Jovens homens
belos – brasileiros, com
um capataz
grego de ar fúnebre – vieram
e rasparam cem
anos de tinta desta nossa
casa. Como método,
foi árduo,
bicadas a
cercarem o ar todo, raspando-me
também o
interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu
em madeira crua, de cor
mais loura do
que o esperado, morna
e vulnerável,
como uma mulher que viveu
cem anos em
branco de noiva e agora
está nua para
um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira
substância macia, o seu granulado
e matiz tão
carnais que vemos por fim que,
nestes anos
nossos, ela nos envolveu e nos amou.
john updike
ponto último e outros poemas
trad. ana luísa
amaral
civilização
editora
2009