Com o céu
estrelado, a colina branqueja, de terra desnudada;
poder-se-iam
ver os ladrões lá no alto. Na cova do vale
os bardos estão
todos na sombra. Lá em cima também os há,
mas é terra de
quem não precisa, aí não vão eles:
cá em baixo, na
humidade, com a desculpa de andarem às trufas,
entram nas
vinhas e roubam as uvas.
O meu velho deu
com dois engaços caídos
entre as cepas
e esta noite até ferve. A vinha já é pouca:
dia e noite na
humidade, só nascem folhas.
Entre as cepas,
vê-se sob o céu a terra desnudada
que de dia lhe
rouba o sol. Lá em cima o sol queima
do nascer até
se pôr e a terra está calcinada: vê-se mesmo de noite.
Lá não nascem
folhas, a força vai toda para as uvas.
Apoiado a um
bordão, na erva milhada, o meu velho
tem tremuras na
mão: se os ladrões vêm esta noite,
salta do meio
dos bardos e dá-lhes cabo do canastro.
A essa gente há
que dar-lhes sem piedade, como animais,
que não hão-de
ir contar. De vez em quando levanta a cabeça
cheirando o ar:
parece-lhe que lhe chega, no escuro,
uma ponta de
cheiro a terra, trufas arrancadas.
Nas encostas
altas, que se estendem até ao céu,
não há sombra
das árvores: os cachos arrastam-se pela terra,
tanto é o peso.
Não se podem esconder:
distinguem-se
lá no alto as manchas das árvores,
negras e
escassas. Se tivesse a vinha lá em cima,
o meu velho
esperá-los-ia de casa, na cama,
de espingarda
apontada. Aqui no fundo nem sequer a espingarda
serve para
alguma coisa: no escuro só há folhagem.
cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos
leite
cotovia
1997