03 setembro 2026

maria alberta menéres / água memória

  
 
IX
 
Para o mesmo caminho
por atalhos diferentes,
tu a cansada mãe,
eu pérola perdida
na escuridão do mar.
 
Que caminho temer
agora que chegámos?
Por diferentes atalhos,
sobre os ombros trouxemos
a solidão de os ter.
 
 
 
maria alberta menéres
água-memória (1960)
poesia completa
porto editora
2020
 



02 setembro 2026

maria teresa horta / as mãos

  
 
Porque das mãos
toda a importância
está no que seguram
 
Digo-vos:
 
naquilo que procuram
e afloram por vezes
sem aceite
 
nem ternura
 
Porque das mãos
toda a razão
está no que descuram
 
Digo-vos:
 
naquilo que desfrutam
e manipulam
por vezes sem vontade
 
nem brandura
 
 
 
maria teresa horta
poesia reunida
educação sentimental
dom quixote
2009
 




01 setembro 2026

fátima maldonado / são as tardes mais quentes

  
 
São as tardes mais quentes
que recordo
rendas pelos amor dilaceradas
tranças desfeitas e puxadas
nós fendidos, impaciência
e gritos.
A toada, dossel sobre a cama,
não secou ainda nos ouvidos.
Mas traiu-me
só porque me ausentei.
Ao gravar-lhe o selo
ao ensinar-lhe o vício
expus-me no pelourinho
da fraqueza,
a paixão não tolera
a ausência.
 
 
 
fátima maldonado
sem rasto
painéis de vigilância
averno
2021
 




31 agosto 2026

luís miguel nava / o mar

  
As ondas fazem-se às imagens, a manhã
do sol caindo os raios
esticam-na
na água despenteada.
 
O macho cujo peito em poderosos
e lentos haustos é
para Melville o mar
do sol servem-lhe os raios de cabelos.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



30 agosto 2026

nuno júdice / imagem

  
 
Desce do verão com as suas mãos cansadas
de sombra. Encosta-se ao ombro da nuvem
mais branca, onde o seu rosto se reflecte.
Deixa que os meus dedos a toquem, como
se fosse uma harpa de silêncio. A música
demora-se no abraço da tarde. e os seus
olhos têm a luz lenta de uma despedida.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 



29 agosto 2026

manuel antónio pina / todas as palavras

  
 
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
 
 
 
manuel antónio pina
atropelamento e fuga (2001)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



28 agosto 2026

herberto helder / teoria das cores




  

 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
 
 
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001


27 agosto 2026

louise glück / na praça

  
 
Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.
 
 
 
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de frederico pedreira
relógio d´água
2021


26 agosto 2026

lawrence ferlinghetti / conheça a miss metro

  
 
Conheça a Miss Metro
1957
Veja a Miss Metro
1957
girando no Rápido de Times Square
ida e volta
às quatro da madrugada
 
Conheça a Miss Metro
1957
com rolhas de algodão do tamanho de moedas
de meio dólar no nariz negro e chato
indo e voltando a correr
no Rápido de Times Square
às quatro da madrugada
bem agarrada
às argolas de ferro celestes
com braços de ouro retalhados
uma prisca negra numa mão negra
 
Pode conhecer a Miss Metro
Pode ver a Miss Metro
1957
com umas calças de licra tristes
uma mala a condizer
a navegar pelas carruagens
sempre agarrada
com braços negros cansados
uma beata negra numa mão negra
E os vagões de ferro
para sempre indo e voltando
para a morte e as trevas
 
ó perdido rio Ubangui
 
cambaleando
pelas «ogivas sucessivas» do Inferno
até à última escada
de incêndio de Dante
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



25 agosto 2026

pier paolo pasolini / poemas mundanos

  
 
23 de Abril de 1962
 
 
Um manto de prímulas. Ovelhas
em contraluz (use a cinquenta, Tonino,
use a cinquenta, não tenha medo
que a luz se degrade – vamos filmar isto
contra a natureza!).
a erva fria tépida, murcha tenta,
velha nova – sobre Acqua Santa.
Ovelhas e pastor, uma cena
de Masaccio (experimente com a setenta e cinco,
e chariot para um primeiro plano).
Primavera medieval. Um Santo herético
(a quem os comparsas chamam Blasfémia.
Será um chulo, como de costume. Pedir
ao dolente Leonetti um parecer
sobre a prostituição na Idade Média).
Depois, aparição. A paixão popular
(um travelling infinito com Maria
a avançar, perguntando em úmbrio
pelo filho, cantando em úmbrio a agonia).
A Primavera traz um manto
de carqueja-brava tenrazinha, de prímulas…
e um misto de atonia dos sentidos e luxúria.
Depois da aparição (orgias
Mortuárias, ímpias – de putas),
uma «prece» nos prados ardentes.
Putas, chulos, ladrões, camponeses
de mãos juntas sob o rosto
(tudo com a cinquenta em contraluz).
Filmarei os mais ensolarados Apeninos.
Quando os Anos Sessenta
tiverem passado como o Ano Mil,
e o meu esqueleto já não tiver
saudades deste mundo,
que importará a minha «vida privada»,
que importará, míseros esqueletos sem vida
privada ou pública, chantagistas?
O que importará serão as minhas ternuras,
serei eu, depois da morte, na Primavera,
a ganhar a aposta, na fúria
do meu amor por Acqua Santa ao sol.
 
 
 
pier paolo pasolini
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




24 agosto 2026

wislawa szymborska / grande sorte é

  
 
Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
 
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998
 



23 agosto 2026

antonia pozzi / pensamento

  
 
Ter duas longas asas
de sombra
e dobrá-las sobre essa tua dor;
ser sombra, paz
nocturna
à volta do teu apagado
sorriso.
 
 
 
antonia pozzi
morte de uma estação
trad. inês dias
averno
2019
 



22 agosto 2026

paul bowles / canção de amor

  
 
A cabeça está onde o grilo canta
As faces são aquilo que os dentes hão-de morder
O lago está onde o amante se atira
Ao outro pela calada da noite
Os lábios estão onde está o sangue
Os olhos são o que os dedos prendem
Sabendo agora o que podia ter sido
Dirão os lábios o que os olhos viram?
 
                                            1940
 
 
paul bowles
poemas
trad. josé agostinho baptista
assírio & alvim
2008