Povo que lavas
no rio,
Que vais às
feiras e à tenda,
Que talhas com
teu machado
As tábuas do
meu caixão,
Pode haver quem
te defenda,
Quem turve o
teu ar sadio,
Quem compre o
teu chão sagrado,
Mas a tua vida,
não!
Meu cravo
branco na orelha!
Minha camélia
vermelha!
Meu verde
manjericão!
Ó natureza
vadia!
Vejo uma
fotografia...
Mas a tua vida,
não!
Fui ter à mesa
redonda,
Bebendo em
malga que esconda
O beijo, de mão
em mão...
Água pura,
fruto agreste,
Fora o vinho
que me deste,
Mas a tua vida,
não!
Procissões de
praia e monte,
Areais,
píncaros, passos
Atrás dos quais
os meus vão!
Que é dos
cântaros da fonte?
Guardo o jeito
desses braços...
Mas a tua vida,
não!
Aromas de urze
e de lama!
Dormi com eles
na cama...
Tive a mesma
condição.
Bruxas e lobas,
estrelas!
Tive o dom de
conhecê-las...
Mas a tua vida,
não!
Subi às frias
montanhas,
Pelas veredas
estranhas
Onde os meus
olhos estão.
Rasguei certo
corpo ao meio...
Vi certa curva
em teu seio...
Mas a tua vida,
não!
Só tu! Só tu és
verdade!
Quando o
remorso me invade
E me leva à
confissão...
Povo! Povo! eu
te pertenço.
Deste-me
alturas de incenso,
Mas a tua vida,
não!
Povo que lavas
no rio,
Que vais às
feiras e à tenda,
Que talhas com
teu machado,
As tábuas do
meu caixão,
Pode haver quem
te defenda,
Quem turve o
teu ar sadio,
Quem compre o
teu chão sagrado,
Mas a tua vida,
não!
pedro homem de mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa
nacional-casa da moeda
1983