19 abril 2019

abd al-karim al-tabbal / canção de um março triste



cuidado! meus queridos forasteiros
em vossa própria casa, e na pátria,
entre as gentes e na rua,
com o escreverdes com a vossa pena nas folhas brancas
já que as palavras detestam o vazio
e com o lerdes nos livros à beira do desespero,
porque o sangue dos rostos se transformam em água,
e com usardes albornozes cor de neve
já que vos aprisionam.
ou turbantes de açucena
porque vos enlouquecem.

cuidado! meus queridos forasteiros
com o branco, porque o branco
é uma boa mortalha,
ornamento dos cavaleiros nas batalhas das romarias,
e armadilha da tinta
sobre as casas e a pátria.




abd al-karim al-tabbal
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
trad. adalberto alves
assírio & alvim
2001








18 abril 2019

jorge luís borges / a uma moeda




Fria e tempestuosa a noite em que zarpei de Montevideu.
Ao dobrar o Cerro,
atirei do mais alto convés
uma moeda que brilhou e se afogou nas águas barrentas,
uma coisa de luz arrebatada pelo vento e pela treva.
Tive a sensação de ter cometido um acto irrevogável,
de acrescentar à história do planeta
duas séries incessantes, paralelas, talvez infinitas:
o meu destino, feito de soçobro, de amor e de vãs vicissitudes
e o daquele disco de metal
que as águas dariam ao suave abismo
ou aos remotos mares que ainda trituram
despojos dos saxões e dos viquingues.
A cada instante do meu sonho ou da minha vigília
corresponde outro da cega moeda.
Por vezes senti remorsos
e outras inveja
de ti, que estás, como nós, no tempo e no seu labirinto
e que não sabes isso.



jorge luís borges
obra completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998





17 abril 2019

cesare pavese / civilização antiga




É verdade que, ao olhá-lo, o dia não treme. E as casas
estão firmes, plantadas nas calçadas. O martelo
daquele homem sentado repica numa pedra
enterrada na terra mole. O rapaz que fugiu
de manhã ignora que aquele homem está a trabalhar
e pára a olhar para ele. Na rua não se trabalha.

O homem está sentado à sombra que cai do alto
duma casa, mais fresca que a sombra duma nuvem,
e não devolve o olhar, pica a pedra, alheado.
O repicar da pedra chega longe
no empedrado que o sol sombreia. Não há
rapazes nas ruas. Ele é o único
e repara que os outros são homens ou mulheres
que não vêem o que ele vê e passam rápidos.

Mas este homem está a trabalhar. O rapaz olha para ele,
hesitando à ideia de que um homem trabalhe
na rua, sentado como se fosse um pedinte.
E também os outros que passam, parecem absortos
em qualquer coisa que têm de concluir e ninguém olha
para trás ou em frente, a todo o comprimento da rua.
Se a rua é de todos, há que a gozar
e não fazer outra coisa, olhar à volta,
à sombra ou ao sol, apanhar a fresca.

As ruas escancaram-se como uma porta,
mas ninguém mete por elas. Aquele homem sentado
nem sequer se apercebe, como se fosse um pedinte,
das pessoas que de manhã vão e vêm.



cesare pavese
cidade no campo
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997







16 abril 2019

till lindemann / medo




O girassol tem sede
morre de pé à janela
chora as lágrimas que restam,
amarelas na sala
e que triste é ver isto

Visto-me, cheio de medo

Velho, seco e por todos esquecido,
vai acontecer-me o mesmo
depressa se esvai todo o esplendor
e tão belo que ele ontem era



till lindemann
nas noites tranquilas
trad. pedro garcia rosado
alma mater
2018






15 abril 2019

pat boran / quando estiveres a mudar de casa



Quando estiveres a mudar de casa
leva tempo a escrever a direcção no caderno de endereços
porque os fantasmas cujos nomes lá estão
procuram constantemente novas casas,
como estudantes do primeiro ano em cabines telefónicas
                                                                               [embaciadas.

Quando chegares com os livros
e a frigideira já esses fantasmas se terão
sentado nessa poltrona, terão descoberto
rangidos muito demorados do soalho,
estarão acampados na orla idílica dessa cama virgem.



pat boran
o sussurro da corda
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018






14 abril 2019

david mourão-ferreira / casas caiadas



Por entre casas caiadas
de luar e de silêncio,
paira no meio da estrada
a poeira de outros tempos...

Por entre casas caiadas,
mas com desgraça por dentro
(ó varandas enfeitadas
com trepadeiras de vento!),

algumas desmanteladas,
de apodrecidas empenas
(todavia nos telhados
antenas e cataventos...),

por entre casas caiadas,
por entre casas (Silêncio,
que ronda o medo na estrada
em automóveis cinzentos!)

há jorros de luz salgada,
há torrentes de veneno...

E dentro daquelas casas
quando foi que nós morremos?

  

david mourão-ferreira
lira de bolso
publicações dom quixote
1971






13 abril 2019

roberto juarroz / as coisas imitam-nos




As coisas imitam-nos.
Um papel arrastado pelo vento
reproduz os tropeços do homem.
Os ruídos aprendem a falar como nós.
A roupa adquire a nossa forma.

As coisas imitam-nos.
Mas no final
nós imitaremos as coisas.



roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018






12 abril 2019

egito gonçalves / notícia para colar na parede




Por aqui andamos a morder as palavras
dia a dia no tédio dos cafés
por aqui andaremos até quando
a fabricar tempestades particulares
a escrever poemas com as unhas à mostra
e uma faca de gelo nas espáduas
por aqui continuamos ácidos cortantes
a rugir quotidianamente até ao limite da respiração
enquanto os corações se vão enchendo de areia
lentamente
lentamente


egito gonçalves
o amor desagua em delta
editorial inova
1971






11 abril 2019

al berto / salsugem



8
contaram-me que eram pesadas embarcações
tinham singrado tormentosos mares contornado arquipélagos
atravessado invernos e trópicos que não vêm ainda nos mapas
e chegavam agora ao sonho
carregados de madeiras preciosas pimenta peles almíscar
canela pérolas animais empalhados
frutos cujos nomes são difíceis de dizer
e largam prolongados sabores na polpa dos dedos

vinham as tripulações exaustas
pelos rigorosos ventos e agitadas águas longe de casa
onde o lume permanece aceso de refeição para refeição
alumiando a noite e o coração das mulheres insones
ciciando nomes de portos ladainhas para consolar a dor
cuidam dos filhos e das frieiras com as bondosas mãos
sujas de azeite… bordam intermináveis cantilenas
vergadas para as toalhas manchadas de vinho e gordura barata

quando recebiam recado dalgum naufrágio
o tempo punha-se a passar sobre elas
o luto fazia-as suspirar no vapor dos tachos de comida
o sal desbotava-lhes a cor ainda jovem do olhar
engelhava-lhes bocas e seios… punham-se a cismar
depois de terem arrumado na gaveta os retratos dos homens
lembravam-se pouco
iam em bandos até ao porto
sentavam-se encolhidas dentro dos rudes xailes
dormitavam à espera que acostassem mais navios
para o descarrego de panos finos jade tabaco marfim cereais
e o amor incerto dalgum homem acabado de chegar
da parte ainda obscura do mundo



al berto
salsugem
o medo
assírio & alvim
1997





10 abril 2019

rui costa / breve ensaio sobre a potência



2
água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.




rui costa
breve ensaio sobre a potência
(texto-ensaio composto por 31 fragmentos)
mike tyson para principiantes
antologia poética
assírio & alvim
2017






09 abril 2019

ruy belo / literatura explicativa




O pôr-do-sol em espinho não é o pôr-do-sol
nem mesmo o pôr-do-sol é bem o pôr-do-sol
É não morrermos mais é irmos de mãos dadas
com alguém ou com nós mesmos anos antes
é lermos leibniz conviver com os medici
onze quilómetros ao sul de florença
sobre restos de inquietação visível em bilhetes de eléctrico
Há quanto tempo se põe o sol em espinho?
Terão visto este sol os liberais no mar
ou antero de junto da ermida?
O sol que aqui se põe onde nasce? A quem
passamos este sol? Quem se levanta onde nos deitamos?
O pôr-do-sol em espinho é termos sido felizes
é sentir como nosso o braço esquerdo
Ou melhor: é não haver mais nada mais ninguém
mulheres recortadas nas vidraças
oliveiras à chuva homens a trabalhar
coisas todas as coisas deixadas a si mesmas
Não mais restos de vozes solidão dos vidros
não mais os homens coisas que pensam coisas sozinhas
não mais o põr-do-sol apenas pôr-do-sol



ruy belo
todos os poemas I
palavra[s] de lugar
assírio & alvim
2004





08 abril 2019

herberto helder / poemacto




V
As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
dos lemes das palavras.
É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.
Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.
Uma estranha imagem universal.
O amor acompanha o amor.
É preciso uma existência de uma dureza lenta.
As barcas gritam.
A água é geral sobre a cara que respira.

Posso falar às mãos.
Posso extremamente falar às palavras.
É nas palavras que as barcas gemem.
Nelas se estabelece o rio.
Falo da minha vida quente.
Palavras — digo — é tão quente a noite
que atravessamos.
Barcas quentes.
Geral calor no meio da carne.
E agora o rio tejo acende-se no meio
de muitas palavras.
Amor da vida do tejo com a minha
grande vida pura.
Com meu amor completo como um rio.

                                                  1961.



herberto helder
poesia toda
poemacto
assírio & alvim
1996





07 abril 2019

camilo pessanha / ao longe os barcos de flores



Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


camilo pessanha
clepsidra
1920