17 julho 2026

léo ferré / os bichos enfim desenfreados

  
 
 
    Os bichos enfim desenfreados
    A prioridade à Esquerda, com licença!
 
    Já não morreremos de nada
    Viveremos de tudo
 
    E os micróbios da estupidez que não tereis deixado de
nos legar, erguendo-se
    Das vossas estrumeiras
    Dos vossos livros armazenados nas vossas silotecas
    Dos vossos documentos públicos
    Dos vossos regulamentos de administração penitenciária
    Dos vossos decretos
    Até das vossas orações,
    Todos esses micróbios jurídico-pantufas
    Ficai tranquilos
    Teremos já as máquinas para os revogar
 
    TEREMOS TUDO
 
    Daqui a dez mil anos
 
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017




16 julho 2026

leonard cohen / corrente

  
 
Saí uma destas noites
Com a maré vazia
E sinais no céu
Mas mal sabia eu
Que seria apanhado
Pela força da corrente
 
E largado numa praia
Aonde o mar odeia ir
Com uma criança nos braços
Um calafrio na alma
E o coração em forma
De tigela de pedinte



leonard cohen
a chama
poemas
tradução de inês dias
relógio d´agua
2019




15 julho 2026

bob dylan / não penses duas vezes, está bem assim

  
 
É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
 
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008
 



14 julho 2026

laurie anderson / andar & cair

  
 
Eu queria-te. E andava à tua procura.
Mas não conseguia encontrar-te.
Eu queria-te. E procurava-te todo o dia.
Mas não conseguia encontrar-te. Não conseguia encontrar-te.
 
Vais a andar. E nem sempre dás por isso
Mas estás sempre a cair.
A cada passo cais um pouco para a frente
E logo suspendes a queda num instante.
Uma e outra vez tu cais
E logo suspendes a queda num instante.
É desse modo que consegues andar e cair ao mesmo tempo.
 
 
 
laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997



13 julho 2026

till lindemann / só que

  
 
O que se perde
num piscar de olhos?
O momento?
Muitos perdem o tempo
Alguns, a consciência
A maioria, a vida
 
 
 
till lindemann
nas noites tranquilas
trad. pedro garcia rosado
alma mater
2018
 



12 julho 2026

rui nunes / vésperas palestinas

  
 
nestes lugares que rodeiam a cidade
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira:
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
 
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



11 julho 2026

jorge velhote / fria é a água na escuridão

  
 
.4.
 
Quando amanhece é veloz o frio azul
 
das lágrimas a paixão fareja ainda
 
os lábios e os dedos –
 
ferve na humidade arrastada
 
da respiração um resto de vinho
 
uma canção ardendo na memória – assim
 
sem destino são os teus passos
 
como despidos são no inverno
 
os ramos ou fria é a água
 
na escuridão.
 
 
 
jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018




 

10 julho 2026

jorge reis-sá / o quarto

  
 
Também aqui o tempo passou. A janela aberta trouxe o bosque
para a colcha, entre os lençóis há agora bichos-de-conta dizendo
da sua intimidade. As aranhas relatam as teias em paciência.
 
E um pequeno mamífero escolheu a mesinha de cabeceira para respirar.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008




09 julho 2026

jorge de sousa braga / gerês

  
 
Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva
 
 
 
 
 
Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram
 
 
 
jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991




 

08 julho 2026

joaquim manuel magalhães / road and trees

 



 
 
De noite. A meio coração. Perto da barra.
As traineiras, as luzes de mercúrio,
as felinas gaivotas,
a hulha do fortim,
as janelas ao luar da cerração.
 
A luz cega da felicidade
acende no escuro de cada rocha
a ardente natureza dos pinheiros,
de freixos e salgueiros, da mal-amada
árvores dos figos e do pez.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
uma exposição
consequência do lugar
relógio d´água
2001
 



07 julho 2026

gonçalo m. tavares / poema raro

  
 
Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004





 

06 julho 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
II
 
e havia a casa
onde,
na armadilha das horas
e no arbítrio da luz,
íamos crescendo,
crescendo
até esta memória
mas não era a casa
não apenas a casa
era o caminho
as dunas, o pinhal,
o mar e o cheiro do mar
o voo dos pássaros
ou apenas os pássaros
caídos sobre
o caniçal, espalhados
no que parecia ser
o azul do céu
o branco imperfeito
duma nuvem ou dum muro
tudo tão insconstruído
tudo tão desenhado,
imaginado,
não se sabe por que
destino.
Não sabíamos
que era o amor
podia ser
mas não sabíamos
o amor só se sabe
muito mais tarde
quando já não há tempo
quando já não é possível
estar dentro
do tempo do amor
 
talvez seja por isso:
a felicidade
é sempre uma recordação
uma memória, sim
algo que era
e não sabíamos
 
qualquer coisa
que nos aparece construída
muito mais tarde
mas sobre a qual
já não temos qualquer domínio
uma perda, uma ausência
uma impossibilidade
 
 
 
gil. t. sousa






 

05 julho 2026

rui diniz / ode e esboço do sonho

  
 
A veemência do mar repousava-me de um sonho:
Uma mulher doida corria pela praia quente.
(De vez em quando o céu, olhando essa doente,
Lembrava um sôfrego olho, cego desse sonho).
 
Dias escorriam na memória lenta,
Dias desembocados no bordado das vagas,
Dias finais, sem mágoa, sem tormenta,
sem voz, sem tempo, dias sujas asas.
 
A mulher dedicava as mãos ao sol:
Com uma faca retalhava-as e chorava.
Com o seu sangue e ria e o lambia.
 
Por fim do corpo exausto e sem controlo,
extraía um filho morto e o olhava,
antes de dá-lo ao mar que o acolhia.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022