Quase todas as
vivas pétalas do girassol
tinham caído,
então arranquei as poucas
que faltavam e
encontrei-me
com uma nova
flor: o centro,
redonda
almofada escura
da cor de café
torrado, tocada de inúmeras
ínfimas
florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e
brilhante amarelo,
e à volta um
verde anel, as pétalas
por sob as
pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a
forma de chamas sagradas
as folhas de
figueira dos pagodes,
forma lúdica,
jubilante
(subestimada em
padrões Paisley)
e a luz vindo
por entre elas, de modo que
quando, em dupla
ou tripla fila, como um grupo
de anjos da
Renascença, se sobrepunham,
havia sombra,
um tom mais denso
do mesmo verde
de rebentos – uma nova flor
neste dia de
outono, revelada
no outono da
sua própria floração.
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia
c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021