cumpri a minha jura
era o vinho a falar
 
uma merda esta culpa às costas
em todo o caso
gostava de ver o centro cultural arder
 
 
joão almeida
canto skin
língua morta
2019




 

09 abril 2021

luís filipe parrado / orquídeas

 
Foi um erro substituir
por orquídeas
as flores artificiais
no centro da mesa.
Exigem luz, cuidados,
uma humidade temperada.
Bem as conheço:
flores venenosas
donas de uma beleza gratuita.
Às outras bastava passar
o pano do pó às vezes,
nem olhava para elas,
para as suas folhas baças,
para os seus ramos secos de arame;
estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,
a ferida com que o mundo vai acabar.
 
 
luís filipe parrado
entre a carne e o osso
língua morta
2019





 

08 abril 2021

inês lourenço / sessão literária

 
 
Falam de perfeição. De perseguir
ao menos em verso, esse vórtice de luzes
e excelsa beleza ou
beatitude que logrará
 
a canónica obra. Velho
enredo já sem graça divina
nem humana.
 
Melhor falassem
das batatas novas, que
costumam aparecer
antes da Páscoa.
 
 
 
inês lourenço
o segundo olhar
companhia das ilhas
2015






 

07 abril 2021

josé gomes ferreira / cabaré

  
III
 
Perto das árvores
sob as estrelas
olho com orgulho para o céu
e sinto que pertenço ao universo.
 
A minha carne é de terra,
os olhos são de terra
e a minh’ alma, um pássaro sem corpo…
 
mas junto de ti,
no meio destas flores de papel
perfumadas de música,
sinto-me tímido e infeliz,
a tropeçar no corpo inútil.
 
E apetece-me não viver,
mas apenas existir.
Ser uma coisa qualquer
esquecida de criar.
 
 
 
 
josé gomes ferreira
cabaré 1932
poesia I
portugália
1972





06 abril 2021

rené char / artine

 
 
Na cama que me tinham preparado havia: um animal ferido e sanguinolento, do tamanho de um brioche, um cano de chumbo, uma rajada de vento, uma concha gelada, um cartucho de bala disparada, dois dedos de uma luva, uma mancha de óleo; não havia porta de prisão, havia o sabor da amargura, um diamante de vidraceiro, um cabelo, um dia, uma cadeira partida, um bicho da seda, o objecto roubado, uma corrente de gabardine, uma mosca verde domesticada, um ramo de coral, um prego de sapateiro, uma roda de autocarro.
(…)
 
 
rené char
este fanático das nuvens
furor e mistério
martelo sem dono (1930)
tradução y. k. centeno
cotovia
1995



05 abril 2021

juan luis panero / um velho em veneza

 
 
Em Veneza, velho e envelhecido, quase mudo,
rodeado de livros, de solidão, de gatos
o poeta Ezra Pound,
falou, num breve, muito breve encontro, com Grazia Levi.
Comentou-lhe, sem autocompaixão e sem desprezo,
secamente, com voz entrecortada:
«No fim penso que não sei nada.
Não tenho nada para dizer, nada.»
Se depois de tão alto exemplo, de tão clara sentença,
ainda continuo a escrever e risco palavras no fumo,
não é, que a morte me livre,
por bastardo interesse ou absurda vaidade,
mas apenas por uma simples razão,
porque não conheço outro meio, a não ser o suicídio
- desnecessário é um poema como um cadáver –,
para dar testemunho de nada a ninguém,
do mundo que contemplo, desta vida,
do seu horror gasto e quotidiano.
Que o velho Pound, na sua cova,
me perdoe por ligar o seu nome
a estas sórdidas palavras desesperadas.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003

 




04 abril 2021

vitorino nemésio / versos a uma cabrinha que eu tive

 
 
Com seu focinho húmido
Esta cabrinha colhe
Qualquer sinal de noite
De que a erva se molhe.
 
Daquela flor pendente
Pra que seu passo apela
Parece que a semente
É o badalinho dela.
 
Sua pelerina escura
Vela-a da noite sentida;
Tem cada pêlo uma gota,
Com passos, poeira, vida.
 
De silêncio, silvas, fome,
Compõe nos úberes cheios
Toda a razão do seu nome
E fruto de seus passeios.
 
Assim já marcha grave
Como os navios entrando,
Pesada dos pensamentos
Da sua vida suave.
 
E enfim, no puro penedo
De seus casquinhos tocado,
Está como o ovo e a ave:
Grande segredo
Equilibrado.
 
 
 
vitorino nemésio
eu, comovido a oeste
antologia poética
asa
2002





03 abril 2021

manuel antónio pina / as coisas

 
 
 
Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.
 
Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fôssemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.
 
Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.
 
 
 
manuel antónio pina
como se desenha uma casa
ruínas
assírio & alvim
2012




02 abril 2021

dorianne laux / histórias de famílias

 
 
Tive um namorado que me contava histórias da sua família,
uma vez uma discussão acabou com o pai dele
a garrar num bolo de aniversário todo enfeitado com as duas mãos
e a atirá-lo pela janela do segundo andar. Isso,
pensei, é o que acontece numa família normal: raiva
arremessada pelo parapeito da janela, aterrando como um presente
que vai decorar o passeio lá em baixo. Na minha,
eram punhos e golpes directos contra a boca do estômago,
e nunca ninguém perdoou a ninguém. Mas, nas histórias dele, eu
acreditava que as pessoas se amavam verdadeiramente umas às outras,
mesmo quando berravam e forçavam as portas dos armários
com os pés, ou levantavam uma cadeira como se fosse uma garrafa
de espumante barato, martirizando uma parede,
os degraus explodindo nos seus espaços vazios.
Disse-lhe que isso me parecia inofensivo, a pompa e a fúria
dos apaixonados. Ele respondeu que fôra uma maldição
ter nascido italiano e católico e quando olhou
pela janela o que viu foi esse momento
barbaramente destruído. Em contrapartida, tudo o que eu pude ver
foi um maravilhoso bolo de três andares a deslizar como um navio
maltratado até ao passeio, as velas partida, afundando-se
cada vez mais no gelo, algumas ainda a arder.
 
 
 
dorianne laux
trocando dólares por cêntimos
alguma poesia norte-americana
trad. luís filipe parrado
contracapa
2020




01 abril 2021

alejandra pizarnik / para além do esquecimento

 
 
alguma vez de um costado da lua
verás cair os beijos que brilham em mim
as sombras sorrirão altivas
luzindo o segredo que geme vagueando
virão as folhas impávidas que
algum dia foram os meus olhos
virão as murchas fragrâncias que
inatas desceram do alado som
virão as vermelhas alegrias que
borbulham intensas ao sol que
arredonda as harmonias equidistantes
no fumo dançante do cachimbo do meu amor
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
la tierra más ajena (1955)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020





 

31 março 2021

leopoldo maría panero / dedicatória

 
 
Para além de onde
ainda se esconde a vida, resta
um reino, resta cultivar
como um rei a sua agonia,
fazer florescer como um reino
a suja flor da agonia:
eu que tudo prostituí, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o último poema.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019





30 março 2021

manuel resende / voltar para casa

 
 
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
Cabisbaixa?
 
 
manuel resende
em qualquer lugar
poesia reunida
edições cotovia
2018





29 março 2021

joan margarit / passeando

 
 
Gosto de caminhar sozinho pelas ruas,
com as mãos atrás das costas, sem pressa,
entre as pessoas e os carros matinais.
Cumpridor, aquele rapaz
foi obediente toda a vida.
Hoje sai de trás daquele
que, durante tantos anos, foi o seu disfarce de homem.
Há algumas coisas que não mudaram,
coisas breves e suaves, como as ausências
que as primeiras luzes acendem no crepúsculo.
Recorda quando ao rapaz que hoje regressa
lhe explicavam que os mortos estavam no céu.
Este céu que é às vezes tão azul,
que é tão frio quando se afasta da terra,
tão negro quando se acendem as estrelas.
O rapaz regressa e agarra-o pela mão.
Os dois vão-se afastando
até serem um ponto no céu. Aves que passam.
 
 
 
 
joan margarit
misteriosamente feliz
trad. miguel filipe mochila
flâneur / língua morta
2020




28 março 2021

bernardo soares / nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação...

 
 
Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento colectivo é estúpido porque é colectivo: nada passa as barreiras do colectivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo.
 
Na mocidade somos dois: há em nós a coexistência da nossa inteligência própria, que pode ser grande, e a da estupidez da nossa inexperiência, que forma uma segunda inteligência inferior. Só quando chegamos a outra idade se dá em nós a unificação. Daí a acção sempre fruste da juventude — devida, não à sua inexperiência, mas à sua não-unidade.
 
Ao homem superiormente inteligente não resta hoje outro caminho que o da abdicação.
 
s.d.
 


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
europa-américa
1986




 

27 março 2021

virgínia woolf / está uma noite lindíssima

 
 
(1921)
Quinta, 15 de Setembro
 
 
Está uma noite lindíssima – serena; o cavalo branco e o cavalo baio pastam juntos; as mulheres saem de casa sem motivo e ficam a olhar: ou a tricotar; o galo debica no prado no meio das galinhas; há estorninhos nas duas árvores, os campos de Asheham depois da ceifa ficaram da cor da belbutina branca; o Leonard está a armazenar maçãs por cima da minha cabeça. E o sol entra por uma cortina de pérolas de vidro; de modo que o vermelho e o verde das maçãs que ainda estão nas árvores fica pálido; a torre da igreja, uma mão-de-judas em prata erguendo-se entre as árvores. Irá isto evocar alguma coisa? Estou tão ansiosa por guardar este retalho, sabes. (…)
 
 
virgínia woolf
diário primeiro volume 1915-1926
trad. maria josé jorge
bertrand editora
1985

 




26 março 2021

herberto helder / as imagens

 
 
[…]
 
Num país estrangeiro, ao norte, cercados pela noite onde a neve palpita friamente.
 
O ruído chega ao quarto como um vapor ligeiro, indistintamente iluminado.
 
Falando baixo, enquanto a neve desliza pela janela e um comboio passa, brutal.
 
Isto ao mesmo tempo que a noite, a neve e o rumor.
 
E a conversa interrompe-se, tendo ficado pelo meio uma qualquer palavra, com sentido, essa também, porque todas as palavras eram animadas de uma inspiração capital.
 
Era tudo terrivelmente importante.
 
Tudo é importante, enquanto a noite cria o seu labirinto e o quarto se desloca para o coração do labirinto.
 
Estamos inclinados um para o outro, por dentro, e eu sinto uma vertigem leve, como se soubesse que o chão poderia não ser completamente seguro, e o abismo sempre prometido se fosse revelar.
 
O amado e terrível abismo.
 
[…]
 
 
herberto helder
apresentação do rosto
as imagens
porto editora
2020





25 março 2021

samuel beckett / o que é certo…

 
 
(…)
 
O que é certo é que, daqui a uma hora, será tarde de mais, daqui a meia-hora será noite, e ainda assim, não há a certeza, de quê, a certeza absoluta de quê, de que a noite impeça impeça o que o dia permite, àqueles que sabem governar-se, que querem governar-se, e que podem governar-se, que podem continuar a tentar. O nevoeiro dissipar-se-á, eu sei, por mais distraído que se esteja, o vento vai refrescar, quando a noite cair, e na montanha haverá o céu nocturno, com as suas luzes, e as dias Ursas para me servirem de guia, mais uma vez, de guia para os meus passos, esperemos pela noite. Tudo se enreda, os tempos enredam-se, primeiro só lá tinha estado, agora continuo a lá estar, daqui a pouco ainda lá estarei, penando a meia encosta, ou nos fetais que bordejam o bosque, são larícios, não tento compreender, nunca mais tentarei compreender, é assim que se diz, para já estou aqui, desde sempre, para sempre, vou deixar de ter medo das palavras caras, não são nada caras. Não me lembro de ter vindo, nunca poderei ir-me embora, estou de olhos fechados e sinto na face o húmus áspero e húmido, caiu-me o chapéu, não caiu longe, ou o vento levou-o para longe, apeguei-me muito às minhas coisas. Ora é o mar, ora é a montanha, em muitas alturas foi a floresta, a cidade, e também a planície, também já experimentei a planície, deixei-me ficar como morto em todos os cantos, de fome, de velhice, assassinado, afogado, e também sem motivo, muitas vezes sem motivo, de tédio, é coisa que dá alento, um derradeiro suspiro, e depois os quartos da minha santa morte, na cama, derreado ao peso dos meus penates, e resmungando sempre, as mesmas coisas, as mesmas histórias, as mesmas perguntas e respostas, bom menino, bastante, no extremo do meu mundo de ignorantes, nem uma imprecação, não, eu não era assim tão estúpido, ou então já não me lembro.
 
(…)
 
 
 
 
samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006





24 março 2021

marguerite yourcenar / poderias mergulhar…

 
 
Poderias mergulhar como um só bloco no nada para onde vão os mortos: consolar-me-ia se me legasses as tuas mãos. Apenas as tuas mãos subsistiriam, separadas de ti, inexplicáveis como as dos deuses de mármore que se tornaram pó e cal dos seus próprios túmulos. Elas sobreviveriam aos teus actos, aos miseráveis corpos que acariciaram. Entre as coisas e ti, elas já não seriam intermediários: seriam elas próprias, transformadas em coisas. Voltando a ser inocentes, pois tu já lá não estarias para fazer delas cúmplices, tristes como galgos sem dono, desconcertadas como arcanjos a quem já nenhum deus dá ordens, as tuas mãos vãs repousariam sobre os joelhos das trevas. As tuas mãos abertas, incapazes de dar ou de agarrar qualquer alegria, ter-me-iam deixado cair como uma boneca quebrada. Beijo ao nível do pulso essas mãos indiferentes que a tua vontade já não afasta das minhas; acaricio a artéria azul, a coluna de sangue que outrora, incessante como o jacto de uma fonte, surgia do solo do teu coração. Como pequenos soluços satisfeitos, encosto a cabeça como uma criança, entre as palmas cheias de estrelas, de cruzes, de precipícios daquilo que foi o meu destino.
 

marguerite yourcenar
fogos
trad. de maria da graça morais sarmento
difel
1995