01 junho 2026

henri michaux / a minha vida

  
 
Partes sem mim, minha vida.
Giras.
E eu ainda à espera de dar um passo.
Levas a guerra para outra parte.
Abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
 
Não percebo bem as tuas ofertas.
O poucochinho que eu quero, tu nunca me trazes.
Por causa disso que me falta, aspiro a tanto.
A tantas coisas, quase ao infinito…
Por causa desse pouco que falta, que tu nunca trazes.
 
1932
 
 
 
henri michaux
a noite revolta (1935)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999
 




31 maio 2026

daniel faria / outra explicação do homem

  
 
Sem sede nem repouso
Perdido no andar nos lembra
A amplitude
 
De pés juntos desce à água
E nem o gume da corrente poderá
Desatar-lhe os tornozelos
 
E ao descer nos lembra
O torvelinho
 
 
 
daniel faria
poesia
últimas explicações
quasi
2003




 

30 maio 2026

claudio rodríguez / ouve

  
 
Ouve: em qualquer corrente, em qualquer onda,
algo me impele para ti, pois sabe
que tu me ressuscitas, como a ave
ressuscita o ramo em que se imola.
 
E tu já nunca estás sozinha, olha,
que embora longe todo eu te abrace,
encosta o ouvido, deixa que to lave
como um búzio o meu coração: toda
 
a minha terra hás-de ouvir, não a maresia,
terra feita do espaço mais aberto.
E a sua voz, a minha, que eu quisera
 
meter-te alma adentro noite e dia,
clara como o teu nome, a descoberto
como este mar de amor meu que te espera.
 
[1953]
 
 
 
claudio rodríguez
sem epitáfio
trad.miguel filipe mochila
língua morta
2019
 




29 maio 2026

roberto juarroz / há que cair e não se pode escolher onde

  
 
Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas há uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar enquanto caímos.
 
É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.
 
Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
Num texto que não podemos corrigir.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018




28 maio 2026

roger wolfe / à espera

  
 
Observo o trânsito
que passa
no bar em que espero
não recordo quem.
Duas mulheres
tagarelam
à beirinha do passeio.
Não seria mau
que acontecesse de uma vez alguma coisa.
Que se pusessem a atravessar a rua,
por exemplo,
e um camião as convertesse em carne picada.
Travessuras da mente.
Digo eu.
É melhor deixar o trânsito
sossegado. Pedir outro café.
 
 
 
roger wolfe
fazer o trabalho sujo
tradução de luís pedroso
língua morta
2020
 




27 maio 2026

adam zagajewski / lá onde a respiração

  
 
Está só em cena
e não tem nenhum instrumento.
 
Coloca as mãos sobre o peito,
lá, onde nasce a respiração
e onde se extingue.
 
Não são as mãos a cantarem
nem o peito.
 
Canta o que está calado.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017




26 maio 2026

adonis / espelho do carrasco

  
 
– Dizes tu que és poeta?
 
De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce.
 
Carrasco, ouves-me?
Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo
 
A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo
 
Disseste que és poeta?
 
 
 
adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016
 




25 maio 2026

ángél gonzález / outras vezes

  
 
Queria estar noutro sítio,
melhor, noutra pele,
e averiguar se dali a vida,
pelas janelas de outros olhos,
se vê assim grotesca em certas tardes.
 
Gostava muito de conhecer
o efeito abrasivo do tempo noutras vísceras,
confirmar se o passado
impregna os tecidos com o mesmo sumo amargo,
se todas as lembranças em todas as memórias
libertam este cheiro
a fruta murcha e a jasmim podre.
 
Desejaria fitar-me
com as duras pupilas de quem mais me odeia,
para que assim o desprezo
destruísse os despojos
de tudo o que o esquecimento não há-de enterrar.
 
 
ángél gonzález
para que eu me chame ángel gonzález
uma antologia
selecção e tradução de miguel filipe mochila
língua morta
2018





 

24 maio 2026

anna akhmatova / no quadragésimo ano

  
 
3.
 
SOMBRA
 

                                                   Que sabe certa mulher
                                                           Sobre a hora da morte?
 
                                                                     O. Mandelshtam


 
Sempre mais elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura – tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me, mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti – bela de 1913 –
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar… Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
 
9 de Agosto de 1940. De noite.
 
 
 
anna akhmatova
poemas
trad. joaquim manuel magalhães e
vadim dmitriev
relógio d´água
2003






 

23 maio 2026

e e cummings / xix poemas

  
 
[xv]
 
quando as serpentes regatearem o direito a colear
e o sol fizer greve para ganhar o salário mínimo –
quando os espinhos olharem as suas rosas alarmados
e os arco-íris estiverem seguros contra a velhice
 
quando um tordo não puder cantar nenhuma lua nova
se todas as corujas não tiverem aprovado a sua voz
– e qualquer onda assinar sobre a linha ponteada
Senão um oceano é obrigado a fechar
 
quando o carvalho pedir licença à bétula
para criar uma bolota – os vales acusarem as suas
montanhas de terem altitude – e março
denunciar abril por sabotagem
 
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal(e não antes)
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998



 

22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026
 



21 maio 2026

denise levertov / uma nova flor

  
 
Quase todas as vivas pétalas do girassol
tinham caído, então arranquei as poucas
que faltavam e encontrei-me
com uma nova flor: o centro,
redonda almofada escura
da cor de café torrado, tocada de inúmeras
ínfimas florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e brilhante amarelo,
e à volta um verde anel, as pétalas
por sob as pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a forma de chamas sagradas
as folhas de figueira dos pagodes,
forma lúdica, jubilante
(subestimada em padrões Paisley)
e a luz vindo por entre elas, de modo que
quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo
de anjos da Renascença, se sobrepunham,
havia sombra, um tom mais denso
do mesmo verde de rebentos – uma nova flor
neste dia de outono, revelada
no outono da sua própria floração.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021


20 maio 2026

fiama hasse pais brandão / campo de refugiados

  
 
A fugitiva disse que na terra
outrora sua havia árvores
e a sombra. Que outra fala
mais bela do que a sua,
mulher no chão seco,
solo sob o sol sem fim?
 
 
 
fiama hasse pais brandão
as fábulas
quasi
2002