Se a água não
ficar negra,
O prazer de nos
lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos,
ensaboando-se bem.
Ao mesmo tempo
Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a
contorcer-se na cruz
Como numa cama
de insónias.
Forçado a beber
veneno,
Forçado a
morrer,
Forçado a
ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir
aos céus.
Ao mesmo tempo
a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são
escavacadas;
Pelas fissuras
entre as raças
Sai um fumo
sufocante,
Esvoaça a
pólvora do canhão,
Escória de
radiações que anunciam
A alvorada do
novo mundo.
Por fim
A água escorre
cada vez mais suja,
A história
segue o seu curso,
E com um prazer
cada vez maior
Pôncio Pilatos
continua a lavar
As mãos.
marin sorescu
simetria
tradução
colectiva revista, completada e apresentada
por egito
gonçalves
poetas em
mateus
quetzal
1997