08 agosto 2026

paulo campos dos reis / as chávenas do meu tio agora são minhas

  

A minha mãe não as queria usar
porque são muito lindas
e podiam estragar-se na máquina
de lavar a loiça.
 
Fiquei com as chávenas do meu tio
mas lavo-as à mão com cautela.
 
A minha mãe deu-mas e não a quis decepcionar.
 
Com o uso imoderado, entretanto
porque são muito lindas
parti-as todas.
 
As chávenas do meu tio que
a minha mãe me deu.
 
Guardei os cacos num papel dobrado.
 
 
 
paulo campos dos reis
habilitações literárias
volta d´mar
2022
 



07 agosto 2026

emily dickinson / sem saber

  
 
Sem saber quando virá a Aurora,
Abro todas as Portas,
Ou terá Asas, como se fosse Pássaro,
Ou, como Praia, Vagas –
 
 
emily dickinson
duzentos poemas
trad. ana luísa amaral
relógio d´água
2014
 





06 agosto 2026

allen ginsberg / um asfódelo

 



 

 
Ó meu caro doce e rosado
                inalcançável desejo
… que triste, não há maneira
                de mudar o doido
asfódelo cultivado, a
                realidade visível…
 
e as pétalas espantosas
                da pele – o quanto me inspira
estar assim deitado na sala que vive
                de visitas é brio e nu
e sonhando, na ausência
                da electricidade…
vezes sem conta a comer a raiz baixa
                do asfódelo,
destino de cinza…
 
                rolando em ímpeto de geração
no sofá às flores
                como numa margem de Arden –
minha rosa hoje à noite tão só
                a prenda da minha própria nudez.
 
 
                                                        Outono, 1953
 
 
 
allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014



05 agosto 2026

antónio gancho / segunda

  
 
Por sobre a noite uma voz me preenche
e assim se dirige uma voz por sobre a noite
uma ausente luz desce, mexe e enche
o coração açoitado e onde o açoite
 
E é por sobre a noite que uma voz assim
e que assim dirigida se me a mim, se me a mim
e assim por sobre ausente uma desce e enche
luz que preenche o coração em açoite
 
E assim o poema e assim finalizado
e por sobre a noite ai uma luz a mim
e onde o açoite o coração açoitado
e é por sobre a noite que uma voz assim
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã (1960 - 1967)
o ar da manhã
assírio & alvim
1995




04 agosto 2026

eugénio de andrade / eu começara a ganhar raízes

  
 
Eu começara a ganhar raízes pelas barreiras. Ia aprendendo a conhecer os répteis pelo rumor. Quando o sol apertava, uma cobra azul, não, verde, não, azul, aproximava-se, os olhos cor de basalto. Ficava por ali a olhar-me, eu a olhá-la. Fascinados. Um dia não sei que me deu, corri atrás dela, entrou num buraco de silvas, ainda lhe acertei com a pedra, por momentos a cauda agitou-se crispada em convulsões, depois desapareceu, talvez lhe tivesse quebrado a espinha, nunca mais a vi. Era azul. Verde. Um braço de sol.
 
 
 
eugénio de andrade
limiar dos pássaros
limiar
1976
 


03 agosto 2026

federico garcia lorca / norma e paraíso dos negros





 
 
Odeiam a sombra do pássaro
na preia-mar da branca face
e o conflito de luz e vento
no salão da neve fria.
 
Odeiam a flecha sem corpo,
o lenço exacto da despedida,
a agulha que mantém pressão e rosa
no rubor gramíneo do sorriso.
 
Amam o azul deserto,
as vacilantes expressões bovinas,
a mentirosa luz dos pólos,
a dança curva das águas na margem.
 
Com a ciência do tronco e do ancinho
enchem o barro de nervos luminosos
e patinam lúbricos por águas e areais
provando o frescor amargo à sua saliva milenária.
 
É no azul crepitante,
azul sem nenhum verme nem pegada adormecida,
onde os ovos de avestruz são para sempre
e vagueiam intactas as chuvas bailarinas.
 
É no azul sem história,
azul de uma noite sem temor de dia,
azul onde a nudez do vento vai partindo
os camelos sonâmbulos das nuvens vazias.
 
É ali que os torsos sonham sob a gula da erva.
Ali os corais embebem o desespero da tinta,
os que dormem apagam o perfil sob a madeixa dos seus caracóis
e fica o espaço da dança sobre as derradeiras cinzas.
 
 
 
federico garcia lorca
nova iorque num poeta
trad. antónio moura
hiena editora
1995
 
 


02 agosto 2026

ricardo reis / prefiro rosas, meu amor, à pátria,

  
 
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
 
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
 
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
 
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
 
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
 
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
 
1-6-1916
 
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




01 agosto 2026

cesário verde / heroísmos

  
 
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
 
Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
 
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’ água quase assente,
 
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
 
                                                                                       Lisboa
                                          Porto, Diário da Tarde, 7 de fevereiro de 1874
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024




 

31 julho 2026

nuno guimarães / bergen-belsen

  
 
Abre-se alvorecida a chaga que nos toca
arde infindável como
se fruto acalentasse. Ou rio. Ou tocha
de cegueira.
Infindável como se
doesse à lage à superfície o corpo que lhe pesa
(linear)
morrendo.
 
 
 
nuno guimarães
o estio
entre sílabas e lavas
poesia completa
assírio & alvim
2024
 



30 julho 2026

rui diniz / lisboa

  
 
Nas sacadas das casas uma mulher
de febre degola outra mulher com
o som das persianas. A cidade cada
vez mais anoitece. Vende-se a noite.
Cais do Sodré, duas da manhã.
Nas janelas fechadas da beira do cais
uma mulher tece as desdémonas de sangue.
Há rixas mortais nas adegas.
E os copos de grossos bordos destilam
espesso vinho. Nas varandas de ferro
junto ao rio a mulher suicida-se.
Questão de um amor no corpo e
Uma doença no mar. Os barcos,
êxito haja, deflagram sua vela
rôta no mar, e abalam do
fétido porto, a caminho de voltar.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022




29 julho 2026

manuel de freitas / aurora(s)

  
«Era um cão com muita teoria»
– explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequentou a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja), juro) das paredes
ou dos dias – não há diferença.
 
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
– não é um verso, apenas um dado
Estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, com «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram – tanto faz.
 
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P’ra mim é tinto» – repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
 
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
 
 
 
manuel de freitas
[ sic ]
assírio & alvim
2002




28 julho 2026

manuel alegre / que somos nós

  
 
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
 
Que somos nós senão permanecemos
no por nós transformado em espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
 
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que
 
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
 
 
manuel alegre
o canto e as armas
centelha
1974
 



27 julho 2026

joão pedro grabato dias / a arca

  
CCXCVII
 
Se o teu chefe não for o mais humilde
no falar e na acção e no aceitar
da alheia fala e do agir alheio,
retira-lhe a chefia. Se ele não
souber pedir, não saberá, no
mando, ver e encontrar quem execute
alta ou baixa função. E se baseia
em pura força impura autoridade
é porque já, poedeira, agita a asa
e prepara a postura, o bocacú.
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
a arca, ode didáctica na primeira pessoa, 1971
tinta da china
2021