13 maio 2026

luís carlos patraquim / por te haver, de acesa cinza

 



 

 
Por te haver, de acesa cinza
a eléctrica luz sou
e a sombra dela.
este pendor a renúncia
do que a outros distrai
é quanto amas?
Respiramos. Em tua pele
é que singro, rasgado
grito em quilha
na areia do mundo.
 
 
 
luís carlos patraquim
morada nómada
poesia 1980-1920
língua morta
2020
 


12 maio 2026

louise glück / a íris selvagem

  
 
No fim do meu sofrimento
havia uma porta.
 
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
 
Por sobre mim, barulhos, ramos ondulantes de pinheiro.
Depois, nada. o sol fraco
a cintilar na superfície seca.
 
É muito duro sobreviver assim,
a consciência
sepultada na terra escura.
 
Depois, o fim: aquilo que se teme, ser
alma e incapaz
de falar, termina bruscamente, a terra hirta
curvando-se um pouco. E o que eu achei serem
pássaros lançando-se em voo pelos ramos baixos.
 
A vós que não recordais
a passagem do outro mundo
digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz:
 
do centro da minha brotou
uma fonte fresca, sombras
em azul profundo sobre o azul da água do mar.
 
 
 
louise glück
a íris selvagem
tradução de ana luísa amaral
relógio d´água
2020




11 maio 2026

yánnis kondós / pequeno jardim zoológico

  
Teus dois pequenos seios
sorriem dentro da tarde.
Eu de noite acendo fósforos
para ver como dormem.
 
Teus dois pequenos roedores
me comem os dedos
no escuro.
 
De manhã, asas de pássaro
nas minhas mãos.
 
 
 
yánnis kondós
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
trad. josé paulo pães
assírio & alvim
2001




 

10 maio 2026

alberto caeiro / o que nós vemos das coisas são as coisas.

  
 
XXIV
 
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
 
13-3-1914
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994



09 maio 2026

ricardo reis / frutos, dão-os as árvores que vivem,

  
 
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
 
6-12-1926
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




08 maio 2026

eugénio de andrade / para onde

  
 
Apesar da luz ter já começado a roer-me os olhos, não é ainda tempo para me entregar a colecionar caixinhas de rapé ou luzes crepusculares, nem para fazer coro com essa gente do norte que recebe o nevoeiro em casa e o convida, pelo menos uma vez por semana, para jantar.
 
Desde a vulva inicial, o homem é só caminho. Para onde? Eis o que não sabemos. Mas será caso para perguntar?
 
14.1.86
 
 
eugénio de andrade
vertentes do olhar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 



07 maio 2026

pedro homem de mello / segredo

  
 
Tinha aqueles cabelos que ondulara
A ventania trágica do mar…
 
Em lhe eu falando, uma palavra clara
Era o bastante o ver corar.
 
Então, num gesto rápido, ancestral,
Pendia, logo, a boina para a fronte.
 
Se eu me calasse, ele voltava: – Conte…
(O Povo é todo assim em Portugal!)
 
Algumas vezes passeou comigo
Na praia, a horas mortas, no Verão.
 
Como esquecer, agora, o que nem digo
Ao meu desabitado coração?
 
 
 
pedro homem de mello
os poetas ignorados (1957)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983



06 maio 2026

egito gonçalves / o sistema interrogativo

  
 
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
 
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
 
 
 
egito gonçalves
o fósforo na palha (1970)
antologia da novíssima poesia portuguesa
m. alberta menéres e e. m. melo e castro
livraria moraes editora
1971
 



05 maio 2026

vasco graça moura / sequência da baleia

  
 
I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 


04 maio 2026

luiza neto jorge / as sofridas amoras

  
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
 
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.
 
 
 
luiza  neto jorge
fragmentos
poesia
assírio & alvim
1993




 

03 maio 2026

luís miguel nava / através da nudez

  
 
Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.
 
Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



02 maio 2026

billy collins / desenho

  
 
Pinceladas de tinta em papel de arroz –
uma ponte de madeira
arqueada sobre um rio,
 
montanhas ao longe
e em primeiro plano
uma árvore sacudida pelo vento.
 
Rodo o livro na mesa
para que a árvore
fique inclinada para a tua aldeia.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023




01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976