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01 fevereiro 2020

agustina bessa-luís / inverno


  
     De repente, era Inverno; escurecia cedo outra vez, os vendedores de castanhas apareciam e o fumo dos pequenos assadores espalhava-se no ar húmido, ar de cidade à noite, quando toda a gente sabe que tem um lar e o procura. Os jornais eram capazes de ter razão e traziam folhetins completamente conforme os meus gostos: Sem família ou Lucrécia Bórgia. E os manequins das montras abriam a estação com os modelos que pareciam sempre algo reprováveis, mas irresistíveis – isso eram.



agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008










09 agosto 2019

agustina bessa-luís / verão



Havia diante de nós três meses compridos, sem praia e sem mudanças. O calor varava a ramada sobre o pátio, e o banco de jardim que lá estava só lhe faltava crepitar e arder. Acho que era por se dar ao respeito, como banco e não madeiro velho, que ele não se punha a fumegar. Vinha da mina uma água fria e saborosa, e ela só alegrava a mesa de Verão; o seu gorgolejar na treva de xisto da mina dava uma impressão de calma e abundância.



agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008








19 maio 2019

agustina bessa-luís / poesia




A poesia, não acredito que seja esse estado nervoso tão doente e agitado. Alguns poetas parece que lhes arrancam os dentes ou deliram numa meditação assombrosa com coisas que nos descrevem o amor e a morte, mas não sabemos se se lhes parecem. A poesia, vou dizer-vos o que é: eu tinha uma avó velhíssima, de quase cem anos, que perdera já a memória do presente. Não reconhecia as filhas, que a não deixavam nunca só e a serviam continuamente. Não reconhecia os lugares da casa, a porta chapeada de zinco que abria para o caminho, a outra porta pequena que abria para o quinteiro. Mas, às vezes (eu fixo-me numa ou duas em que assisti a isso), ficava atenta à chuva que caía, e ordenava, levantando a mão tão branca e ociosa, ela que trabalhara tanto a amassar a farinha e carregara tantas abadas de legumes e de feijão, e carregara ao peito os filhos também. Ela disse, olhando pela janela a eira inundada: «Vem ali o teu pai e não tem casaco. Leva-lhe um casaco para que a chuva o não molhe.» Era uma cena que ela reproduzia fielmente passados mais de quarenta anos, e isso era poesia.

A melhor impressão que a poesia nos pode dar é esta: ficar de coração vagabundo, deixando a vareja estalar na janela as asas grossas, e não dar por isso, como um cão surdo.



agustina bessa-luís
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guimarães editores
2008






11 setembro 2018

agustina bessa-luís / aforismos




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Na consciência dessa presença alheia, única e permanente mesmo que seja pelo espaço de um momento breve, está o amor.

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Ninguém se orgulhe de despertar amor. Ele é um efeito de sombras, de entendimentos com o passado de que nem sequer somos testemunhas.

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O amor não é uma temperatura, é todo o fundamento duma cultura. É uma forma de impertinência sagrada, um repudiar de todas as crenças que envolvem a destruição desse segredo imenso que é o ser humano.





agustina bessa-luís
aforismos
guimarães editores
1988






20 julho 2015

agustina bessa-luís / emigrar



Às vezes penso em emigrar. É uma tendência fatal dos Portugueses que se manifesta desde o primeiro bocejo; só que um é de fome e outro de puro aborrecimento: um sugere-o a contracção do estômago onde se digerem côdeas e couve galega; outro, a mente em que se arrefecem pensamentos e suas consolações. Por isso, por esta inclinação movediça, a nossa cultura é estrangeirada; não se recorre ao sabor pátrio, de tanto que ele se traduz em humilhação e impedimento. Mas vai eu, em tentação de romper com muitas amizades, que em serem inimigas me dariam mais proveito, estabeleço planos tão bem gizados que, a traduzirem estratégia guerreira, já tinha por camaradas Aníbal e Alexandre. Todavia, há sempre um nada que me assombra e imobiliza. Não é o respeito por coisas famosas, a História e os grandes cá da terra. São coisas pequenas, devoradoras da paz se as temos por distantes: um dia de chuva na Primavera, com aqueles campos acima do Ave, crivados de malmequer amarelo, desse de que se faziam colares, com cheiro ácido, de botica. […] Às vezes penso, é certo, em emigrar. Entre os que se entendem há demasiada claridade. E preferimos incertezas vulgares a tácitas indiscrições, de gente vizinha e, no geral, amiga. Mas depois mudamos de ideia.


agustina bessa-luís
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2008



03 abril 2015

agustina bessa-luís / oliveira, manoel de







  
É um visionário. O seu lado obscuro desconcerta; o seu lado grave converte-se em humor para não ser apercebido. Eu aparento Manoel de Oliveira àqueles poetas saudosos que tivemos; Bernardim foi um deles, outro o cavaleiro Francisco Manuel de Melo. Vou dizer porquê. Porque em todos há mais determinação de fazer obra sua, do que voz do mundo.

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Como um Bergman ou um Dreyer, ficará para sempre um mistério para os seus contemporâneos. Umas vezes é subtil, outras é sarcástico, raramente é amoroso e abandonado a um sentimento terno. Abandona-se à perfeição e nada mais. Há nele um empenho de contradição, o que faz a força da sua obra tão variada, tão inesperada e tão controversa.



agustina bessa-luís
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guimarães editores
2008



24 maio 2011

agustina bessa-luís / inteligência nacional

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À medida que a angústia aumenta numa sociedade, vemos que os cargos estranhos são criados. Aparece um sem número de profissões e de ocupações paralelas que absorvem a consciência e a maturação efectiva. Portugal é, de certa maneira, um campo de ensaio onde se testa o progresso da tendência a ser-se mais consciente. Por um lado, a maturação afectiva que depende da força moral personalizada e não projectada pelo preconceito da organização social. Por outro, a soberania duma razão ainda fundada no direito que foi notabilizado pelas evidências fictícias e as ideologias em função do poder. Tudo isto exige muito mais que simples pensamentos estereotipados ou convenções nulas que operam estatutos deficientes. A sociedade não funciona como tal, pois os modelos de comportamento recíproco entre indivíduos ou grupos estão completamente desarmados do seu comportamento normativo. No caso português, é flagrante: o passado parece-nos mais fácil viagem do que admitirmos conceitos novos e um empenhamento da alma colectiva noutros caminhos e instituições. É pena. Onde estão os mágicos do meu país estranho que não vêm magicar? Deitando às ortigas a angústia de culpabilidade que nos está a roer a pele, o osso e os vícios. Pelo que o diabo deserta, e a inteligência emigrará com ele.



agustina bessa-luís
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2008
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04 setembro 2009

agustina bessa-luís / saúde






Direi como disse um médico famoso: «O ser humano que matava com uma lança os leões treme hoje com a picada duma mosca.» Isto quer dizer alguma coisa de angustiante, e nós sabemos que a angústia nos mantém em cativeiro. O modo de vida urbano propagou-se à província, o homem levou as suas doenças até ao sertão mais impenetrável, e uma série de maldições pesa sobre a nossa saúde tornada delicada. O sabor do vinho tornou-se venenoso, o sol já não tem o mesmo efeito abrasador e doce na nossa pele; pomos o pé com precaução no solo, desinfectamo-nos antes de dormir e ao acordar.






agustina bessa-luís
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guimarães editores
2008





02 junho 2009

agustina bessa-luís / europeus





Possivelmente, todos nós, nas terras da Europa, nos parecemos. Temos uma sensibilidade comum perante a vida e as suas mudanças. O que mais nos agrada é inventariar as coisas do progresso para não nos iludirmos com ele. Mas, acima de tudo, amamos tudo aquilo que afinal não está na agenda da celebridade. Amamos os quatro favores da pobreza, que são: o humor, o vínculo ao quotidiano, o respeito pela morte e por tudo o que a pode atrasar ou activar. E amamos os caminhos da terra que percorremos sem descanso, mesmo quando somos obrigados a um ofício sedentário.






agustina bessa-luís
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2008