20 outubro 2026

eva gerlach / dos seus mínimos vestidos

 


 

 
Dos seus mínimos vestidos vejo-a levitar
muito por cima do horizonte.
Prende as árvores como se fossem molas de roupa,
as terras e os prados caem com a corda
em finas dobras nos meus olhos.
 
Enquanto imóvel a vejo desaparecer,
por entre nuvens recolho os secos
campos nos meus braços, para os separar.
 
 
 
eva  gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994
 




19 outubro 2026

fernando pinto do amaral / sete degraus para a escada de jacob

  
 
3
 
«Tudo consigo arrasta o ano breve»
em doces labaredas. Cada dia
uma talvez-infância recuperando
as ilusões dos deuses, o enigma
de sermos sem fonteiras. Sonolentos,
abrimos cem caminhos, cremos nosso
o verde ainda húmido nas folhas,
o rápido cenário que nos leva
em troca de palavras, hesitantes
irmãos de toda a sombra, repetindo
o mais secreto nome. Quem engana
o vento pelas ruas?, quem semeia
segredos rente às horas vegetais
enquanto a chuva próxima dissolve
a cor de cada rosto? Vai ser noite
pra muita gente igual, um só momento
de responder ao céu. Como sabemos,
a terra fala em gritos inesperados
e o coração foge, não adianta:
as memórias apagam-se, ninguém
capaz de renascer-me. Ao som dos cães
volteiam os morcegos – como eu,
são náufragos de luzes invisíveis
cercando a madrugada, o seu desejo,
a sua amarga sede, o puro álcool
de tão cruel beleza! assim voltamos
ao fogo de mil sóis, assim revemos
o tempo e seus inúmeros perfis,
invulneráveis olhos sem sentidos
e a máquina das vozes orquestrando
felizes brownianos movimentos
de todo o quase-nada respirando
connosco, sem razão. As bocas ardem
na íntima loucura de sentirem
mover-se o labirinto, mas o fumo
dissipa as vãs auréolas, anuncia
a mão que escreve, o sangue, a boca anónima
guiando-nos a vida: «um pobre rio
que negro mar com altas ondas bebe.»
 
 
 
fernando pinto do amaral
sete degraus para escada de jacob
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000



18 outubro 2026

sebastião belfort cerqueira / vento

  
 
Já ninguém ouve o vento
Mas se ouvisse
O que é que nos salvava
Se um só vento forte
Se o mesmo vento norte
Varresse o vale de vida
E nos mentisse?
 
 
 
sebastião belfort cerqueira
está um dia lindo
edições sempre-em-pé
2021
 


17 outubro 2026

josé carlos barros / as primeiras coisas

  
 
Em seu redor tudo era como se começasse
sempre. Chegava habitando um ar onde
as abelhas pela tarde entravam já
exaustas do seu exame de pólen, e abria
as mãos até que a noite adormecesse
nas suas margens fatigadas. Quem aprendeu
com a madrugada a subir os degraus do
mundo, talvez uma ou outra vez com ela
e seu comum de amor ousasse repetir as
duas ou três sílabas da alegria frágil
dos vidoeiros, o pólen ainda luzindo
nos lábios, à beira do rio. Mas eu
falava era dos seus olhos, das suas pálpebras
inexperientes em respirar com a água.
 
 
 
josé carlos barros
estação
on y va
2020
 



16 outubro 2026

joaquim manuel magalhães / desciam pela rua de asfalto esburacado

  
 
Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com faltas de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.
 
Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.
 
O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.
 
Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
6x14 aos da educação
os dias, pequenos charcos
editorial presença
1981




 

15 outubro 2026

joão habitualmente / metropolitano

  
 
na paragem do metro
à mesma hora
ao mesmo bocejo
os mesmos corpos
a mesma gente
a mesma viagem
a mesma janela para os sítios repetidos
pirilampos no túnel
destino retilíneo
metro a metro
 
onde não passam as estações
 
 
joão habitualmente
um dia tudo isto será meu
(uma antologia)
porto editora
2019




14 outubro 2026

josé miguel silva / enfim


 

Essa cara cor de beco sem saída,
sorriso de apagar quarenta velas,
o nariz em agonia – não te canses.
A justiça, o remoinho da beleza,
a liberdade são paixões impopulares,
desaprovadas pela gorda humanidade.
 
Já sabias. Não te queixes. Colhe as favas,
as medonhas, do momento. Podes sempre
cozinhá-las com temperos escolhidos.
Sabe a pouco? Paciência. Satisfaz-te
com a fomes e compreende: o proveito
do banquete é estudar os comensais.
 
 
 
josé miguel silva
erros individuais
relógio d´água
2010





 

13 outubro 2026

antónio franco alexandre / duende

  
 
7.

Choro por ti, interminavelmente.
Sem poesia alguma, será que assim fico
mais feminino, diz? Na aula de boxe
hei-de esmagar um crânio, e levantá-lo
num plinto de cristal sobre esta cama
onde esqueci o clube a que pertenço.
Que farei eu, se me acontece
amor sem corpo ao corpo atravessado
e, contra tudo, quero o que não sou?
Também tu és criança, mulher, homem,
bicho tardio que me consome o rosto,
misturado comigo é quando existes.
Já de olhos secos me vesti de tudo,
até quando quiseres que seja nada.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002





 

12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

11 outubro 2026

natália correia / o livro dos amantes

  
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
 
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
 
 
 
natália correia
poemas
antologia poética
dom quixote
2018




10 outubro 2026

maria do rosário pedreira / este foi o nosso último abraço

  
 
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
 
 
 
maria do rosário pedreira
o canto do vento nos ciprestes
gótica
2001




 

09 outubro 2026

louise glück / o poder de circe

  
 
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
 
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
 
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
 
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
 
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
 
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
 
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
 
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
 
podia ter-te aprisionado.
 
 
 
louise glück
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
tradução de José alberto oliveira
assírio & alvim
2001




08 outubro 2026

jorge luís borges / o cúmplice

  
 
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998