28 setembro 2026

artur do cruzeiro seixas / canto

  
Canto
canto como um desesperado!
O que julgas tu que faz mil milhões de reflexos
na superfície exausta do Tejo?
Por certo um desacordo
que atinge no coração o sol
os peixes
a tua visão impressionista.
A árvore não dá saborosos frutos
apenas porque te ama
e a tempestade
desespera-se da sua impotência.
O amor é uma ilusão
uma excepção ou um excesso?
Oh tu homem civilizado julgas-te vivo
quando és apenas uma perpétua imitação
um vil ressuscitado de mortas civilizações.
O sonho é o que te resta
mas o seu peso é excessivo
para a imensa fragilidade das palavras
que são afinal a tua coluna vertebral.
 
Todo o espaço é compacto
e tu homem
és o oco
o vazio.
 
Áfricas, 70
 
 
 
cruzeiro seixas
viagem sem regresso
tiragem limitada
2001
 




27 setembro 2026

ricardo reis / aguardo, equânime, o que não conheço

  
 
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
 
13-12-1933
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




26 setembro 2026

bernardo soares / nenhum problema tem solução

  
Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
 
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
 
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.
 
18-7-1916
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990
 


25 setembro 2026

pedro homem de mello / povo

  
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
 
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
 
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
 
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
 
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
 
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
 
pedro homem de mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983





24 setembro 2026

antónio pedro / devagar

  
X
 
Sei lá das coisas que eu não fiz, apenas
Nunca tive remorso de as fazer…
Não tenho mágoas nem penas,
Tenho apenas
Muita pena
De não ter
Esses remorsos e penas
Que me vinham de viver:
 
Morto-vivo que ando apenas
Sem coragem p’ra morrer.
 
 
 
antónio pedro
devagar 1929
poesia (1926-1929)
edições cosmorama
2016


 

23 setembro 2026

golgona anghel / não gosto de contar

  
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
 
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
 
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
 
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam os dedos.
 
 
 
golgona anghel
resumo, a poesia em 2011
documenta
2012



22 setembro 2026

inês lourenço / a galinha

  
 
Não era bem galinha, mas
um bicho desses ainda menor. Compravam-se
nos mercados populares ou às
galinheiras que com grandes cestos à cabeça
apregoavam na rua. O pai pediu
para agarrar com força as patas
enquanto com um cheiro de vinagre no ar
e uma faca afiada na pedra da banca
se vergava sobre a vítima
que cessava gradualmente. Foi o
primeiro episódio sangrento
que me mostrou para sempre
a insegurança do mundo.
 
 
 
inês lourenço
telhados de vidro n.º 19
maio de 2014
averno
2014





 

21 setembro 2026

miguel torga / vazio

  
Todo o mar nos meus olhos, e não basta!
Enche-os mais uma lágrima furtiva…
Neste banquete azul, há um só conviva
Farto e feliz.
É o céu, que se debruça sobre as ondas
Sem amargura.
É ele, que não procura
Por detrás da verdade outra verdade.
Serenamente, lá da eternidade,
Bebe e come
A imagem reflectida do seu nome.
 
 
 
miguel torga
diário VII (1956)
poesia completa vol. II
dom quixote
2007



20 setembro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
 
4
 
Podes desenhar um gato sem levantar o lápis do papel – a orelha, a tíbia curva do dorso, a brancura do ventre, o nariz, outra vez a orelha? Podes cartografar as constelações do hemisfério norte sem levantar o dedo para o céu, ir da Andrómeda à Cassiopeia, da Cassiopeia à Ursa Maior, e voltar à Andrómeda sem que o fio se parta? Ao fim e ao cabo, assim é a vida, um passatempo, passar o tempo que requer a máxima habilidade para a vivermos toda de um só traço. Por muito que a mão mirre de frio e desamparo, lembra-te de não levantar o lápis.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021
 



19 setembro 2026

günther eich / inventário

  
 
Isto é o meu boné,
isto é o meu casaco,
aqui, as coisas da barba
no saco de linho.
 
Lata de conservas:
prato e copo,
gravei na folha
o meu nome.
 
Gravei-o com este
precioso prego
que escondo
de olhares cobiçosos.
 
No saco do pão tenho
um par de peúgas de lã
e outras coisas
que não digo a ninguém;
 
assim, de noite, serve-me
de almofada para a cabeça.
Este papelão aqui está
entre mim e a terra.
 
A mina do lápis
é o que mais amo:
de dia escreve-me versos
que inventei de noite.
 
Isto é o meu bloco de notas,
isto é a minha lona,
isto é a minha toalha,
isto é o meu carrinho de linha.
 
 
 
günther eich
a palavra interdita
tradução de joão barrento
campo das letras
2001
 




18 setembro 2026

arsenii tarkovskii / pela manhã

  
 
PELA MANHÃ dentro esperei ontem,
Diziam eles que não virias, supunham.
Maravilhoso dia, lembras-te?
Um feriado! – Dispensa casaco.
 
 
arsenii tarkovskii
8 ícones
versão de paulo da costa domingos
assírio & alvim
1987
 



17 setembro 2026

eugéne guillevic / carnac (fragmentos)

  

 
8
 
SEI bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
 
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
 
E quando digo mar
É sempre o de Carnac.
 
 
 
guillevic
poesias de guillevic
tradução de david mourão-ferreira
editora ulisseia
1965
 


16 setembro 2026

eugénio de andrade / as mãos e os frutos

  
 
XI
 
Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.
 
 
 
eugénio de andrade
as mãos e os frutos
poesia
fundação eugénio de andrade
2000