21 abril 2026

juan luis panero / mensagem de cleópatra a antónio

  
 
            II
 
Não teças louvores à minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelas costas,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, o teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai com coragem – Kavafis já o escreveu –
nesse poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003
 

20 abril 2026

juan luis panero / mensagem de antónio a cleópatra

  
 
            I
 
Outros teçam louvores
à tua adormecida beleza,
à suavidade da tua pele em repouso,
à medida perfeição dos teus membros.
Eu não vim a isso,
vim apenas para te penetrar
pelo peito e pelas costas,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se afunda e se perde
no poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003




19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

18 abril 2026

maria do rosário pedreira / bárbaros

  
 
Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem mais cedo.
 
Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam
ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram
mais longe do céu.
 
Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.
 
De manhã, a planície estava ainda mais plana.
 
 
 
maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002
 

17 abril 2026

maria alberta menéres / canção antecipada

  

Talvez não saiba esperar.
Talvez impacientemente
eu force as horas e os dias,
as horas e os leves anos
para um mar de lentidão.
Talvez na certa intenção
de os afogar de repente
e ficar livre boiando,
talvez ainda esperando
o que não saiba esperar.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 

16 abril 2026

maria teresa horta / encontro

  
 
silenciosamente diremos
amanhã
 
nas cidades os jardins
são abertos
ao céu
 
na noite
os joelhos do oceano
perturbam as árvores
 
caminhar é palavra
de existir
durante a madrugada
 
gritaremos de sol
com as mãos
e com os ombros
 
país onde
os homens são raros
com silêncios grandes
 
é a pausa dos objectos
é o nosso encontro
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
cidadelas submersas
dom quixote
2009
 





15 abril 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
 
192
 
«De onde vêm todas as nossas vidas?», é a pergunta
De quem escreve. Nesse «nossas» tanto pode esconder-se
Uma pergunta inquietante como jorrar uma fonte de
Prazer inaudito como alguém que senta ao colo o seu
Exterior. O verso ao bater no reverso pode realizar
Uma simples fotogramassíntese irreversível. É, assim,
Mário. Nada de meios complicados.
E para lhe fazer compreender como o encadeado dos elos
É mais forte do que o encadeamento das acções, dou-lhe
O exemplo da rapariga que temia a impostura da língua ______________
Anda em Campo de Ourique a passear na mira de comprar
Uma saia para levar ao mar. passa, por acaso, diante de
Uma loja. Na montra, vê cadernos de folhas soltas, mais
Baratos e, sobretudo, mais aptos para a escrita que
Procura. Entra e compra-o.
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 

14 abril 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
310
 
É Primavera. No jardim do palácio pairam nuvens de sementes aladas. Enchem o ar, batem-nos no rosto, infiltram-se na casa. São belas, quase brancas, estas aéreas naves persistentes. Rolam pelo chão em pequenos novelos ocos e levíssimos. Caindo no lago em massa são mantos de espuma que o vento arruma. Olho calada toda esta vida prometida que se afoga.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006
 


13 abril 2026

pertti nieminen / nestes tempos

  
 
Nestes tempos
nestes tempos de consenso
que ensinam ao pobre
                a amar o rico
                ao dirigido a amar o dirigente
                ao espancado a amar o espancador
                e a todos nós humildade,
                obediência e submissão
ante o poder e a força e a honra:
nestes tempos
faz falta um destruidor,
precisam-se de milhares, dezenas de milhar
de sérios e honrados
iconoclastas
 
Não amo o rico,
só amo os pobres.
Nós não obedecemos
ao poder nem à força nem à honra:
nem separados, nem tão pouco juntos,
nem sequer mutuamente.
 
Vaikka aammum on vicla aikka, 1989
 
 
 
pertti nieminen
o mundo adormecido espera impaciente
antologia de poesia finlandesa
trad. amadeu baptista
contracapa
2021
 




12 abril 2026

amalia bautista / as regras do jogo

  
 
Devias superar algumas provas,
e não era difícil ires ganhando
as batalhas de engenho, habilidade,
reflexos, determinação ou força
que a minha vaidade te ia impondo.
Acompanhavas bem o jogo, parecia
quase um conto de príncipes e fadas.
Mas estragaste tudo. Preferiste
a primeira e sedutora bruxa
que te mostrou um atalho para o tesouro.
 
 
 
amalia bautista
trevo
tradução de inês dias
averno
2021





11 abril 2026

álvaro de campos / a clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais

  
 
A clareza falsa, rígida, não-lar dos hospitais
A alegria humana, vivaz, sobre o caso da vizinha
Da mãe inconsolável a que o filho morreu há um ano
 
Trapos somos, trapos amamos, trapos agimos —
Que trapo tudo que é este mundo!
 
29-1-1933
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 abril 2026

jorge luís borges / não és os outros

  
 
Não há-de te salvar o que deixaram
Escrito aqueles que o teu medo implora;
Não és os outros e encontras-te agora
No meio do labirinto que tramaram
Teus passos. Não te salva a agonia
De Jesus ou de Sócrates ou o forte
Siddharta de ouro que aceitou a morte
Naquele jardim, ao declinar o dia.
Também é pó cada palavra escrita
Por tua mão ou o verbo pronunciado
Pela boca. Não há pena no Fado
E a noite de Deus é infinita.
Tua matéria é o tempo, o incessante
Tempo. e és cada solitário instante.
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a moeda de ferro (1976)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




09 abril 2026

francisco brines / apontamento de viagem

  
 
                                        (De automóvel)
 
 
     As janelas reflectem o fogo do poente
e flutua uma luz cínzea que chegou do mar.
Quer ficar dentro de mim o dia que agoniza
como se eu, ao fitá-lo, o pudesse salvar.
 
     E Quem há que me olhe e que possa salvar-me?
A luz tornou-se negra e apagou-se o mar.
 
 
francisco brines
a última costa
trad. josé bento
assírio & alvim
1997



 

08 abril 2026

josé gomes ferreira / cidade inexacta

  
 
XXIX
 
O segredo
está em não deixar o tempo devorar-me,
mas devorá-lo eu
com dentes de terra
e medo.
 
Mastigar tudo,
as sombras, as bocas,
as pedras,
o céu,
os ossos pendentes das caras
e as deusas a cavalo
– patas nas searas,
crinas de faúlhas ao vento…
 
Devorar o tempo sem relógios
que não deixa sinais
senão nos olhos
das palavras mortais.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia V
cidade inexacta (1959-1960)
portugália
1973




07 abril 2026

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
V
 
                O ouvido vê.
Depois que aprendeu a perspectiva não se engana na diferença
entre as distâncias, distingue
o longe do perto pelo som do guizo que a mão atou na perna.
E com a bruma do olhar vai cerzindo
os vários horizontes numa linha só
sobre a qual um dia o pano irá descer.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 


06 abril 2026

mário dionísio / o riso dissonante

  
40.
 
uma cancela entreaberta
a erva pisada em volta
um cão ladrando no escuro
alguma que se passa
 
alguma coisa se passa
enquanto as rosas e os cravos cheiram
ao pé da cancela um lenço
mas felizmente sem marca
 
 
mário dionísio
poesia completa
o riso dissonante (1950)
imprensa nacional-casa da moeda
2016





05 abril 2026

manuel antónio pina / os livros

  
 
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo ‘eu’ entre nós e nós?
 
 
 
manuel antónio pina
ruínas
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



04 abril 2026

ruy belo / o poeta num eléctrico

  
 
De súbito ao cair de mais um ano
sou por instantes sinto-me ao cair da tarde
do sol que antes brilhante é luz lustrosa
e pegajosa agora à superfície da calçada
na humilhante morte de quem era alto eterno e dominante
sou ao cair da tarde de um ano que cai
eu o poeta o instalado o mais que muito aburguesado
um colectivo passageiro num eléctrico
mas só supostamente anónimo ou popular ou colectivo
pois posso dar-me ao luxo de evocar um livro lido há muito
num destes animais metálicos já hoje arcaicos deslocados
e amanhã vivos apenas nesse livro do zé gomes que os evoca
e eu me posso dar ao luxo de evocar agora após haver falado
nesse farmácia onde comprei há pouco o antiasmático
do cão asmático das praias que primeiro ouvi tossir
num verso do o’neill e só depois num mês de maio em espinho
ao imprimir na areia graves passos de poeta nupcial
sinto-me alguém de súbito ao pagar o meu bilhete
bilhete de quem volta e de quem vive do trabalho
mas que pode exibir o seu sapato alto à moda
e alinhar uns versos no papel da embalagem do remédio
E eu que distraído e que perdido e que privado já
de mais alguma face da embalagem do remédio onde escrevia
eu que já não sabia como pôr ponto final
em toda esta conversa mais do que fiada
dizer ao ver que continuo alheio lírico e sentado
oiço a voz grossa e neutra do sisudo guarda-freio
que chegámos ao fim fim da viagem para ele
e fim deste poema para mim
 
 
ruy belo
nau dos corvos
todos os poemas II
assírio & alvim
2004




03 abril 2026

fernando pinto do amaral / piazza governo

  
 
Alguém tão parecido contigo. Porquê
sentar-me ali à espera que brilhasses
por interposta imagem? Não se sabe
onde começa exactamente um corpo. A água
irrompia, branquíssima de espuma,
e era ela a hipnotizar-me,
irreal e real
como a própria cidade a que chamaram
«zona de guerra» - ainda hoje lá estão
os três castelos entre ruas, praças
e essa mesma fonte: uma foca de pedra
acesa pela noite, olhando o céu,
as ingratas estrelas de setembro.
 
 
 
fernando pinto do amaral
amor hereos
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000




02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




01 abril 2026

eloy sánchez rosillo / a casa vazia



 

 
     Abre a porta e acende a luz.
                                              É muito tarde
E sabe que ninguém o espera em sua casa.
                                                               Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
                              Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
                                     Depois, ouve
enfadado uma música.
                                 Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
                             Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
 
 
 
eloy sánchez rosillo
as coisas como foram
trad. josé bento
assírio & alvim
2004