26 junho 2026

antónio reis / poemas quotidianos

  
16
 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos
 
 
 
antónio reis
poemas quotidianos
tinta da china
2017
 



25 junho 2026

josé miguel silva / lamento de calipso

  
 
Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
 
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
 
A distância dos teus olhos, não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
 
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
 
regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor das tardes,
 
quando ainda não sabia
da dureza do cimento
nem dos modos de quebrar e ser quebrado.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




24 junho 2026

eugénio de andrade / passeio alegre

  
 
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis – assim nuas.
 
 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 




23 junho 2026

vasco graça moura / romance do passeio alegre

  
 
as résteas do sol morrendo
por sobre os renques de espuma
 
nos mirantes da foz velha
e no granito das ruas
 
nas árvores recortadas
a negro em finas nervuras
 
alinhando no silêncio
suas rendas pontiagudas
 
na volta das lavadeiras
cantando uma leve música
 
e no cabelo ardendo
com sua areia insegura
 
no vento feito de nada
no coração que sussurra
 
quando as crianças regressam
da escola duas a duas
 
e há-de no passeio alegre
perpassar coisa nenhuma
 
e os teus olhos recolhendo
grãos doirados de penumbra
 
que hão-de misturar à noite
com a água azul da lua
 
enquanto pousam gaivotas
sobre as barcaças escuras
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 




22 junho 2026

ruy belo / a autêntica estação

  
 
É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação
 
 
 
ruy belo
todos os poemas I
verão
assírio & alvim
2004





21 junho 2026

luís miguel nava / atrás da página

  
 
As mãos no poema, pelas páginas
acima escoam-se os espelhos, a trovoada
vermelha emerge das imagens. A trovoada
redonda. Uma revoada
de espelhos é a alba, há poços nos espelhos
onde a nudez
se precipita, a luz mordendo a água.
 
Do poema vêem-se as trovoadas
imóveis
atrás da página, as imagens,
da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros
a afluírem-lhe aos cabelos. Vêem-se
à tona da trovoada os lenços
caindo na manhã, com as veias do rapaz
as desta a confundirem-se, depois
os poços da nudez abertos pelos astros.
 
Esse rapaz as suas próprias veias
o amarram à manhã.
Não me olhar ele ateia-me. Pequenos
incêndios, os da abóbada
do poema, arrancam-lhe a nudez.
Está alguém ao poema como a um espelho.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 




20 junho 2026

nuno júdice / poema

  
 
Com o vento do norte,
as cigarras não cantam.
 
De noite, é como se nos falassem
de dentro dos arbustos:
 
vozes que o dia rejeita,
frases vestidas de terra.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997
 



19 junho 2026

yves bonnefoy / a árvore, a lâmpada

 



 

 

A árvore envelhece na árvore, é o verão.
A ave supera o canto da ave e evade-se.
O vermelho do vestido ilumina e dispersa
Longe, no céu, a carroça da dor antiga.
 
Oh frágil país,
Como a chama de uma lâmpada que se transporta,
Estando próximo o sono na seiva do mundo,
Simples o batimento da alma partilhada.
 
Também tu amas o instante em que a luz das lâmpadas
Se descora e sonha durante o dia.
Tu sabes que é a obscuridade do teu coração que cura.
A barca que alcança a margem e cai.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
pedra escrita (1965)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026
 


18 junho 2026

rené char / a ordem legítima é por vezes desumana

  
 
Àqueles que partilham as suas lembranças,
Repreende-os a solidão, imediatamente impondo o silêncio.
A erva que os acaricia brota com a sua fidelidade.
 
Que dizias? Falavas-me de um amor tão distante
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas empregues pela memória!
 
 
 
rené char
furor e mistério
os leais adversários
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




17 junho 2026

maria gabriela llansol / LXXIV. de que falava?

  
 
Carta:
«lendo, não se sabe de que se fala. Mas, demorando a ler, verifica que se lê. E o que não se aprende directamente, sente-se no fulgor que emana do sentido do sentimento.
          Sensualmente, a inteligência vai buscar o seu referente. O fulgor oscilante da leitura
que é o verso e reverso deste enigma sem nenhum mistério contundente».
 
 
 
maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & alvim
2006



 

16 junho 2026

vergílio ferreira / a hora do fim

  
 
249 – A hora do fim. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Intriga-me, não me aflige muito. É o meu modo de subir um pouco acima do vulgar, de mim, para quem dói muito e intriga pouco. Coisas, lugares, mesmo afectos, a partir de certa idade não pertencem ao real mas à memória, onde o seu destino é já o de cada um. Há todavia um desespero manso em nós que é o de não termos realizado não bem o que se diz ser-nos o «sonho», porque ter um «sonho» é já saber o que é, mas o que trouxesse a paz de termos esgotado todo o possível o que em nós quer responder a uma voz incerta que nos fala e não conseguimos ouvir, que fala mas não sabemos de quê. Tenho em mim mais possibilidades do que todas as realizações que realizasse. Mas o mais insuportável é que essas realizações deixem as possibilidades absolutamente intactas. Como o fígado de Prometeu, reconstituem-se logo que se efectivam numa realização. Como o ventre de uma mulher que fica inteiro para outro filho. Uma realização existe em si e portanto não existe na possibilidade que se é. E é o que levaremos para a morte, essa falha enorme do nosso impossível. E é o que mais dói aos avisos do fim – esta absoluta nulidade do que fiz e a alucinação de fazer, antes que a hora chegue.



vergílio ferreira
pensar
bertrand editora
2004




15 junho 2026

samuel beckett / desistir, mas eu já desisti de tudo

 


 

X
 
Desistir, mas eu já desisti de tudo, não é coisa recente, eu não sou recente. Portanto, houve uma vez alguma coisa. Vamos acreditar que sim, mas saber que não, nunca houve nada, a não ser a desistência. Já que se falou em desistir fala-se em desistência, sem pensar. Mas admitamos que não, ou seja admitamos que sim, que houve uma vez alguma coisa, numa cabeça, num coração, entre duas mãos, antes de tudo ser aberto, esvaziado, voltado a fechar, petrificado. E ficamos sossegados, depois de termos tido medo, e preparados para continuar, mais uma vez. Mas isso não é silêncio. Não, é algo que fala, alguém está a falar num sítio qualquer. Para não dizer nada, de acordo, mas será o suficiente para ter algum sentido? Já sei o que é, a cabeça está atrasada, em relação ao resto, e o seu ânus é a sua boca, ou então continua sozinha, continua sozinha a seguir as suas velhas pisadas, cagando a mesma merda velha e voltando a engoli-la, de novo presa nos beiços, como no tempo em que se julgava um naco de comida. Só que já não há prazer, nem apetite. E cá está, cá volta a estar, sem embustes, no meu activo o velho passado, nunca igual, mas terminado para sempre, para sempre prestes a terminar, e tudo o que ele comporta, de promessas para o amanhã, e de consolo no imediato. E estou de novo em boas mãos, as mãos amparam-me a cabeça, por detrás, pormenor curioso, como no barbeiro, e com os indicadores fecham-me os olhos, e com os médios as narinas, e com os polegares os ouvidos, mas pouco, para eu ouvir, mas pouco, e com os outros quatro mexem-me nos maxilares e na língua, para eu sufocar, mas pouco, e dizer, para meu bem, o que tenho de dizer, para meu bem futuro, ária conhecida, e nomeadamente neste momento que é apenas um mau momento a passar, um momento de trégua, que sem os maxilares e a língua poderia ser-me fatal, e que um dia saberei outra vez que fui, e mais ou menos quem, e como continuar, e falar sozinho, delicadamente, de mim, e dos meus pálidos semelhantes.
 
(…)
 
 
 
samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006



14 junho 2026

bernardo soares / à minha incapacidade de viver chamariam génio,

 

À minha incapacidade de viver chamariam [?] génio, à minha cobardia [...] requinte.

Pus-me a mim — Deus dourado com ouro falso —, num altar de papelão pintado para parecer mármore.
(...)
s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982