20 junho 2018

leonor castro nunes e marcos foz / a bifurcação dos ossos




26.

I wonder about the love you can´t find
And I wonder about the loneliness that´s mine
isto num colchão a mil quilómetros
de lonjura perdoável.

Mais fósforo menos fósforo
e um dia fica só o lugar da cama
onde amámos a passagem da luz
de ponta a ponta
e fomos amealhando o crédito
a julgar que nos bastaria para tanto;
um gelado de baunilha um concerto nas escadas
de uma cidade que nos recebesse.



leonor castro nunes
e  marcos foz
a bifurcação dos ossos
do lado esquerdo
2016









19 junho 2018

isabel meyrelles / será a paz, será a guerra?




Será a paz, será a guerra?
Cada um sabe de que inferno vem,
saído da casca de manhã
entre dois braseiros mortais
a regra do jogo é caminhar de mão vazias
a morte dos cisnes é uma aventura sem amanhã
à sombra das pálpebras do deserto
os girassóis viraram-me as costas
relinchando de um terror empoeirado
aquilo que assobia aos meus ouvidos não tem nome
mas eu reconheço-o pelo que ele é
icebergue de sangue
uivando à lua.

Julho, 1985



isabel meyrelles
poesia
le messager des réves (o mensageiro dos sonhos)
tradução de vítor castro
quasi
2004







18 junho 2018

manuel antónio pina / a um homem do passado




Estes são os tempos futuros que temia
o teu coração que mirrou sob pedras,
que podes recear agora tão fundo,
onde não chegam as aflições nem as palavras duras?

Desceste em andamento; afinal era
tudo tão inevitável como o resto.
Viraste-te para o outro lado e sumiram-se
da tua vista os bons e os maus momentos.

Tua ainda tinhas essa porta à mão.
(Aposto que a passaste com uma vénia desdenhosa.)
Agora já não é possível morrer ou,
pelo menos, já não chega fechar os olhos.


manuel antónio pina
voyager
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012






17 junho 2018

bernardo soares / assim soubesses tu compreender o teu dever…




Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios. Talhares os teus gestos nos sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para paisagens puras da tua alma. De tal modo arquitectar o teu corpo em arremedos de sonho que não fosse possível ver-te sem pensar n'outra coisa, que lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir música e atravessar, sonâmbulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas perdidas no fundo d'outras épocas, onde invisíveis homens diversos vivem sentimentos que não temos.

Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando — nem te vendo talvez, mas talvez reparando que o luar enchera de (...) os lagos mortos e que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita, perdida em épocas impensáveis.

A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente, para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim mas que ouvir-te fosse não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligando as duas margens escuras do rio que vai ter ao mar — ao mar onde as caravelas são novas para sempre.



fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
europa-américa
1986







16 junho 2018

edgar allan poe / a queda da casa de usher



O meu coração é um alaúde suspenso:
Mal se lhe toca, ressoa.

De Béranger


Durante um dia inteiro de Outono, dia fuliginoso. Sombrio e mudo, em que as nuvens eram pesadas e baixas no céu, eu atravessava sozinho e a cavalo uma extensão de terra singularmente lúgubre e, enfim, como se aproximavam as sombras da noite, achei-me à vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como isto aconteceu – mas, logo ao primeiro olhar que deitei ao edifício, um sentimento de tristeza inultrapassável penetrou-me a alma. Disse inultrapassável porque tal tristeza não era, de modo nenhum, temperada por uma parcela daquele sentimento cuja essência poética cria quase uma volúpia e cuja alma se queda, geralmente, fixa, em face das imagens naturais mais sombrias da desolação e do terror. Fitava o quadro posto à minha frente e, só por ver a casa e a perspectiva característica deste domínio – as paredes que tinham frio – as janelas parecidas com olhos distraídos – alguns ramalhetes de juncos vigorosos – alguns troncos de árvores brancos e definhados – sentia este completo abatimento de alma que, entre as sensações terrestres, não se pode comparar melhor do que ao devaneio oculto do comedor de ópio – ao seu retorno dilacerado à vida diária – à horrível e lenta retirada do véu. Era gelo no coração, um abatimento, um mal-estar – uma irremediável tristeza de pensamento que nenhum agulhão da imaginação podia reanimar nem fazer crescer. O que era, pois – detive-me para pensar nisso – , o que era, pois, esse não sei o quê que assim me enervava ao contemplar a Casa de Usher? Era um mistério completamente insolúvel, e não podia lutar contra os pensamentos tenebrosos que se amontoavam sobre mim enquanto reflectia. Fui forçado a refugiar-me nesta conclusão pouco satisfatória: que existem combinações de objectos naturais muito simples que têm a força de nos afectar deste modo e que a análise desta força reside em considerações onde perderíamos o pé. Era possível, pensava, que uma simples diferença na disposição dos materiais de decoração, dos pormenores do quadro, bastasse para modificar, para aniquilar talvez essa força de impressão dolorosa: e agindo em conformidade com esta ideia, conduzi o cavalo para a borda escarpada  dum lago negro e lúgubre que, espelho imóvel, se estendia em frente do edifício; e fitei – mas com um arrepio ainda mais penetrante do que da primeira vez – as imagens repercutidas e invertidas dos juncos pardacentos, dos troncos de árvores sinistras e das janelas parecidas com olhos sem pensamento.
(…)



edgar allan poe
a queda da casa de usher
trad. de joão costa
editores associados
1973







15 junho 2018

fernando pinto do amaral / escotomas




1.
Uma janela aberta: para lá
do espaço vibra o gelo
e dentro desse gelo vibra o lume
de um súbito segredo cujo sangue
escorre por mim até iluminar
o prazer e a dor
com a mesma certeza. Um relâmpago
liberta e faz pulsar a minha estranha
primeira alma,
essa verdade limpa de memórias,
gravada em milhões de olhos, sempre lá,
no céu da noite, sobre as cintilantes
veias de uma cidade – sobre mim
uma palavra aberta, ainda
antes do tempo,
à flor dos lábios de Deus.



fernando pinto do amaral
às cegas
relógio de água
1997






14 junho 2018

fernando echevarría / não via o que olhava



Não via o que olhava. Via
no pensamento pulsar
uma como que rua a respirar sozinha
e, dentro dela, um cálido animal.
E, por trás de ambos, uma veia tinha
a invisível altura de se doer com tal
inteligência que o azul batia
cumprindo-se em seu limbo de púlpito eficaz.
Não via o que olhava. Mas o animal rompia
a ser. Seu vulto triunfava boreal.



fernando echevarría 
geórgicas
afrontamento
1998








13 junho 2018

vasco graça moura / recitativos




III
saio todos os dias, há um ar levemente
marinho na periferia de agosto,
caminho de memória e reconheço as faces
feridas, os vestígios salinos
nas faces,
e os campos de milho o casario húmido;

se atentasse nos sons
poderia talvez reproduzi-los
de modo inteligível

que vos hei-de mandar, que vos hei-de dizer
senão as tentativas: todos
os dias saio



vasco da graça moura
recitativos
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007






12 junho 2018

albert camus / não nos separarmos do mundo.



Maio

Não nos separarmos do mundo. Não se perde a vida quando a colocamos à luz o dia. Todo o meu esforço, em todas as posições e desgraça, as desilusões, é para recuperar os contactos. E mesmo nesta tristeza que há em mim, que desejo de amar e que inebriamento apenas perante a visão de uma colina na aragem do fim da tarde.

Contactos com o verdadeiro, a natureza em primeiro lugar, e depois a arte daqueles que compreenderam, a minha arte se a consigo alcançar. De contrário, a luz e a água e a embriaguez estão na minha frente, e os lábios húmidos do desejo.

Desespero sorridente. Sem saída, mas que exerce sem cessar um domínio que se sabe inútil. O essencial: não nos perdermos, e não perder aquilo que, de nós, dorme no mundo.


albert camus
primeiros cadernos
caderno nr. 1 (maio de 1935-setembro de 1937)
trad. antónio quadros (?)
livros do brasil
1973






11 junho 2018

joaquim manuel magalhães / abri o cancelo e cheguei à eira




51
abri o cancelo e cheguei à eira
cansado dos sendeiros e da chuva
não te vi, nem ao fumo antigo
com cheiros da comida e da resina.
As vigas de madeira dos arrumos
cobertas de parreiras não ouviam
os bois a chiar por pedregulhos.
Pilares de granito cobriam-se de musgo.

Subi para o terraço do quinteiro.
O rio azul-de-pedra ardia dentre as grades.
Sentei-me na manta de farrapos
a lembrar. Os anos findos, o pão
suspenso no galheiro que roubávamos
antes de jantar, lá se ia o apetite.
Com as mãos molhadas de serrim
ríamo-nos, corriam pombos por ervas queimadas.

Eram lugares miseráveis. Mas ouvia-se,
tão perto, um riacho a correr.
Tábuas que nos pregam o coração.


joaquim manuel magalhães
segredos, sebes, aluviões
editorial presença
1985







10 junho 2018

luís vaz de camões / lembranças, que lembrais meu bem passado

Lembranças, que lembrais meu bem passado,
Pera que sinta mais o mal presente,
Deixai-me, se quereis, viver contente,
Não me deixeis morrer em tal estado.

Mas se também de tudo está ordenado
Viver, como se vê, tão descontente,
Venha, se vier, o bem por acidente,
E dê a morte fim a meu cuidado.

Que muito melhor é perder a vida,
Perdendo-se as lembranças da memória,
Pois fazem tanto dano ao pensamento.

Assim que nada perde quem perdida
A esperança traz de sua glória,
Se esta vida há-de ser sempre em tormento.



luís vaz de camões
sonetos











09 junho 2018

eugénio de andrade / os joelhos




Considerai os joelhos com doçura:
Vereis a noite arder mas não queimar
A boca onde beijo a beijo foi acesa.



eugénio de andrade
obscuro domínio
poesia
fundação eugénio de andrade
2000












08 junho 2018

sophia de mello breyner andresen / mais do que tudo, odeio




Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor de Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.


sophia de mello breyner andresen
obra poética
assírio & alvim
2015