E eu que já fui
a infância benigna,
o pão com
geleia, a cara lavada,
o jovem galante
de ganga feliz,
semi-penteado,
tonto de Maio,
perdi-me em
desvãos que não quero lembrar,
por uma doença
chamada senão
e tudo cedi,
raízes e ramos,
como se a nada
pudesse falar.
Passaram os anos
mas não a tristeza,
passaram os
golpes, não o cuidado.
Praias de
brita, rios de breu.
Por pouco não
tive que me chatear.
Cheguei até
aqui com a falta de dentes,
ombros de sal,
futuro fanado,
e mesmo se isto
parece um lamento,
de nada me
queixo – sobrevivi.
Amigos alguns,
mortos também,
versos de vidro
ferindo-me os pés,
os olhos
amados, a sorte no corpo.
O resto é
ruído, inferno de sobra.
Com quatro
cadeiras e um lenço na mão,
já faço um
batel para as ondas levarem.
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014