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Desistir, mas eu já desisti de tudo, não é coisa recente, eu não sou
recente. Portanto, houve uma vez alguma coisa. Vamos acreditar que sim, mas
saber que não, nunca houve nada, a não ser a desistência. Já que se falou em
desistir fala-se em desistência, sem pensar. Mas admitamos que não, ou seja
admitamos que sim, que houve uma vez alguma coisa, numa cabeça, num coração,
entre duas mãos, antes de tudo ser aberto, esvaziado, voltado a fechar,
petrificado. E ficamos sossegados, depois de termos tido medo, e preparados
para continuar, mais uma vez. Mas isso não é silêncio. Não, é algo que fala,
alguém está a falar num sítio qualquer. Para não dizer nada, de acordo, mas
será o suficiente para ter algum sentido? Já sei o que é, a cabeça está
atrasada, em relação ao resto, e o seu ânus é a sua boca, ou então continua
sozinha, continua sozinha a seguir as suas velhas pisadas, cagando a mesma
merda velha e voltando a engoli-la, de novo presa nos beiços, como no tempo em
que se julgava um naco de comida. Só que já não há prazer, nem apetite. E cá
está, cá volta a estar, sem embustes, no meu activo o velho passado, nunca
igual, mas terminado para sempre, para sempre prestes a terminar, e tudo o que
ele comporta, de promessas para o amanhã, e de consolo no imediato. E estou de
novo em boas mãos, as mãos amparam-me a cabeça, por detrás, pormenor curioso,
como no barbeiro, e com os indicadores fecham-me os olhos, e com os médios as
narinas, e com os polegares os ouvidos, mas pouco, para eu ouvir, mas pouco, e
com os outros quatro mexem-me nos maxilares e na língua, para eu sufocar, mas
pouco, e dizer, para meu bem, o que tenho de dizer, para meu bem futuro, ária
conhecida, e nomeadamente neste momento que é apenas um mau momento a passar,
um momento de trégua, que sem os maxilares e a língua poderia ser-me fatal, e
que um dia saberei outra vez que fui, e mais ou menos quem, e como continuar, e
falar sozinho, delicadamente, de mim, e dos meus pálidos semelhantes.
(…)
samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria
jorge vilar de figueiredo
assírio &
alvim
2006

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