27 fevereiro 2026

daniel faria / a criança fecha os olhos no muro

  
 
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
 
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
 
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
 
 
 
daniel faria
poesia
das inúmeras águas
quasi
2003




 

26 fevereiro 2026

fiama hasse pais brandão / ermo

  
 
Esta onda recua deixando-me
presa ao mar pelo cheiro das marés.
Sentir como um elemento natural
se junta a outro numa só imagem.
Correr pelo declive atrás dos pequenos rolos
de espuma infantil e subir
como que empurrada pela leveza.
Ter surpresa e terror
e ontologicamente transformá-los um dia
numa erma visão, essência do verso.
 
 
fiama hasse pais brandão
eremitério
obra breve, poesia reunida
assírio & alvim
2017



25 fevereiro 2026

fernando alves dos santos / irmão

  
De Espanha me chama meu irmão,
chamamento andaluz
que vem de Leão.
 
A voz aranha do meu quintal
se enleia esbelta
no frágil pardal.
 
Baixelas de prata da solidão
das margens do rio onde sou delta
e sou irmão.
 
 
 
fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005
 



24 fevereiro 2026

henrique risques pereira / o tempo passa rápido

  
 
O tempo passa rápido entre as coisas não esquecidas
e tudo volta ao sonho que está ao meu lado
sombra maligna que se espalha por galáxias distantes
estranhos espaços
cores esvoaçantes
tudo impreciso
suspenso
sem memória
sem vida.
 
 
 
henrique risques pereira
transparência do tempo
(poesia)
edição de perfecto e. cuadrado
quasi
2003




23 fevereiro 2026

fátima maldonado / nocturno

  
 
Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, as folgas da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes,
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
 
 
 
fátima maldonado
os presságios
os encontros
editorial presença
1983
 




22 fevereiro 2026

álvaro de campos / quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?

  
 
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
 
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.
 
Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?
 
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.
 
Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.
 
Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!
 
28-10-1924
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010