Gosto das
palavras exactas, as que acertam
com o centro
das coisas, e quando as encontro
é como se as
coisas saíssem de dentro delas.
Essas palavras
são duras como os objectos
que designam,
pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos
quebrados com o calor da tarde.
Tento
incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse
de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da
página numa devastação de sílabas.
Então, atiro
sobre as palavras outras palavras,
água, pó,
terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique
queimada nesta paisagem negra.
Recolho os
restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos,
preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas
fiquem no lugar que já tinham.
Pouco importa
que as frases percam o sentido. O
que fica são os
nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele
e as possamos ver nos seus lugares.
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024