A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz —
tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade,
nem para ti, em amá-los.
Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de
rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas
afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então [...] e o som da
água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem
sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos
deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos,
a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre
a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao
peito com amor.
(Meu destino é a decadência.)
Meu destino foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca
sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a
vida era verde sempre nos nossos esquecimentos. A Lua era fluida como água
entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem
sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora [...]
s.d.
fernando pessoa
livro do desassossego por
bernardo soares. vol.I
presença
1990