04 fevereiro 2026

joão melo / o que fazer diante do fim



 

 
Quando o fim assomar
à tua frente
como um monstro
de sete cabeças, catorze línguas
e milhões de braços pavorosos
 
quando o fim ameaçar
levar-te na sua bocarra
escancarada e sem fundo
 
quando o fim te convencer
que o outro lado do espelho
é menos assustador do que aquilo que vês
 
– Resiste!
 
Não temos outro mundo
Para tornar mais humano…
 
 
 
joão melo
diário do medo
editora urutau
2021
 



 

03 fevereiro 2026

joão narciso / estes ventos negros


 

11.
 
Adormeceste.
 
A maré subiu.
 
O teu barco navegou à bolina.
 
Naufragaste.
 
Ao saíres dos sonhos, sentiste o arrepio de uma memória
falsa. A memória que o sonho te deixou.
 
Abraçavas a tua irmã. Ela teria uns quatro anos; tu eras
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
 
A menina não percebia quem tu eras; sabias perfeitamente
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
 
Quando a largaste, a tua irmã era outra, então adulta,
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
 
Começas a acordar. Tens saudades da tua irmã.
 
O mundo devia ser mais pequeno do que é.
 
Os mecanismos do tempo realinham-se.
 
As rodas dentadas beliscam-te o sono.
 
Abres os olhos.
 
Estás acordado.
 
 
 
joão narciso
estes ventos negros
edições caixa alta
2021
 



 

02 fevereiro 2026

billy collins / o aprendiz

  
 
O meu livro e ensinamentos poéticos,
comprado numa banca ao ar livre junto ao rio,
 
apresenta muitas regras
sobre o que escrever e não escrever.
 
Mais do que duas pessoas num poema
é uma multidão, é uma.
 
Falar na roupa que sem vestida
quando se escreve, é outra.
 
Fugir de palavras como vórtice,
aveludado e cigarra.
 
Quando não souber como acabar,
ponha umas galinhas castanhas à chuva.
 
Nunca admita que faz correcções.
E mantenha sempre o poema numa só estação.
 
Procuro tê-las presentes
mas, nestes últimos dias de verão,
 
sempre que ergo os olhos da minha página
e vejo uma mancha seca de folhas amarelas,
 
penso nos ventos gélidos
que em breve golpearão o meu casaco.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023





01 fevereiro 2026

bernardo soares / a loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia...

  
A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
 
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.
Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então [...] e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
 
(Meu destino é a decadência.)
 
Meu destino foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a vida era verde sempre nos nossos esquecimentos. A Lua era fluida como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora [...]
s.d.
 
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990



31 janeiro 2026

mary oliver / à excepção do corpo



 

 
À excepção do corpo
de alguém que amas,
incluindo todas as suas expressões
em privado e em público,
 
as árvores, penso,
são as mais belas
formas sobre a Terra.
 
Ainda que, admitamos,
se isto fosse um concurso,
as árvores acabariam num
muitíssimo distante segundo lugar.
 
 
 
mary oliver
felicidade
tradução luís matos
flâneur
2021
 




 

30 janeiro 2026

alejandro simón partal / apenas o que é justo

 



Peço aos dias que abandonem
a sua acuidade sensível
e retomem o árduo labor diário.
 
Que se orientem a partir do que está certo:
 
 
um sol nascente
                e um sol poente;
 
uma neve branca
                e uma água cristalina a seguir.
 
 
 
alejandro simón partal
tradução regina guimarães
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026



29 janeiro 2026

josé mário silva / castelo do bode

  
 
Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.
 
 
 
josé mário silva
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


28 janeiro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
12
 
Quando o despertador toca, quem primeiro abre os olhos são as palavras, uns olhos intensos através dos quais Deus nos espia. Depois abrem-se portas interiores, corredores estreitos por onde a luz matinal avança como um rio de água fresca. A ordem é ligeiramente mutável: agora não saberia precisar se se abrem primeiro as pétalas ou os sinos, se se abre primeiro o meu amor por ti ou o teu amor por mim, a doce sincronia do despertar a dois. Tudo o que é vivo acaba por se abrir, como um pressentimento: as laranjas sobre o mármore, a cor sobre a matéria, a borboleta sobre o perfil, a rosa sobre o pescoço, o corpo sobre o corpo. Para quê falar do futuro? O amor não é uma linha recta traçada a lápis sobre o calendário: nem ir, nem chegar, nem avançar. Simplesmente abrirmo-nos em círculos delicados, tu a padra, eu a água.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021





 

27 janeiro 2026

eli ríos / evaporar + arrepio

 



 

 
No sorriso louco das baleias
habitam os poemas escritos
com aqueles lápis musicais
enquanto eu sonhava a minha morte
sob as rodas do comboio e o sapo cuspia versos.
Apaguei as pistas e barulhei-as nas estrofes mas
o colchão absorveu todas as gostas das tuas veias.
Escuto as sereias da GNR no outro lado dos portões
e sei que já está tudo em fora: deixo-me esvaecer entre as
linhas
sendo consciente que a poética ganhou o jogo.
                                                                   Derrida sorri:
“Nunca seremos capazes de fugir da poesia.
                                                   Nem sequer os sujeitos.”
 

 
eli ríos
se calhar não é o tempo o que importa
editora urutau
2019
 



26 janeiro 2026

daniel jonas / lenha

  
 
A geada que crepita da janela,
o lenho, tempo
sobre o tampo:
a chaleira imperturbável e fria.
 
Se te separares da mãe que te envolve
vestirás o manto de neve
e deixarás a casa com o teu machado
tão afiado como um tordo
 
rumo a um sacrifício hebreu.
Expiarás in extremis no lenho
o musculoso braço da degola,
já longe o fumo do holocausto
no casebre, fumo sobre o charco.
 
Apenas os teus dentes, blocos de gelo,
loucos percutem,
ameias sobre ameias,
muralha fruste contra o frio.
 
Infliges a lenha.
O silêncio atordoa.
Toda a minúcia do que vês:
ligustro, roseira brava, alfazema,
não achou ainda caminho
para o poema.
 
Apenas, vinte centímetros de cinzento,
o migrante gregário,
o boémio sedoso
com as bagas dos seus olhos
rolando para os mirtilos de Minsk
 
se aproxima
no aprumo oleoso.
 
Os ouvidos zunem.
 
A cada assobio do teu gume
um tordo cai
silenciado:
à volta do patíbulo truncado
um massacre de pássaros.
 
O teu machado mais afiado
do que este vento
ou este gelo
a inteira a natureza.
 
 
 
daniel jonas
bisonte
assírio & alvim
2016





25 janeiro 2026

vasco graça moura / cedros. mateus 97

  
 
à meia-noite os cedros quando o céu
é de um azul-negro ilimitado são
mais escuros do que a noite
na sua transparência. escuto os
 
sons distantes, algum cão que ladra, um
altifalante a quilómetros daqui, o pio
de uma ave nocturna não sei onde.
à meia-noite os cedros são a imóvel sentinela.
 
as fachadas são barrocas nas suas cantarias,
uma ou duas janelas estão iluminadas,
há os passos do guarda sobre o saibro,
as rãs no lago calaram-se e o rumor
 
é agora apenas o de uma água imaginária.
 
 
 
vasco graça moura
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

24 janeiro 2026

ana luísa amaral / entre o inferno e os anjos

  
 
Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
 
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
 
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
 
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
 
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
 
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
 
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
 
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
 
 
 
ana luísa amaral
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




23 janeiro 2026

eduardo pitta / dois poemas

 


 

1
 
Os elefantes da rua 79
 
A pé de Union Square para Central Park West
hesitas quanto à natureza do travo que trazes
agarrado à língua.
É o frio a arder na boca sempre vulnerável
ou só o bitterness
 
do Chilled Pineapple-Moscato Zabaglione?
Até que, de repente, os elefantes
olham para ti com irreprimível garbo
e nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.
 
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada, perplexa do décor manuelino
que a rodeava, também não sabia.
Mas foi naquele átrio que tudo começou.
Trinta anos, trinta
anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto. Mudou o quê? Os calções de cáqui
com ravina e mar ao fundo.
Agora, blindado em caxemira, atravessas o parque
entre fiapos de neve e a coreografia dos batedores.
 
A tarde cai, mas o rodopio de tanto olho fulgurante
provoca um clarão.
Muito jovens, ignorantes de simetrias,
não sabem ainda que um dia irão cruzar-se com o flash
de uma cena assim.
 
( – para que se repita uma cena – cf. Borges)
 
 
2
 
O divã e a caçada sexual
 
O dr. Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
 
Sebastian não teve tempo. outros, como ele,
descobriram um dia que a luta dos negros freedom fighters
era parecida com a sua
e trocaram as voltas à simbologia da mamã.
Eles sabem que a rua é um campo de batalha
 
seja na Bowery ou nos socalcos da Ponta
Vermelha.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
 
(– dr. Cukrowvicz e a senhora Venable – cf. Tennessee Williams)
 
 
 
eduardo pitta
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998