03 abril 2026

fernando pinto do amaral / piazza governo

  
 
Alguém tão parecido contigo. Porquê
sentar-me ali à espera que brilhasses
por interposta imagem? Não se sabe
onde começa exactamente um corpo. A água
irrompia, branquíssima de espuma,
e era ela a hipnotizar-me,
irreal e real
como a própria cidade a que chamaram
«zona de guerra» - ainda hoje lá estão
os três castelos entre ruas, praças
e essa mesma fonte: uma foca de pedra
acesa pela noite, olhando o céu,
as ingratas estrelas de setembro.
 
 
 
fernando pinto do amaral
amor hereos
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000




02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




01 abril 2026

eloy sánchez rosillo / a casa vazia



 

 
     Abre a porta e acende a luz.
                                              É muito tarde
E sabe que ninguém o espera em sua casa.
                                                               Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
                              Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
                                     Depois, ouve
enfadado uma música.
                                 Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
                             Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
 
 
 
eloy sánchez rosillo
as coisas como foram
trad. josé bento
assírio & alvim
2004
 


 


31 março 2026

rui caeiro / mas principalmente

  
 
Mas principalmente não cobiçar nada, nem sequer a paz. E à falta de melhor, viver de inquietação. Que paz seria essa afinal, a deste ou daquele?
Porque em matéria de paz, só vale a que for de ninguém, a maior de todas. Sem uma única pomba a voar no céu. A doce paz dos grandes naufrágios.
 
 
 
rui caeiro
sobre a nossa morte bem muito obrigado
baba de caracol
maldoror
2019





30 março 2026

rui coias / a função do geógrafo




 
 
2.
 
Poderás afirmar,
passageiro há muito conhecido,
que o decorrer dos anos não te enganou?
Não reparaste nas zonas extintas por que
passámos, com suas estátuas sereníssimas,
e os casais fingindo-se dormitar ao sol?
Vê como já não falam e balançam os braços
como quando davam passeios nos parques,
decifrando a botânica,
regressando depois a casa demoradamente.
Será simples e calada assim a morte – e
que só é ordenado que afaguemos, após o labor,
os cabelos escorridos de nós mesmos
como a nossos pais?
E assim nos amemos nas
cidades desfeitas
arrependidos de não ouvirmos quem nos avisou?
 
 
 
rui coias
a função do geógrafo
quasi edições
2000
 
 
 
 

29 março 2026

rui knopfli / café de penumbra

  
 
Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.
 
Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.
 
Na mesa dos fundos, sob o claro
Quadrilátero da janela – e para nossa
edificação – um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.
 
 
 
rui knopfli
roteiro
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional -casa da moeda
1982
 



28 março 2026

rui lage / corvo

  
 
Poderás ralhar nevermore
nos umbrais da poesia
cobiçar a capoeira
ao galo a cantar pelo menos
desde as cantigas de amigo:
de ti os vindouros sem penas
farão arroz de cabidela
ou quem sabe torpe gralha,
de corvo corruptela.
 
De ruínas farás sempre
uma torre habitada,
viela, balcão, taberna assombrada
inútil protesto
de utilíssimo nada.
 
 
 
rui lage
corvo
quasi
2008
 




27 março 2026

rui nunes / vésperas da guerra

  
 
a pena desenhou os cavaleiros e simulou
a paz do seu afastamento. Na mesa, o herbário
mostra a corriola; do claustro vem o movimento
da roldana, o som dos pingos de água
a caírem no poço. Esta é uma sede amável:
os lábios entreabrem-se ao sorriso e alguém diz:
a guerra escreve-se
escreve-se o nome de Deus
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



26 março 2026

jorge reis-sá / vou para casa, mãe

 



 
Vou para casa, mãe. As ramadas estão à espera
dos meus passos. Sei que me aguardas entre o tanque
e a roupa que entardece ao secar – o sol a expirar
 
 
e a dizer: vou para casa.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008



25 março 2026

joaquim pessoa / apenas caminhar

  
 
Morder este frio passar esta tarde
com os dentes cerrados corpo mudo.
Pisar um chão de cores arrumadas
entre o fácil calcário dos lancis.
 
Resvalar pelo tempo arremessado
contra a dura fronteira destes passos
e levar um outro livro sob o braço
repetindo até ao sangue outras palavras.
 
 
 
joaquim pessoa
125 poemas
antologia poética
litexa
1982




24 março 2026

gonçalo m. tavares / a guerra

  

O zero entre os números, é de longe o mais estável;
no entanto, o mundo prossegue.
Como o fim de uma coisa, de um objecto
ou de uma guerra: os homens querem esquecer e
não têm projectos: limpam o sangue de cada fio de erva
como as empregadas domésticas dedicadas
fazem ao pó dos seus livros.
Mas ninguém é tão paciente ou corajoso que consiga
Limpar ao pormenor os mortos e os seus vestígios no espaço.
Ficam sempre coisas, mudas e ruidosas,
que testemunham um peso. Ali, a vida foi violenta demais
para a carregares: eis uma descrição possível
para o abandono da mulher que amas.
Como vês nem sempre a causa é a traição habitual: por vezes
os homens chegam tarde à esposa
porque morreram numa batalha. Se ligares a televisão
ainda vais a tempo de escutar
os comentários de um general que estudou em Londres
                    e é muito inteligente.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 

23 março 2026

antónio josé forte / este cérebro…

  
 
Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar
 
 
 
antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003




22 março 2026

nuno júdice / o lugar das coisas

 
 
 
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
 
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
 
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
 
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
 
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
 
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele e as possamos ver nos seus lugares.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024