22 julho 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
8
 
envolver-me na mais obscura solidão das searas e gemer
amassar com os dentes uma morte íntima
durante a sonolência balbuciante das papoulas prolongar
a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer
 
colher em teu sexo o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos… as bocas
do gado triturando o restolho… as correrias inesperadas
das aves rasteiras
 
e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca
subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 


21 julho 2026

antónio dacosta / no meio das águas

  
 
NO MEIO das águas está a fresca ilha
Onde do leite de sereia mamaste
No seio daquela que de lá o trouxe
 
Pobre de ti das praias ardentes esquecido
Da Dinamarca te elegeste príncipe
Do veneno bebeste quanto restou
Na corte onde Ofélia amou
 
Da janela do teu bairro com quiosque
De alma aos pés e pénis na mão
Pensaste o ser e não ser de outros que ti
 
E se da ilha só sargaços Circe te deu
Na outra de Próspero foste o grande amigo
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994




20 julho 2026

antónio franco alexandre / segundas moradas

  
 
1
 
ligeiramente suspenso, pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chão, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
 
mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!
 
as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
 
 
 
antónio franco alexandre
segundas moradas
poemas
assírio & alvim
1996
 


19 julho 2026

cesare pavese / és a terra e a morte

  
 
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã.
 
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
 
             3 de Dezembro de 1945
 
 
 
cesare pavese
virá a morte e terá os teus olhos (11 Março-11 Abril, 1950)
virá a morte e terá os teus olhos
trad. rui caeiro
edições do saguão
2021
 




18 julho 2026

charles bukowski / a zona de pausa

  
 
tens de a ter, caso contrário, as paredes
cercar-te-ão.
tens de desistir de tudo, deitar
fora, deitar tudo fora.
tens de olhar para o que estás a olhar
ou pensar no que estás a pensar
ou fazer o que está a fazer
ou
a não fazer
sem considerar proveito
pessoal
sem aceitar orientação.
 
as pessoas estão consumidas com
o esforço,
escondem-se em hábitos
comuns.
as suas preocupações são preocupações de
manada.
 
poucos têm capacidade de olhar
para um sapato velho durante
dez minutos
ou de pensar em coisas estranhas
como: quem é que inventou
a maçaneta?
 
tornam-se desvivas
por serem incapazes de fazer
uma pausa
de se desarmarem
de se desdobrarem
de desverem
de desaprenderem
de se exporem.
 
escuta o seu riso
falso, depois
vai-te
embora.
 
 
 
charles bukowsky
os cães ladram facas
trad. rosalina marshall
alfaguara
2018




17 julho 2026

léo ferré / os bichos enfim desenfreados

  
 
 
    Os bichos enfim desenfreados
    A prioridade à Esquerda, com licença!
 
    Já não morreremos de nada
    Viveremos de tudo
 
    E os micróbios da estupidez que não tereis deixado de
nos legar, erguendo-se
    Das vossas estrumeiras
    Dos vossos livros armazenados nas vossas silotecas
    Dos vossos documentos públicos
    Dos vossos regulamentos de administração penitenciária
    Dos vossos decretos
    Até das vossas orações,
    Todos esses micróbios jurídico-pantufas
    Ficai tranquilos
    Teremos já as máquinas para os revogar
 
    TEREMOS TUDO
 
    Daqui a dez mil anos
 
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017




16 julho 2026

leonard cohen / corrente

  
 
Saí uma destas noites
Com a maré vazia
E sinais no céu
Mas mal sabia eu
Que seria apanhado
Pela força da corrente
 
E largado numa praia
Aonde o mar odeia ir
Com uma criança nos braços
Um calafrio na alma
E o coração em forma
De tigela de pedinte



leonard cohen
a chama
poemas
tradução de inês dias
relógio d´agua
2019




15 julho 2026

bob dylan / não penses duas vezes, está bem assim

  
 
É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
 
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008
 



14 julho 2026

laurie anderson / andar & cair

  
 
Eu queria-te. E andava à tua procura.
Mas não conseguia encontrar-te.
Eu queria-te. E procurava-te todo o dia.
Mas não conseguia encontrar-te. Não conseguia encontrar-te.
 
Vais a andar. E nem sempre dás por isso
Mas estás sempre a cair.
A cada passo cais um pouco para a frente
E logo suspendes a queda num instante.
Uma e outra vez tu cais
E logo suspendes a queda num instante.
É desse modo que consegues andar e cair ao mesmo tempo.
 
 
 
laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997



13 julho 2026

till lindemann / só que

  
 
O que se perde
num piscar de olhos?
O momento?
Muitos perdem o tempo
Alguns, a consciência
A maioria, a vida
 
 
 
till lindemann
nas noites tranquilas
trad. pedro garcia rosado
alma mater
2018
 



12 julho 2026

rui nunes / vésperas palestinas

  
 
nestes lugares que rodeiam a cidade
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira:
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
 
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



11 julho 2026

jorge velhote / fria é a água na escuridão

  
 
.4.
 
Quando amanhece é veloz o frio azul
 
das lágrimas a paixão fareja ainda
 
os lábios e os dedos –
 
ferve na humidade arrastada
 
da respiração um resto de vinho
 
uma canção ardendo na memória – assim
 
sem destino são os teus passos
 
como despidos são no inverno
 
os ramos ou fria é a água
 
na escuridão.
 
 
 
jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018




 

10 julho 2026

jorge reis-sá / o quarto

  
 
Também aqui o tempo passou. A janela aberta trouxe o bosque
para a colcha, entre os lençóis há agora bichos-de-conta dizendo
da sua intimidade. As aranhas relatam as teias em paciência.
 
E um pequeno mamífero escolheu a mesinha de cabeceira para respirar.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008