18 julho 2024

jack gilbert / além do prazer

 
 
 
Gradualmente percebemos que o que se sente não é tão importante
(por muito encantador ou cruel) como o que o sentimento contém.
Não o que nos acontece na infância, mas o que estava
dentro do que aconteceu. Ken Kesey sentado nos bosques,
atrás da sua cerca de motas esbranquiçadas, disse que quando
escrevia em ácidos, não estava a escrever sobre isso.
Usava o que escrevia como clarões para encontrar o caminho de volta
ao que conhecia então. A poesia regista
sentimentos, prazeres e paixão, mas a melhor procura
o que está além do prazer, fora do processo.
Não tanto a paixão quanto aquilo para que pode o fervor
ser um caminho. A poesia pesca-nos para encontrar um mundo
peça por peça, como a fotografia interrompe o fluxo
para nos dar tempo de ver cada coisa separada e suficiente.
O poema escolhe parte do nosso inesgotável fluir em diante
para conhecer o seu mérito com atenção.
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




17 julho 2024

rui diniz / notas de vigo

 
 
 
Em Vigo preocupei-me sobretudo com o calor excessivo.
Entrei num café claro para beber cerveja. Escrevi um
poema que não sei onde pára. No meio de tudo
o que me acontece e que por vezes desejei
que acontecesse, sou eu que me procuro. Uma pro-
cura relativa, comedida, bem entendido. Porque
a certa altura toma-me o cansaço.
E quase me destruo, ao pensar que cheguei a um
vazio oposto a tudo quanto procurava. A respeito
de mim em Vigo, quase nada. queria comprar
livros. Escolhi dois livros que depois verifiquei não
serem de grande utilidade. Mas ainda não os li.
Ah, gosto de cemitérios. Agradeço ao Nuno, isso. Mas
em Vigo os mortos deambulavam estranhamente
pelas próprias ruas e a galiza continuava deste
modo a ser-me insuportável.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022



16 julho 2024

carlos de oliveira / descida aos infernos

 
 
12
 
Foi por isso que vim,
descendo aos infernos que ardem
no olhar futuro
dos animais fogosos
que estás criando
em teu ventre secreto.
 
Foi por isso que vim,
morrendo lentamente
as mortes embuçadas no trajecto.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982




15 julho 2024

miguel serras pereira / de alguns rostos perdidos

 
 
 
De alguns rostos perdidos do rosto fica ou solta-se
anónimo esse brilho ao acaso deixado
esparso entre os lugares por onde um dia passaram
tão súbito de novo que assim talvez devêssemos
morrer como quem nele enfim de si se fosse
 
e deixasse ir-se a vida esquecida no seu rasto
 
 
 
miguel serras pereira
á tona do vazio & reprise
cinquenta anos de poesia de miguel serras pereira 1969-2019
véspera
barricada de livros
2022




 

14 julho 2024

pedro homem de mello / sopro

 
 
 
Passas como passa
O riso do vento
Mas na tua graça
Não há pensamento.
 
Porém, sem teu riso,
Que seria a graça
Do meu pensamento?
 
 
 
pedro homem de mello
jardins suspensos (1937)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983





13 julho 2024

nuno guimarães / seguro então a vida em pleno

 
 
Seguro então a vida em pleno
solo. Aí me deito
com os sinais perpétuos: árvores,
bosque, sombra, a permanência
de objectos olhados ou suspensos.
Agora, a outra lei – extractos
De sol sobre a retina – cede. Ao fácil
 
vento, à comoção do ar
pensado, onde se vive. Deste lugar os
elementos se afastam. Estão mortos,
inactivos no foco. Ou pela sombra
gravados, suspensos de algum livro.
Criaram-se da luz! São objectos
perecíveis: na imprecisão
da imagem, no seu repouso
exterior – entre a ciência e a vista.
 
 
 
nuno guimarães
extractos
entre sílabas e lavas
poesia completa
assírio & alvim
2024
 



12 julho 2024

luís quintais / derrota

 
 
És o derrotado.
Por uma impressão, um domínio
de imagens onde os grandes trevos
desenham as suas sombras,
 
por um meio-dia sem esperança
ou virtude, uma floresta
de bichos atónitos no fulgor
desbrido de uma clareira.
 
Os nomes tinham coisas no início.
Depois perderam-se os nomes
na sua relação (sanguínea, densa)
com as coisas. As peças de que se compunha
a natureza deslocaram-se para parte incerta.
 
Escreves atestando a derrota.
 
 
 
luís quintais
nocturama
assírio & alvim
2024




11 julho 2024

josé miguel silva / o atalante – jean vigo (1934)



 

 
No dia em que fomos ver O Atalante
eu levava, por coincidência, um cubo de gelo
no bolso do casaco. Lembro-me de tremer
um pouco. Até aí, tudo bem. Pior,
foi quando te ouvi pronunciar, distintamente:
quem procura o seu amor debaixo de água,
acaba constipado.
Na altura, ri-me: pensei que galavas do filme.
Sou tão estúpido.
 
 
 
josé miguel silva
movimentos no escuro
relógio d’água
2005




 

10 julho 2024

fernando assis pacheco / o pensionista de caxias



 

 
Já o fotografaram em pijama agora de gilet claro e é o mesmo homem
fala baixo aos jornalistas com repetidas desculpas
por não saber responder a tal assunto (preso há três anos)
enquanto da Pide tem uma imprecisa e vaga como explicar lembrança
 
mas instado a dizer se aceitaria ainda uma vez ser o chefe
de uma qualquer polícia dessas que afinal «iguais em todo o lado»
encolhe os ombros. Por «honestidade» sim senhor repórter aceitaria
 
 
 
fernando assis pacheco
a profissão dominante (1982)
a musa irregular
tinta-da-china
2019
 



 

09 julho 2024

eugéne guillevic / carnac (fragmentos)

 
 
 
7
 
OUVE bem o que faz
A pólvora explodindo.
 
Ouve bem o que faz
O frágil violino.
 
 
 
guillevic
poesias de guillevic
tradução de david mourão-ferreira
editora ulisseia
1965
 




08 julho 2024

arsenii tarkovskii / pela noite

 
 
 
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria «Abençoada sejas!»
Sabendo como pretenciosa era a bênção:  
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobra as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
 
 
arsenii tarkovskii
8 ícones
versão de paulo da costa domingos
assírio & alvim
1987




07 julho 2024

antónio gedeão / amador sem coisa amada

 




 
Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.
 
Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.
 
Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
 
 
 
antónio gedeão
poemas escolhidos
edições joão sá da costa
1999




06 julho 2024

eugénio de andrade / as mãos e os frutos

 
 
 
VII. Noite Transfigurada
 
Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
– chegaste,
nem eu sei de que horizontes.
 
Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
– ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.
 
Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
nítida no ângulo das esquinas
– ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.
 
 
 
eugénio de andrade
as mãos e os frutos
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 


05 julho 2024

antónio gancho / arco-íris

 
 
 
A luz arco-irizante dos céus
numa noite de trovoada
estabelece-se depois de dia
num mistério o arco-íris.
Tem sete cores o arco-íris
ou o arco-íris compõe-se de sete cores
vermelho, violeta, anil, roxo, lilás, castanho e amarelo.
Depois destas sete cores acabada a trovoada
a gente pode parar, tirar o chapéu, etc., etc.
Ou aussitôt que l’idée du déluge se fût rassise
un lievre s’arrêta dans les sainfoins et les clochettes mouvantes
et dit sa prière à l’arc-en ciel à travers la toile de l’araignée
E depois é assim. Oh les pierres précieuses qui se cachaient
no fim do mundo onde fica o arco-íris
les fleurs qui regardaient déjà.
No entrementes Madame établit un piano dans les Alpes.
Pois ou aussitôt que l’idée du delúge acabou
ou assim mal acabou a ideia que já não havia de haver dilúvio
é que então uma lebre parou de repente entre as papoilas no feno e entre as
papoilas ou as campainhas de feno e
disse a sua prece ao arco-íris feito e apareceu o arco-íris
ao qual então a lebre disse uma prece fez uma prece.
E chovia muito nesse dia.
 
 
 
antónio gancho
gaio do espírito (dez. 85 / Fev. 86 )
o ar da manhã
assírio & alvim
1995




04 julho 2024

gonçalo m. tavares / perceber os deuses

 
 
 
Perceber os deuses e a catástrofe; melhorar o dia, percebendo.
Aproveitar o chão para subir: nada acontece no céu até lá chegarmos.
Atar o invisível ao quotidiano com uma corda de estender a roupa:
devorar dias, oferecê-los sobre a mesa como um almoço. Fugir.
Não têm factos: s Deuses bebem apenas: fumam velhos, recém-
-nascidos: no céu os animais valem tanto como os reis.
Só o sangue importa; e o modo como se morre.
Os Deuses também morrem, mas neles, os ossos, desaparecem
de forma distinta.
Como se fôssemos água: alguém nos bebe.
 
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 



03 julho 2024

pat boran / desde que te foste embora…




 
os dias aprenderam uma linguagem nova,
os anoiteceres falam em línguas –
 
as vozes da chuva na janela do quarto,
do vento a sussurrar na rua varrida pela chuva,
 
os canos de casa a barulharem,
torneira atrás de torneira.
 
A perda descobre novas canções
em instrumentos antigos.
 
 
 
pat boran
o sussurro da corda
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018




 

02 julho 2024

guillaume apollinaire / laços

 




 

 
Cordas feitas de gritos
 
Sons de sinos através da Europa
Séculos enforcados
 
Carris que amarrais nações
Não somos mais que dois ou três homens
Livres de todas as peias
Vamos dar-nos as mãos
 
Violenta chuva que penteia os fumos
Cordas
Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes
 
Aranhas-Pontífices
Todos os apaixonados que um só laço enlaçou
 
Outros laços mais firmes
Brancas estrias de luz
Cordas e Concórdia
 
Escrevo apenas para vos celebrar
Ó sentido ó sentidos caros
Inimigos do recordar
Inimigos do desejar
 
Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda
 
 
 
guillaume apollinaire
poesia do século xx
(de thomas hardy a c. v. cattaneo)
antologia e tradução de jorge de sena
editorial inova
1978
 




01 julho 2024

john ashbery / a vida como um livro que se fechou

 



 

Apagámos todas as letras
E a afirmação mantém-se vagamente,
Como uma inscrição sobre a porta de um banco,
Com números romanos difíceis de decifrar,
E que, à sua maneira, talvez digam de mais.
 
Não estávamos a ser surrealistas? E porque é que
No bar estranhos observavam o teu cabelo
E as tuas unhas, como se o corpo
Não procurasse e encontrasse a posição mais confortável,
E a tua cabeça, essa coisa estranha,
Não ficasse cada vez mais problemática de cada vez que alguém fechava a porta?
 
Falámos um com o outro,
Levámos cada coisas só até onde podíamos,
Mas na ordem certa, e assim ela é música,
Ou qualquer coisa como música, falando da distância.
Temos apenas algum saber
E mais que a ambição necessária
Para o transformar num fruto feito de nuvem
Que nos protegerá até desaparecer.
 
Mas o seu sumo é amargo,
Não temos disso nos nossos jardins,
E tu devias subir até onde mora o saber
Com esse sarcasmo desprendido, para aí alguém
Te dizer de vez: não está aqui.
Só fica o fumo,
E o silêncio, e a velhice
Que fomos construindo como uma paisagem,
De alguma maneira, e a paz que bate todos os recordes,
E o cantar no campo, um prazer
Que há-de vir e não nos conhece.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992
 




30 junho 2024

juan ramón jimenez / virá um dia um homem




 
109
 
Virá um dia um homem
que, lançado sobre ti, tente despir-te
do teu luto de ignota,
– palavra minha, hoje tão nua, tão clara!
Um homem que te creia
sombra feita água de delgado murmúrio,
a ti, voz minha, água
de luz tão simples!
 
 
 
juan ramón jimenez
antologia poética
tradução de josé bento
relógio d’ água
1992




 

29 junho 2024

jorge luís borges / o despertar

 
 
 
Entra a luz e ascendo inertemente
Dos sonhos para o sonho repartido
E as coisas recuperam o seu devido
E aguardado lugar e no presente
Concentra-se, opressivo e vasto, o vago
Ontem: as seculares migrações
Das aves e dos homens, as legiões
Que o ferro destruiu, Roma e Cartago.
Também regressa a quotidiana história:
Meu rosto, minha voz, receio e sorte.
Ah, se aquele outro despertar, a morte
Me apresentasse um tempo sem memória
Do meu nome e de tudo o que fui sendo!
Se nesse dia houvesse esquecimento!
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




28 junho 2024

júlio pomar / explicação aos que já sabem



 
 
          A invenção da palavra não tem data
nem número de registo.
A palavra inventa e inventa-se cada dia e é isso que
à falta de melhor se chama poesia.
 
“À falta de melhor” é critério
manhoso de quem não teve
sempre o necessário e passa o tempo
a busca-lo no que mais se aproxima.
 
Tiro de zagalote ou granada, a poesia mina
cada estilhaço
da via sacra dos significados
e não há contraceptivo que a proteja.
 
Aprendeu a poesia à mesa do bilhar
ao levar as bolas a tocarem-se
quando para isso
desejo e arte andarem de mão dada.
 
Troque-se as bolas por coisas ou palavras e
siga a banda! a compor com os limites porque tudo é música
e, afinados os trompetes, tire-se
de coisas e palavras
 
 
a mistura explosiva.
 
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 




 

27 junho 2024

josé pascoal / sal grosso

 
 
 
No movimento piscatório,
Os pescadores sofrem
De hipotermia.
 
Navalhas frias
Enterram-se nos ventres
Vazios.
 
E na terra parada
Há quem se aqueça
Com peixe assado
Na brasa.
 
 
 
josé pascoal
excertos excertos
editorial minerva
2018



26 junho 2024

anna akhmatova / quando morre um homem

 
 
 
Quando morre um homem
Todos os seus retratos mudam.
Os olhos observam-nos de forma diferente,
Os lábios sorriem com outro sorriso.
Dei por isto ao regressar
Do funeral de um poeta.
Constatei-o depois inúmeras vezes
E a minha suposição confirmou-se.
 
 
 
anna akhmatova
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 



25 junho 2024

rené char / os primeiros instantes

 
 
 
Víamos correr diante de nós a água que aumentava. Apagava de repente a montanha, expelindo-se dos seus flancos maternais. Não era uma torrente que se oferecia ao seu destino, mas um animal inefável, em cuja palavra e substância nos tornávamos. Retinha-nos apaixonados sob o arco todo-poderoso da sua imaginação. Que intervenção teria podido constranger-nos? Já não se fazia sentir a exiguidade quotidiana, o sangue derramado fora restituído ao seu calor. Adoptados pelo espaço aberto, desbastados até ao invisível, éramos uma vitória que jamais teria fim.
 
 
 
         
rené char
a fonte narrativa (1947)
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




24 junho 2024

konstantinos kaváfis / longe

 
 
 
Quisera evocar esta lembrança…
Mas já se esvaiu… como se nada restasse –
porque jaz longe, nos primeiros anos de juventude.
 
Uma pele como que feita de jasmim…
Essa noite de Agosto – seria Agosto? – essa noite…
Apenas lembro por fim os olhos; eram, creio, azuis…
Ah, sim, azuis! – um perfeito profundo azul.
 
1914
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017



23 junho 2024

ibn muqânâ / ó homem de alcabideche

 
 
 
ó homem de Alcabideche
que não te faltem sementes.
que o labor do teu moinho,
cuja vela o vento mexe,
possa ter o remoinho
que dispensa as correntes.
em ano bom só terás
não mais que vinte medidas
pois que as restantes verás
pelos javalis comidas.
é terra de pouca valia,
como eu próprio, agora surdo.
deixei corte luzidia,
mais o seu luxo absurdo.
em Alcabideche estou
no campo silvas cortando
com a podoa trabalhando.
se alguém te perguntar
se do teu trabalho gostas
tu responde-lhe que sim:
quem ama ser livre assim
de bom carácter dá mostras.
basta-me só o amor
e dádivas que recolhi.
deixei tudo sem rancor
e em tempo de primavera
a este chão me acolhi.
 
 
 
ibn muqânâ
o meu coração é árabe
adalberto alves
assírio & alvim
1999
 
 


22 junho 2024

adília lopes / arte poética

 



 

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
os nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo d enão chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
 
 
 
adilia lopes
um jogo bastante perigoso (1985)
caras  baratas
antologia
relógio d´água
2004



21 junho 2024

adam zagajewski / na beleza criada pelos outros

 
 
Só na beleza criada pelos outros
existe consolação, na música
e nos poemas dos outros
Só os outros nos podem salvar,
mesmo que a solidão tenha o sabor
do ópio. Não são o inferno, os outros,
se os espreitarmos de manhã, quando
têm a testa limpa, lavada pelos sonhos.
Por isso cismo muito sobre a palavra
que hei-de usar, «ele» ou «tu». Cada «ele»
é uma traição a qualquer «tu», mas,
em troca, um poema de alguém fielmente
oferece uma fresca, moderada conversa.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017



20 junho 2024

jean cocteau / situação de mallarmé

 



 
Uma juventude presa do maravilhoso e do cinismo prefere não importa que médium de feira, não importa que escroque, a este modelo de homem honesto, de burguês íntegro, de aristocrata consumado, de operário fervoroso, de joalheiro: Mallarmé. Humano, demasiado humano. Confesso, pela minha parte, desaparecida a sombra que o nimbava, não ver nele senão o modern-style da joalharia.
 
Se Mallarnmé lapida pedras preciosas, são, em vez de diamante, uma ametista, uma opala, uma gema da tiara de Herodíades no Museu Gustave Moreau.
 
Rimbaud roubou os seus adiamantes: mas onde? É esse o enigma.
 
Mallarmé, o sábio, fatiga-nos. Merece a dedicatória suspeita das Fleurs du Mal, que Gautier não merece. Rimbaud conserva o prestígio da receptação, do sangue; nele, o diamante é talhado em vista de uma efracção, com o único fim de cortar um vidro, uma montra.
 
Os verdadeiros mestres da juventude entre 1912 e 1930 foram Rimbaud, Ducasse, Nerval, Sade.
 
Mallarmé influencia mais o estilo do jornalismo.
 
Baudelaire vai ganhando rugas, mas conserva uma juventude surpreendente.
 
Cada um dos versos de Mallarmé foi, desde o nascimento, uma bela ruga fina, estudiosa, nobre, profunda. Esse ar mais de velhice que de eternidade impede a sua obra de envelhecer aqui ou ali e confere-lhe uma aparência de conjunto enrugada, análoga à das linhas das mãos, linhas que fossem, porém, decorativas, em vez de proféticas.
 
 
 
jean cocteau
ópio
trad. miguel serras pereira
difel
1984





19 junho 2024

steve klepetar / futuro

 



 
A minha mãe lia
o futuro enquanto limpava,
 
vendo as nossas vidas
todas desenrolar-se
 
reflectidas em poças de água
escorregadias no chão da cozinha.
 
 
 
steve klepetar
o filho da bebedora de café
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018




18 junho 2024

roland barthes / incidentes

 
 
 
 
 
Velho cego, mendigo de «djellaba» e de barba branca: imponente, impassível, antigo, sofocleano, odeonesco, enquanto o adolescente que mendiga para ele projecta no rosto toda a carga expressiva que uma situação assim justifica: a expressão torturada, repuxada por um esgar descendente, ostenta a dor, a miséria, a injustiça, a fatalidade: Vejam! Vejam!, diz a cara da criança, vejam aquele que já não pode ver.
 
 
 
roland barthes
incidentes
trad. tereza coelho e alexandre melo
quetzal
1987
 


17 junho 2024

roger wolfe / a avaria

 
 
Dar amor, já sei.
Mas não funciona.
 
Mostrar piedade, já sei.
Mas não funciona.
 
Eliminar o Eu, já sei.
Mas não funciona.
 
Acabar com a cobiça,
já sei.
Mas não funciona.
 
Dar
a outra face,
já sei.
Mas não funciona.
 
Viver o presente (e não o futuro
nem o passado), já sei.
Mas não funciona.
 
Que fazer, então?
Não sei.
E não funciona.
 
 
 
roger wolfe
fazer o trabalho sujo
tradução de luís pedroso
língua morta
2020




 


16 junho 2024

jacques prévert / tantas florestas

 
 
 
Tantas florestas arrancadas à terra
e massacradas
devastadas
devoradas pelas rotativas
Tantas florestas sacrificadas com vista ao fabrico de
                                                     pasta de papel
de milhares de jornais que chamam anualmente a
                                           atenção dos leitores
para os perigos da desflorestação dos bosques e das florestas
 
 
 
jacques prévert
sonhador definitivo e perpétua insónia
uma antologia de poemas
surrealistas escritos em língua francesa
trad. regina guimarães
contracapa
2021





15 junho 2024

hans-ulrich treichel / estação abandonada

 
 
O caminho pedregoso,
onde os autocarros azuis
moem os eixos, desde que o comboio
já não passa.
 
O braço negro de uma bomba
que deita uma sombra de forca.
 
Cardos de um cinza prateado
crescem como flores mágicas entre os
carris; o depósito de água
engole pó.
 
Que despedidas
poderia haver aqui,
que abraços.
 
 
 
hans-ulrich treichel
como se fosse a minha vida
trad. colectiva
poetas em mateus
quetzal editores
1994
 



14 junho 2024

antónio franco alexandre / duende

 
 
5.
Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,
e a água onde mergulhas logo encerra
em fresca e fina luva o corpo inteiro
e sem pudor algum te abraça e beija.
Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,
pela nudez da carne se insinua
e entre as coxas flutua, como um peixe
mais branco, que outra sombra continua.
Mas eu, quando me cubro do teu rosto
e sou somente de água e fogo feito,
melhor ainda te conheço e quero,
e nada no teu corpo me é alheio:
em cada grão de pele te desejo,
em cada ruga leio o meu destino.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002
 



13 junho 2024

eugénio de andrade / matéria solar

 
 
1
 
Podias ensinar à mão
outra arte,
essa de atravessar o vidro;
 
podias ensiná-la
a escavar a terra
em que sufocas sílaba a sílaba;
 
ou então a ser água,
onde de tanto olhá-las
as estrelas caíam.
 
 
 
eugénio de andrade
matéria solar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 




12 junho 2024

manuel antónio pina / [uma casa]

 




 
Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras,
nas suas caves, nos seus infindáveis corredores;
pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja,
na ausência das palavras calar-se.
 
Não, com nenhuma palavra abrirás a porta,
nem com o silêncio, nem com nenhuma chave,
a porta está fechada na palavra porta
para sempre.
 
O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás,
nem sob ele te deitarás nas longas tardes de Verão
como quando eras música apenas
sem uma casa guardando-te do mundo.
 
 
 
manuel antónio pina
como se desenha uma casa
ruínas
assírio & alvim
2012




11 junho 2024

vasco graça moura / picasso visto do porto

 
 
1
 
musa, quando você se despe no meu quarto
e à meia-luz o seu olhar faísca atrás de um ombro
e muito de costas nuas o cigarro vicioso desponta a um canto da pintura
                                                                                          [agressiva
e as suas pernas se arqueiam antecipando a música,
 
o movimento do colar faz-me lembrar Baudelaire
mas você cita t. s. eliot e outros cerebrais
e a sua roupa esvoaça em mariposas lânguidas
e ritmos a camisas despregadas
 
e você, rapsoda, ainda há pouco
semitaconeando insinuava projectos
do alto desses saltos que transmitem
esguia vibração aos seus artelhos.
 
partilharei consigo ocupações pontuais,
tenho agora de escrever sobre picasso
visto do porto, encomenda tão óbvia
que até se corre o risco de cair no melancólico.
 
 
 
vasco graça moura
os rostos comunicantes
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 



10 junho 2024

ruy belo / nau dos corvos

 




 
Nau parada de pedra que tanto navega
e há tanto está no mar sem nunca a porto algum chegar
nau só a ocidente e todo o mar em frente
condensada insolência intemerato desafio
a mundos devassados mas desconhecidos
corvos de água e de vento aves feitas de tempo
que tão completamente são dois olhos côncavos
e fitos só nas coisas que importam verdadeiramente
nave que sulca não as águas mas os dias
navio de carreira entre o tempo e a eternidade
num espaço onde um simples segundo tem a minha idade
pedra que só aqui se liquefaz
água que só aqui solidifica
cais quente coração de corvos
vistos por quem nunca antes vira a solidão caber
em tão poucos centímetros quadrados
do mínimo de corpo necessário para a vida se afirmar
ó nau navio corvos pedra água cais
aqui estou eu sozinho todos os demais ficaram para trás
Aqui nada decorre e nada permanece
aqui os corvos são a solidão multiplicada
consistente conglomerada mas estilhaçada
unificada mas feita em bocados
De todos estes bicos curvos extremo ósseo dos corvos
onde depois os corvos passam a ser pedra e depois água
sai uma voz vasto discurso cada vez
Os corvos são a pedra menos pétrea do cabo
é nos corvos que o mar deixa de ser marítimo
Nesta nau se efectua esse comércio secular
da terra feita pedra com a água mais doméstica do mar
A névoa envolve e como que enovela os corvos
a rocha é um buliçoso e anárquico aeroporto
donde em cada momento sai um corvo
aéreo ante cujo vulto que levanta eu me curvo
O moreira baptista decerto gostaria que os corvos
se não os palradores os que ganham prémios literários
pelo menos os rudes negros os incultos mas os verdadeiros corvos
poisassem sempre no mais alto do rochedo
mas quando no inverno sopra o vento norte
e sentem frio poisam nalguma parte baixa para o lado sul
e estão-se marimbando para a propaganda
de um país vendido que eles não compraram
eles humildes corvos aves e não peixes nunca tubarões
Só aqui podem ver-se às vezes coisas invisíveis
o infinito aqui começa a acabar
em nenhum outro sítio se ouve tanto o inaudível
nem assim se define o que não tem definição
Deste porto se parte para mais que transatlânticas viagens
e em tão poucos segundos é difícil ver tantas imagens
Ninguém é cidadão deste tão pétrea pátria
nem mesmo há quem mereça aqui poisar só por instantes a cabeça
até que a prostração mais funda no total desapareça
Permite ó nau petrificar aqui
a minha sensação mais passageira
ou o meu mais instável pensamento
Eu nunca até agora e já sou velho vi
quebrar assim o tempo como quebra em ti
Que aqui o sol escureça e a noite que amanheça
neste morrer da terra onde uma vida sem cessar começa
Que após ter visto a nau mais náutica de todas essas naus
que sulcaram os inumeráveis séculos oceânicos
feitos tanto de tempo como de água
finalmente me fosse lícito fechar
definitivamente os olhos que apesar de tanto olhar
não conseguem optar entre a pedra e o mar
E só agora findas as palavras eu pressinto
pela primeira vez haver algum poema
por detrás do poema pura coisa de palavras
 
 
 
ruy belo
nau dos corvos
todos os poemas II
assírio & alvim
2004




09 junho 2024

herberto helder / retratíssimo ou narração de um homem depois de maio

 
 
Retratoblíquo sentado.
Retratimensamente de/lado, no/acto
conceptual de/ver quantos vivos quantos
dando folhas sobre os mortos de topázio.
Mãosagora, veloz rosto, visão pura.
Esquerdo ao/lado, fogo
junto à cabeça. E mais fogo à/direita por/detrás
da mão estreita pegando no ar
como num livro. Julgo ser eu.
Eu às/portas do sono, e não
se sabe se venho do sono, oh nem se
me empolgo numa ilusão
sombria. Eu oh nem se
me entro para um sonho extenuante.
Sono empurrado de inspiração
terrena.
 
Retratobliquamente livre e martelado
em sua leveza.
Com algum espinho meio/visível perto
da cabeça. Como se a cabeça
fosse uma rosa venenosa, ou coisa
inclinada e dolorosa. Para ser defendida
ou ferida no/acto
da exaltação. Retrato frio. Num grau
de ausência, num degrau de alucinação.
Frio nas fronteiras do concreto, e  ardente
perto perto,
Por/cima , nuvens de cinza revoltada,
Em/baixo, fruta aberta.
Fundos de paisagem veemente e incompleta.
 
Imaginativa, a roupa; e as pregas, precipitadas.
Que cheiraria a suor um/pouco,
e a tabaco. Por/cima
do colarinho vago o caloroso
sorriso de ironia é quasexacto. Boquim-
pura contínua - mente/regenerada
pelo amor e, pelo amor, tornada
soturna e abrupta.
Morte ao/meio como alta
alta desarmonia, Que os poderes oh confundia.
 
Ou talvez toda a força se movimente
para o centro do retrato.
E a morte se urde do próprio modo como
a carne alimenta o silêncio compacto
no/meio do retrato.
 
Talvez este ser se abisme em seu núcleo
central. E toda a figura se levante, na arquitectura
da cadeira, por virtude desse nó
ou núcleo trágico. Assim como uma pura
concepção em/torno de um delírio
vingativo e transacto.
 
Qualquer coisa no retrato ressalta
do espírito de um homem que foi assassinado.
Há um punhal implícito.
Sangue desdobrado.
A cadeira é alta e existe dentro do fogo.
O sexo suposto está masculino. O livro
entreposto à vida e à visão
é um livro feroz e ao mesmo tempo destruído
pela beleza.
Este homem não fala, porque se fez pedra extrema
fechada.
Sua idade ouve-se a si/mesma, infiltrada
até ao terror.
 
Não tem amor senão do amor.
É um homem devastado pelo pensamento da alegria.
Deus vive nele um tempo obscuro
de esquecimento. Este homem mora
nas coisas miúdas transpostas,
comparadas, alvitradas, justapostas.
Vive em/arco.
Pensa em/espírito de fogueira.
Tem toda a mão queimada até ao silêncio
atroz. Rodearam-lhe a voz.
Contudo, seu ser é destinado à alegria verdadeira.
 
Se adormecesse, deveria ser acordado.
Ou deveria recostar-se na cadeira, ca -  ir
em sua/própria fantasia
calma. Não há nele vida celeste,
nem malícia de alma
Há uma assimetria insondável, um destino ou
desatino casto e demorado.
Por isso é que está de/lado.
Existe, ao/centro, uma força assombrosa.
 
Nele tudo ousa.
Vai morrer imensamente (ass) assinado.
 
                                                            1961-62
 
 
 
herberto helder
poesia toda
assírio & alvim
1996





08 junho 2024

jorge de sena / sete sonetos da visão perpétua

 
 
1
 
Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
 
em só relance de malícia crua.
Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista, retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.
 
E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.
 
Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.
 
Mas quantas rugas no sorriso ansiado!
 
 
 
jorge de sena
peregrinato ad loca infecta (1969)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972




07 junho 2024

fernando pinto do amaral / nenhuma sombra ilude o que o olhar

 
 
1.
 
Nenhuma sombra ilude o que o olhar
protege quando arrasta
o céu por uma noite. Condenado
às primeiras imagens, não sei
dissolver-te nas águas de outubro, deixar
que o vento me responda. Qualquer coisa
tão perto e tão longe da morte.
 
 
fernando pinto do amaral
a luz da noite
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000





06 junho 2024

joão miguel fernandes jorge / veio carregado de desassossego

 
 
 
Veio carregado de desassossego e
de claros instintos.
 
A eternidade corre a seu favor.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019





05 junho 2024

luís miguel nava / em sintra

 
 
 
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
 
 
luís miguel nava
onde à nudez
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



04 junho 2024

joaquim manuel magalhães / e chamo à juventude a melancolia

 
 
 
E chamo à juventude a melancolia,
a beira-rio, o barco de muitos mastros
que ninguém navega, a deriva
na prisão dos olhares. Uma vez,
saí da cidade para a aldeia costeira.
Cantavam. Perguntou
o que era o jantar, apanhou canas,
com um golpe de rins soltou um ramo
da macieira. Aluz recebe a luz
do seu corpo deitado. O clarão do mar
move-se na sua voz,
a distância, seu.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
os poços
uma luz com um toldo vermelho
editorial presença
1990





 

03 junho 2024

eduardo pitta / houve ali um rosto



 

 
                                          A minha mãe
 
 
Houve ali um rosto
muito belo, mal disfarçado
na teia geométrica
de uma finíssima máscara.
 
Sulcos de um antigo
ardor.
Tranquilo e arbitrário
desapego.
 
A luz baixou tanto.
Aquele rosto é
um mapa: um mapa
crivado de cidades saqueadas.
 
 
 
eduardo pitta
olhos calcinados
desobediência
poemas escolhidos
dom quixote
2011
 




 

02 junho 2024

cristovam pavia / sina

 
 
 
Eu vivo tudo por dentro.
Os meus enredos fabrico
(Quase sempre dolorosos!)
E não os conto a ninguém!
– O meu poço é o meu pico,
Que me pica e contém…
 
 
…………………………………………
 
 
Sem poço não ando bem!
 
 
 
cristovam pavia
poesia
dom quixote
2010




 

01 junho 2024

edmundo de bettencourt / amor

 
 
Amas de mais, não possuis
o amor que a todos vem.
Quem ama tudo não pode
ser amado por alguém.
 
Amor de tudo! – ninguém,
mas coração mais fecundo
que, por beijar doutro modo,
só tarde vive no mundo!
 
De longe o sol nos aquece,
de longe nos abre focos.
– Ó cinco chagas de Cristo,
no espelho de misantropos!
 
Só chega ao Sol quem tem asas
para um voo longo e leve
– quem antes que a luz o cegue
chega lá desfeito em brasas!
 
 
 
edmundo bettencourt
o momento e a legenda (1917-1930)
poemas de edmundo de bettencourt
assírio & alvim
1999
 




31 maio 2024

eduarda chiote / equívocos

 



 
Repetimo-nos.
E à força demolidora do quotidiano
vamos entregando a subtileza
da pele e o apagar dos astros: a servidão – esse
congénito equívoco.
 
E o gelado assombro das presenças
que nos colocam na fronte o tríplice sinal de
lucidez.
 
E nenhuma idade
a tal horror é poupada. Porque, e para além
do pó e o apodrecer das cinzas,
nem mesmo, acredita, a brutal invenção
do espírito.
 
 
 
eduarda chiote
a celebração do pó
asa
2001



30 maio 2024

sandra costa / manual da vida breve

 
 
8.
 
Desconheço o que vai para além
do cheiro das flores, o que vai para além
do sol abrindo as manhãs entre nuvens,
o que vai para além dos musgos crescendo
em telhados abandonados, o que vaia para
além das sombras que se encontram
 
 
 
sandra costa
manual da vida breve
poesia reunida 2003-2021
officium lectionis edições
2021





 

29 maio 2024

nuno guimarães / palavras que rebentam

 



 
Palavras que rebentam. Aflorando
a pedra, a solidão, deslizam, vagas,
gramaticais, roendo inconformadas
as arestas, o atrito, puras. Quando
 
nos líquidos, no éter, na distância,
diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
combatem, rumorosas, cal e cântico.
 
É difícil atarem corpo e vida
aos que vivem e morrem subjacentes
subjazendo, talhados para mina.
 
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
rebentam em ogiva, funcionais
chamas supostamente adormecidas.
 
 
 
nuno guimarães
as palavras
entre sílabas e lavas
poesia completa
assírio & alvim
2024