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12 maio 2021

konstantinos kaváfis / prazer

 
 
Alegria e bálsamo da minha vida, recordar as horas
em que achei e retive o prazer como o qu’ria.
Alegria e bálsamo da minha vida, ter rejeitado
todo o prazer de amores rotineiros.
 
 
1917
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017







22 fevereiro 2021

konstantinos kaváfis / a mesa do lado

 
 
Terá apenas vinte anos.
E, no entanto, estou certo de que, quase os mesmos
anos antes, gozei desse mesmo corpo.
 
Não é de modo algum excitação erótica.
Há pouco tempo que entrei neste casino:
nem sequer tive tempo de beber demais.
Esse mesmo corpo gozei-o eu.
 
Se não recordo onde – não importa o ter esquecido.
 
Ah, e agora, ei-lo que está sentado na mesa do lado,
reconheço cada gesto seu – e sob a roupa
volto a ver os amados membros nus.
 
1918
 
 
 
konstantinos kaváfis
kosntantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017





11 dezembro 2020

konstandinos kavafis / cinzentos

 
 
Ao olhar uma opala meio cinzenta
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; haverá uns vinte anos…
 
………………………………………………………………
 
Durante um mês amámo-nos.
Foi-se embora depois creio que para Esmirna,
para lá trabalhar, e nunca mais nos vimos.
 
Ter-se-ão desfeado – se vive – os olhos cinzentos;
ter-se-á estragado o belo rosto.
 
Memória minha, guarda-os tu tais como eram.
E, memória, o que podes deste meu amor,
o que podes traz-me de volta esta noite.
 
 
 
 
konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994




07 setembro 2020

konstantinos kaváfis / desejos



Como corpos formosos de mortos que não envelheceram
e que em pranto sepultaram em esplêndido mausoléu,
rosas na cabeça e jasmins a seus pés –
a isto se assemelham os desejos que passaram
sem se cumprir; sem merecer uma única
noite de prazer ou um luminoso amanhecer.

1904



konstantinos kaváfis
kosntantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017










19 junho 2020

konstantinos kaváfis / sabem os sábios o que se avizinha




                               «Pois sabem os deuses o que há-de ser; os homens,
                               o que está a ser, e os sábios, o que está para ser.»

                               Filóstrato, Vida de Apolónio de Tiana, 8.7.



Os homens sabem o que está a ser.
O que há-de ser conhecem-no os deuses,
únicos e absolutos senhores das luzes.
Mas, do que há-de ser, os sábios apercebem
o que se avizinha. O ouvido deles

em horas de grave estudo,
se sobressalta. O secreto rumor
lhes chega de feitos que se acercam.
E a ele atendem reverentes. Entanto, na rua,
lá fora, as gentes nada ouvem.

1915



konstantinos kaváfis
kosntantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017





02 março 2020

konstantinos kaváfis / che fece… il gran rifiuto



Para algumas pessoas há-de chegar o instante
em que têm de dizer o grande Não ou o grande Sim.
Nessa altura se mostra qual delas tem dentro de si
pronto o Sim, qual o diz e logo segue adiante

do seu valor segura, e da sua certeza.
Quem nega não renega. E à pergunta, repetida,
“Não” diria. Porém durante toda a vida
Aquele “Não” tão certo lhe há-de ter a vida presa.

1901



konstantinos kaváfis
kosntantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017





13 janeiro 2020

konstandinos kaváfis / quando se excitam



Procura guardá-las, poeta
por muito que sejam poucas as coisas que podem ser detidas.
As visões do teu erotismo.
Mete-as, meio escondidas, nas tuas frases.
Procura segurá-las, poeta,
quando se excitam na tua mente,
à noite, ou no esplendor do meio-dia.



konstandinos kavafis
os poemas
II (1916-1918)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005








22 outubro 2019

konstantinos kaváfis / compreensão




Os anos da minha juventude, a minha vida de prazer –
que claramente vejo agora o seu sentido.

Que inúteis remorsos, que estéreis…

Mas não via o sentido nessa altura.

Em meio à minha dissoluta vida jovem
ia tomando forma a minha poesia,
ia-se desenhando o contorno da minha arte.

Por isso nunca houve firmes arrependimentos.
E as decisões de me dominar, de mudar
duravam duas semanas se tanto.


1918



konstantinos kaváfis
kosntantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017





27 setembro 2019

konstandinos kaváfis / veio ficar




Seria uma hora da noite
ou uma e meia.

Num canto da taberna,
por trás de um tabique de madeira.
Para além de nós dois, estava o local deserto,
mal iluminado por uma lâmpada de petróleo.
Na porta dormitava o empregado
cansado da vigília.

Ninguém nos podia ver. Mas já
tanto nos tínhamos excitado,
que não éramos capazes de precaução.

As roupas entreabriam-se – não eram muitas,
já que ardia o divino mês de Julho.

Da carne o prazer por entre
a roupa entreaberta:
breve nudez da carne – cuja imagem
percorreu vinte e seis anos; e agora veio
ficar neste poema.

1919



konstantinos kaváfis
konstantinos kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017





31 maio 2019

konstandinos kavafis / lembra-te, corpo…



Corpo, lembra-te não só do quanto foste amado,
não só das camas onde te deitaste,
mas também daqueles desejos que para ti
brilhavam nos olhos abertamente,
e tremiam na voz – e algum
obstáculo casual os frustrou.
Agora que tudo está no passado,
quase parece como também àqueles
desejos tivesses sido dado – como brilhavam,
lembra-te, nos olhos que para ti olhavam;
como tremiam na voz, para ti, lembra-te, corpo.


konstandinos kavafis
os poemas
II (1916-1918)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005






06 maio 2019

konstandinos kavafis / dias de 1903




Não voltei a encontrá-los – esses dias tão depressa perdidos…
esses olhos poéticos, esse pálido
rosto… no anoitecer da rua…

Não os encontrei mais – aos adquiridos inteiramente por acaso,
que tão facilmente deixei;
e que depois com ansiedade queria.
Esses olhos poéticos, esse pálido rosto,
aqueles lábios não os encontrei mais.


konstandinos kavafis
os poemas
II (1916-1918)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005







07 janeiro 2019

konstandinos kavafis / quanto puderes




E se não podes fazer a tua vida como a queres,
pelo menos procura isto
quanto puderes: não a aviltes
na muita afinidade com o mundo,
nos muitos movimentos e conversas.

Não a aviltes levando-a,
passeando-a frequentemente e expondo-a
em relações e convívios
da parvoíce do dia-a-dia,
até se tornar como uma estranha pesada.



konstandinos kavafis
os poemas
I (1905-1915)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005







13 agosto 2018

konstandinos kavafis / vozes




Vozes ideais e amadas
daqueles que morreram, e daqueles que são
para nós perdidos como os mortos.

Às vezes nos nossos sonhos falam;
às vezes no pensamento as ouve a mente.

E com o seu som por um momento regressam
sons da primeira poesia da nossa vida –
qual música, à noite, longínqua, que se apaga.



konstandinos kavafis
os poemas
adenda, 1.ª  (1897-1904)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005






23 julho 2018

konstandinos kavafis / na rua




O seu rosto bonito, um bocado pálido;
os olhos castanhos, como que sem brilho;
de vinte e cinco anos, embora se calhar pareça ter vinte;
com algo artístico na sua roupa
– qualquer coisa na cor da gravata, forma do colarinho –
sem rumo caminha pela rua,
como que hipnotizado ainda pelo prazer sem lei,
pelo muito prazer sem lei que adquiriu.



konstandinos kavafis
os poemas
II 1916-1918
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005







28 maio 2018

konstandinos kavafis / prece




Nos seus fundos tomou um marinheiro o mar. –
Sua mãe vai e acende, por ignorar,

diante da Virgem uma alta vela
que volte depressa e faça bom tempo apela –

e não pára de escutar se o vento esmorece.
Porém enquanto ela reza e faz uma prece,

aquele ícone ouve, sério e triste,
que seu filho ao qual espera já não existe.


konstandinos kavafis
os poemas
adenda, 1.ª  (1897-1904)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005







29 março 2018

konstandinos kavafis / jura





Jura muitas vezes     começar uma vida melhor.
Mas quando vem a noite     com os seus próprios conselhos,
com os seus compromissos,     e com as suas promessas;
mas quando vem a noite     com a sua própria força
do corpo que quer e pede, para a mesma
alegria fatal, perdido, vai de novo.



konstandinos kavafis
os poemas
I (1905-1915)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005









31 maio 2017

konstandinos kavafis / muros




Sem circunspecção, sem mágoa, sem pejo
grandes e altos em redor de mim construíram muros.

E fico e desespero agora no que vejo.
Não penso noutra coisa: na minha mente esta sina rasga furos;

porque tantas coisas havia a fazer lá fora por ti.
Quando construíram os muros como é que não reparei, ah.

Mas nunca o estrondo de pedreiros ou som ouvi.
Imperceptivelmente cerraram-me do mundo que está lá.




konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994





19 dezembro 2016

konstandinos kavafis / da loja




Embrulhou-as com cuidado, ordenadamente
na seda verde excelente.

Lírios de pérolas, rosas de rubis,
violetas de ametista. Tais como ele as quis,

as apreciou, as viu belas; não como na natureza há
as viu e as estudou. Dentro do cofre as deixará

amostra do seu trabalho eficaz e sem temor.
Se na loja entrar um qualquer comprador

tira outras dos estojos e vende – jóias singulares –
pulseiras, anéis, cordões e colares.



konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994



19 maio 2015

konstandinos kavafis / antes de o tempo os mudar



Entristeceram grandemente     no momento da sua separação.
Eles não a queriam;     foram as circunstâncias.
Necessidades vitais     fizeram um deles
ir embora para longe ─      Nova Iorque ou Canadá.
O seu amor não era     por certo como dantes;
tinha diminuído     a atracção gradualmente,
tinha diminuído     muito a sua atracção.
Mas separar-se,     não o queriam.
Foram as circunstâncias. ─      Ou porventura artista
foi a Sorte     separando-os agora
antes de apagar-se o sentimento deles,     antes de o Tempo os mudar;
o um para o outro     ficará para sempre como se fosse
esse belo rapaz     dos vinte e quatro anos.



konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994



24 janeiro 2015

konstandinos kavafis / as janelas



Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas ─ Uma janela
quando abrir será uma consolação. ─
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.



konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994