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04 janeiro 2019

pedro tamen / fontes




Na fonte, a terra
dá-se à terra.
A água é um abraço
Que se dá a beber
E que nos cerra.



pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982











29 janeiro 2018

pedro tamen / fazer horas





Adelina: a bruma que era ontem
voa – não é já. Foi-se tão prestes
como o João das Índias. E foi lá
que um pero se ficou – tão são,
tão nosso irmão.

Adelina: que é do candeeiro
que tu dizias fosco? A luz que deu
dá ora gosto. Por isso aqui te digo
que após a morte é um minuto grande
e outro umbigo.

E está-se, Adelina. Se como burro
dói, é vero, mas está-se.
Até que passe.



pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982








02 setembro 2017

pedro tamen / manhã no louvre



1. O escriba acocorado

Ele que escreve que não saibamos já,
olhos fitos no nada que por ciência tem?
Sob os ardores do sol burila só silêncio
que sustenta no colo
e onde cabe tudo.


2. Vénus de Milo

Tisnada pelos tempos, com braços largou
com que agarrasse a norma
e o calendário sábio:
nem mais nem menos que outras,
teve a sorte que o século
dispensa aos muitilados.


3. Vitória de Samotrácia

Ideia pura, impura, do sobre o mar vencido,
ei-la que nada é, sequer a glória,
senão escultura, pedra,
e, mais, dispersa
nessa mão intrigada e lacunar
que nada diz nem voa.


4. Gioconda

Agora sei, enfim, porque sorri:
tantos papalvos, céus, em busca da memória
que a pintura não dá.

 Maio, 1989



pedro tamen
colóquio letras 113-114
fundação calouste gulbenkian
1990





14 julho 2017

pedro tamen / e agora: a tua pele




E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol ascia.


pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982




09 fevereiro 2017

pedro tamen / tu que fumas



Adiro ao grande segredo da pedra, ao
prumo inteiro da sua própria sombra.
Brando, revejo a solar rotunda dos teus ombros
e (repito) há pedra sobre pedra, inicialmente.
És tu, portanto. Tu que dizes. Tu
que sopras as coisas, tu que fumas.

A todos direi que já sabia, mas é sempre
a remodelar lembrança a dar-me sangue.
Só que nem sempre, é isto, de algo serve:
pois que veias, mais do que intenção?
e que largura imensa só nos olhos?
Fumo sem fogo, amor? Sinais?


pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
1982




22 março 2016

pedro tamen / como se na boca da trompete



Como se na boca da trompete
coloca-se a surdina sobre a vida
e a memória irrompe qual um vento
imitação de sons    de vozes    tiros
num escuro que nada mais já pode iluminar

Não há cheiro novo que resseja a planta
verdadeira    a genuína cor    o prato
a fumegar de uma sápida sopa inexistente
sopra-se na vida todo o ar que o tempo
nos pôs no peito em anos discorridos
e é cor de sombra agora o arco-íris


pedro tamen
memória indescritível
gótica
2000



20 agosto 2015

pedro tamen / e agora: a tua pele.


E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
No côncavo da mão o sol nascia.


pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
s/d





16 dezembro 2014

pedro tamen / a água


2.
Na perfeição do ramo está a pedra. Na seiva
se descobre, no rumo se percebe. Tudo se vai
em rodas de mistério, a própria viração
é a certeza da água, da pureza da água.

Nos trabalhos humildes das nossas mãos capazes,
no seio das maçãs,
no verde-mar dos dedos,
na perfeição do ramo está a pedra.



pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
1958





29 agosto 2014

pedro tamen / os dias


3

Naquele tempo, viver era a melhor coisa do mundo.
Quando nascia o sol todas as pessoas viam
e os homens eram crianças para além dos montes.
Era uma planície, grande como convém a todas as
                                                             planícies
E plana porque tudo estava certo.
Naquele tempo tínhamos sido criados e éramos iguais
                                                   às ervas e às flores.
Tu,
tão perfeita que era impossível não seres,
tão erguida como um riso de andorinha,
tu estavas ao meu lado, naturalmente fresca,
e não havia motivos nem razões porque sabíamos
                                                                  tudo.
A nossa teologia era o beijo da criança mais próxima
e ao deitarmo-nos na terra como folhas da mesma
                                                                 planta,
gratos, reduzidos, conscientes.
Olhando para cima, o céu abria-se e todos os Anjos
                                  vinham sentar-se no rebordo
e riam como nós pequenas gargalhadas.
Eu cantava canções mais belas do que não tendo
                                                            palavras
e ouvias-me em silêncio e de olhos abertos,
                    exactamente como a todos os sons.




pedro tamen
princípio de sol
circulo de leitores
s/d




30 março 2014

pedro tamen / o sangue



3.
Escrevo estes versos de grãos de terra na mão: eis a prova.
Tenho a certeza dos passos. Todos temos. Só no mais diferimos.
Era uma longa subida. Era a certeza
da nossa própria emigração. A mais bela,
a mais funda companhia. A perfeita igualdade do transporte
foi amassada em três quedas. Um braço, outro braço, um corpo
e a longa subida.



pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
1958





27 julho 2011

pedro tamen / madame butterfly, velha

 
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Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.
 
Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.
 
E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.
 
 
 


 
pedro tamen
relâmpago nº. 13 10-2003
revista de poesia
fundação luís miguel nava
2003
 
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