31 março 2017

josé maria valverde / madrigal do emigrado



Terra mínima e fiel, mulher de sempre,
és a minha pátria arada e fértil, levas
minha linguagem, minha gente, meu diálogo;
em ti acampo no novo, lar errante
com o mesmo ruído de filhos e de pratos;
colonizas o aberto, sem temores,
torna-lo amigo e nosso, oh peregrina
suavemente cambiante pelos anos,
pela luz diferente dos países;
tu, minha vida na mão até ao fim.


josé maria valverde
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985



30 março 2017

jorge luís borges / a trama



No segundo pátio
a torneira periódica goteja,
fatal como a morte de César.
Ambas são peças da trama que abarca
o círculo sem princípio nem fim,
a âncora do fenício,
o primeiro lobo e o primeiro cordeiro,
a data da minha morte
e o teorema perdido de Fermat.
Essa trama de ferro
pensaram-na os estóicos como um fogo
que morre e que renasce como a Fénix.
É a grande árvore das causas
e dos ramificados efeitos;
nas suas folhas estão Roma e Caldeia
e o que vêem os rostos de Jano.
O universo é um dos seus nomes.
Nunca ninguém o viu
e nenhum homem pode ver outra coisa.


jorge luís borges
obra completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998



29 março 2017

nuno vidal / coda



Quando falas duma estrela
falas da ruiva, da polícia,
de ti? Falas da falta.
Uma cova de leite.
Pode ser um brilho que prende
o casaco, um talismã de procela.
Aquilo fica connosco até
de madrugada, quando reparamos
obriga-nos a não dormir
e por vezes tossimos um pouco.

Mas ninguém sabe da cera
iluminada por trás, pensa
cada fervor de solitário.
Depois vem a ver uma fotografia
de novecentos e sessenta e sete
e lá está bem melhor. Com
semelhante sediela se ata
o gosto para versos para ninguém.
Há uma rapariga que vê.
Liga com a sua infância
e vai tornar a filosofia inútil.


nuno vidal
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990




28 março 2017

gil de carvalho / amazonas



Em Manaus, por esta altura nadavas
Respirando longe do jacaré,
Na posse dos segredos da beleza
O fumo dos camiões era uma seca
Homenagem, quase intacta, à floresta.
E o sabiá, forasteiro,
Sabia tanto, que era
O princípio, o meu
Olhar seguia-te, voava alto,
Eras nova, esguia, carne do rio:
Piranhas sangravam o boi
Mas quem é que via?
Em Manaus nadavas por essa altura
E eu também, nas águas sem fumo
De uma calçada fria. Carreto
Do exílio que desfaz o teu cabelo
Vermelho – sem medo da agonia.


gil de carvalho
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990




27 março 2017

pier paolo pasolini / poemas mundanos



21 de Junho de 1962


Trabalho o dia todo como um monge
e à noite vagueio, como um gato
à cata de amor… Vou sugerir
à Cúria que me santifique.
Com efeito, respondo à mistificação
com a mansidão. Olho com olhos
de imagem os que vão linchar-me.
Observo o meu massacre com a coragem
serena de um sábio. Pareço
sentir ódio, mas escrevo
versos cheios de amor atento.
Estudo a perfídia como um fenómeno
fatal, como se dela não fosse objecto.
Tenho pena dos jovens fascistas,
e aos velhos, que são para mim formas
do mais horrível mal, oponho
apenas a violência da razão.
Passivo como um pássaro que, voando,
tudo vê, e, no seu voo para o céu,
leva no coração a consciência
que não perdoa.



pier paolo pasolini
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




26 março 2017

camilo pessanha / quem poluiu...



Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Nem te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.


camilo pessanha






25 março 2017

miguel torga / perplexidade



Hesito no caminho.
Ninguém segue este rumo…
É noutra direcção
Que o vento leva o fumo
Das paixões…
Chegar, sei que não chego,
De nenhuma maneira;
Mas queria ao menos ir no lírico sossego
De quem não se enganou na estrada verdadeira.

E não vou.
Cada vez mais sozinho
Na solidão,
Duvido da certeza dos meus passos.
Vejo a sede ancestral da multidão
Voltar costas às fontes que pressinto,
E fico na mortal indecisão
De afirmar ou negar o cego instinto
Que me serve de guia e de bordão.


miguel torga
câmara ardente
1962





24 março 2017

saint-john perse / estrofe



I
…Estreitos são os barcos, estreita a nossa cama.
Imensa a extensão das águas, mais vasto o nosso império
Nos quartos fechados do desejo.

Entra o Verão, que vem do mar. ao mar apenas, diremos
Que estrangeiros fomos nas festas da Cidade, e que astro su-
bindo das festas submarinas
                Veio certa noite, sobre a nossa cama, farejar a cama do divino.

                Em vão a terra vizinha traça para nós a sua fronteira. Uma
mesma vaga pelo mundo, uma mesma vaga desde Tróia
                Rola a sua anca para nós. Num mar alto longe de nós foi
outrora  impresso este sopro…
                E certa noite foi grande o rumor nos quartos: a própria
morte, com um som de búzios, não se faria ouvir!

                Amai, ó casais, os barcos; e o mar alto dentro dos quartos!
                A terra chora certa noite os seus deuses, e o homem caça as
bestas fulvas; as cidades gastam-se, as mulheres sonham… Que
para sempre paire à nossa porta
                Essa alvorada imensa que se chama mar – elite de asas e le-
vantamento de armas, amor e mar do mesmo leito, amor e mar
no mesmo leito –

e de novo este diálogo nos quartos:



saint-john perse
habitarei o meu nome
antologia
tradução de joão moita
assírio & alvim
2016






23 março 2017

tamura ryuichi / país longínquo



O meu sofrimento
É simples
     Tal como para cuidar de um animal de um país longínquo
     Não é necessário um tratador

A minha poesia
É simples
     Tal como para ler uma carta de um país longínquo
     Não são necessárias lágrimas

As minhas alegrias e penas
Ainda são mais simples
     Tal como para matar um homem de um país longínquo
     Não são necessárias palavras


tamura ryuichi
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de josé alberto oliveira
assírio & alvim
2001


22 março 2017

rené char / canção do veludo côtelé



O dia dizia: «Tudo o que sofre me acompanha, agarra-se a mim, quer ser feliz. Testemunhas da minha comédia, segurai meu pé alegre. Receio o meio-dia e a sua seta merecida. Não há nada que nos favoreça aos seus olhos. Se o meu desaparecimento anunciar a vossa grandeza, as águas frias do Verão apenas me hão-de receber melhor.»

A noite dizia: «Os que me ofendem morrem jovens. Como não os amar? Pradaria de todos os meus instantes, não podem pisar-me. A sua viagem é a minha viagem e eu permaneço obscuridade.»

Havia entre os dois um mal que os despedaçava. O vento ia de um ao outro; o vento ou nada, as fraldas do rude estofo e a avalanche das montanhas, ou nada.


         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000




21 março 2017

luis muñoz / a moral ordinária



Não foi somente provar, mas provar-se.
Foi um cheiro e um tacto,
uma penugem,
pegar com as palavras as carícias,
consentir-se na forma de um corpo semelhante,
nadar nesse espelho de prata temperada,
saber que estava nele, no seu destino.

Se se deitou na sua cama ao meio-dia,
Depois de mergulhar no prazer de outro,
se transportou um calor a outro calor
e se passou na rua pela moral ordinária,
a tenaz de gelo de volta do trabalho,
soube que não voltava a retroceder no seu caminho,
soube que para sempre
atravessava um cerco.


luis muñoz
poesia espanhola, anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000






20 março 2017

wislawa szymborska / possibilidades



Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoiévski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os  escrever.
No amor prefiro os aniversários não marcados,
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.


wislawa szymborska
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução de aleksandar jovanovic e henry siewierski
assírio & alvim
2001





19 março 2017

bernardo soares / a crueldade da dor — gozar e sofrer,



A crueldade da dor — gozar e sofrer, por gozar a própria personalidade consubstanciada com a dor. O último refúgio sincero da ânsia de viver e da sede de gozar;
Amores cruéis
Serás quem eu quiser. Farei de ti um ornamento da minha emoção posta onde quero, e como quero, dentro de mim. Contigo não tens nada. Não és ninguém, porque não és consciente; apenas vives.
Meu espírito está [...] como os clássicos fazem, e com o que os decadentes dizem.
s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
ática
1982



18 março 2017

herberto helder / o poema


     VII

     A manhã começa a bater no meu poema.
     As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
     líricas.
     Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
     Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
     o rodopio das rosáceas do meu
     poema batido pela revelação das coisas.
     Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
     pelo sangue.
     Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
     rapidamente transfigurada.
     Batem nas portas das palavras,
     sobem as escadas desta intimidade.
     É como uma casa, é como os pés e a as mãos
     das pessoas invasoras e quentes.

     Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
     deitado de costas, com o nariz que aspira,
     a boca que emudece,
     o sexo negro no seu quieto pensamento.
     Batem, sobem, abrem, fecham,
     gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
     do poema.

     Uma inspiração fende lírios na minha testa,
     fende-os ao meio
     como os raios fendem as direitas taças de pedra.
     Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
     Uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
     Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
     levitante,
     as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

     É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
     do poema. É Deus que rola e a morte
     e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
     à beira
     do povo que até mim separa os espinhos das formas
     e traz sua pureza aguda e legítima.
     — Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
     pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
     de música fria.

     — Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

     O poema dói-me, faz-me.
     O povo traz coisas para a sua casa
     do meu poema.
     Eu acordo e grito, bato com os martelos
     dos dias da minha morte
     a matéria secreta de que é feito o poema.

     — A manhã começa a colocar o poema na parte
     mais límpida da vida. E o povo canta-o
     enquanto crescem os campos levantados
     ao cume das seivas.
     A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
     do mundo.



     herberto helder
     poesia toda
     assírio & alvim
     1996




17 março 2017

juan-eduardo cirlot / a virgem da tristeza levantada no fumo,



A virgem da tristeza levantada no fumo,
as palavras azuis,
os signos como flores com a forma de cruz.

Consumir-me-ia na sombra das muralhas absortas.

Mas ninguém.



juan-eduardo cirlot
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985





16 março 2017

mário cesariny / mágica



É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite

São edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância

São velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamento

É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sozinho
é a veia que é coração

São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar

São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns

É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada

É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer cor de rosa
um ar inocente, ácido


mário cesariny
manual de prestidigitação
assírio & alvim
1981