04 julho 2026

agustina bessa-luís / férias

  
 
As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – h~? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.
 
 
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008




03 julho 2026

vitorino nemésio / navio

  
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves,
Partindo, tão gordas vão!
 
Como eu goto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar.
– Olha um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.
 
 
vitorino nemésio
nem toda a noite a vida
antologia poética
asa
2002













02 julho 2026

paul celan / fala também tu

  
Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.
 
Fala –
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.
 
Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanto exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.
 
Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! –
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.
 
Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia no ar.
Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se cintilar: na ondulação
das palavras errantes.
 
 
 
paul celan
sete rosas mais tarde
antologia poética
trad. joão barrento e y. k. centeno
relógio d´água
2023





01 julho 2026

zbigniew herbert / o nosso medo

  
 
o nosso medo
não usa camisa de dormir
não tem olhos de coruja
não levanta a tampa
não apaga a vela
 
também não tem o rosto de um cadáver
 
o nosso medo
é um pedaço de papel
encontrado no bolso
«avisar o Wójcik
esconderijo da Rua Dhuga incendiado»
 
o nosso medo
não voa nas asas da ventania
não se senta na torre da igreja
é terra-a-terra
 
tem a forma
de uma trouxa feita à pressa
com agasalhos
provisões secas
e uma arma
 
o nosso medo
não tem o rosto de um cadáver
os mortos são gentis para connosco
levamo-los às costas
 
dormimos debaixo da mesma manta
fechamos-lhes os olhos
retocamos-lhes os lábios
escolhemos lugares secos
para os enterrar
 
não demasiado fundo
nem demasiado à superfície
 
 
 
zbigniew herbert 
estudo do objecto (1961)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




30 junho 2026

franz kafka / diários

  
1911, 19 de janeiro
 
 
Como pareço estar completamente arrumado – durante o ano passado não estive acordado mais do que cinco minutos – terei de desejar todos os dias ver-me fora do mundo, ou,  sem no entanto ser capaz de encontrar a mais leve esperança nisso, terei de começar tudo do princípio como uma criança. Ser-me-á, extraordinariamente mais fácil do que então. Porque nesses dias eu ainda lutava com um pressentimento débil e por um estilo que de palavra a palavra estivesse ligado à minha vida, que eu deveria apertar ao peito e que me transportaria para fora de mim próprio. Com que dor (claro, não se pode comparar com a presente dor) eu comecei! Que golpes me perseguiam todo o dia vindos do que eu tinha escrito! Como era grande o perigo e como operava ininterruptamente, de tal modo que eu não sentia o gelo, o que no fundo não minorava em muito a minha infelicidade.
 
Um dia imaginei um romance em que dois irmão lutavam um contra o outro, tendo um deles ido para a América e o outro ficado numa prisão da Europa. Comecei só de vez em quando a escrever umas linhas, porque logo me cansava. Por isso escrevi uma vez sobre a minha prisão numa tarde de domingo, quando estávamos de visita aos meus avós e tínhamos comido um pão especialmente mole, barrado de manteiga, que costumava haver lá. É bem possível que tenha feito aquilo em grande parte por vaidade, e, ao mexer com o papel na toalha, ao bater com o lápis na mesa, ao olhar em volta por sob o candeeiro, queria tentar alguém a tirar-me o que tinha escrito, a olhar para aquilo e a admirar-me. Era principalmente o corredor da prisão que aquelas linhas descreviam, acima de tudo o silêncio e o frio; também havia uma palavra de simpatia para com o irmão que por cá ficou, porque era o bom irmão. Talvez tivesse sentido momentaneamente que a minha descrição não tinha qualquer valor, só que antes daquela tarde eu prestava muita atenção a tais sentimentos quando estava entre família a quem estava habituado (a minha timidez era tal que a habituação me fazia sentir já meio feliz), sentado à mesa redonda numa sala conhecida, e não podia esquecer que era jovem e destinado a grandes coisas a partir desta minha tranquilidade presente. Um tio que gostava de fazer troça das pessoas acabou por tirar a folha que eu segurava mal, olhou para ela de relance, voltou a dar-ma, até mesmo sem se rir, e só disse para os outros que o estavam a seguir com os olhos: «O costume»; não me disse nada a mim. Continuei sentado, debruçado como antes sobre a minha folha agora sem uso, mas de facto tinha sido expulso do convívio com um empurrão, a apreciação do meu tio repetia-se em mim com um significado já quase real, e eu tive, mesmo sentindo que pertencia a uma família, o vislumbre do lugar gelado do nosso mundo, que teria de aquecer com um fogo que eu queria primeiro procurar.
 
 
 
franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986





 

29 junho 2026

wallace stevens / paráfrase lunar

  
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
Quando, no mais fastidioso fim de Novembro,
A sua velha luz se alonga pelos ramos,
Frágil, lentamente, dependendo deles;
Quando o corpo de Jesus queda num palor,
Humanamente próximo, e a figura de Maria,
Tocada pelo orvalho, se recolhe num abrigo
Feito de folhas, que apodreceram caíram;
Quando sobre as casas, uma ilusão dourada
Traz de volta uma época primitiva de paz
E sonhos pacificadores às pantufas no escuro –
 
A lua é a mãe do patético e da piedade.
 
 
 
wallace stevens
harmónio
trad. jorge fazenda Lourenço
relógio d´água
2006
 



28 junho 2026

sophia de mello breyner andresen / há muito

  
 
Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vazia
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
dual
caminho
2004
 





27 junho 2026

inês lourenço / gravura

  
 
Era o quarto da Mãe
com uma cama escura, uma gravura
da gruta de Lourdes, uma colcha
verde, uma Singer
de cabeça escondida, panos
de crochet com fotos de parentes perdidos,
o roupeiro ainda com as toucas de baptismo
e o grande gavetão com as mantilhas de ir à missa
e uma bisnaga de perfume vazia.
 
 
 
inês lourenço
o segundo olhar
companhia das ilhas
2015
 



26 junho 2026

antónio reis / poemas quotidianos

  
16
 
Chega a ter gosto
a chuva
vista dos cafés
 
caindo sobre as estátuas
e a nostalgia
 
chega a ser morna
 
com fumo e álcool
na garganta
 
Até os homens passarem
junto aos vidros
 
reais
molhados
 
sem emoções instruídas
 
pensando em remédios
e prestações
 
grisalhos
sem serem velhos
 
e falando sós
sem serem loucos
 
 
 
antónio reis
poemas quotidianos
tinta da china
2017
 



25 junho 2026

josé miguel silva / lamento de calipso

  
 
Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.
 
Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.
 
A distância dos teus olhos, não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.
 
Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,
 
regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor das tardes,
 
quando ainda não sabia
da dureza do cimento
nem dos modos de quebrar e ser quebrado.
 
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




24 junho 2026

eugénio de andrade / passeio alegre

  
 
Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos
vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,
para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis – assim nuas.
 
 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 




23 junho 2026

vasco graça moura / romance do passeio alegre

  
 
as résteas do sol morrendo
por sobre os renques de espuma
 
nos mirantes da foz velha
e no granito das ruas
 
nas árvores recortadas
a negro em finas nervuras
 
alinhando no silêncio
suas rendas pontiagudas
 
na volta das lavadeiras
cantando uma leve música
 
e no cabelo ardendo
com sua areia insegura
 
no vento feito de nada
no coração que sussurra
 
quando as crianças regressam
da escola duas a duas
 
e há-de no passeio alegre
perpassar coisa nenhuma
 
e os teus olhos recolhendo
grãos doirados de penumbra
 
que hão-de misturar à noite
com a água azul da lua
 
enquanto pousam gaivotas
sobre as barcaças escuras
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 




22 junho 2026

ruy belo / a autêntica estação

  
 
É verão. Vou pela estrada de sintra
por sinal pouco misteriosa à luz do dia
ao volante de um carro que não é um chevrolet
e nesse ponto apenas se perdeu a profecia
Não há luar nem sou um pálido poeta
que finja fingir a sua mais profunda emoção
Chove uma chuva que me molha os olhos
e me leva a sentir saudades do inverno:
a luz o cheiro a intimidade o fogo
Quem me dera o inverno. Talvez lá faça sol
e eu sinta aflitivas saudades do verão:
uma estação na outra é a autêntica estação
 
 
 
ruy belo
todos os poemas I
verão
assírio & alvim
2004