15 setembro 2026

salah stétié / às árvores




 

 
Eis-te adormecida no leito do aroma
À tua volta pedras
Reunidas na única rosa respirada
Na hora em que a água vai gerar o leite nocturno
Timidamente, socorrida pelas estrelas
Temíveis e que a recusarão
 
Por amizade das árvores!
Não deixem, árvores minhas, os vossos braços fecharem-se
Nem voarem para longe as vossas folhas livres
Guardiãs das nossas portas varridas pelo vento azulado
Sendo as casas aqui a casa do pai
A criança sonhada iluminando com a sua lanterna
O incêndio das colheitas
 
 
 
salah stétié
poemas                           
tradução de rosa alice branco
encontros de Talábriga
1999




 

14 setembro 2026

nazmi ağıl / a cisterna


 

 
Então assim, levei-te até à “Cisterna, o subconsciente
da imensa cidade… – não, o metro não é o mesmo
quando, lá dentro, tende alguém a desaparecer e não
se sabe por quanto tempo… – ou tal como água da chuva, filtrada
no solo e por entre seixos, deixando tudo o que é desnecessário
à superfície, nós mesmos nos esvaecemos como duas almas, Beatrice e eu;
a agitação que deixámos para trás, a ruidosa multidão e os carros, o
eléctrico e toda a intensa actividade mercantil… se mantiveram
afastadas, longe, no sereno e materno ventre, da antiguidade.
Então na penumbra, lembro-me de ti como uma bola de luz flutuando
no ar e enquanto os peixes vinham nadando sobre
a tua reflexão tocando uma curiosidade instintiva;
tu te lamentavas com a música, que, no entanto,
com o som da tua voz, se tinha então transformado
numa melodia e começado a fazer derreter a parede congelada
ameaçando ainda a temível influência da Medusa.
Assim por isso ela nos fixou com tanta ira e lançou seu olhar frio
que por nós passou milagrosamente sem um arranhão
que caiu sobre a lente da câmara, que estava prestes a captar
as nossas imagens para as reter enquanto a memória electrónica
durar, mas que, agora, nos fará viver ante o seu olhar hirto
e suspenso até à eternidade.
 
 
 
nazmi ağıl
trad de rui cóias
nervo 28 set/dez 2026
colectivo de poesia
2026
 
 
 

 

 

13 setembro 2026

eduarda chiote / usamo-nos e abusamo-nos

  
 
Vítimas do seu mau uso, os comboios
reflectem a dor dilacerante
dos atirados aos magotes e ainda muito jovens
para um campo de concentração, algures,
onde, um deles, porventura
mais diferenciado, sente verdadeira gratidão
face à honra que lhe foi concedida
de repartir igualmente por todos os prisioneiros
o pão: milímetro a milímetro.
Poupado, este futuro desertor, de ser atirado à vala
como os sem enterro, terá tido o privilégio,
claro e inequívoco
de vivenciar
que se pode ultrapassar um qualquer ideológico conflito,
se a sua compreensão
estiver mais interessada na transformação do que
na combinação.
Por tal, quando. Faminto e iluminado
Consegue, finalmente, e a pé
Chegar à pouca,
Parca – minha e dele -, esquecida e atrasada terra
nossa
de cabras afogadas em rochas,
de moiras em muralhas de castelos cativas,
este fugitivo
de um campo de concentração, cultíssimo e anónimo,
se fez voluntária e verifícavelmente
alimentador de comboios.
Ora. Sabendo eu
que Brecht pensava em abolir os
comboios, preferindo ao velho e bom
e por motivos vários
o novo e o mau, suponho poder ainda escrever
cantigas de escárnio e mal dizer
apenas para me fazer entender sobre o que terá
significado em e para duras terras de neve e de geada,
uma linha férrea abandonada:
sem comentários!
 
 
 
eduarda chiote
nervo/16 outubro 2022
colectivo de poesia
2022
 



12 setembro 2026

yvette k. centeno / a almofada

  
 
Onde pousamos a cabeça
afundamos um pouco
a almofada.
Nessa pequena cova
ficam guardados os sonhos
que ainda falta sonhar
 
9 de Julho, 2021
 
 
 
yvette k. centeno
existir
eufeme
2022





 

11 setembro 2026

javier salvago / correcções

  
 
A vida perece-se com esses poemas
que brotam, a princípio, intermináveis,
retóricos, grandiosos e banais.
 
Depois vais corrigindo até deixá-los
no pouco que importa: nos dois versos
que dizem o que todos já sabemos.
 
 
 
javier salvago
poesia espanhola de agora vol. I
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1997




10 setembro 2026

gonçalo m. tavares / aprender

  
 
             Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais.
             E quer escrever isso no papel: que odeia os pais.
          Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.



gonçalo m. tavares
short movies
caminho
2011


 

09 setembro 2026

elio pecora / também este verão

  
Também este Verão
(e agora começa
com os longos ocasos,
com as largas tépidas tardes)
também este passará
desiludindo;
são fracas as vozes,
incertas as vizinhanças.
E já pressinto o Outono
das chuvas subtis,
dos temporais nocturnos,
e de novo a espera
incauta de Junho.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
motivetto (1978)
tradução de simoneta neto
quasi
2008
 




08 setembro 2026

douglas coupland / a vida depois de deus



 

 
Quando somos novos, estamos sempre a contar que o mundo vá acabar. Depois vamos ficando mais velhos e o mundo continua a bulir e vemo-nos obrigados a rever a nossa posição quanto ao apocalipse, bem como a nossa relação com o tempo e com a morte. Percebemos que o mundo vai mesmo continuar, connosco ou sem nós e sem as imagens que temos dentro da cabeça. E tentamos perceber antes as imagens.
 
 
douglas coupland
a vida depois de deus
trad. telma costa
teorema
1994




 

07 setembro 2026

joão rebocho / lento

 


 
 
lento
quer dizer:
perto da porta
 
aliás, em outras palavras, vale dizer ou melhor
dizendo
reformular uma ideia?
esclarecer:
todas palavras inúteis
 
lento
só quer dizer:
perto da porta
 
 
 
joão rebocho
salvo erro
edições fantasma
2026
 




06 setembro 2026

herberto helder / um nome que me digas ou me não digas duas vezes

 



 

 

um nome que me digas ou me não digas duas vezes
em dois abismos de sono, esse nome
faz-se carne no mais âmago de mim mesmo,
esse nome trabalha-me,
é igual ao segredo: pão,
eu cômo-o no mais escuro do mundo,
cortado a água e mais nada,
quase como quando se morre mais devagar,
se é noite que entra: pão profundo mastigado
acaso na maior das noites seguidas umas às outras
 
 
 
herberto helder
letra aberta
porto editora
2016




05 setembro 2026

alexandre o'neill / velhos

  
1
 
Tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno.
Tira-o não se sabe donde.
Guarda os baraços dos embrulhos,
desfaz-lhes os nós («Os japoneses põem os meninos nas escolas a desfazer nós!»)
e, baraço a baraço, fabrica um novelo multicor
que pode fornecer fio para atar um embrulho,
por exemplo, o da louça chinesa que, peça a peça,
vai pondo no prego.
Não se engana (e já trepou aos oitenta e muitos)
a declinar o rosa-rosae que aprendeu em coro quando pequena.
Gosta de cães, mas tem medo, desde que outro dia,
isto é, há vinte anos,
lhe morreu o Kiss atropelado,
das trelas sentimentais.
Numa gaveta defendida a naftalina,
dentro duma caixa de cânfora,
guarda palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos,
longos alfinetes ornamentais (aqueles de chapéu).
Arrasta consigo um passado a sépia de fotografias.
Diante de cada uma, recita parentescos, genealogias.
E a fechar o cortejo mostra sempre a do seu casamento.
Era formosa, cheiinha, um verdadeiro quanto-baste de mulher.
Enviuvou: sobreviveu a dois filhos; vive com uma amiga.
Às vezes está amuada, não sai do seu quarto e passa o dia inteiro a tisanas.
Quando visita o bisneto,
insiste em ensinar-lhe o rosa-rosae:
quer que ele seja um causídico.
Já não escolhe a comida; escolhe os dentes.
É um passarinho.
Mas nos seus olhos doces, azuis e moços,
uma gaiata traquina.
 
 
 
alexandre o´neill
a saca de orelhas (1979)
poesias completas
assírio & alvim
2000
 




04 setembro 2026

luiza neto jorge / anos quarenta, os meus

  
De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma
 
alma e ar reféns dentro do pulmão
(como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão).
Salazar três vezes, no eco da aula.
 
As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos
 
que hoje ainda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita «Viva».
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.
 
Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas mil, um fictício arco-
 
-íris como que é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.
 
 
 
luiza  neto jorge
postais antigos
poesia
assírio & alvim
1993
 




03 setembro 2026

maria alberta menéres / água memória

  
 
IX
 
Para o mesmo caminho
por atalhos diferentes,
tu a cansada mãe,
eu pérola perdida
na escuridão do mar.
 
Que caminho temer
agora que chegámos?
Por diferentes atalhos,
sobre os ombros trouxemos
a solidão de os ter.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020