30 julho 2026

rui diniz / lisboa

  
 
Nas sacadas das casas uma mulher
de febre degola outra mulher com
o som das persianas. A cidade cada
vez mais anoitece. Vende-se a noite.
Cais do Sodré, duas da manhã.
Nas janelas fechadas da beira do cais
uma mulher tece as desdémonas de sangue.
Há rixas mortais nas adegas.
E os copos de grossos bordos destilam
espesso vinho. Nas varandas de ferro
junto ao rio a mulher suicida-se.
Questão de um amor no corpo e
Uma doença no mar. Os barcos,
êxito haja, deflagram sua vela
rôta no mar, e abalam do
fétido porto, a caminho de voltar.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022




29 julho 2026

manuel de freitas / aurora(s)

  
«Era um cão com muita teoria»
– explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequentou a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja), juro) das paredes
ou dos dias – não há diferença.
 
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
– não é um verso, apenas um dado
Estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, com «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram – tanto faz.
 
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P’ra mim é tinto» – repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
 
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
 
 
 
manuel de freitas
[ sic ]
assírio & alvim
2002




28 julho 2026

manuel alegre / que somos nós

  
 
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
 
Que somos nós senão permanecemos
no por nós transformado em espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
 
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que
 
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
 
 
manuel alegre
o canto e as armas
centelha
1974
 



27 julho 2026

joão pedro grabato dias / a arca

  
CCXCVII
 
Se o teu chefe não for o mais humilde
no falar e na acção e no aceitar
da alheia fala e do agir alheio,
retira-lhe a chefia. Se ele não
souber pedir, não saberá, no
mando, ver e encontrar quem execute
alta ou baixa função. E se baseia
em pura força impura autoridade
é porque já, poedeira, agita a asa
e prepara a postura, o bocacú.
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
a arca, ode didáctica na primeira pessoa, 1971
tinta da china
2021
 



26 julho 2026

fernando pessoa / no limiar que não é meu

  
 
No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver; de campo e céu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer coisa que eu
Possa gozar.
 
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
 
Na inútil hora
Eu, mais inútil que ela, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma coisa mora
Para eu fruir.
 
Apenas, vaga
Não uma esperança, mas uma saudade
Do tempo em que a esperança, como vaga,
Dava na praia da minha ansiedade,
Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga
De vacuidade.
 
Mas acordo e com vão
Olhar ainda, mas já diferente,
Por estar ausente dele o coração,
E eu outra vez, nem mesmo descontente,
Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão
Inconsciente.
 
Nada, só o dia
— Se é tarde ou cedo continuo a errar —,
Alheio a mim, a tudo dá a alegria
De não ter coração com que agitar
O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria
Mas sem chorar.
 
Isto e eu comigo
Posto no eterno aquém das coisas calmas
Que a vida externa mostra ao céu amigo —
Campos ao sol, vivas flores almas.
Isto só e não ter o coração abrigo
Nem sol as almas.
 
16-2-1920
 
 
fernando pessoa
novas poesias inéditas
ática
1993




25 julho 2026

álvaro de campos / o sono que desce sobre mim,

  
 
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
 
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
 
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
 
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
 
Meu Deus, tanto sono!...
 
28-8-1935
 
 
 
álvaro de campos
poesias de álvaro de campos
fernando pessoa
ática
1993


24 julho 2026

adília lopes / psycho

  
 
Assassinada no duche
como Marat
mas sem revolução
nem razão
e o sangue aguado dela
vai-se pelo ralo
da banheira
no sentido
dos ponteiros do relógio
nos antípodas
seria ao contrário
porquê?
 
 
adilia lopes
florbela espanca espanca (1999)
caras  baratas
antologia
relógio d´água
2004



23 julho 2026

albano martins / a mesma canção

  
 
A sensação que tens
é de que tudo
quanto dizes já o leste
noutros livros. Mas
depois consideras: também
o sol e os pássaros
repetem todos os dias
a mesma canção.
 
 
 
albano martins
escrito a vermelho
campo das letras
1999
 



22 julho 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
8
 
envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciante das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer
 
colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos… as bocas
do gado triturando o restolho… as correrias inesperadas
das aves rasteiras
 
e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 


21 julho 2026

antónio dacosta / no meio das águas

  
 
NO MEIO das águas está a fresca ilha
Onde do leite de sereia mamaste
No seio daquela que de lá o trouxe
 
Pobre de ti das praias ardentes esquecido
Da Dinamarca te elegeste príncipe
Do veneno bebeste quanto restou
Na corte onde Ofélia amou
 
Da janela do teu bairro com quiosque
De alma aos pés e pénis na mão
Pensaste o ser e não ser de outros que ti
 
E se da ilha só sargaços Circe te deu
Na outra de Próspero foste o grande amigo
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994




20 julho 2026

antónio franco alexandre / segundas moradas

  
 
1
 
ligeiramente suspenso, pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chão, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
 
mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!
 
as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
 
 
 
antónio franco alexandre
segundas moradas
poemas
assírio & alvim
1996
 


19 julho 2026

cesare pavese / és a terra e a morte

  
 
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã.
 
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
 
             3 de Dezembro de 1945
 
 
 
cesare pavese
virá a morte e terá os teus olhos (11 Março-11 Abril, 1950)
virá a morte e terá os teus olhos
trad. rui caeiro
edições do saguão
2021
 




18 julho 2026

charles bukowski / a zona de pausa

  
 
tens de a ter, caso contrário, as paredes
cercar-te-ão.
tens de desistir de tudo, deitar
fora, deitar tudo fora.
tens de olhar para o que estás a olhar
ou pensar no que estás a pensar
ou fazer o que está a fazer
ou
a não fazer
sem considerar proveito
pessoal
sem aceitar orientação.
 
as pessoas estão consumidas com
o esforço,
escondem-se em hábitos
comuns.
as suas preocupações são preocupações de
manada.
 
poucos têm capacidade de olhar
para um sapato velho durante
dez minutos
ou de pensar em coisas estranhas
como: quem é que inventou
a maçaneta?
 
tornam-se desvivas
por serem incapazes de fazer
uma pausa
de se desarmarem
de se desdobrarem
de desverem
de desaprenderem
de se exporem.
 
escuta o seu riso
falso, depois
vai-te
embora.
 
 
 
charles bukowsky
os cães ladram facas
trad. rosalina marshall
alfaguara
2018