30 abril 2026

jack gilbert / o vale abandonado

  
 
Sabes o que é estar sozinho por tanto tempo
que sais a meio da noite
e enfias o balde no poço
só para sentires algo lá em baixo
a puxar a outra ponta da corda?
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




29 abril 2026

paul éluard / enterrar y callar

  
 
Irmãos esta aurora é vossa
Esta aurora à flor da terra
É a vossa derradeira aurora
Deitastes-vos nela
Irmãos esta aurora é nossa
Sobre este abismo de dor
 
E de cor e de cólera
Irmãos convosco contamos
Nós queremos eternizar
Essa aurora que partilha
A vossa sepultura preta e branca
A esperança e a desesperança
 
O ódio saindo da terra
E combatendo pelo amor
O ódio na poeira
Tendo satisfeito o amor
O amor brilhando em pleno dia
Sempre vive a esperança em terra.
 
 
 
paul éluard
a cama a mesa
tradução de luís lima
barco bêbado
2021




28 abril 2026

heiner müller / vaso coronário

  
 
O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes
 
 
 
heiner müller
poemas (1949-1995)
trad. adolfo luxúria canibal
oficina noctua
2021




 

27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




26 abril 2026

miguel-manso / campéstico, paisagens e interiores

  
40
 
escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais
 
não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer
 
corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer
 
 
miguel-manso
persianas
tinta da china
2015
 



25 abril 2026

jorge de sena / «quem a tem…»



 

 
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
 
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
 
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade
 
 
 
jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







 

24 abril 2026

josé carlos ary dos santos / retrato do herói

  
 
Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar     de morte certa.
 
Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome     fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica aberta.
 
Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo     nem mártir     nem soldado
Mas apenas     por último     indefeso.
 
Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro     e fica ileso
pois lutando apagado     morre aceso.
 
 
 
ary dos santos
fotos-grafias (1970)
ary, obra poética
edições avante!
2017





 

23 abril 2026

mário-henrique leiria / última solidão

  
  
 
distante
mais distante
que a nuvem mais remota
está agora
a tua voz amor
a tua voz que um dia
um dia que já esqueceste
me falou de nós
me disse que seríamos
só um
que seríamos para sempre
como o dia e o sol
agora amor
exactamente neste momento
perdido na noite solitária
oiço apenas o eco
do que disseste
recordando a luz perdida
dos teus olhos
enquanto meus lábios
sangram
amargos
ouve amor
ouve em silêncio
este último grito
que
como um sonho perdido
vai desaparecendo ao longe
pela noite
pela solidão
ouve-o amor
ouve-o em silêncio
nunca o esqueças
com ele vão os meus olhos
com ele vai a recordação
das minhas mãos
que uma vez
foram tuas
ouve-o amor
ouve-o em silêncio…
 
 
 
mário-henrique leiria
obras completas
poesia
e-primatur
2018
 



22 abril 2026

konstantinos kaváfis / o deus abandona antónio

  
 
Se, abruptamente, à meia-noite ouvires
um tíaso invisível a passar,
com músicas divinas e algazarra –
a tua fraca sorte, as tuas obras
frustradas, os teus planos que afinal
eram miragens, não os lamentes em vão.
Como se há muito pronto, como um bravo,
despede-te da Alexandria que te foge.
E, sobretudo, não te enganes, e não digas
que te mente o ouvido; não consintas
albergar essas ocas esperanças.
Como se há muito pronto, como um bravo,
como cabe a quem merece tal cidade,
vai, chega-te à janela resoluto
e ouve com emoção, mas não com
os prantos e protestos cobardes,
num último deleite, os sons lá fora,
a divina toada do cortejo oculto e
diz adeus à Alexandria que vais perder.
 
1911
 
 
 
konstantinos kaváfis
konstantino kaváfis, 145 poemas
tradução de manuel resende
flop livros
2017




21 abril 2026

juan luis panero / mensagem de cleópatra a antónio

  
 
            II
 
Não teças louvores à minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelas costas,
faz-me sentir a vida na cintura
e que, enlaçados, o teu corpo e o meu
possam deter a fúria atroz do tempo.
Mas, se chegar um dia em que o tempo nos alcance,
não te lamentes, estúpido bêbado,
e cai com coragem – Kavafis já o escreveu –
nesse poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003
 

20 abril 2026

juan luis panero / mensagem de antónio a cleópatra

  
 
            I
 
Outros teçam louvores
à tua adormecida beleza,
à suavidade da tua pele em repouso,
à medida perfeição dos teus membros.
Eu não vim a isso,
vim apenas para te penetrar
pelo peito e pelas costas,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se afunda e se perde
no poço sombrio.
 
 
 
juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003




19 abril 2026

marin sorescu / se a água não ficar negra




 

 

Se a água não ficar negra,
O prazer de nos lavarmos
É igual a nada,
Disse Pilatos, ensaboando-se bem.
 
Ao mesmo tempo Jesus é escarnecido,
Crucificado,
Forçado a contorcer-se na cruz
Como numa cama de insónias.
 
Forçado a beber veneno,
Forçado a morrer,
Forçado a ressuscitar ao terceiro dia,
Forçado a subir aos céus.
 
Ao mesmo tempo a cruz é lançada ao fogo,
As cruzadas são escavacadas;
Pelas fissuras entre as raças
Sai um fumo sufocante,
Esvoaça a pólvora do canhão,
Escória de radiações que anunciam
A alvorada do novo mundo.
 
Por fim
A água escorre cada vez mais suja,
A história segue o seu curso,
E com um prazer cada vez maior
Pôncio Pilatos continua a lavar
As mãos.
 
 
 
marin sorescu
simetria
tradução colectiva revista, completada e apresentada
por egito gonçalves
poetas em mateus
quetzal
1997
 


 

18 abril 2026

maria do rosário pedreira / bárbaros

  
 
Vinham de longe, arrastados pelos ventos, e escondiam
nas mãos um punhado de areia fina para não esquecerem
o cheiro dos desertos. Subiram à montanha e,
com um ramo quebrado, puseram-se a riscar o contorno
do lago e os caminhos tortuosos das primeiras margens.
A água fascinava-os, como aos cavalos que traziam
alados e sem crinas para chegarem mais cedo.
 
Nessa noite acamparam no vale. Assaram um veado. Beberam
ás mulheres que haveriam de ter. e adormeceram
mais longe do céu.
 
Sonharam com o fogo para não terem de cortar o trigo.
 
De manhã, a planície estava ainda mais plana.
 
 
 
maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002