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«Tudo consigo
arrasta o ano breve»
em doces
labaredas. Cada dia
uma
talvez-infância recuperando
as ilusões dos
deuses, o enigma
de sermos sem
fonteiras. Sonolentos,
abrimos cem
caminhos, cremos nosso
o verde ainda
húmido nas folhas,
o rápido
cenário que nos leva
em troca de
palavras, hesitantes
irmãos de toda
a sombra, repetindo
o mais secreto
nome. Quem engana
o vento pelas
ruas?, quem semeia
segredos rente
às horas vegetais
enquanto a
chuva próxima dissolve
a cor de cada
rosto? Vai ser noite
pra muita gente
igual, um só momento
de responder ao
céu. Como sabemos,
a terra fala em
gritos inesperados
e o coração
foge, não adianta:
as memórias
apagam-se, ninguém
capaz de
renascer-me. Ao som dos cães
volteiam os
morcegos – como eu,
são náufragos
de luzes invisíveis
cercando a
madrugada, o seu desejo,
a sua amarga
sede, o puro álcool
de tão cruel
beleza! assim voltamos
ao fogo de mil
sóis, assim revemos
o tempo e seus
inúmeros perfis,
invulneráveis
olhos sem sentidos
e a máquina das
vozes orquestrando
felizes
brownianos movimentos
de todo o
quase-nada respirando
connosco, sem
razão. As bocas ardem
na íntima
loucura de sentirem
mover-se o
labirinto, mas o fumo
dissipa as vãs
auréolas, anuncia
a mão que
escreve, o sangue, a boca anónima
guiando-nos a
vida: «um pobre rio
que negro mar
com altas ondas bebe.»
fernando pinto do amaral
sete degraus para escada de jacob
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000