Antes de nós já
muitos desistiram. Mas
é preciso não
desistir.
Ou
talvez
seja preciso
desistir a tempo –
para que,
do testemunho
que mal seguramos
com os nossos
frágeis dedos,
não reste
apenas farelo,
rarefeito tempo
histórico,
outrora
glorioso…
Os vindouros
estão aqui na curva
das nossas
canelas.
Deixar-lhes-emos
o pútrido sonho antigo,
para que possam
reconstruí-lo?
Ou será mais
justo poupá-los?
Assumir as
nossas responsabilidades até ao fim: mastigar
este sonho
inútil,
misturá-lo com
as nossas lágrimas,
degluti-lo compenetrados e conscientes
com as nossas
próprias fezes…
– Mas jamais
desistir
joão melo
diário do medo
editora urutau
2021