20 maio 2026

fiama hasse pais brandão / campo de refugiados

  
 
A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?
 
 
 
fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002




19 maio 2026

josé miguel silva / conclusão

  
 
E eu que já fui a infância benigna,
o pão com geleia, a cara lavada,
o jovem galante de ganga feliz,
semi-penteado, tonto de Maio,
 
perdi-me em desvãos que não quero lembrar,
por uma doença chamada senão
e tudo cedi, raízes e ramos,
como se a nada pudesse falar.
 
Passaram os anos mas não a tristeza,
passaram os golpes, não o cuidado.
Praias de brita, rios de breu.
Por pouco não tive que me chatear.
 
Cheguei até aqui com a falta de dentes,
ombros de sal, futuro fanado,
e mesmo se isto parece um lamento,
de nada me queixo – sobrevivi.
 
Amigos alguns, mortos também,
versos de vidro ferindo-me os pés,
os olhos amados, a sorte no corpo.
O resto é ruído, inferno de sobra.
 
Com quatro cadeiras e um lenço na mão,
já faço um batel para as ondas levarem.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014





18 maio 2026

diogo vaz pinto / do trono espinhoso destas horas


 

Do trono espinhoso destas horas
elevei o meu silêncio até dele
se ouvirem campos de trigo
num rés-do-chão em Campolide,
o vento ferido cortando caminho,
um zumbido que houvesse virado navios
e o mar depois calmo exibindo
cicatrizes antigas. As mãos no tanque,
o queixo na pedra e um suspiro
conduzindo as folhas, como cadáveres
flutuando de sorriso na cara.
 
A noite treme nos seus sonâmbulos afazeres,
persegue sombras de estrelas há muito sumidas,
abrindo os contornos de quem somos
no limite da nossa obscuridade.
 
Tudo contido, tudo transborda.
Beberei das próprias palavras,
dolorosamente cercado,
um universo à parte, outras vistas.
No mais, passar ao largo,
perdido numa cadeira de balanço
com as mãos cerradas no colo,
contando os dias,
até que olhar seja desmoronar-se.
 
 
 
diogo vaz pinto
aurora para os cegos da noite
maldoror
2020



 

17 maio 2026

vitorino nemésio / canção à maneira e à memória de antónio boto

  

Ai, restos de António Boto,
Canção de veludo tinto
Em caixa de zinco estreito:
Não somos nada no mundo!
Digo-o e pareço que minto
Se desta ilusão me enfeito
Pensando ter a valia
De quem canta perdoando
Ou chora para salvar
Um viver à revelia
Que destino miserando,
Como casca, atira ao mar.
 
Ai, chapéu de António Boto,
Cortina de disfarçar
Sentimentos proibidos,
Quem sabe até se fingidos
Prà triste vida ganhar?!
 
Pobre camarada altivo
Com fraquezas de tostão
E ar de pirata cativo
No reino da solidão,
Enterrado na tristeza
Com velas da sua altura
Pingando amor e a nobreza
De alguma palavra pura!
 
Da terra pátria esquecido
Como o marinheiro novo
E a gaivota horizontal,
Acabando adoecido
Por fadário do seu povo
Numa enxerga de hospital!
 
Ai, triste de António Boto,
Se assim não foi, não faz mal,
Que maior glória não vejo
Para um poeta, em Portugal!
 
Desviado adolescente
Como niño só deixado
Por mãe de quem tanto gosta:
Entornou-se o candeeiro,
Julga-se cravo de aposta
Nas cinzas do pardieiro!
 
Ai, pobre de António Boto
Tão dandy naquele Chiado!
Antes sujinho, antes roto
Que suspeito condenado!
 
Roxo de rosas salobras
E de chagas procuradas:
Eis o salário que cobras
Nas salas abandonadas
Por galãs entontecidos
De princesas fastientas:
Sorrisos compadecidos
Na vida, que lhes aguentas!
Devolvendo uma cantiga
Por cada insinuação
E pondo a faca na liga
(Nossa maior distinção
Portuguesa!...)
À que a não merece, não!
 
António Boto! A beleza
Ninguém a compra, é condão:
Durma à paz da natureza
Teu remoto coração!
 
                RIO, 23.8.1965.
 
 
 
vitorino nemésio
colóquio letras 113-114
fundação calouste gulbenkian
1990




16 maio 2026

robert walser / a meu lado

  
 
Faço a minha caminhada;
a volta é larga e traz-me
a casa; então, sem som
ou palavra, sou eu que estou a meu lado.
 
 
 
robert walser
descida brusca de temperatura
alguma poesia suíça
tradução de luís filipe parrado
contracapa
2021
 


15 maio 2026

jane kenyon / agasalhos

  
 
Vi-o a sair do hospital
com um casaco de senhora no braço.
Claramente ele não iria precisar de tal coisa.
Os óculos de sol que ele usava não conseguiam
esconder-lhe o rosto molhado, o seu desnorte.
 
E como uma piada de mau gosto o dia estava limpo
e o ar demasiado suave para dezembro. Mesmo assim
ele correu o fecho do blusão e atou
o capuz debaixo do queixo, preparando-se
para um frio irremediável.
 
 
jane kenyon
trocando dólares por cêntimos
alguma poesia norte-americana
trad. luís filipe parrado
contracapa
2020




14 maio 2026

luís falcão / o táxi à espera

 


 

 
O táxi à espera
acendendo e desligando os faróis
depois das sebes de azevinho
o cão impondo-se num latido
impregnado de queixumes
a mala aberta, o nó da gravata
ainda por fazer
optas pela simetria perfeita
pelo equilíbrio elegante do hanôver
selando
numa indiferença discreta
a tua queda no esquecimento
 
 
 
luís falcão
bruma luminosíssima
artefacto
2016



13 maio 2026

luís carlos patraquim / por te haver, de acesa cinza

 



 

 
Por te haver, de acesa cinza
a eléctrica luz sou
e a sombra dela.
este pendor a renúncia
do que a outros distrai
é quanto amas?
Respiramos. Em tua pele
é que singro, rasgado
grito em quilha
na areia do mundo.
 
 
 
luís carlos patraquim
morada nómada
poesia 1980-1920
língua morta
2020
 


12 maio 2026

louise glück / a íris selvagem

  
 
No fim do meu sofrimento
havia uma porta.
 
Ouve-me bem: recordo aquilo
a que tu chamas morte.
 
Por sobre mim, barulhos, ramos ondulantes de pinheiro.
Depois, nada. o sol fraco
a cintilar na superfície seca.
 
É muito duro sobreviver assim,
a consciência
sepultada na terra escura.
 
Depois, o fim: aquilo que se teme, ser
alma e incapaz
de falar, termina bruscamente, a terra hirta
curvando-se um pouco. E o que eu achei serem
pássaros lançando-se em voo pelos ramos baixos.
 
A vós que não recordais
a passagem do outro mundo
digo-vos que eu poderia novamente falar: o que
regressa do olvido regressa
para encontrar uma voz:
 
do centro da minha brotou
uma fonte fresca, sombras
em azul profundo sobre o azul da água do mar.
 
 
 
louise glück
a íris selvagem
tradução de ana luísa amaral
relógio d´água
2020




11 maio 2026

yánnis kondós / pequeno jardim zoológico

  
Teus dois pequenos seios
sorriem dentro da tarde.
Eu de noite acendo fósforos
para ver como dormem.
 
Teus dois pequenos roedores
me comem os dedos
no escuro.
 
De manhã, asas de pássaro
nas minhas mãos.
 
 
 
yánnis kondós
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
trad. josé paulo pães
assírio & alvim
2001




 

10 maio 2026

alberto caeiro / o que nós vemos das coisas são as coisas.

  
 
XXIV
 
O que nós vemos das coisas são as coisas.
Porque veríamos nós uma coisa se houvesse outra?
Porque é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
 
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.
 
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
 
13-3-1914
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994



09 maio 2026

ricardo reis / frutos, dão-os as árvores que vivem,

  
 
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
 
6-12-1926
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




08 maio 2026

eugénio de andrade / para onde

  
 
Apesar da luz ter já começado a roer-me os olhos, não é ainda tempo para me entregar a colecionar caixinhas de rapé ou luzes crepusculares, nem para fazer coro com essa gente do norte que recebe o nevoeiro em casa e o convida, pelo menos uma vez por semana, para jantar.
 
Desde a vulva inicial, o homem é só caminho. Para onde? Eis o que não sabemos. Mas será caso para perguntar?
 
14.1.86
 
 
eugénio de andrade
vertentes do olhar
poesia
fundação eugénio de andrade
2000