16 outubro 2026

joaquim manuel magalhães / desciam pela rua de asfalto esburacado

  
 
Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com faltas de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.
 
Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.
 
O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.
 
Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
6x14 aos da educação
os dias, pequenos charcos
editorial presença
1981




 

15 outubro 2026

joão habitualmente / metropolitano

  
 
na paragem do metro
à mesma hora
ao mesmo bocejo
os mesmos corpos
a mesma gente
a mesma viagem
a mesma janela para os sítios repetidos
pirilampos no túnel
destino retilíneo
metro a metro
 
onde não passam as estações
 
 
joão habitualmente
um dia tudo isto será meu
(uma antologia)
porto editora
2019




14 outubro 2026

josé miguel silva / enfim


 

Essa cara cor de beco sem saída,
sorriso de apagar quarenta velas,
o nariz em agonia – não te canses.
A justiça, o remoinho da beleza,
a liberdade são paixões impopulares,
desaprovadas pela gorda humanidade.
 
Já sabias. Não te queixes. Colhe as favas,
as medonhas, do momento. Podes sempre
cozinhá-las com temperos escolhidos.
Sabe a pouco? Paciência. Satisfaz-te
com a fomes e compreende: o proveito
do banquete é estudar os comensais.
 
 
 
josé miguel silva
erros individuais
relógio d´água
2010





 

13 outubro 2026

antónio franco alexandre / duende

  
 
7.

Choro por ti, interminavelmente.
Sem poesia alguma, será que assim fico
mais feminino, diz? Na aula de boxe
hei-de esmagar um crânio, e levantá-lo
num plinto de cristal sobre esta cama
onde esqueci o clube a que pertenço.
Que farei eu, se me acontece
amor sem corpo ao corpo atravessado
e, contra tudo, quero o que não sou?
Também tu és criança, mulher, homem,
bicho tardio que me consome o rosto,
misturado comigo é quando existes.
Já de olhos secos me vesti de tudo,
até quando quiseres que seja nada.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002





 

12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

11 outubro 2026

natália correia / o livro dos amantes

  
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
 
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
 
 
 
natália correia
poemas
antologia poética
dom quixote
2018




10 outubro 2026

maria do rosário pedreira / este foi o nosso último abraço

  
 
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
 
 
 
maria do rosário pedreira
o canto do vento nos ciprestes
gótica
2001




 

09 outubro 2026

louise glück / o poder de circe

  
 
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
 
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
 
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
 
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
 
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
 
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
 
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
 
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
 
podia ter-te aprisionado.
 
 
 
louise glück
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
tradução de José alberto oliveira
assírio & alvim
2001




08 outubro 2026

jorge luís borges / o cúmplice

  
 
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




07 outubro 2026

gottfried benn / vinde cá

  
 
Vinde cá, juntos falemos,
pois quem fala não morreu,
as labaredas já temos
para a fome que nos deu.
 
«Azuis», «vermelhos», digamos,
vinde cá, digo-vos eu,
vemos, ouvimos, ‘spiamos,
pois quem fala não morreu.
 
Só na tua solidão,
no ermo pardo que tiveres,
estás só, não há bustos, não
há diálogo nem mulheres,
 
e já quase escolhos toca,
e é bem fraco, o barco teu –
vinde cá, abri a boca,
pois quem fala não morreu.
 
 
 
gottfried benn
50 poemas
tradução vasco graça moura
relógio d’água
1998




06 outubro 2026

joão miguel fernandes jorge / um dia resta uma paisagem

  
 
Um dia resta uma paisagem
 
sobre as dunas a asa da ave
 
sobre as ondas o remo do barco
 
a viagem do sol
a água azul sonora.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019





05 outubro 2026

fiama hasse pais brandão / no equinócio

 



 

Descendo, recomeça a olhar-se o sol
com as pálpebras
no equinócio, e pensa-se:
este lugar é firme tem colunas
de árvores
– muda-se o nome:
não é declive é o nível
todo liso do horizonte.
 
Muda-se o passo; o ócio
de quantas pedras estáveis tem a estrada,
de o monte
estar coberto de luz própria.
 
Agora tem-se próximo
o mínimo ser vivo:
o insecto descoberto sob a pedra
na humidade. Vê-se o caos:
a pedra muda-se, mostra
a sua face frígida,
a terra aí é secura
e tem inúmeros vermes desfazendo-a.
 
 
 
fiama hasse pais brandão
o texto de João zorro
o ar os tectos
editorial inova
1974





04 outubro 2026

Isabel de sá / prova de amor

  
 
Atingido por uma motivação avassaladora o poeta persegue o ofício. Surpreender-se com um olhar, uma palavra, escrever o poema que será a prova de amor sem cair no ridículo, não conseguir cortar o fio do imaginário.
 
Por que não resiste o poeta à beleza, eis a interrogação primeira
 
 
 
isabel de sá
semente em solo adverso (poesia reunida)
em nome do corpo (1985)
officium lectionis edições
2022