03 outubro 2026

ana luísa amaral / biografia (curtíssima)

  
 
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
 
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
 
(mas hoje penso
que, se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
 
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
 
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
 
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
 
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
 
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
 
e mais:
imperfeição
 
 
 
ana luísa amaral
vozes
dom quixote
2011
 




02 outubro 2026

konstandinos kavafis / passagem


 

 

As coisas que, aluno, assustado imaginou, estão escancaradas,
reveladas diante de si. E anda por aí, e faz noitadas,
e deixa-se arrastar. E pois é (para a nossa arte) conveniente,
o seu sangue, jovem e quente,
a volúpia deita-se com ele. Seu corpo baixa a cerviz
por embriaguez erótica sem lei; e os jovens
membros a ela cedem.
                                                      E um simples rapaz desta maneira
Torna-se digno do nosso olhar, pela altaneira
Esfera da Poesia também ele passa momentaneamente –
o estético rapaz com o seu sangue jovem e quente.
 
 
 
konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994 


 



01 outubro 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
 
338
 
Aos domingos de manhã encontro-me com aquele que mais admiro neste momento. É um encontro fortuito sabiamente planeado. Ele vê-me sempre primeiro. Avança para mim e fala com animação. É tão elegante, tão chique. Fico emocionada. Oh desejo, que queres de mim? pergunto a mim mesma tristemente alegre.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006



 

30 setembro 2026

alejandra pizarnik / os trabalhos e as noites

  
               
para reconhecer na sede o meu emblema
para significar o único sonho
para não me sustentar nunca outra vez no amor
 
fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
 
para dizer a palavra inocente
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
los trabajos y las noches (1965)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 



29 setembro 2026

antónio osório / mãe

  
Mãe que amavas como Florença,
a tua língua, ciprestes,
oliveiras, brancos bois;
Mãe que eras a ponte velha,
estrume jacente na campina,
o cemitério com laranjeiras
sobre o Arno
onde me levaste ao pé do teu Pai:
desterrada aqui continuas.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
ponte velha
editorial presença
1982
 




28 setembro 2026

artur do cruzeiro seixas / canto

  
Canto
canto como um desesperado!
O que julgas tu que faz mil milhões de reflexos
na superfície exausta do Tejo?
Por certo um desacordo
que atinge no coração o sol
os peixes
a tua visão impressionista.
A árvore não dá saborosos frutos
apenas porque te ama
e a tempestade
desespera-se da sua impotência.
O amor é uma ilusão
uma excepção ou um excesso?
Oh tu homem civilizado julgas-te vivo
quando és apenas uma perpétua imitação
um vil ressuscitado de mortas civilizações.
O sonho é o que te resta
mas o seu peso é excessivo
para a imensa fragilidade das palavras
que são afinal a tua coluna vertebral.
 
Todo o espaço é compacto
e tu homem
és o oco
o vazio.
 
Áfricas, 70
 
 
 
cruzeiro seixas
viagem sem regresso
tiragem limitada
2001
 




27 setembro 2026

ricardo reis / aguardo, equânime, o que não conheço

  
 
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
 
13-12-1933
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




26 setembro 2026

bernardo soares / nenhum problema tem solução

  
Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
 
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
 
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.
 
18-7-1916
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990
 


25 setembro 2026

pedro homem de mello / povo

  
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
 
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
 
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
 
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
 
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
 
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
 
pedro homem de mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983





24 setembro 2026

antónio pedro / devagar

  
X
 
Sei lá das coisas que eu não fiz, apenas
Nunca tive remorso de as fazer…
Não tenho mágoas nem penas,
Tenho apenas
Muita pena
De não ter
Esses remorsos e penas
Que me vinham de viver:
 
Morto-vivo que ando apenas
Sem coragem p’ra morrer.
 
 
 
antónio pedro
devagar 1929
poesia (1926-1929)
edições cosmorama
2016


 

23 setembro 2026

golgona anghel / não gosto de contar

  
Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.
 
Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.
 
Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.
 
Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje, por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam os dedos.
 
 
 
golgona anghel
resumo, a poesia em 2011
documenta
2012



22 setembro 2026

inês lourenço / a galinha

  
 
Não era bem galinha, mas
um bicho desses ainda menor. Compravam-se
nos mercados populares ou às
galinheiras que com grandes cestos à cabeça
apregoavam na rua. O pai pediu
para agarrar com força as patas
enquanto com um cheiro de vinagre no ar
e uma faca afiada na pedra da banca
se vergava sobre a vítima
que cessava gradualmente. Foi o
primeiro episódio sangrento
que me mostrou para sempre
a insegurança do mundo.
 
 
 
inês lourenço
telhados de vidro n.º 19
maio de 2014
averno
2014





 

21 setembro 2026

miguel torga / vazio

  
Todo o mar nos meus olhos, e não basta!
Enche-os mais uma lágrima furtiva…
Neste banquete azul, há um só conviva
Farto e feliz.
É o céu, que se debruça sobre as ondas
Sem amargura.
É ele, que não procura
Por detrás da verdade outra verdade.
Serenamente, lá da eternidade,
Bebe e come
A imagem reflectida do seu nome.
 
 
 
miguel torga
diário VII (1956)
poesia completa vol. II
dom quixote
2007