1.
O poeta surgira
das alvas rosas
pois, nelas,
uma ardência
gelada
concentrava o
purificado odor do ramo
calcinado – São
para si: disse.
– Não faço
anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas
as que lhe ofereço
não têm a
volatilidade
da sua exaustão
delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei
que vestia uma túnica larga
por onde o
magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés
descalços de mistério e de baixa
entropia: pois
e apenas
imaculado e
híbrido, bondoso
me sorria; de
modo que lhe perguntei
porque me
escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua
culposa santidade?
2.
Escuta: sou a
embrionária e perene pele
da matéria
primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo,
calcinar as faíscas
que nadam
dentro
dos partos e
cantos puros
da minha
autenticidade
caótica? – Não me
importo. Não me importo.
Acho-me em
sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem
o seu veneno
e olhos sem
pálpebras criam peixes
de mundos onde
podemos ser
covardes e
corajosos; simultaneamente
frágeis e
fortes.
Paira, sob a
solidão carente da empatia
o que persiste
no
odor apiedado
do dia
em que
murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo
acabe definitivamente
ou não, juro,
não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta
comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a
poesia tenta
o contrário:
Não há acordos entre
prosa e poesia.
3.
Suprema
irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma
cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos
deuses e Deus
por pura
idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de
cinco em cinco minutos.
Astuciosos e
indiscretos, cultivamos
um apego ao
sémen
idêntico aos
pequenos lavores
que despontam
nos botões das rubras rosas
e catamos no
doce pêlo do animal
a sintonia
entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de
modo que me interrogo; – Quem
e o que somos
neste contexto, agora?
– Ridículo, ter
a “bomba operacional” passado de
moda: mil
toneladas de dinamite
causarão daqui
em diante adicionais catástrofes
de floridas
rosas: e daí, repito, quem se
importa,
interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e
não desafina a eterna melodia
que da mais
escura noite os mochos
forjam fabulosa
e furtivamente;
a alva luz do
dia e o mísero apelo ao
ao que
justifica opostos.
4.
De novo
apareceu atravessando
a preocupação da
sua furtiva imagem,
mas eu
reconheci-o com a precisão
de um relâmpago
no vidro
da janela da
casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase
familiar, entregou-me
um livro.
Para meu
espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da
dedicatória: “Para os que
nasceram sem
identidade, mínima esperança
de entender que
o inferno é capricho terreno
e paz a
vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais
claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo,
semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia
que estoicamente suporta
o seu vazio.
5.
Numa perspetiva
romântica
esqueço, não
sei porquê, convenientemente
um espaço para
construir jardins
aturdido por
gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas –
confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois
obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e
como se o Homem tivesse regressado
à fonte em
chamas de “um marxismo
imaculado”, de
fabulosa, extrema dor e saudade.
6.
A consciência
começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo
sobrenatural e invisível
do fogo fora do
tempo, pela descida ao barro
dos oleiros
divinos.
Benditas as
mãos desfiguradas
da criança
mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do
lugar onde o ovo deposita a
galinha.
7.
Conto.
Resumo.
Não vale a pena
tentares,
leitor,
entender que
dentro em pouco,
a imobilidade
pode ficar totalmente presa
a miseráveis
desinibições
de uma
monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o
poema está
pronto.
8.
Esta compulsiva
ganância de escrever que
inventas preciosa,
esmerada e em aristocrática matriz
virginal de
grande classe,
atrai a
apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a
tua infantil imprudência
e masculina
menoridade.
– A quem tentas
iludir ao fazeres passar
a incompetência
por criatividade
inteligente? Repara:
nem os rigores
das palavras te
pertencem nem o talento.
E o pior de tudo
é roubá-lo
a ti mesmo- –
Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de
passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva
ganância de escrever
pode até ser um
diabólico amor pelo poder
pois quem o tem
não o usa: inteligência,
ou pura
estupidez de empatia?
9.
Era devastadora
a fúria da tempestade,
marginalizando a
casa isolada, ao extremo das
grades do
terraço desabarem
descomunalmente;
mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e
paciente.
Como assassino
de si mesmo.
– Só tenho um
minuto minúsculo
mas queria,
precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se
quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista
atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a
pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na
luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e
apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das
cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos
das rosas
no seu incerto
entendimento.
Aproximei-me do
seu vulto.
Numa observação
fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz
chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu
recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado,
dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o
melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor
encomendada.
Antes de mais,
os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o
caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de
que não vale a pena luxos
quando se decide
ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das
rosas choravam: profissionalmente pagas.
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de
poesia
2026