06 junho 2026

irene lisboa / outro dia

  
 
Vou de umas casas
para as outras
à procura de fresco.
Por toda a parte sinto
o ar denso,
impregnado da calma da noite.
í Mas não posso abrir as janelas!
Os pedreiros já chegaram,
a mulher da fava-rica
passa esganiçada,
faz um vento doido…
As palmeiras
de umas casas apalaçadas,
de aqui perto,
abanam-se com gestos largos,
desorientados…
O melro, o divino, canta,
creio que para mim.
 
Esta noite acordei
com os rumores do vento,
se me não engano,
e, durante horas,
estive pensando, como quem escreve,
neste breve estilo…
 
 
 
irene lisboa
um dia e outro dia…
e outono havias de vir
poesia I
obras de irene lisboa  I
editorial presença
1991





 

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