24 junho 2026

eugénio de andrade / passeio alegre

  
 
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis – assim nuas.
 
 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 




23 junho 2026

vasco graça moura / romance do passeio alegre

  
 
as résteas do sol morrendo
por sobre os renques de espuma
 
nos mirantes da foz velha
e no granito das ruas
 
nas árvores recortadas
a negro em finas nervuras
 
alinhando no silêncio
suas rendas pontiagudas
 
na volta das lavadeiras
cantando uma leve música
 
e no cabelo ardendo
com sua areia insegura
 
no vento feito de nada
no coração que sussurra
 
quando as crianças regressam
da escola duas a duas
 
e há-de no passeio alegre
perpassar coisa nenhuma
 
e os teus olhos recolhendo
grãos doirados de penumbra
 
que hão-de misturar à noite
com a água azul da lua
 
enquanto pousam gaivotas
sobre as barcaças escuras
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 




22 junho 2026

ruy belo / a autêntica estação

  
 
É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação
 
 
 
ruy belo
todos os poemas I
verão
assírio & alvim
2004





21 junho 2026

luís miguel nava / atrás da página

  
 
As mãos no poema, pelas páginas
acima escoam-se os espelhos, a trovoada
vermelha emerge das imagens. A trovoada
redonda. Uma revoada
de espelhos é a alba, há poços nos espelhos
onde a nudez
se precipita, a luz mordendo a água.
 
Do poema vêem-se as trovoadas
imóveis
atrás da página, as imagens,
da alba, as dum rapaz arriando a noite, os astros
a afluírem-lhe aos cabelos. Vêem-se
à tona da trovoada os lenços
caindo na manhã, com as veias do rapaz
as desta a confundirem-se, depois
os poços da nudez abertos pelos astros.
 
Esse rapaz as suas próprias veias
o amarram à manhã.
Não me olhar ele ateia-me. Pequenos
incêndios, os da abóbada
do poema, arrancam-lhe a nudez.
Está alguém ao poema como a um espelho.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 




20 junho 2026

nuno júdice / poema

  
 
Com o vento do norte,
as cigarras não cantam.
 
De noite, é como se nos falassem
de dentro dos arbustos:
 
vozes que o dia rejeita,
frases vestidas de terra.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997
 



19 junho 2026

yves bonnefoy / a árvore, a lâmpada

 



 

 

A árvore envelhece na árvore, é o verão.
A ave supera o canto da ave e evade-se.
O vermelho do vestido ilumina e dispersa
Longe, no céu, a carroça da dor antiga.
 
Oh frágil país,
Como a chama de uma lâmpada que se transporta,
Estando próximo o sono na seiva do mundo,
Simples o batimento da alma partilhada.
 
Também tu amas o instante em que a luz das lâmpadas
Se descora e sonha durante o dia.
Tu sabes que é a obscuridade do teu coração que cura.
A barca que alcança a margem e cai.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
pedra escrita (1965)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026
 


18 junho 2026

rené char / a ordem legítima é por vezes desumana

  
 
Àqueles que partilham as suas lembranças,
Repreende-os a solidão, imediatamente impondo o silêncio.
A erva que os acaricia brota com a sua fidelidade.
 
Que dizias? Falavas-me de um amor tão distante
Que remontava à tua infância.
Tantos estratagemas empregues pela memória!
 
 
 
rené char
furor e mistério
os leais adversários
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000




17 junho 2026

maria gabriela llansol / LXXIV. de que falava?

  
 
Carta:
«lendo, não se sabe de que se fala. Mas, demorando a ler, verifica que se lê. E o que não se aprende directamente, sente-se no fulgor que emana do sentido do sentimento.
          Sensualmente, a inteligência vai buscar o seu referente. O fulgor oscilante da leitura
que é o verso e reverso deste enigma sem nenhum mistério contundente».
 
 
 
maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & alvim
2006



 

16 junho 2026

vergílio ferreira / a hora do fim

  
 
249 – A hora do fim. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Intriga-me, não me aflige muito. É o meu modo de subir um pouco acima do vulgar, de mim, para quem dói muito e intriga pouco. Coisas, lugares, mesmo afectos, a partir de certa idade não pertencem ao real mas à memória, onde o seu destino é já o de cada um. Há todavia um desespero manso em nós que é o de não termos realizado não bem o que se diz ser-nos o «sonho», porque ter um «sonho» é já saber o que é, mas o que trouxesse a paz de termos esgotado todo o possível o que em nós quer responder a uma voz incerta que nos fala e não conseguimos ouvir, que fala mas não sabemos de quê. Tenho em mim mais possibilidades do que todas as realizações que realizasse. Mas o mais insuportável é que essas realizações deixem as possibilidades absolutamente intactas. Como o fígado de Prometeu, reconstituem-se logo que se efectivam numa realização. Como o ventre de uma mulher que fica inteiro para outro filho. Uma realização existe em si e portanto não existe na possibilidade que se é. E é o que levaremos para a morte, essa falha enorme do nosso impossível. E é o que mais dói aos avisos do fim – esta absoluta nulidade do que fiz e a alucinação de fazer, antes que a hora chegue.



vergílio ferreira
pensar
bertrand editora
2004




15 junho 2026

samuel beckett / desistir, mas eu já desisti de tudo

 


 

X
 
Desistir, mas eu já desisti de tudo, não é coisa recente, eu não sou recente. Portanto, houve uma vez alguma coisa. Vamos acreditar que sim, mas saber que não, nunca houve nada, a não ser a desistência. Já que se falou em desistir fala-se em desistência, sem pensar. Mas admitamos que não, ou seja admitamos que sim, que houve uma vez alguma coisa, numa cabeça, num coração, entre duas mãos, antes de tudo ser aberto, esvaziado, voltado a fechar, petrificado. E ficamos sossegados, depois de termos tido medo, e preparados para continuar, mais uma vez. Mas isso não é silêncio. Não, é algo que fala, alguém está a falar num sítio qualquer. Para não dizer nada, de acordo, mas será o suficiente para ter algum sentido? Já sei o que é, a cabeça está atrasada, em relação ao resto, e o seu ânus é a sua boca, ou então continua sozinha, continua sozinha a seguir as suas velhas pisadas, cagando a mesma merda velha e voltando a engoli-la, de novo presa nos beiços, como no tempo em que se julgava um naco de comida. Só que já não há prazer, nem apetite. E cá está, cá volta a estar, sem embustes, no meu activo o velho passado, nunca igual, mas terminado para sempre, para sempre prestes a terminar, e tudo o que ele comporta, de promessas para o amanhã, e de consolo no imediato. E estou de novo em boas mãos, as mãos amparam-me a cabeça, por detrás, pormenor curioso, como no barbeiro, e com os indicadores fecham-me os olhos, e com os médios as narinas, e com os polegares os ouvidos, mas pouco, para eu ouvir, mas pouco, e com os outros quatro mexem-me nos maxilares e na língua, para eu sufocar, mas pouco, e dizer, para meu bem, o que tenho de dizer, para meu bem futuro, ária conhecida, e nomeadamente neste momento que é apenas um mau momento a passar, um momento de trégua, que sem os maxilares e a língua poderia ser-me fatal, e que um dia saberei outra vez que fui, e mais ou menos quem, e como continuar, e falar sozinho, delicadamente, de mim, e dos meus pálidos semelhantes.
 
(…)
 
 
 
samuel beckett
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006



14 junho 2026

bernardo soares / à minha incapacidade de viver chamariam génio,

 

À minha incapacidade de viver chamariam [?] génio, à minha cobardia [...] requinte.

Pus-me a mim — Deus dourado com ouro falso —, num altar de papelão pintado para parecer mármore.
(...)
s.d.


fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.II
ática
1982





13 junho 2026

álvaro de campos / ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!

 
 
Ah, os primeiros minutos nos cafés de novas cidades!
A chegada pela manhã a cais ou a gares
Cheios de um silêncio repousado e claro!
Os primeiros passantes nas ruas das cidades a que se chega...
E o som especial que o correr das horas tem nas viagens...
 
Os ónibus ou os eléctricos ou os automóveis...
O novo aspecto das ruas de novas terras...
A paz que parecem ter para a nossa dor
O bulício alegre para a nossa tristeza
A falta de monotonia para o nosso coração cansado!...
As praças nitidamente quadradas e grandes,
As ruas com as casas que se aproximam ao fim,
As ruas transversais revelando súbitos interesses,
E através disto tudo, como uma coisa que inunda e nunca transborda,
O movimento, o movimento
Rápida coisa colorida e humana que passa e fica...
 
Os portos com navios parados.
Excessivamente navios parados,
Com barcos pequenos ao pé esperando...
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993 




12 junho 2026

cesário verde / manhãs brumosas

  
 
Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época e banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
 
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
 
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
 
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024