30 dezembro 2008

conselhos de ano novo







Senhoras e senhores da classe de 99.
Usem protector solar.
Se apenas vos pudesse dar um conselho para o futuro,
diria: usem protector solar.

As suas vantagens a longo prazo
já foram provadas cientificamente,
ao passo que o resto dos meus conselhos
não têm outra base mais segura
do que a minha atribulada experiência.

Agora, vou dar-vos os meus conselhos para o futuro.

Gozem a força e a beleza da vossa juventude.
Mas deixem lá,
que só compreenderão a força e a beleza da vossa juventude
quando a tiverem perdido.

Daqui a 20 anos hão-de olhar para os vossos retratos
e ver que registaram coisas que vocês agora não conseguem entender:
as possibilidades que se vos abriam
e o aspecto fabuloso que tinham!

É que vocês não são tão gordos como imaginam.

Deixem de se preocupar com o futuro,
ou então preocupem-se
mas saibam que isso vale tanto a pena
como tentar resolver uma equação de álgebra
a mascar pastilha elástica.

Os verdadeiros problemas da vossa vida
serão coisas que nem sequer passaram
pelas vossas cabeças preocupadas.
Do tipo daquelas que surgem às 4 da tarde numa terça-feira qualquer.

Façam todos os dias uma coisa daquelas que mete medo.
Cantem.

Não se tornem levianos com o coração dos outros
nem aceitem que o sejam com o vosso.

Usem o fio dental.

Não sejam invejosos:
às vezes vamos à frente, outras vamos atrás.
A corrida é longa,
mas a verdade é que é uma corrida contra vós próprios.

Lembrem-se dos elogios que vos fizeram,
esqueçam os insultos.
(Se conseguirem, digam-me como é que fizeram.)

Guardem as vossas velhas cartas de amor,
queimem antes os extractos do banco.

Façam “stretch”.
Não tenham remorsos
se não souberem o que querem fazer da vida.
As pessoas mais extraordinárias que conheci,
não sabiam, aos 22 anos, o que queriam fazer dela.
Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço,
ainda não sabem...

Tomem bastante cálcio.
Cuidem dos vossos joelhos
Que vos vão fazer muita falta.

Talvez se casem, talvez não.
Talvez tenham filhos, talvez não.
Talvez se divorciem aos 40 anos,
talvez dancem sem parar no vosso 75º aniversário de casamento.

Façam o que fizerem,
não se entusiasmem demais,
nem se censurem.
As vossas escolhas são meio caminho andado,
tal como acontece com toda a gente.

Gozem o vosso corpo,
usem-no de toda a maneira que puderem!
Não tenham medo dele, nem do que os outros pensam dele:
o vosso corpo
é o instrumento mais fantástico que jamais terão!

Dancem, ainda que não tenham onde dançar,
a não ser na vossa sala de estar!

Leiam todas as instruções,
mesmo que não as sigam.
Não leiam revistas de beleza, porque se sentirão mais feios!

Dêem-se ao trabalho de conhecer os vossos pais,
nunca se sabe quando vos deixarão para sempre!

Sejam simpáticos com os vosso irmãos,
eles são a melhor ligação que têm com o passado
e os que, mais provavelmente,
se manterão ao vosso lado no futuro.

Compreendam que os amigos vêm e vão.
Aguentem-se com os poucos e os melhores que têm.

Trabalhem muito para preencher as lacunas em geografia
e no estilo de vida.

À medida que forem envelhecendo,
mais vão precisar das pessoas que conheciam quando eram novos.

Vivam uma vez na cidade de Nova Iorque,
mas partam antes que ela vos torne duros!
Vivam uma vez na Carolina do Norte,
mas partam antes que ela vos torne moles demais.

Viajem.
Aceitem certas verdades inalienáveis.

Haveis de passar por crises,
os políticos não deixarão de vos endrominar,
vocês também vão envelhecer.
Quando isso acontecer, vocês também vão dizer
que quando eram novos os preços eram razoáveis,
que os políticos eram mais sérios
e que as crianças respeitavam os mais velhos.

Respeitem os que são mais velhos que vocês.

Não fiquem à espera que alguém vos sustente.
Talvez venham a ter bens ou casem com alguém rico,
mas nunca se sabe se tudo isso desaparecerá...

Não se preocupem demais com o cabelo,
senão, quando tiverem 40 anos, ficarão com o ar de quem tem 85.

Tenham cuidado com os conselhos que ouvem,
mas sejam pacientes com aqueles que os dão.

Os conselhos são uma espécie de nostalgia.
Dá-los é uma maneira de trazer o passado,
de o limpar,
de o pintar por cima dos pedaços feios
e de o reciclar por mais do que vale.

Mas não deixem de acreditar em mim
quanto à protecção solar.









baz luhrmann
everibody’s free (to wear sunscreen)
cd “something for everybody”
emi-vc
(tradução livre)

23 dezembro 2008

marguerite yourcenar / estações alciónicas...







Estações alciónias,
solstício dos meus dias ...

Longe de embelezar, à distância,
a minha felicidade,
devo lutar para lhe não turvar a imagem;
a sua própria recordação
é hoje demasiado forte para mim.

Mais sincero que a maioria dos homens,
confesso sem rodeios
as causas secretas dessa felicidade:
aquela calma tão propícia aos trabalhos
e às disciplinas
parece-me um dos mais belos efeitos
do amor.


E espanto-me
de que estas alegrias tão precárias,
tão raramente perfeitas no decorrer de uma vida humana,
sob qualquer aspecto
além de que nós os tenhamos procurado
e recebido,
sejam consideradas com tanta desconfiança
por pretendidos sábios,
que eles receiem o seu hábito e excesso
em vez de temer a sua falta e perda,
que passem a tiranizar os sentidos
um tempo que seria mais bem empregado
a ordenar ou a embelezar a alma.

Naquela época
punha em fortalecer a minha felicidade, apreciá-la,
e também em julgá-la,
a atenção que sempre dispensara aos mais pequenos pormenores
dos meus actos;
e que é a própria voluptuosidade
senão um momento de atenção apaixonada do corpo?

Toda a felicidade é uma obra-prima:
o menor erro falseia-a,
a menor hesitação altera-a,
a menor deselegância desfeia-a,
a menor estupidez embrutece-a.


A minha
não é responsável em coisa alguma por aquelas
das minhas imprudências
que mais tarde a quebraram.

Julgo ainda
que teria sido possível a um homem mais hábil que eu
ser feliz até à morte.









marguerite yourcenar
memórias de adriano
trad. maria lamas
ulisseia
1974







15 dezembro 2008

raul brandão / papéis do gabiru

.
.



klavdij sluban








chove um dia, outro dia, sempre.
amanhece um dia nublado,
outro dia alvorece áspero e negro.
o vento abala a pedra
sobre que é construído o casebre.
o inverno tem a sua voz própria,
a sua cor, o seu vestido em farrapos
com que agasalha os montes
deixando-lhe os ossos de fora.
mas o inverno é sonho.
só agora o compreendo.
é sonho concentrado:
sob esta casca ressequida
está uma primavera intacta.
esta voz clamorosa é a voz dos mortos.
uma pausa,
a prostração da tempestade,
e depois redobra o clamor...
andam aqui as suas lágrimas...
na sufocação
reconheço esta voz que me chama.
e depois a tempestade,
novos gritos,
a escuridão profunda...

lá andaremos todos não tarda!
lá andaremos todos não tarda!

"que frio o outro mundo!
que impassibilidade a do outro mundo

saudade, saudade de tudo, até do fel,
saudade de te não sentir ao pé de mim.
tenho saudade da vida.
só poder aquecer-me ao lume,
só sentir o lume neste inverno sem limites,
neste frio de morte - sem outra primavera!


o que a vulgaridade sabe bem! o que a matéria sabe bem!

não vejo. ceguei.

disperso-me, e por mais esforços que faça,
sinto-me desagregar:
perco pouco e pouco a consciência de mim mesma.
sou ainda ternura e pouco mais.
já não tenho lágrimas.

quem me dera a desgraça!

e uma pena da vida! uma saudade da vida!
uma tristeza de não poder misturar-me à vida!
a vida - e um cantinho do lume,
a vida banal, a vida comezinha...
tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.

vive devagarinho.
aquece-te à réstea do sol
como quem nunca mais tornará a aquecer-se;
perde todas as horas a trespassar-te da vida.

deixa que sobre ti caia o pó de oiro. vive-a.

tu és a nuvem, tu és a árvore.
enche a consciência de todas estas coisas,
porque não tardarás a perdê-la.

vive - não tornas a viver.
põe de acordo a tua alma com a pedra,
extrai encanto do céu e da miséria.
pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!

só agora dou pelo sabor das lágrimas.

sorri, esquece, dorme, sonha..."







raul brandão
húmus
(grafia adaptada)
frenesi
2000









10 dezembro 2008

alexandre moreira / o cão continua coxo








Nasce o dia de ideias políticas e de finanças
percebe a malta do leste ou a leste da malta se
contentam estatísticas e marinheiros próprios
do sábio descendente,

com isso se incute a perversão no
chefe da sua armadilha
no homem permitido ao morcego rotinando
os lagos
e os lembretes

afinal quem se recorda do dia em que a luz se fez luz ?
E que textos destrinçam os astronautas na visibilidade do espaço?

Não se lembram nem se afogam sem um limiar
e das finanças que a malta concebe
não se conjura o semblante de cada livro editado;

o cão continua coxo
o automóvel continua roxo
o ardil continua um mocho
e a estatística entende-se como própria dos encontros à beira-mar,
senta-se na areia
desenha para que o mar entenda o que se esvai

e a cada dia mais dias nascem e novas estatísticas
multiplicam outras tantas,
a malta do leste cada vez mais percebe
o leste da malta cada vez menos se inverte pela
tradição oral,

a língua condiciona o ardente ciúme
de quem fez lume por se lembrar
houve, afinal, um dia em que a luz se fez luz

mas era microscopicamente visível nos corpos distantes
e logo se condenaram as ampliações em marasmos
insignificantes de salões de chá

os astronautas dizem livros editados,
são flores cozinhadas pelo rubro medo do espaço
em que se plantam tanto finanças
como estatísticas, dicionários e solfejos arquejando
um abutre nos símbolos

o médium é agora o nome
onde a criança preenche o tédio civilizado
e nem do espaço é visível
a lembrança do lume ampliado

tudo é um livro editado
sem que isso fume a maior devoção
pois dentro de si amam os novíssimos amantes,
com claves de Fá inspiram com
abecedários expiram

e reluzir o oxigénio seria o novo circuito do receio mãos ao alto pés para dentro
- encoste-se à parede - é a nova fotografia
de quem procura esquecer o dicionário
o solfejo que nada semeia,

a simples reminiscência do nada que inventa,
inventa,
ofusca e anseia.






alexandre moreira




08 dezembro 2008

heiner müller / as imagens








As imagens significam tudo a princípio. São sólidas. Espaçosas.
Mas os sonhos coagulam, fazem-se forma e desencanto.
Já o céu não há imagem que o fixe. A nuvem vista do
Avião: um vapor que nos tira a vista, o grou, um pássaro, mais
nada
Até o comunismo, a imagem final, sempre refrescada
Porque lavada com sangue tantas vezes, o dia-a-dia
Paga-lhe um salário modesto, sem brilho, cego de suor,
Escombros os grandes poemas, como corpos muito tempo
amados e
Postos de lado agora, no caminho da espécie exigente e finita
Nas entrelinhas lamentos

sobre ossos feliz o carregador de pedra

Porque o belo significa o fim provável dos terrores.





heiner müller
o anjo do desespero
trad. joão barrento
relógio d´ água
1997





06 dezembro 2008

novalis / os hinos à noite



4

Sei agora quando será a manhã derradeira - quando a luz não afugentar mais a noite e o Amor – quando o sono for eterno e um sonho só inesgotável. Sinto em mim uma fadiga celeste – Longa e penosa foi a minha peregrinação ao Sepulcro Santo, opressiva a minha Cruz. A onda de Cristal, imperceptível aos vulgares sentidos, que jorra no seio obscuro do montículo de cujo sopé o terrestre caudal irrompe, quem dela alguma vez provou, quem esteve no cume das montanhas que delimitam o mundo e olhou para Além, para a nova terra, a morada da Noite – em verdade, esse não regressará jamais aos trabalhos deste mundo, à terra onde a Luz habita em eterna agitação.
Esse é o que levantará no alto as tendas da Paz, o que sente a ânsia e o amor e que olha para Além até que a hora entre todas bendita o faça descer ao imo da nascente – por cima, flutua o que é eterno, reflui ao sabor de tormentas; mas tudo aquilo que o contacto do amor santificou escorre dissolvido, por ocultas vias, para a região do Além e aí se mistura, como os aromas, com os seres amados para sempre adormecidos.
(…)




novalis
os hinos à noite
tradução de fiama hasse pais brandão
assírio & alvim
1998





04 dezembro 2008

pedro s. martins / aranha rainha







atirei uma caneta ao ar para que ela escrevesse na cortina do sonho:
" não preciso do teu pulso para desenhar letras". era aranha
rainha que tecia a tinta preta este poema na sua teia. não
estava à espera de apanhar insectos,
apenas alegorias à pessoa.
sempre que uma ficava presa, com as patas, não a matava, estimulava
o fim precoce dos sentimentos. dos bons dos maus e quando havia nuvens
no céu florido dos perversos.
manta de emoções, retalhos de vidas, sonhos eternos, rostos estacados
em corpos que não lhes pertenciam.

agora,
que acordo para nunca mais adormecer,
pressinto que me capturaste tudo que tinha e o deglutes na
paz do teu sono obreiro.
não queria ser eu a ter que te dizer isto, mas:
sou pele de cobra dos mil fôlegos: regenero-me sazonalmente. renasço
do que capturaste e renascerei as vezes que estender a tua
teia manto de razão errada em mim.





pedro s. martins





01 dezembro 2008

herberto helder / eles construiram...








Eles construíram
e os anos destruíram,
e eles reconstruíram as coisas gastas
e construíram
outras novas.

Que é isto?

Quer dizer
que a carne renasce,
e é essa a tarefa?

A noite vem sempre,
mas talvez trabalhem também
de noite.

Às vezes
ouvem-se as picaretas e os martelos,
à distância,
durante certas noites.

E depois é manhã,
e apercebemo-nos de que existe
uma coisa nova,
um corpo que se organiza para o dia,
e isso
foi um secreto trabalho nocturno.

Eles acreditam, então
— será verdade que ousam acreditar?

Pode-se avançar nas trevas.

Uma,
duas vezes,
foi-nos indicada uma luz fugitiva
e depois sabemos.

Talvez ainda mais nítida,
a topografia marcou-se na nossa cegueira,
e então caminhamos,
caminha ele com o seu cigarro
por acender,
a sua perseguição ao fogo.

Não é uma admirável virtude do fogo,
não será até um milagroso
talento das trevas que,
aqui e ali,
durante um segundo,
o fogo abra a sua pequena
rosa trémula,
e o homem possa respirar
na cega atmosfera
dos séculos?

É
— eis que ele o diz para si,
com uma força maior
do que ele próprio,
o inventado poder da sua
vertiginosa,
momentânea fé.

Caminha pelos anos pétreos,
com os pés a decifrarem
o empedrado
e os degraus do bairro.

Ouve os próprios passos,
porque sempre ouviu as
pancadas do coração
— por aí é que reconhece estar vivo,
embora isso seja violento demais
e demasiado precipitado
para a verdadeira harmonia que,
possivelmente,
seria o estar vivo.

Mas respira,
isso sim,
o sangue corre pelas veias e artérias,
corrompe-se e purifica-se
dentro da confusa massa
da sua dor de homem,
e anda,
ele anda,
sobe,

Contudo,
os passos que ouve,
como se fossem as pancadas fortes
do seu sangue,
parecem distanciar-se.

Pára.

E os passos continuam,
afastando-se.

Mais longe,
aparece a brasa do cigarro.

O outro foge.

Porque foge?

Que medo inspira assim
o desejo do conhecimento,
ou o desejo do amor?

É a caça?

Existem aqui o desígnio,
o jogo,
o ritual — e a alegria bárbara
e o primitivo pânico da caça?

Porque o amor é mortal
(o amor é mortal?).

Talvez se adivinhe que sim,
e obscuramente se saiba
que é mortal
o conhecimento.

Talvez seja isso
o que melhor se conheça do conhecimento
— a sua natureza mortal.

Os passos do outro
fogem pelo tempo fora, ouvem-se.
— embaraçados e rápidos —
perdendo-se nas escadas,
pelas ruas ondulantes,
sob os arcos.

Um momento ecoam no meio de uma praça,
o cigarro brilha,
forma-se uma súbita coroa
de silêncio,

Haveria palavras para dizer,
a antiquíssima súplica do perseguidor:
porque foges?

Mas não haveria resposta.

Ou seria:
tenho medo, ou então:
é o jogo.

Contudo,
não se sabe bem o que acontece,
por isso não haveria resposta.

Medo?,
porquê medo?,
dir-se-ia, jogo,
que espécie de jogo?

E as palavras
nunca mais acabariam.

Não mais existiria este silêncio
no qual, ofegantes,
sabemos com tanta dor
que ainda estamos vivos.

Por isso é que andamos,
agora com todas as artes da caça,
devagar,
depressa,
silenciosamente,
cercando a
presa.












herberto helder
apresentação do rosto
editora ulisseia
1968







23 novembro 2008

m. fernanda silva / ele paira








ele paira
entre dois céus de arame
ele paira
no leito das loucuras ambulantes
sobre os folhos dos louros rios
universais
entre duas mãos que se aglutinam
dois pensamentos enfeitados
de florescentes canduras

ele corta o volume
da estátua de pedra entalada
nos longínquos cenários
do seu espaço adormecido
enquanto paira

as nuvens roçam a pele dos pégasos
perdidos entre mercúrio
e o sol
rutilante sedutor dos temerários
devorador das ambições filiais
deus dos esfriados meninos
sem mamã

ele paira entre ele e ele
no exíguo leito de espelhos
estilhaçados








m.f.s.





20 novembro 2008

fernando pinto do amaral / segredo





Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome — essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.







fernando pinto do amaral
às cegas
relógio d´ água
1997





16 novembro 2008

antonio gamoneda / ainda







Há uma erva cujo nome não se sabe; assim foi a
minha vida.


Regresso a casa atravessando o Inverno: esquecimento
e luz sobre as roupas húmidas. Os espelhos estão
vazios e nos pratos cega a solidão.


Ah a pureza das facas abandonadas.









antonio gamoneda
livro do frio
(3-ainda)

trad. de josé bento
assírio & alvim
1999







13 novembro 2008

andre breton e paul éluard / tentativa de simulação da debilidade mental





Entre todos os homens, com vinte e quatro anos, reconheci que para nos elevarmos à categoria de homem considerado não era preciso ter mais do que eu a consciência do seu valor. Sustentei há muito tempo que a virtude não é estimada, mas que meu pai tinha razão quando queria que eu me elevasse muito alto acima dos seus confrades. Em absoluto não compreendo que se conceda a Legião de honra a personalidades estrangeiras de passagem em França. Acho que esta condecoração devia estar reservada para os oficiais que fazem actos de bravura e para os engenheiros de minas saindo da Politécnica. De facto é preciso que o grande mestre da Ordem de Cavalaria não tenha bom senso para reconhecer mérito onde ele não existe. De todas as distinções, oficial é a mais lisonjeira. Mas não se pode passar sem diploma. Meu pai deu aos seus cinco filhos rapazes e raparigas a melhor instrução e urna boa educação. Não é para aceitar um emprego sem retribuição muna administração que não paga. Aqui está a prova: quando se é capaz, como meu irmão mais velho, que várias vezes concorreu nos jornais para obter o fim desejado contra bacharéis em Letras e Ciências, pode dizer-se que se tem a quem fazer frente. Mas em cada dia seu trabalho, diz o provérbio. Trago na algibeira de dentro do meu casaco de Verão os planos de um submarino que quero oferecer à Defesa Nacional. A cabina do comandante está desenhada a vermelho e os canhões lança-torpedos são do último modelo hidráulico, com comando artesiano. Os ases da estrada não apresentam mais energia do que eu. Não me sinto constrangido por garantir que esta invenção deve triunfar. Todos os homens são partidários da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade e, eu acrescento, da Solidariedade mútua. Mas isto não é uma razão para não nos defendermos daqueles que nos atacam pelo mar. Escrevi ao Presidente da República uma carta secreta em papel ministro pedindo para o ver. A esquadra mediterrânica cruza neste momento ao largo de Constantina, mas o almirante concede poucas licenças. Um soldado por mais que faça tem de se pôr de joelhos por humildade diante do seu superior, ordens são ordens. A disciplina beneficia quando o chefe é justo mas firme. Não se dão gaIões a torto e a direito e o Marechal Foch merecia ser realmente o Marechal Foch. O livre-pensamento tem estado errado em não se pôr ao serviço da França.

Apoio também que se mude o nome aos fuzileiros navais, fiz uma diligência nesse sentido junto da Liga dos Direitos do Homem. Este nome é indigno do seu colarinho anil. Cabe-lhes a eles, aliás, fazerem-se respeitar. A Grécia da Lacedemónia era orgulhosa de urna maneira diferente. Enfim o homem crê em Deus e viram-se grandes cabeças pedirem a extrema-unção, é já um ponto importante.





andre breton e paul éluard
as possessões
a imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972




05 novembro 2008

sylvia plath / colosso








Nunca conseguirei juntar-te todo,
compor-te, colar-te e unir-te devidamente.
Zurros de machos, grunhidos de porco e cacarejos
[obscenos
saem dos teus lábios.
É bem pior que num curral.

Talvez te consideres um oráculo,
porta-voz dos mortos, ou de um outro deus.
Há trinta anos que trabalho
para dragar o lodo da tua garganta.
Pouco mais sei!

Trepando pequenas escadas com frascos de cola e baldes
[de lisol
rastejo como uma formiga de luto
sobre as terras cobertas de erva da tua fonte
para reparar as imensas placas do teu crânio e limpar
os túmulos brancos, vazios dos teus olhos.

Um céu azul saído da Oresteia
arqueia-se sobre nós. Ó pai, tu só
és vigoroso e histórico como o Forum Romano.
Abro a minha merenda numa colina de ciprestes negros.
Os teus ossos estriados e os teus cabelos como o acanto
[estão espalhados

na sua velha anarquia até à linha do horizonte.
Seria preciso mais que o golpe de um relâmpago
para criar tal ruína.
De noite escondo-me na cornucópia
do teu ouvido esquerdo, abrigada do vento,

contando as estrelas, rubras ou cor-de-ameixa.
O sol ergue-se sob o pilar da tua língua,
as minhas horas casam-se com a sombra.
Já não escuto o raspar de uma quilha
nas brancas pedras do desembocadouro.



sylvia plath
pela água
tradução de maria de lurdes guimarães
assírio & alvim
1990





03 novembro 2008

pier paolo pasolini / as cinzas de gramsci







IV



O escândalo de me contradizer, de estar
contigo e contra ti; contigo no coração,
à luz do dia, contra ti na noite das entranhas;

traidor da condição paterrna
- em pensamento, numa sombra de acção –
a ela me liguei no ardor

dos instintos, da paixão estética;
fascinado por uma vida proletária
muito anterior a ti, a minha religião

é a sua alegria, não a sua luta
de milénios: a sua natureza, não a sua
consciência; só a força originária

do homem, que na acção se perdeu,
lhe dá a embriaguez da nostalgia
e um halo poético e mais nada

sei dizer, a não ser o que seria
justo, mas não sincero, amor abstracto,
e não dolorida simpatia…

Pobre como os pobres, agarro-me
como eles a esperanças humilhantes,
como eles, para viver me bato

dia a dia. Mas na minha desoladora
condição de deserdado,
possuo a mais exaltante

das poses burguesas, o bem mais absoluto.
Todavia, se possuo a história,
também a história me possui e me ilumina:


mas de que serve a luz?










pier paolo pasolini

poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005








29 outubro 2008

blaise cendrars / prosa do transiberiano e da joaninha de frança







(...)

Do fundo do coração brotam-me lágrimas
Se penso, Amor, na minha amada;
Não passa duma criança, que encontrei
Pálida, imaculada, no fundo dum bordel,
É uma criança, loura, risonha e triste,
Não sorri nem chora;
Mas no fundo dos seus olhos, quando vos deixa beber
Treme um delicado lírio de prata, a flor do poeta.

É meiga e calada, sem nada a apontar,
Estremece à vossa aproximação;
Mas quando eu volto, daqui, dali, da festa,
Ela dá um passo, depois fecha os olhos -
e dá um passo.
Porque ela é o meu amor, e as outras mulheres
Só têm vestidos de ouro sobre grandes corpos
de chamas,
A minha pobre amiga está tão desamparada
Está toda nua, não tem corpo - é demasiado pobre.
É uma flor cândida, delgada,
A flor do poeta, um pobre lírio de prata,
Muito frio, muito só, e já tão seco
Que as lágrimas brotam se penso no seu coração.








blaise cendrars
prosa do transiberiano e da joaninha de frança, excerto
poesia em viagem
trad. liberto cruz
assírio & alvim
1974






28 outubro 2008

albert camus /cadernos















Peste… «E de cada vez que li uma história de peste, do fundo de um coração envenenado pelas suas próprias revoltas e pelas violências dos outros, um grito claro se ergueu dizendo que no entanto havia nos homens mais coisas para admirar do que para desprezar.»
… «E a peste cada um a traz consigo, porque ninguém, sim, ninguém no mundo, está imune. E é necessário vigiarmo-nos constantemente para não sermos levados num minuto de distracção a respirar na cara de alguém e a pegar-lhe a infecção. O que é natural é o micróbio. O resto, a saúde, a integridade, a pureza, se preferirem, é um efeito da vontade, e de uma vontade que nunca deve deixar de exercer-se. O homem honesto, o que não infecta ninguém, é aquele que se distrai o menos possível.
Sim, é frequente ser-se um patife. Mas é ainda mais fatigante não querer ser um patife. É por isso que toda a gente está fatigada porque toda a gente o é um pouco. Mas é por isso também que alguns conhecem tão fundo cansaço que só a morte os poderá libertar dele.»




albert camus
cadernos III
(caderno nr. 5 1948/1951)

trad. antónio ramos rosa
livros do brasil
1966




27 outubro 2008

werther damien sevahc / nunca faço a barba de sapatos






Nunca faço a barba calçado
porque a água escorre-me pelos
cotovelos e molha-me sempre os sapatos.
Todos os meus sapatos são de camurça
cinzentos, castanhos e beges
(ah! excepto os pretos)
e a camurça lavada
fica feia e surrada o que me irrita
profundamente ou me desgosta
simplesmente
tendo eu que percorrer quase 300 km
para os comprar, o que é cansativo
mesmo não indo a pé.
Enfim…
Achei que gostariam de saber.

É oficial: andam fusíveis rebentados.







werther damien sevahc








22 outubro 2008

fiama hasse pais brandão / do outono II






Sem vento, a minha voz secou
aqui, neste parque de cedros quietos.


Tudo é como ontem era, mas a minha
voz, na minha face, calou-se,
porque só o vento me trazia a fala,
vinda de algures, com notícias de alguém,
indo para além, para outros ouvidos, num país.






fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002





20 outubro 2008

isidore ducasse / poesias









Substitui a melancolia pela coragem, a dúvida pela certeza, o desespero
pela esperança, a maldade pelo bem, as queixas pelo dever, o cepticis-
mo pela fé, os sofismas pela frieza da calma e o orgulho pela modéstia.






OS GEMIDOS POÉTICOS deste século não passam de sofismas.
Os primeiros princípios devem estar fora de discussão.
Aceito Eurípedes e Sófocles; mas não aceito Ésquilo.
Com o criador não falteis às conveniências mais elementares, nada de mau gosto.
Rejeitai a incredulidade, que me dareis prazer.
Não há dois géneros de poesias; há uma só.
Existe uma convenção pouco tácita entre o autor e o leitor, pela qual o primeiro se intitula doente e aceita o segundo como enfermeiro. É o poeta que consola a humanidade. Os papéis estão invertidos arbitrariamente.
Não quero ser manchado pela qualificação de presumido.
Não vou deixar Memórias.
A poesia não é tempestade, nem mesmo ciclone. É um rio majestoso e fértil.
(…)








isidore ducasse
conde de lautréamont

cantos de maldoror
poesias
trad. pedro tamen
fenda
1988



18 outubro 2008

luís miguel nava / a saída




Havia no seu corpo uma saída.
Podia através dela ir até onde quisesse, de momento que a porta não ficasse a bater com um ruído que a maior parte das pessoas confundia com o bater do coração. Não consta que o sangue o perseguisse senão muito raramente e mesmo assim não para além da beira-mar.
Trazia há algum tempo na memória um espelho onde quem quer que se abeirasse dele podia contemplar-se. Pelo espelho era possível ver os poços através dos quais a pele desaparece, as ondas momentaneamente imóveis, as areias a assaltar-lhe o coração.





luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
rebentação
publicações dom quixote
2002




13 outubro 2008

herberto helder / estende a tua mão...







estende a tua mão contra a minha boca e respira,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo






herberto helder
a faca não corta o fogo
assírio & alvim
2008







09 outubro 2008

cruzeiro seixas / poema







Era um pássaro alto como um mapa
e que devorava o azul
como nós devoramos o nosso amor.

Era a sombra de uma mão sozinha
num espaço impossivelmente vasto
perdido na sua própria extensão.

Era a chegada de uma muito longa viagem
diante de uma porta de sal
dentro de um pequeno diamante.

Era um arranha-céus
regressado do fundo do mar.

Era um mar em forma de serpente
dentro da sombra de um lírio.

Era a areia e o vento
como escravos
atados por dentro ao azul do luar.








cruzeiro seixas
em "áfricas", 1950,
poema integrado no 1º caderno do centro de estudos do surrealismo,
da fundação cupertino de miranda, de vila nova de famalicão
in público, sábado, 2 de dezembro de 2000






05 outubro 2008

laurie anderson / estranhos anjos







Dizem que o Paraíso é como a TV
Um mundo pequeno e perfeito
Que não precisa de nós para nada
E lá tudo é feito de luz
E os dias vão-se sucedendo
Aí vêm eles aí vêm eles
Aí vêm eles.


Foi um daqueles dias
Maiores que a própria vida
Quando os amigos vêm para jantar
E vão ficando a noite toda
Limpam o frigorífico
Comem tudo o que encontram
Vão-se deixando ficar pela sala
A chorar a noite inteira.


Estranhos anjos – cantando só para mim
Histórias velhas que me assombram
Afinal nada é como eu pensava.


Ia eu no meu carro de quatro portas
Com a capota descida
Olhei e ali estavam elas:
Milhões de minúsculas lágrimas
Por ali apenas suspensas
Não sabia se rir ou chorar
E disse para comigo:
E agora, céu imenso, que se segue?


Estranhos anjos – cantando só para mim
Os meus trocos caindo sobre mim
A chuva caindo caindo sobre mim
Toda sobre mim
Estranhos anjos – cantando só para mim
Velhas histórias – que me assombram
Vêm aí grandes mudanças
Aí vêm elas
Aí vêm elas.











laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997







02 outubro 2008

m. fernanda silva / um ar de qualquer coisa







depois um ar de qualquer coisa
qualquer
um nada de nada
intrincado
uma gota em goteiras de
nervosos rastos de gotas

uma andorinha que desenha guinchos
nos papeis das nuvens por abrir








m.f.s.






30 setembro 2008

else lasker-schüler / despedida







Mas tu nunca vinhas com a noite –
E eu sentada com casaco de estrelas.


… Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.


Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta;


Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.


Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.


Mas tu nunca vinhas com a noite
… E eu de pé com sapatos dourados.








else lasker-schüler
a alma e o caos
100 poemas expressionistas
quarta estação: outono, morte, transfiguração
selecção e tradução de joão barrento
relógio d´água
2001






24 setembro 2008

e. e. cummings / nada é mais exactamente terrível






[ ix ]




nada é mais exactamente terrível do que
estar sozinho em casa, com alguém e
com alguma coisa)

Partiste há risos

e o desespero imita uma rua

eu inclino-me à janela, contemplo espectros,
um homem
estreitando uma mulher num parque. Perfeito


e ao de leve (porquê? Ou para não compreendermos)
ao de leve eu estou ouvindo alguém
a vir para cima, cautelosamente
(cautelosamente subindo atapetado lanço após
atapetado lanço. serenamente, subindo
os atapetados degraus do terror)


e continuamente eu estou vendo alguma coisa

inalando suavemente um cigarro (num espelho








e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998


22 setembro 2008

jean-arthur rimbaud / vidas








I

Oh as avenidas imensas da Terra
Santa, os terraços do templo! Que fizeram
do brâmane que me explicava os Provér-
bios? De então, de aí, até as velhas vejo
ainda! Recordo as horas de prata e de
sol em direcção aos rios, a mão da terra
em cima do meu ombro e as nossas carí-
cias trocadas de pé na planície odo-
rante. — Uma revoada de pombos escar-
lates estala em torno do meu pensamento.
— Aqui exilado, tive um palco para repre-
sentar as obras-primas dramáticas de to-
das as literaturas. Ter-vos-ia mostrado
riqueza inaudita. Observo a história dos
vossos tesouros. Vejo a continuação! Para
vós, a minha sabedoria é tão desprezível
como o caos. Que é o meu nada, com-
parado ao horror que vos espera?



II

Sou um inventor muito mais meritório
do que qualquer dos meus predecessores;
um músico que descobriu algo como a
clave do amor. Agora, gentil-homem de
província pobre e céu austero, procuro
enternecer-me com a recordação da infân-
cia mendiga, a aprendizagem ou o regresso
em farrapos, as querelas, as cinco ou as
seis vezes em que fiquei viúvo, e as algu-
mas bodas em que a minha testa de ferro
me não deixou seguir o diapasão dos
camaradas. Não choro o meu velho qui-
nhão de alegria divina: o ar austero desta
terra pouca alimenta muito activamente
o meu atroz cepticismo. Mas como o meu
cepticismo deixou de ser manobrável e
me votei a uma ânsia nova fico à espera
de ser um louco muito perigoso.



III

Num esconso onde me fecharam aos
doze anos conheci o mundo, ilustrei a
comédia humana. Num celeiro aprendi
história. Em qualquer festa nocturna
duma cidade do Norte, encontrei todas
as mulheres dos antigos pintores. Numa
velha arcada de Paris ensinaram-me as
ciências clássicas. Numa incursão magní-
fica, assistido por todo o Oriente, com-
pletei minha obra imensa e fiz a minha
insigne retirada. Fermentei o meu sangue.
Fui-me restituído. Há que deixar de, se-
quer, pensar nisso. Sou realmente de
além-túmulo, e nada de comissões.











jean-arthur rimbaud
iluminações
uma cerveja no inferno

trad. mário cesariny
estúdios cor
1972







18 setembro 2008

mário-henrique leiria / retorno à memória








estar sempre com frio
como o caminhar à noite só sem luz
como a árvore que olha com raiva a tempestade
talvez mesmo como a cama
que conserva apenas as formas já desfeitas
dos corpos que nelas se deitam


depois com o vento
é a saudade das madrugadas doutros tempos
quando o simples descer uma escada
era a mais extraordinária das aventuras
quando a certeza de encontrar uns braços abertos
estava evidente no fundo da escuridão


então tudo era simples muito belo
qualquer palavra tua
era a mais maravilhosa das afirmações
qualquer gesto que fizesses
era o mais belo movimento de amor
caminhar ao acaso
era a grande viagem sempre renovada todos os dias
e à noite
não havia frio como agora
mesmo que o mar nos cobrisse de algas
mesmo que a areia
trouxesse consigo o gelo das mais remotas estrelas


agora amor escuto o teu olhar
através da distância cada vez maior e mais alucinante
que nos separa
escuto-o através da ponte
que formaram os caminhos por nós percorridos um dia
vejo-te como partiste
muito pura flores na testa mãos abertas
igual às madrugadas doutros tempos
igual à grande aventura
de caminhar ao acaso










mário-henrique leiria
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa
perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998







15 setembro 2008

casimiro de brito / três fragmentos do livro das quedas





)(

Escrevo pássaros e nada sei
do corpo deles nem das suas
inclinações – nada sei do amor
tão pleno de falsificações. Se canto,
se escrevo assim às escuras da noite
do meu lençol
é porque não sei incorporar
os ruídos, as veredas da casa
nem olhar para o lado
e ver por dentro
o rosto da amada, o sono
da filha – os ritmos da morte
que dão e só eles são
sabor
à passagem do tempo.


)(

Como é triste a carne quando se percorreram
todos os caminhos, quando se leram
todos os poemas_______tenho os olhos queimados
e não os li nem percorri mas,
pobre de mim, é como se o tivesse
feito. Pois a carne vai triste
e cai. Se morrer é isto, esta maneira
de pouco a pouco ir caindo no ar,
não tenho medo, é triste mas não tenho medo nem
dor nem nada que me possa
perturbar. Escrevo
um livro vazio
e já não sei se lá fora existe
outro lugar. Os olhos da minha amiga
vão comigo de regresso à fonte
que não cessa de cantar.






Petrarca


)(

Apodreço devagar e o meu lixo
em húmus resvalando
alimenta silencioso os animais
da terra, o basalto, as framboesas, os
lagartos que se elevam para o sol até caírem
eles também de corpo
em corpo como venho caindo
nas nuvens do chão.













casimiro de brito
oficina de poesia
revista da palavra e da imagem
trianual, nº 1 – série II
junho 2002
coimbra







mário cesariny / poema podendo servir de posfácio







ruas onde o perigo é evidente
braços verdes de práticas ocultas
cadáveres à tona da água
girassóis
e um corpo
um corpo para cortar as lâmpadas do dia
um corpo para descer uma paisagem de aves
para ir de manhã cedo e voltar muito tarde
rodeado de anões e de campos de lilases
um corpo para cobrir a tua ausência
como uma colcha
um talher
um perfume


isto ou o seu contrário, mas de certa maneira hiante
e com muita gente à volta a ver o que é
isto ou uma população de sessenta mil almas
devorando almofadas escarlates a caminho
do mar
e que chegam
ao crepúsculo
encostados aos submarinos
isto ou um torso desalojado de um verso
e cuja morte é o orgulho de todos
ó pálida cidade construída
como uma febre entre dois patamares!
vamos distribuir ao domicílio
terra para encher candelabros
leitos de fumo para amantes erectos
tabuinhas com palavras interditas
- uma mulher para este que está quase a perder
o gosto à vida - tome lá -
dois netos para essa velha aí no fim da fila -
não temos mais -
saquear o museu dar um diadema ao mundo e depois
obrigar a repor no mesmo sítio
e para ti e para mim, assentes num espaço útil,
veneno para entornar nos olhos do gigante

isto ou um rosto um rosto solitário como barco em
demanda d eventos calmo para a noite
se nós somos areia que se filtre
a um vento débil entre arbustos pintados
se um propósito deve atingir a sua margem como
as correntes da terra náufragos e tempestade
se o homem das pensões e das hospedarias levanta
a sua fronte de cratera molhada
se na rua o sol brilha como nunca
se por um minuto
vale a pena
esperar
isto ou a alegria igual à simples forma de um pulso
aceso entre a folhagem das mais altas lâmpadas
isto ou a alegria dita o avião de cartas
entrada pela janela saída pelo telhado


ah mas então a pirâmide existe?
ah mas então a pirâmide diz coisas?
então a pirâmide é o segredo de cada um com
o mundo?


sim meu amor a pirâmide existe
a pirâmide diz muitíssimas coisas
a pirâmide é a arte de bailar em silêncio


e em todo o caso



há praças onde esculpir um lírio
zonas subtis de propagação do azul
gestos sem dono barcos sob as flores
uma canção para ouvir-te chegar










mário cesariny
manual de prestidigitação
assírio & alvim
1981





12 setembro 2008

vasant abaji dahake / tarde






Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.






vasant abaji dahake
(índia, n. 1942)
tradução de pedro amaral
em quartzo, feldspato & mica





10 setembro 2008

gil t. sousa / falso lugar




1/


solta-te
como se ainda fosses
um peixe a fugir da morte
e houvesse
por entre os dedos da noite
uma escada
de sereno veneno
por onde pudesses
mentir ao medo
e acordar numa hora
possível de dizer sim
um luminoso sim
e as marés
te olhassem nervosas
como se a palavra
ou o segundo
que tudo pode secar
te roesse a mão nua
e esse fosse
o instante da dor
ou o momento
de partir


deixa
que te durmam nos lábios
os velhos tambores
que te queimem os pés
as nuvens gastas
e que um outro lugar
rompa a areia do tempo
e rasgue o coração
como o céu do deserto
um lugar
que fosse como o ventre
dos sinos
e soasse almas sem lama
olhos sem raiva
que poisassem no mundo
sem o cegar









gil t. sousa
falso lugar
2004




09 setembro 2008

andre breton e paul éluard / as possessões







Os autores têm o escrúpulo de garantir a lealdade absoluta da iniciativa que para eles consiste em submeter, tanto aos especialistas como aos profanos, as cinco seguintes tentativas, nas quais a menor possibilidade de empréstimo dos textos clínicos ou de imitação mais ou menos hábil desses mesmos textos bastaria evidentemente para fazer perder toda a razão de ser, para as privar de toda a eficácia.


Longe de sacrificar por gosto ao pitoresco ao adoptar sucessivamente, com confiança, as várias linguagens usadas, com ou sem razão, pelas mais inadequadas ao seu objecto, sem mesmo se satisfazerem em conseguir um real efeito de curiosidade, esperam, por um lado, provar que o espírito, erigido poeticamente no homem normal, é capaz de reproduzir nos seus grandes traços as manifestações verbais mais paradoxais, mais excêntricas, que está no poder deste espírito submeter-se pela sua vontade às principais ideias delirantes sem que nele exista uma perturbação durável, sem que isso em nada seja susceptível de comprometer a sua faculdade de equilíbrio. De resto, não se trata de maneira alguma de conjecturar acerca da perfeita verosimilhança destes falsos estados mentais, sendo o essencial fazer pensar que com alguma preparação se poderiam tornar perfeitamente verosímeis. Que se faria então das categorias orgulhosas nas quais se divertem a fazer entrar os homens que tiveram as suas contas a ajustar com a razão humana, esta mesmo razão que quotidianamente nos nega o direito de nos exprimirmos pelos meios que nos são instintivos. Se posso sucessivamente fazer falar pela minha própria boca o ser mais rico e o ser mais pobre do mundo, o cego e o alucinado, o ser mais receoso e o ser mais ameaçador, como iria eu admitir que esta voz, que, em definitivo, é unicamente a minha, me venha de pontos mesmo provisoriamente condenados, de pontos onde, com o comum dos mortais, tenho de desesperar de ter acesso.

Não nos ofendemos por permitir por outro lado, a confrontação destas cerca de trinta páginas, na elaboração das quais presidiram certas intenções confusíonais, com os outras páginas deste livro e as páginas doutros livros definidos como surrealistas. Tendo o conceito de simulação em medicina mental o seu curso quase só em tempo de guerra e cedendo o lugar, de outra forma, ao de «sobre-simulação» esperamos impacientemente saber em que base mórbida os juízes competentes na matéria estarão de acordo em dizer que operámos.

Enfim declaramos ter-nos agradado muito especialmente, este novo exercício do nosso pensamento. Por ele, em nós, ganhámos consciência de recursos até então insuspeitados. Sem prejuízo das conquistas que anuncia em relação à mais elevada liberdade, consideramo-lo, dentro do ponto de vista da poética moderna, como um notável critério. Basta dizer que proporíamos como de toda a vantagem a sua generalização e que, a nossos olhos, a «tentativa de simulação» de doenças que encerra substituiria vantajosamente a balada, o soneto, a epopeia, o poema sem pés nem cabeça e outros géneros caducos.










andre breton e paul éluarda imaculada concepçãotradução franco de sousa
estúdios cor
1972


07 setembro 2008

john ashbery / eco tardio







sós com a nossa loucura e a flor preferida,
vemos que não há mais nada sobre que escrever.
ou antes, é preciso escrever sobre as mesmas coisas de sempre,
do mesmo modo, repetindo vezes sem conta as mesmas coisas,
para que o amor continue e a pouco e pouco vá mudando.

colmeias e formigas têm de ser eternamente reexaminadas
e a cor do dia aplicada
centenas de vezes e variada do verão para o inverno
para que o seu ritmo desça ao de uma autêntica
sarabanda e ela aí se feche sobre si mesma, viva e em paz.

só nessa altura a crónica desatenção
das nossas vidas nos poderá envolver, conciliadora
e com um olho posto naquelas longas opulentas sombras amareladas
que falam tão fundo para o nosso mal preparado conhecimento
de nós próprios, máquinas falantes dos nossos dias.








john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992.







03 setembro 2008

konstandinos kavafis / deus abandona antónio

Quando bruscamente, nas trevas da noite,
Ouvires passar o tropel invisível das vozes puras,
O coro celeste das sublimes harmonias,
Abandonado definitivamente pela fortuna,
Desfeitas em pó as últimas esperanças,
Esvaída em fumo uma vida de desejo.
Ah! não sucumbas lastimando um passado
Que te traiu, mas como um homem
Que se prepara há muito tempo,
Despede-te corajosa mente
De Alexandria que te abandona.
Não te deixes iludir e não digas
Que foi sonho ou um logro dos teus sentidos,
Deixa as súplicas e os lamentos para os poltrões,
Abandona vãs esperanças.
E como um homem que se prepara há muito tempo,
Resignado, altivo, como te compete
E a uma cidade como esta,
Abre a janela e olha para a rua
E bebe a taça inteira da amargura
E a derradeira embriaguez da multidão mística
E despede-te de Alexandria que te abandona.







konstandinos kavafis
justine, lawrence durrell
tradução daniel gonçalves
ulisseia
2007






29 agosto 2008

luís nunes / guardanapo







éramos nós
lagos desertos
de cabelos longos
saltando montanhas
quase nascemos
entre cores ruidosas
e paisagens de calendários
de oficinas de carros
em segunda mão
mas deixamos os corpos lá fora
quando nos deitamos na cama
de folhas verdes

tardes vestidas de perfume
que tínhamos desvendado
num olhar
mesmo que duas
crianças no mar
perdidos em castelos
sem pressa de fugir
ao encontro das marés
desafiávamos o sol
e já na vertigem
descíamos ruas
saltando muros
sempre pintados de branco
e nunca me falaste nele

digo isto agora que acordei
para a visão desse guardanapo
que tinha tido o cuidado
de arrumar no fundo de uma gaveta
onde se guardam as coisas
que não devem ser vistas
nem em dias de arrumações








luís nunes
controversosentidos






25 agosto 2008

álvaro de campos / o florir do encontro casual







O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida…

O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída…


As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem…


Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados…
Caminho sem fim…








fernando pessoapoesias de álvaro de campos
edições ática
1980




19 agosto 2008

kiki dimoulá / como quem escolhe







É sexta-feira hoje vou à praça do mercado
dar uma volta nos jardins decapitados
a ver o perfume dos orégãos
cativos nos molhos.

Vou ao meidia quando caem as cotações
encontra-se fácil o verde
entre feijões abóboras malvas e lírios.
Ouço ali com que coragem falam as árvores
com a língua cortada dos frutos
oradoras empilhadas as laranjas e as maçãs
e alguma convalescença começa a ganhar cor
nas faces amareladas
de uma mudez interior.

Raramente compro. É que nos dizem escolhe.
Isso é facilidade ou problema? Escolhemos e depois
como levantar o peso insustentável
que tem a nossa escolha?
Ao passo que aquele aconteceu, que pluma! No princípio.
É que depois as consequências põem-nos de rastos.
Também insustentáveis. No fundo é como quem escolhe.

Quando muito compro um pouco de terra. Não para flores.
Para me ir habituando.
Nisto não há escolha. Nisto, é de olhos fechados.






kiki dimoulá
grécia (n. 1931)
trad . de manuel resende






15 agosto 2008

henri michaux / ideogramas na china


(…)

De uma certa maneira semelhante à água, ao que ela tem de mais forte e de mais leve, de menos perceptível, como o são as rugas da sua ondulação, que sempre foram um tema de estudo na China.

Imagem do desprendimento: a água que não se apega a nada, sempre pronta a instantaneamente voltar a partir, água que, mesmo antes da chegada do budismo, falava ao coração do chinês. Água, vazia de forma.






Yi Tin, Yi Yiang, tche wei Tao
Um tempo Yin, um tempo Yang
Eis a via, eis o Tao.







Via para a escrita.


Ser calígrafo, como se é paisagista. Melhor. Na China, é o calígrafo que é o sal da terra.

(…)







henri michaux
ideogramas na china
trad. ernesto sampaio
cotovia / fundação oriente
1999


07 agosto 2008

marguerite yourcenar / safo ou o suicídio






(…)

desce a correr
as ruas cheias de despojos e de lixo
que conduzem até ao mar,
mergulha na vaga dos corpos.

sabe que nenhum encontro
lhe trará salvação,
pois não poderá,
para onde quer que vá,
voltar senão a encontrar Átis.
aquele rosto desmesurado
tapa-lhe todas as saídas
que não dão para a morte.

a noite cai
semelhante a uma fadiga
que lhe baralhasse a memória;
um pouco de sangue
persiste do lado do poente.

repentinamente
ressoam tímbalos, como se a febre
os fizesse chocar
dentro do seu coração:
contra sua vontade,
um longo hábito levou-a de volta ao circo,
à hora onde todas as noites ela luta
contra o anjo da vertigem.

uma última vez
enche-se daquele cheiro de animal selvagem
que foi o da sua vida,
daquela música enorme e desafinada
como é a do amor.
(…)








marguerite yourcenar
fogos
trad. maria da graça morais sarmento
difel
1995





05 agosto 2008

valter hugo mãe / recipiente para guardar o mar






nunca sabotei a vontade de
deus, e vejo ainda
o inferno, um qualquer
poema mais difícil de coleccionar






valter hugo mãe
três minutos antes da maré encher
quasi
2000





03 agosto 2008

arsenii tarkovskii / 8 ícones






Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes à procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.







arsenii tarkovskii
8 ìconesversão de paulo da costa domingos
assírio & alvim
1987


30 julho 2008

sophia de mello breyner andresen / no tempo dividido






Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros

Pesei o ouro do Sol
E a palidez da Lua.






sophia de mello b. andresen
no tempo dividido
caminho
2003








29 julho 2008

rené char / partilha formal




XL

Atravessar com o poema a pastoral dos desertos, o sacrifício às fúrias, o fogo bolorento das lágrimas. Correr atrás dele, implorar-lhe, injuriá-lo. Identificá-lo como sendo a expressão do nosso génio ou ainda o ovário esmagado da nossa penúria. Por uma noite irromper atrás dele, finalmente, nas núpcias da romã cósmica.






rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000




28 julho 2008

jean cocteau / o anjo heurtebise






VIII


Com pés de animal azul celeste,
Chegou o anjo Heurtebise. Estou só
Todo nu sem Eva, sem bigode
Sem mapa.
As abelhas de Salomão
Debandam, porque me é difícil comer o mel
De tomilho amargo, o meu mel dos Andes.
Em baixo, esta manhã o mar copia
Cem vezes o verbo amar. Anjos de algodão
Sujos, indecentes
Mungem na erva os úberes das grandes
Vacas geográficas.









jean cocteau
o anjo heurtebise
ouolof
poemas mudados para português
por herberto helder
assírio & alvim
1997






27 julho 2008

douglas dunn / à janela da noite






A noite chocalha de pesadelos.
Crianças choram nas casas amontoadas,
Um homem apodrece a ressonar.
De pés silenciosos, guardas experimentam portas.
Passadas tornam-se pessoas à luz de candeeiros.
Bêbedos regressam de paródias,
Soando a garrafas vazias e velhas cantigas.
As raparigas voltam para casa,
O prazer nelas ensurdece-me.
Trotam como póneis
E desaparecem por entre camas brancas
À beira da noite.
Todas as janelas se abrem na noite escaldante,
E os que não têm sono, fumando no escuro,
Fazendo pequenas luzes rubras junto à boca,
Contam os anos dos casamentos.








douglas dunn
leituras poemas do inglêstrad. joão ferreira duarte
relógio d´água
1993





24 julho 2008

citações - virgínia woolf





(1920)
Segunda, 25 de Outubro (primeiro dia da hora de Inverno)


Porque será a vida tão trágica?, tão semelhante a uma pequena faixa de passeio sobre um abismo. Olho para baixo; sinto vertigens; não sei se vou conseguir caminhar até ao fim. Mas porque sentirei eu isto? Agora que o digo já não o sinto. Tenho a lareira acesa, vamos à Beggar’s Opera. Só que isto paira em mim; não posso fechar os olhos a isto. É uma sensação de impotência: a sensação de não estar a realizar nada. Aqui estou eu, em Richmond, e, como uma lanterna no meio de um campo, a minha luz esfuma-se na escuridão. A melancolia diminui à medida que vou escrevendo. Então porque não escrevo eu mais vezes sobre isto? Bom, a vaidade proíbe-mo. Quero ser um êxito até aos meus próprios olhos. Contudo, este não é o fulcro da questão. É que não tenho filhos, vivo afastada dos amigos, não consigo escrever bem, gasto muito dinheiro em comida, envelheço – dou demasiada importância aos quês e porquês; dou demasiada importância a mim mesma. Não gosto que o tempo esmoreça. Se assim é, então trabalha. Pois é, mas o trabalho cansa-me logo – só posso ler um bocadinho, uma hora a escrever e já não posso mais. Ninguém vem para aqui entreter-se um bocado. Se isso acontece, zango-me. Ir a Londres é um esforço enorme. Os filhos da Nessa crescem e não posso tê-los cá para o lanche, nem levá-los ao Jardim Zoológico. O dinheiro para os meus alfinetes não dá para muito. Contudo, tenho a certeza de que estas coisas são triviais: é a própria vida, penso eu por vezes, que é assim tão trágica para esta nossa geração – não há um cabeçalho de jornal que não tenha um grito de agonia de alguém. Esta tarde foi o MeSwiney, e a violência na Irlanda; ou então é uma greve. Há infelicidade em todo o lado; está mesmo atrás da porta; ou há estupidez, o que é pior. Mesmo assim, não consigo arrancar este espinho. Sinto que voltar a escrever o Jacob’s Room me vai fazer recuperar a fibra. Acabei o Evelyn: mas não gosto do que escrevo agora. E apesar de tudo isto como sou feliz – se não fosse esta sensação de haver uma faixa de passeio sobre um abismo.







virgínia woolf
diário primeiro volume 1915-1926
trad. maria josé jorge
bertrand editora
1985






22 julho 2008

salsugem








há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu....como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas esperando o mar
e a longitude do amor embarcado.....

....por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite...
....os dias lentíssimos....sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta.... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci.... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão....

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me
uma pérola no coração. mas estou só, muito só,
não tenho a quem a deixar.)

.... um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala á minha porta....
.... inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite
a felicidade.






al berto
salsugem
contexto
1984





luto






atravessava a morte
com a lentidão rigorosa dos amantes

e voltava
voltava sempre

trazia em pedaços de papel
coisas cada vez maiores

que já só podia arrumar no coração






20 julho 2008

eu queria descrever







Eu queria descrever a mais simples das emoções
alegria ou tristeza
mas não como outros o fazem
invocando raios de sol ou chuva

Eu queria descrever a luz
que cresce dentro de mim
mas que não se assemelha
a nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é incerta.

Eu queria descrever a coragem
sem arrastar um leão de pó atrás de mim
e a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água

dito de outro modo
daria todas as metáforas
em troca de uma só palavra
do meu peito arrancaria uma costela
por uma só palavra
sufocada dentro das fronteiras
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

e para dizer apenas – eu amo
ando às voltas como um louco
apanhando pássaros e pássaros com as mãos
e a minha ternura
que afinal não é feita de água
pergunta à água por um rosto

e a raiva
diferente do fogo
pede ao fogo
uma língua eloquente

e nada é nítido
e nada é inteiramente nítido
em mim
cavalheiro de cabelos brancos
separação de uma vez para sempre
e disse
isto está no poema
isto é o objecto

caímos no sono
com uma mão debaixo da cabeça
e a outra numa pilha de planetas

os nossos pés abandonam-nos
e provam a terra
com as suas raízes subtis
que despedaçamos dolorosamente
na manhã seguinte











zbigniew herbert
selected poems
ecco press
1986
tradução de miguel gonçalves
a partir da versão inglesa feita por czeslaw milosz e peter dale scott









17 julho 2008

andre breton e paul éluard / a morte







Um chamalote de campo esconde na sua trama uma fornalha de insectos. De mão em mão, o furão passa com a forma de escorpião na nassa da maldade. Vem florinha intraduzível, por aqui (ela esconde-se). Eh lá! motorista (ele desce do seu lugar e foge). Espere, lembrava-me porém de um nome… Uma pá de diamantes a quem me trouxer de volta ao cão que era!

E nada esqueço. Há ainda uma garrafa de sangue para quem se compromete a viver com as imagens que eu não quis.

Sinto-me terrivelmente melhor. As vãs palavras que me tinham posto na boca começam a fazer o seu efeito. Os meus semelhantes abandonam-me. Com a mão na juba dos leões, vejo o horizonte enganador que pela última vez me vai mentir. Tiro vantagem de tudo e das suas mentiras com forma de lixo e daquele pequeno rodeio que faz ao passar sempre por minha casa.
Nada me serve tão bem como quando ele me encontra.

Mesmo assim que exame estúpido! Ter-me-ia saído bem, com todo o rigor sem aquela pequena pergunta de história. Felizmente não me tinha apresentado.

As viagens sempre me levaram demasiado longe. A certeza de chegar nunca me pareceu mais do que a centésima campainhada a uma porta que não se abre.

O próprio sofrimento era possuído. Quando esta mulher com corpo de gelosia veio abanar-se no meu leito, compreendi que devia ter frio. Tive frio. Mas a juventude velava: na verdade ainda mal tinha sofrido. Devo confessar que fiquei com a sua cabeça sobre o meu peito. Além, aquela claridade, é a sua forma nocturna que não pode desaparecer e sustenta a noite e procura a luz onde já não existo.

De resto, o poço fica todo em superfície. O caracol do Verão nos cabelos da Primavera explicou-me demoradamente o que á a promessa. A chuva bestial trazia nas suas antenas o progresso que coxeia no musgo. E canta sempre o capricho taciturno e ameaçador que tudo deixa perecer. O som da sua voz é uma cicatriz.

Cá está a grande praça gaga. Os carneiros chegam a toda a velocidade, em andas.









andre breton e paul éluarda imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972

13 julho 2008

é o vento que conversa






é o vento que conversa
nos astrais rudes da tua voz.


o perfil é terra sem alma.


acuras as esperanças
inflamam-se em labirintos.


o abismo é ensejo
no sorriso da ironia


um nome estranho demove o grito
saído das costas coagidas.


puro é o espaço úbere
no silencioso vulto
que louco repete
supostas virtudes


o espanto é figura na voz
de rostos sem nomes
coroados de leveza


ermo na noite, o vento irrompe
e é o impulsor do corpo!







l.maltez






11 julho 2008

je vous écris d´un pays lointain




5

Escrevo-lhe do fim do mundo. É preciso que o saiba. Amiúde as árvores tremem. Apanham-se as folhas. Têm uma imensa quantidade de nervuras. Mas de que servem? Não há mais nada entre elas e a árvore, e dispersamo-nos, incomodados.
Será que a vida na terra não poderia prosseguir sem vento? Ou será preciso que tudo trema sempre, sempre?
Há também tumultos subterrâneos, e dentro de casa, como raivas que surgissem à nossa frente, como seres severos que quisessem arrancar confissões.
Não se vê nada, como se importasse muito pouco ver. Nada, e todavia treme-se. Porquê?








henri michaux
(escrevo-lhe de um país distante, 1942)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999






10 julho 2008

giánnis ritsos / testamento


Disse: creio na poesia, no amor, na morte,
e por isso mesmo creio na imortalidade. Escrevo um verso,
escrevo o mundo; existo; existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
O céu é sete vezes azul. Esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.



giánnis ritsos
antologia
tradução de custódio magueijo
fora do texto
1993


08 julho 2008

o medo da loucura







1913, 4 de Dezembro

(…)

O medo da loucura. Ver a loucura em todas as emoções que se esforçam sempre para a frente e que nos fazem esquecer de tudo o resto. Que é, então, a não loucura? A não loucura é ficar parado, de pé, como um mendigo à soleira da porta, ficar ao lado da entrada, apodrecer e cair. Mas P. e O. são de facto loucos repugnantes. Deve haver loucuras maiores do que aquela que os imortaliza. O que é repugnante é, talvez, este inchar de pequenos loucos na grande loucura. Mas Cristo não apareceu aos fariseus precisamente á mesma luz?

(…)




franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986







07 julho 2008

progressos na investigação do caos





Esteja à vontade,
trate-me só por eu
ou omita-me de todo.
Afinal ninguém sabe ao certo
onde começa o próximo.
Poderá dispersar-se,
mas permaneça deitado.
Feche os olhos
e não ouça nada.
Quando nada sentir,
tem de sentir o que sente.
Ou será que também é daqueles
que sangram a cada tiro?
O meu conselho é gorduras vegetais
e inteligência animal.
No entanto, tudo com medida
e sempre de cabeça inclinada.
O resto é bastante simples.






hans-ulrich treichel
como se fosse a minha vida
trad. colectiva
poetas em mateus
quetzal editores
1994





04 julho 2008

narração






Este homem caminha a chorar
ninguém sabe dizer porquê
às vezes pensam que são os amores perdidos
como aqueles que tanto nos atormentam
à beira-mar no verão com os gramofones.

A outra gente cuida dos seus trabalhos
papéis intermináveis crianças que crescem, mulheres
com dificuldades em envelhecer
ele tem dois olhos como papoilas
como primaveris papoilas cortadas
e duas pequenas fontes na cavidade dos olhos.

Caminha pelas estradas nunca se deita
galgando pequenos quadrados no dorso da terra
máquina de um tormento infindo
o qual acabou por não ter importância.

Alguns outros ouviram-no falar
sozinho enquanto passava
de espelhos quebrados anos antes
de figuras quebradas dentro de espelhos
que já ninguém pode juntar.
Outros ouviram-nos dizer do sono
imagens de horror no limiar do sono
rostos insuportáveis de ternura.

Habituámo-nos a ele bem arranjado e tranquilo
acontece apenas que caminha a chorar continuamente
como os salgueiros à beira do rio que vês do comboio
quando acordas mal disposto numa alba cheia de nuvens.

Habituámo-nos a ele não representa nada
como todas as coisas às quais vocês se habituaram
e falo-vos dele porque não encontro
nada a que vocês não estejam habituados;
as minhas vénias.








yorgos seferis
poemas escolhidos
trad. de joaquim manuel magalhães
e nikos pratisinis
relógio d´água
1993




03 julho 2008

edmund white

a vida privada de um rapaz




(...)


Não, do que eu gostava era do budismo dos primeiros tempos
do Hinayana, daquelas austeras instruções que conduziam a
uma extinção do desejo (em sânscrito, nirvana significa «extinguir»,
como «extinguimos» a vela de uma chama). Sentia uma grande
afinidade com esta religião que odeia a vida de uma forma muito curiosa,
que nos ensina que não temos alma e que o eu não passa
de um depósito de bagagens onde foram guardados estes e
aqueles embrulhos ou pacotes (com as etiquetas de emoções,
sensações, memórias e assim por diante), os quais não tardarão
a ser recolhidos por diferentes proprietários, um esvaziamento
que deixará o depósito de bagagens ditosamente vazio.
Este esvaziamento, este aniquilamento, é o que o cristão mais teme,
mas o que o budista mais veementemente deseja - ou desejaria,
se o desejo não fosse precisamente aquilo que tem de ser extirpado.
O desejo - a ânsia de sexo, dinheiro, fama, segurança - acorrenta-nos
ao mundo e condena-nos à reencarnação , «o ciclo da reencarnação»,
que eu imaginava como uma roda a que o pecador era bem atado
e estirado, a roda que o esmagava à medida que rodava, mas que,
crueldade das crueldades, não o matava nunca.
Sentia a necessidade de me libertar do desejo. Não devia querer nada.
Não devia sentir afectos. Acima de tudo, nada de atracções.
Devia renunciar a toda a esperança, planos, felizes expectativas.
Devia estudar o esquecimento. Devia dar cama e mesa ao silêncio
e pagar propinas ao vazio. Mesmo a mais ténue luzinha de desejo
devia ser apagada. Todos os fios deviam ser arrancados
até que todos os mecanismos deixassem de funcionar
e todos os ponteiros apontassem para zero.




edmund white
a vida privada de um rapaz
trad. josé vieira de lima
publicações dom quixote
1996