29 março 2026

rui knopfli / café de penumbra

  
 
Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.
 
Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.
 
Na mesa dos fundos, sob o claro
Quadrilátero da janela – e para nossa
edificação – um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.
 
 
 
rui knopfli
roteiro
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional -casa da moeda
1982
 



28 março 2026

rui lage / corvo

  
 
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
 
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada
inútil protesto
de utilíssimo nada.
 
 
 
rui lage
corvo
quasi
2008
 




27 março 2026

rui nunes / vésperas da guerra

  
 
a pena desenhou os cavaleiros e simulou
a paz do seu afastamento. Na mesa, o herbário
mostra a corriola; do claustro vem o movimento
da roldana, o som dos pingos de água
a caírem no poço. Esta é uma sede amável:
os lábios entreabrem-se ao sorriso e alguém diz:
a guerra escreve-se
escreve-se o nome de Deus
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



26 março 2026

jorge reis-sá / vou para casa, mãe

 



 
Vou para casa, mãe. As ramadas estão à espera
dos meus passos. Sei que me aguardas entre o tanque
e a roupa que entardece ao secar – o sol a expirar
 
 
e a dizer: vou para casa.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008



25 março 2026

joaquim pessoa / apenas caminhar

  
 
Morder este frio passar esta tarde
com os dentes cerrados corpo mudo.
Pisar um chão de cores arrumadas
entre o fácil calcário dos lancis.
 
Resvalar pelo tempo arremessado
contra a dura fronteira destes passos
e levar um outro livro sob o braço
repetindo até ao sangue outras palavras.
 
 
 
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982




24 março 2026

gonçalo m. tavares / a guerra

  

O zero entre os números, é de longe o mais estável;
no entanto, o mundo prossegue.
Como o fim de uma coisa, de um objecto
ou de uma guerra: os homens querem esquecer e
não têm projectos: limpam o sangue de cada fio de erva
como as empregadas domésticas dedicadas
fazem ao pó dos seus livros.
Mas ninguém é tão paciente ou corajoso que consiga
Limpar ao pormenor os mortos e os seus vestígios no espaço.
Ficam sempre coisas, mudas e ruidosas,
que testemunham um peso. Ali, a vida foi violenta demais
para a carregares: eis uma descrição possível
para o abandono da mulher que amas.
Como vês nem sempre a causa é a traição habitual: por vezes
os homens chegam tarde à esposa
porque morreram numa batalha. Se ligares a televisão
ainda vais a tempo de escutar
os comentários de um general que estudou em Londres
                    e é muito inteligente.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 

23 março 2026

antónio josé forte / este cérebro…

  
 
Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar
 
 
 
antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003




22 março 2026

nuno júdice / o lugar das coisas

 
 
 
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
 
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
 
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
 
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
 
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
 
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele e as possamos ver nos seus lugares.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 




21 março 2026

gastão cruz / o tempo anterior

  
 
Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na
 
água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci
 
mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço
 
 
gastão cruz
as pedras negras
os poemas (1960-2006)
assírio & alvim
2009





20 março 2026

pedro tamen / só me separa intenso do que foge

 
 
 
Só me separa intenso do que foge
pelo meio dos fumos e das micas
a bala que me apontes e se aloje
onde resido eu, e tu te ficas:
 
nesse lugar de goma almiscarada,
e mascarada (que não é possível
de modo outro ser-se), tu, a fada
de cor e pele e carne mais doível,
 
ergues a mão de lacre no que sou
e tocas essa vara, vime e lenho
no que passar, ou passe, ou já passou
 
– e assim é que me perco e que me ganho,
pois que por ti tudo o que tenho dou,
pois que de ti o que te dou retenho.
 
 
 
pedro tamen
os quarenta e dois sonetos (1973)
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




19 março 2026

manuel cintra / tinha filhos escondidos

 
 
 
Tinha filhos escondidos
Nos olhares plantados entre os filhos
Dos outros
 
 
E se nessa época o ar fosse fértil,
Caramba,
Muito o havia de emprenhar.
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981




18 março 2026

adília lopes / para escrever

 
 
 
1
 
Para escrever
é preciso
ter pouco
que fazer
 
(tirando
esta quadra
não consegui hoje
escrever mais nada)
 
 
2
 
Quando a vida
é madrasta
a arte
não basta
 
(entre pato e peru
este bicho
cruza-se comigo
no Campo Sant’ Ana
Eva não faria melhor
do que eu
ao mundo para quadro de Isabelino
nada lhe falta, Rosa Alice)
 
Para escrever
é preciso
dinheiro
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
versos verdes (1999)
assírio & alvim
2021




17 março 2026

albano martins / o mesmo nome

 
 
 
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
 
 
 
albano martins
por ti eu daria
o mesmo nome (1996)
glaciar
2021