21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010
 
 
 
 


14 fevereiro 2026

marcos foz / enublado dizes

  
[…]
 
& fulmina-nos o que vem de fora
simples estados pontilham
o valado na curvatura dos crânios
exibem um rasto movediço alegram
nos enfim em trajo despreocupado;
alheios estão às nossas falhas aos
destroços da caravela do prometido
anseio engarrafado fora do
alcance da decomposição natural
neste mundo de bicos garras ciladas
mais justo afinal que o esfarelar
da prosa e o esgotamento em verso;
o quê quem pontas celestes por
resolver no relatório do não-suicidado:
as lanças darão floresta, um estandarte
o sol, e o céu – acampamento, inspirado
fôlego imprevisto – de empréstimo
em empréstimo, de fevereiro a fevereiro,
nozes espalhadas fazendo obséquio
longe do texto junto à corrente do reanimado
por entre pequenas mazelas empele amorenada
as falanges esforçadas no quebrar –
desanuviado gostaria de ser,
neste exacto ponto, não pela estaca;
pelo segredo da vida – estão a ver?
 
[…]
 
 
 
marcos foz
enublado dizes
edição do autor
2024
 




13 fevereiro 2026

eduarda chiote / o rapaz das rosas

  
 
1.
 
O poeta surgira das alvas rosas
pois, nelas, uma ardência
gelada
concentrava o purificado odor do ramo
calcinado – São para si: disse.
– Não faço anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas as que lhe ofereço
não têm a volatilidade
da sua exaustão delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei que vestia uma túnica larga
por onde o magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés descalços de mistério e de baixa
entropia: pois e apenas
imaculado e híbrido, bondoso
me sorria; de modo que lhe perguntei
porque me escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua culposa santidade?
 
 
2.
 
Escuta: sou a embrionária e perene pele
da matéria primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo, calcinar as faíscas
que nadam dentro
dos partos e cantos puros
da minha autenticidade
caótica? – Não me importo. Não me importo.
Acho-me em sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem o seu veneno
e olhos sem pálpebras criam peixes
de mundos onde podemos ser
covardes e corajosos; simultaneamente
frágeis e fortes.
Paira, sob a solidão carente da empatia
o que persiste no
odor apiedado do dia
em que murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo acabe definitivamente
ou não, juro, não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a poesia tenta
o contrário: Não há acordos entre
prosa e poesia.
 
 
3.
 
Suprema irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos deuses e Deus
por pura idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de cinco em cinco minutos.
Astuciosos e indiscretos, cultivamos
um apego ao sémen
idêntico aos pequenos lavores
que despontam nos botões das rubras rosas
e catamos no doce pêlo do animal
a sintonia entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de modo que me interrogo; – Quem
e o que somos neste contexto, agora?
– Ridículo, ter a “bomba operacional” passado de
moda: mil toneladas de dinamite
causarão daqui em diante adicionais catástrofes
de floridas rosas: e daí, repito, quem se
importa, interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e não desafina a eterna melodia
que da mais escura noite os mochos
forjam fabulosa e furtivamente;
a alva luz do dia e o mísero apelo ao
ao que justifica opostos.
 
 
4.
 
De novo apareceu atravessando
a preocupação da sua furtiva imagem,
mas eu reconheci-o com a precisão
de um relâmpago no vidro
da janela da casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase familiar, entregou-me
um livro.
Para meu espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da dedicatória: “Para os que
nasceram sem identidade, mínima esperança
de entender que o inferno é capricho terreno
e paz a vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo, semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia que estoicamente suporta
o seu vazio.
 
 
5.
 
Numa perspetiva romântica
esqueço, não sei porquê, convenientemente
um espaço para construir jardins
aturdido por gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas – confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e como se o Homem tivesse regressado
à fonte em chamas de “um marxismo
imaculado”, de fabulosa, extrema dor e saudade.
 
 
6.
 
A consciência começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo sobrenatural e invisível
do fogo fora do tempo, pela descida ao barro
dos oleiros divinos.
Benditas as mãos desfiguradas
da criança mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do lugar onde o ovo deposita a
galinha.
 
 
7.
 
Conto.
Resumo.
Não vale a pena tentares,
leitor,
entender que dentro em pouco,
a imobilidade pode ficar totalmente presa
a miseráveis desinibições
de uma monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o poema está
pronto.
 
 
8.
 
Esta compulsiva ganância de escrever que
inventas preciosa, esmerada e em aristocrática matriz
virginal de grande classe,
atrai a apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a tua infantil imprudência
e masculina menoridade.
– A quem tentas iludir ao fazeres passar
a incompetência por criatividade
inteligente? Repara: nem os rigores
das palavras te pertencem nem o talento.
E o pior de tudo é roubá-lo
a ti mesmo- – Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva ganância de escrever
pode até ser um diabólico amor pelo poder
pois quem o tem não o usa: inteligência,
ou pura estupidez de empatia?
 
 
9.
 
Era devastadora a fúria da tempestade,
marginalizando a casa isolada, ao extremo das
grades do terraço desabarem
descomunalmente; mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e paciente.
Como assassino de si mesmo.
– Só tenho um minuto minúsculo
mas queria, precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos das rosas
no seu incerto entendimento.
 
Aproximei-me do seu vulto.
 
Numa observação fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado, dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor encomendada.
 
Antes de mais, os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de que não vale a pena luxos
quando se decide ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das rosas choravam: profissionalmente pagas.
 
 
 
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026
 





12 fevereiro 2026

e e cummings / sê para o amor como chuva para cor

  
 
LXIII
 
sê para o amor como chuva para cor; cria
me gradualmente (ou como estes emergindo agora
montes inventam o ar)
                                         respira simplesmente cada meu como
meu tremer onde meu ainda invisível quando. Espera
 
se não sou coração, porque pelo menos bato
– pensa sempre que parti como um sol tem de ir
às vezes, para fazer uma terra alegremente parecer firme para ti:
lembra-te (como essas pérolas mais que rodeiam esta garganta)
 
uso teus mais caros medos para além da sua interrupção
 
(nem tem uma sílaba ávida turva do coração
enorme linguagem perda ou ganho de censura ou aplauso)
mas muitos pensamentos morrerão, não nascidos do sonho
enquanto asas acolhem o ano e árvores dançam (e se calhar
 
embora desejo e mundo se afundem, um poema flutuará
 
 
 
e. e. cummings
trad. ana hatherly
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990




11 fevereiro 2026

sarah kirsch / a cheia

  
Espelhos negros paisagens duplas beleza de cartas de jogar
A nuvem saúda a sua gémea, o céu um círculo.
Um tronco, cada árvore duas copas.
 
O teu corpo sou eu, tu sorris para ti.
 
 
 
sarah kirsch
trad. joão barrento
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990
 





10 fevereiro 2026

james tate / quando os nómadas chegam descendo o monte

  
 
Quando os nómadas chegam descendo o monte
nos camelos de palha
o anjo da alegria rasteja pelo imenso corredor
e os vegetais frescos na carroça abandonada
desabrocham em chamas azuis
velhos junto à fonte erguem-se
e dizem-se adeus
o brilho do sol é enxaguado na tinta mais negra
cobras dormem deitadas de costas
à volta do relógio de sol dourado
a noite enorme esconde-se nas pupilas do contador de histórias
e o vento é dividido
por uma agulha bem colocada
quando os nómadas chegam descendo o monte
com a sua linguagem invisível.
 
 
 
james tate
tradução de josé alberto oliveira
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



09 fevereiro 2026

jeannette lozano / a tia jeannette

  
 
Ela lia as borras do café
e dava dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.
 
«Vejo tormenta», disse um dia.
Não sei se falava de mim.
 
A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.
 
Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.
 
Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta.
 
«Escreve tudo», disse-lhe, «escreve tudo o que vês.»
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua.
 
 
 
jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014