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10 outubro 2019

rené char / folhas de hipno




38
Deixam-se cair com toda a massa dos seus preconceitos, ou ébrios com o ardor dos seus falsos princípios. Associá-los, exorcizá-los, aliviá-los, muscula-los, amortece-los, depois convencê-los que a partir de certa altura a importância das ideias feitas é extremamente relativa e que, no fim de contas, o «assunto» é um assunto de vida e de morte e não das nuances a fazer prevalecer no seio de uma civilização cujo naufrágio se arrisca a não deixar marca sobre o oceano do destino, é isso que me esforço por fazer aprovar à minha volta.


         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000





23 outubro 2018

rené char / rasto negro




Ao compilar do pôr-do-sol sonoro
A cada andar de nuvens
A noite reencontra, esquece o seu nome

Não há similitude
Há apenas solidão
Que se abandona, uivo e lobo

O amor que tinha adormecido
Como o mar sob uma vaga
Guarda um rosto de múmia
E fala uma língua de areia.

1926





rené char
este fanático das nuvens
furor e mistério
o pau de roseira (1983)
tradução y. k. centeno
cotovia
1995







24 setembro 2018

rené char / violências




Acendia-se a lanterna, imediatamente cercada por um pátio prisional. Os pescadores de enguias iam lá escavar ervas raras com o seu ferro, na esperança de delas extraírem qualquer coisa para cevar as suas linhas. Toda a quadrilha das escumas tinha aí o seu refúgio ao abrigo da necessidade. E todos os dias se repetiam as mesmas manobras de que eu era a vítima e a testemunha anónima. Optei pela obscuridade e pela reclusão.

Estrela do destino. Entreabro a porta do jardim dos mortos. As flores servis retraem-se. Companheiras do homem. Ouvidos do Criador.

         
rené char
furor e mistério
o ante-mundo
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000








21 junho 2018

rené char / esse fumo que nos levava…




Esse fumo que nos levava era irmão do pau que perturba a pedra e da nuvem que abre o céu. Não nos desprezava, acolhia-nos tal como éramos, delgados regatos alimentados de confusão e esperança, com um ferrolho nas mandíbulas e uma montanha no olhar.



         
rené char
furor e mistério
os leais adversários
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000












16 abril 2018

rené char / evadne




O estio e a nossa vida éramos uma só coisa
O campo devorava a cor da tua saia perfumada
A avidez e o constrangimento tinham-se reconciliado
O castelo de Maubec enterrava-se na argila
Em breve soçobrariam os vaivéns da sua lira
A violência das plantas fazia-nos vacilar
Um corvo remador sombrio desviando-se da esquadra
Sobre o sílex mudo do meio-dia esquartejado
Acompanhava o nosso idílio com ternos movimentos
Em toda a parte a foice acedia ao repouso
A nossa raridade iniciava um reino
(O vento insone que nos enruga a pálpebra
Voltando noite após noite a página consentida
Quer que cada tua parte que eu retenho
Se estenda numa terra de idade faminta e de lacrimal gigante)

Era no início dos anos adoráveis
Lembro-me de que a terra nos amava um pouco.

         
rené char
furor e mistério
o rosto nupcial
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000







22 janeiro 2018

rené char / folhas de hipno



123
Nestes jovens, uma comovente fome de consciência. Nenhum vestígio dos degraus tantas vezes subidos e descidos pelos seus pais. Ah! poder metê-los no caminho direito da condição humana, sem temer que um dia seja preciso reabilitá-la. Mas, visto que Deus se mantém afastado das nossas querelas e o torno das origens sente escaparem-se-lhe os seus poderes, será preciso exigir dos novos peritos uma amplitude de pensamento e uma minúcia de aplicação cujos presságios eu não alcanço.


         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000







26 dezembro 2017

rené char / calendário




Juntei as minhas convicções umas às outras e dilatei a tua Presença. Outorguei aos meus dias um novo curso, sustentando-os nessa força imensa. Expulsei a violência que me limitava o ascendente. Agarrei sem ruído o pulso do equinócio. O oráculo deixou de avassalar-me.   Penetro: sinto-me ou não em estado de graça.

A ameaça é agora mais polida. A praia que todos os Invernos ficava atravancada de lendas regressivas, de sibilas com os braços pesados de ortigas, apresta-se agora ao socorro das criaturas. Sei que a consciência que se arrisca nada tem que temer da plaina.


         
rené char
furor e mistério
sós permanecem (1938-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000






06 outubro 2017

rené char / folhas de hipno



155
Amo estes seres de tal modo enamorados por aquilo que o seu coração imagina ser a liberdade que se imolam para evitar a morte do poucochinho de liberdade. Maravilhoso mérito do povo. (Crê-se que não existe o livre arbítrio e que o ser se define relativamente às suas células, à sua hereditariedade, ao decurso breve ou prolongado do seu destino… Todavia, entre tudo isso e o Homem existe um enclave de inesperados e de metamorfoses cujo acesso deve ser proibido e a manutenção assegurada.)


         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




06 setembro 2017

rené char / folhas de hipno




8
Há pessoas razoáveis que, quando o seu instinto de preservação soçobra sob as exigências do instinto de propriedade, chegam a perder a noção da provável duração da sua vida e do seu equilíbrio quotidiano. Tornam-se hostis aos estremecimentos da atmosfera e submetem-se sem reservas às instâncias da mentira e do mal. É sob uma magnífica saraivada de granizo que em pó se desfaz a sua miserável condição.

         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000





21 julho 2017

rené char / folhas de hipno




6
O esforço do poeta visa transformar velhos inimigos em leais adversários, dependendo toda a fertilidade do porvir do sucesso desse projecto, sobretudo no ponto preciso em que se lança, se enlaça, declina, é dizimada toda a variedade dos véus em que o vento dos continentes entrega o seu coração ao vento dos abismos.

         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




23 junho 2017

rené char / folhas de hipno



49
O que pode seduzir no nada eterno é o facto de nele o dia mais belo ser indiferentemente este ou aqueleoutro.

(Cortemos este ramo. Nenhum enxame se há-de pendurar nele.)


         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000





22 março 2017

rené char / canção do veludo côtelé



O dia dizia: «Tudo o que sofre me acompanha, agarra-se a mim, quer ser feliz. Testemunhas da minha comédia, segurai meu pé alegre. Receio o meio-dia e a sua seta merecida. Não há nada que nos favoreça aos seus olhos. Se o meu desaparecimento anunciar a vossa grandeza, as águas frias do Verão apenas me hão-de receber melhor.»

A noite dizia: «Os que me ofendem morrem jovens. Como não os amar? Pradaria de todos os meus instantes, não podem pisar-me. A sua viagem é a minha viagem e eu permaneço obscuridade.»

Havia entre os dois um mal que os despedaçava. O vento ia de um ao outro; o vento ou nada, as fraldas do rude estofo e a avalanche das montanhas, ou nada.


         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000




21 dezembro 2016

rené char / partilha formal


LI

Certas épocas da condição do homem sujeitam-se ao ataque de um mal que se apoia nos pontos mais desonrosos da natureza humana. No centro desse furacão, o poeta completará
Pela auto-renúncia o sentido da sua mensagem, posto o que se aliará ao partido daqueles que, tendo retirado ao sofrimento a sua máscara de legitimidade, garantem o eterno retorno do teimoso estafeta, traficante de justiça.



         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000





06 junho 2016

rené char / força clemente



Sei onde me entravam as minhas insuficiências, vitral quando a flor se aparta do sangue do jovem Verão. O coração de água do sol tomou o lugar do sol, tomou o lugar do meu coração. Esta noite, pode ser que a grande roda errante tão grave do desejo seja apenas visível a meus olhos. Poderei eu alguma vez naufragar noutro sítio?

         
rené char
furor e mistério
l´avant monde
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000



18 abril 2016

rené char / partilha formal



XLVII

Reconhecer dois tipos de possível: o possível diurno e o possível proibido. Tornar, se possível, o primeiro igual ao segundo; encaminhá-los na via régia do fascinante impossível, o mais alto grau do compreensível.


         
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000




14 novembro 2015

rené char / um pássaro



Um pássaro canta sobre um fio
Essa vida simples, à flor da terra.
Com isso se alegra o nosso Inferno.

Depois o vento começa a sofrer
E as estrelas dão-se conta.

Ó loucas, por percorrerem
Uma tão profunda fatalidade.

  
rené char
furor e mistério
tradução margarida vale de gato
relógio de água
2000




08 janeiro 2015

rené char / ensinou-me a voar sobre a noite das palavras



Ensinou-me a voar sobre a noite das palavras,
longe do aborrecimento dos navios ancorados.

Não é o glaciar que nos importa
mas o que o torna possível indefinidamente,
a sua verosimilhança solitária.

Liguei-me a ódios entusiásticos
que ajudei a vencer e depois abandonei.
(Basta fechar os olhos para já não se ser reconhecido.)
Retirei às coisas a ilusão
que causam para se protegerem de nós
e deixei-lhes a parte que nos concedem.
Vi que nunca haveria mulher para mim
na MINHA cidade.
O frenesim das pândegas,
simbolicamente,
justificaria a minha boa vontade.

Atravessei deste modo a idade da solidão
até à morada seguinte d’o HOMEM VIOLETA.

Mas ele só dispunha do triste estado civil das suas prisões,
da sua experiência muda de perseguido
e nós,
nós só tínhamos a sua descrição de evadido.


rené char
este fanático das nuvens
furor e mistério
o poema pulverizado  (1945-47)
tradução y. k. centeno
cotovia
1995




05 agosto 2014

rené char / o inofensivo


Choro quando o sol se põe porque ele te esconde da minha vista e porque não sei entender-me com os seus rivais nocturnos. Embora ele esteja baixo e agora sem febre, é impossível contrariar o seu declínio, suspender a sua desfolhagem, arrancar ainda algum desejo à sua desfolhagem, arrancar ainda algum desejo à sua claridade moribunda. A sua partida funde-te com a sua obscuridade, como a lama do leito se dissolve na água da torrente para além do entulho das margens destruídas. Dureza e moleza de origens diferentes têm então efeitos semelhantes. Cesso de receber o hino da tua palavra; subitamente já não te vejo inteira ao meu lado; não é o fuso nervoso do teu pulso que eu seguro na mão, mas o ramo oco de uma qualquer árvore já morta e gasta. Só se dá nome ao arrepio, e a mais nada. É de noite. Os artifícios que se acendem acham-me cego.

De verdade só chorei uma única vez. O sol ao desaparecer tinha cortado o teu rosto. A tua cabeça rolara na fossa do céu e eu já não acreditava no futuro.

Qual é o homem da manhã e qual o homem das trevas?




rené char
este fanático das nuvens
poemas dos dois anos
palavra em arquipélago (1952-60)
tradução y. k. centeno
cotovia
1995



31 março 2014

rené char / a companheira do cesteiro



Amava-te.
Amava o teu rosto de nascente sulcado pela tempestade
e o emblema do teu  domínio cingindo o meu beijo.
Há quem se entregue
a uma imaginação completamente redonda.
A mim basta-me ir.

Do desespero, meu amor,
trouxe o cestinho mais pequeno
que se pôde entrelaçar em vime.



rené char
furor e mistério
tradução margarida vale de gato
relógio de água
2000




03 julho 2013

rené char / não se entende



ao longo da luta tão negra
e da imobilidade tão negra,
o terror cegando o meu reino,
eu ocupava-me dos leões alados da colheita
até ao grito frio da anémona.

vim ao mundo na deformidade das cadeias de cada criatura.
tornávamo-nos livres os dois.

de uma moral compatível, extraí irrepreensíveis recursos.
apesar da sede de desaparecer,
fui pródigo na espera, a fé constante.

sem renunciar.



rené char
furor e mistério
tradução margarida vale de gato
relógio de água
2000