12 março 2026

josé emílio pacheco / aguarela

 
 
 
O ar sangra sobre a cidade,
leve pomba que o falcão trespassa.
 
Não é ainda noite e o céu
cerrado está como em tormenta. Répteis
abandonam as suas tocas
com o medo feroz às costas.
 
Mas não passarão.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



11 março 2026

leopoldo maría panero / saint malcolm parmi les oiseaux

 
 
 
 
                                                                    Ao álcool
 
 
 
Quem grita, vingativo, no palácio sem nome,
quem grita, quem me força a viver como seu
látego estalando todos os dias nas minhas costas,
quem senão esta
perpétua tentação para… a dor do nada,
desta morte que convida, esta
perpétua obsessão de sofrer por nada, pelo
que não tem valor, e pelo que não é
esta morte, e esta
doce dor para ninguém e para todos,
esta doce dor como um pecado.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019
 




10 março 2026

andrea cohen / aquilo que se

 
 
 
Aquilo que se
pode matar com
 
uma mão não
se pode – com
 
um milhar
de mãos –
 
reaver.
 
 
 
andrea cohen
serenamente sobre as lanternas
trad. francisco josé craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2024




09 março 2026

alejandra pizarnik / árbol de diana

 
 
               
6
 
ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o feroz destino
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
árbol de diana (1962)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 


08 março 2026

aleksander kushner / a história não nos ensina nada

  
 
A história não nos ensina nada,
Mas, como um historiador disse uma vez – e não
Há razões para não acreditarmos nele  - por não a
                                                     conhecermos,
A história castiga-nos.
Não ensina, castiga. Olhos
E mais olhos é do que precisamos, e de prestar atenção.
 
Mais que uma preceptora
Ela é uma professora primária. Tantos temas terríveis
Nos seus manuais, nas suas crónicas…
Mas nós, sabes, não somos assim tão grandes.
Somos, sim, teimosos, de acordo
Com as palavras iniciais da desgastada professora:
“Pensem, está bem. sentem-se. Não se mexam.
                                               Escrevam isto.”
No fundo da sala, sonhamos com notas satisfatórias.
 
 
 
aleksander kushner
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 


 

07 março 2026

macky corbalán / humanos

  
 
Leio-os como páginas escritas.
Atravesso os seus órgãos opacos, a sua pele,
o susceptível fio dos nervos.
É sempre o mesmo, em cada época:
rixas, acordos e desânimo. Mas há uma coisa
que eu não entendo: essa obscura,
repentina agitação
quando recordam.
 
 
 
macky corbalán
por alguma razão
antologia de poesia argentina
selecção e tradução de hugo miguel santos
contracapa
2024


06 março 2026

lawrence ferlinghetti / que podia ela dizer

  
 
7
 
Que podia ela dizer ao ursinho maravilha
e que podia ela dizer ao seu irmão
e que podia ela dizer
                              ao tipo com os pés virados para o futuro
que podia ela dizer à mamã
depois daquela vez que se deitou tão tesa
                                                             entre as flores de rebuçado
               naquela soalheira margem de um rio
                         onde pendiam fetos no ar recortado
                                   da respiração do amante
          e os pássaros enlouqueceram
                                               e atiraram-se das árvores
  para provar ainda quentes no terreno
                                                      as sementes dispersas de esperma
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



05 março 2026

john ashbery / decisões loucas

  
Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.
 
De noite soltaram-se as amarras
Ao romper do dia tinham desaparecido.
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.
 
Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante…
Uma vista do parque de estacionamento.
 
Algumas frequências
Ainda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou
A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992





 

04 março 2026

john freeman / rua 28

  
 
Todos aqueles anos em que vivemos
nas traseiras da florista, quando era hábito acordar
cedo para me pôr à janela a ver
homens de camisolas vermelhas a empurrar
carrinhos de hidrângeas, paletes de tulipas
da Holanda, ranúnculos
rosa-velho, magotes de jacinto
amarelo, uma fúria de cor debaixo
de lâmpadas de halogéneo ainda antes
das seis. Os donos dos restaurantes com
os seus casacos de pele pretos que chegavam
antes da alvorada obrigados a assistir como
cortesãos à passagem da beleza, aguardando
que esta se aprontasse enquanto do outro lado
da rua, no parque de estacionamento, não era raro
haver alguém, nas calmas, a mijar.
 
 
 
john freeman
mapas
trad. miguel cardoso
tinta da china
2019
 


03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999
 



 

28 fevereiro 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
7
 
tingir a ponta dos dedos e do sexo
na tinta permanente dos corpos… desejar-te
de olhos fechados sentado num jardim público
 
de vez em quando
sublinhar determinadas palavras que se confundem ao mel
escutar atentamente o latejar fogoso da terra… sentir
os escaravelhos enrolarem excrementos verdes
junto ao rumor imperceptível das casas desabitadas
 
ler apressadamente um jornal ou uma carta esquecida
escrever um bilhete postal:
 
                Cheguei bem. escrevo-te um dia destes
 
recolher folhas secas delgadas hastes quebradas
pedaços de musgo para uma insuspeita colecção
minúsculos lamentos escondidos pelos bichos
no jardim… perseguir um cão sem rumo que te recorda
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997