Primeira
versão
Solitude, récif,
étoile
Stéphane Mallarmé
Primeiro é
apenas isso:
tal o habitante
de uma ilha
que descobre
uma orla em redor,
uma orla tecida
como em dentes de areia,
um nada
concreto,
como é sempre o
nada,
um sono
recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar
e a tempo todos os dias,
assim, tal como
isso,
uma ternura de
água em redor
e uma franja de
gelo em redor,
a hiena dos
sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna,
esse sonho em relevo
que arrasta até
à cama, que te lança a luz
de onde a não
esperas,
assim, tal como
isso,
como pontos
unidos, tudo é ilha.
Solidão,
recife, estrela.
*
Segunda
versão
Falamos até
tarde no terraço.
Os grilos
repetiam
a pulsação da
noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido
e o álcool
não se tinha
estancado, girava docemente
como única
chave que muitas portas abre.
Torneámos o
tema do amor,
com empenho,
sem o mencionar nunca,
como a um leão
adormecido,
mas agarrou os
corpos a seu modo.
Ao amanhecer,
fechamos as persianas,
para assim a
noite ainda durar.
Preparava um
café e pensei no impossível,
como se tudo
então se tivesse detido
– um corredor
vazio, uma luz indagadora
e relevo no
liso – ,
e em amar só
aquilo que for com o possível.
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim
manuel magalhães
relógio d´água
2004