26 agosto 2026

lawrence ferlinghetti / conheça a miss metro

  
 
Conheça a Miss Metro
1957
Veja a Miss Metro
1957
girando no Rápido de Times Square
ida e volta
às quatro da madrugada
 
Conheça a Miss Metro
1957
com rolhas de algodão do tamanho de moedas
de meio dólar no nariz negro e chato
indo e voltando a correr
no Rápido de Times Square
às quatro da madrugada
bem agarrada
às argolas de ferro celestes
com braços de ouro retalhados
uma prisca negra numa mão negra
 
Pode conhecer a Miss Metro
Pode ver a Miss Metro
1957
com umas calças de licra tristes
uma mala a condizer
a navegar pelas carruagens
sempre agarrada
com braços negros cansados
uma beata negra numa mão negra
E os vagões de ferro
para sempre indo e voltando
para a morte e as trevas
 
ó perdido rio Ubangui
 
cambaleando
pelas «ogivas sucessivas» do Inferno
até à última escada
de incêndio de Dante
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



25 agosto 2026

pier paolo pasolini / poemas mundanos

  
 
23 de Abril de 1962
 
 
Um manto de prímulas. Ovelhas
em contraluz (use a cinquenta, Tonino,
use a cinquenta, não tenha medo
que a luz se degrade – vamos filmar isto
contra a natureza!).
a erva fria tépida, murcha tenta,
velha nova – sobre Acqua Santa.
Ovelhas e pastor, uma cena
de Masaccio (experimente com a setenta e cinco,
e chariot para um primeiro plano).
Primavera medieval. Um Santo herético
(a quem os comparsas chamam Blasfémia.
Será um chulo, como de costume. Pedir
ao dolente Leonetti um parecer
sobre a prostituição na Idade Média).
Depois, aparição. A paixão popular
(um travelling infinito com Maria
a avançar, perguntando em úmbrio
pelo filho, cantando em úmbrio a agonia).
A Primavera traz um manto
de carqueja-brava tenrazinha, de prímulas…
e um misto de atonia dos sentidos e luxúria.
Depois da aparição (orgias
Mortuárias, ímpias – de putas),
uma «prece» nos prados ardentes.
Putas, chulos, ladrões, camponeses
de mãos juntas sob o rosto
(tudo com a cinquenta em contraluz).
Filmarei os mais ensolarados Apeninos.
Quando os Anos Sessenta
tiverem passado como o Ano Mil,
e o meu esqueleto já não tiver
saudades deste mundo,
que importará a minha «vida privada»,
que importará, míseros esqueletos sem vida
privada ou pública, chantagistas?
O que importará serão as minhas ternuras,
serei eu, depois da morte, na Primavera,
a ganhar a aposta, na fúria
do meu amor por Acqua Santa ao sol.
 
 
 
pier paolo pasolini
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




24 agosto 2026

wislawa szymborska / grande sorte é

  
 
Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
 
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998
 



23 agosto 2026

antonia pozzi / pensamento

  
 
Ter duas longas asas
de sombra
e dobrá-las sobre essa tua dor;
ser sombra, paz
nocturna
à volta do teu apagado
sorriso.
 
 
 
antonia pozzi
morte de uma estação
trad. inês dias
averno
2019
 



22 agosto 2026

paul bowles / canção de amor

  
 
A cabeça está onde o grilo canta
As faces são aquilo que os dentes hão-de morder
O lago está onde o amante se atira
Ao outro pela calada da noite
Os lábios estão onde está o sangue
Os olhos são o que os dedos prendem
Sabendo agora o que podia ter sido
Dirão os lábios o que os olhos viram?
 
                                            1940
 
 
paul bowles
poemas
trad. josé agostinho baptista
assírio & alvim
2008
 



21 agosto 2026

zbigniew herbert / objectos

  
 
Os objectos mortos estão sempre bem e, infelizmente, nada lhes pode ser apontado. Nunca consegui ver uma cadeira que saltasse de uma perna para outra, nem uma cama que se apoiasse nas patas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão cansadas, não se atrevem a ajoelhar-se. Suspeito que os objectos o façam para nos educar, para nos repreender continuamente pela nossa inconstância.
 
 
 
zbigniew herbert 
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024




20 agosto 2026

john updike / despida

  
Jovens homens belos – brasileiros, com
um capataz grego de ar fúnebre – vieram
e rasparam cem anos de tinta desta nossa
casa. Como método, foi árduo,
bicadas a cercarem o ar todo, raspando-me
também o interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu em madeira crua, de cor
mais loura do que o esperado, morna
 
e vulnerável, como uma mulher que viveu
cem anos em branco de noiva e agora
está nua para um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira substância macia, o seu granulado
e matiz tão carnais que vemos por fim que,
nestes anos nossos, ela nos envolveu e nos amou.
 
 
 
john updike
ponto último e outros poemas
trad. ana luísa amaral
civilização editora
2009




19 agosto 2026

primo levi / agosto

  
 
Quem fica na cidade em Agosto?
Só os pobres e os loucos,
As velhas esquecidas,
Os reformados com os seus canitos,
Os ladrões, alguns cavalheiros e os gatos.
Pelas estradas desertas
Ouve-se um percutir fincado de tacões;
Vêem-se mulheres com sacos de plástico
Na linha de sombra ao longo dos muros.
Junto da fontezinha com o pequeno touro
Dentro da poça verde de algas
Está uma náiade de meia idade
Com cerca de dez centímetros e meio:
Traz vestido apenas o soutien.
Alguns metros mais para lá,
Apesar da célebre proibição,
Os pombos mendigantes
Circundam-se em bando
E roubam-te o pão da mão.
Ouves farfalhar no céu, em voo
Estafado, o demónio do meio-dia.
 
                            22 de Julho, 1986
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 



18 agosto 2026

paul celan / a arte paga o seu preço

  
 
A ARTE PAGA O SEU PREÇO, O SER HUMANO
não paga nenhum.
Vós sois pela liberdade da arte,
do ser humano
falais apenas sob
este
signo.
E afinal
existe em todos nós
o mesmo Deus, feio-
-belo,
e verdadeiro.
 
 
 
paul celan
a morte é uma flor
trad. de joão barrento
relógio d´água
2022




17 agosto 2026

s. kierkegaard / estranho

  


 
Estranho! Com quanta angústia ambígua, de perder e conservar, se agarra um homem nesta vida. Por vezes, pensei em dar um passo decisivo, em comparação com o qual todos os anteriores seriam meras brincadeiras de criança  – partir para a grande viagem de descoberta. Tal como um navio, quando é lançado à água, é saudado com salvas de canhão, assim quereria eu saudar-me a mim mesmo. E no entanto… É coragem que me falta? Se uma pedra caísse e me matasse, isso seria, ainda assim, uma saída
 
 
s. kierkegaard
diapsalmata
trad. de bárbara silva, m. jorge de carvalho,
nuno ferro e sara carvalhais
assírio & alvim
2011 




16 agosto 2026

sophia de mello breyner andresen / pranto pelo dia de hoje

  
 
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
obra poética
as grades
assírio & alvim
2015
 



15 agosto 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
III
 
a solidão dos navios
na palma
duma mão antiga
 
e o tempo generoso
preso no mármore azul
do mar
cantando, cantando
 
 
 
gil. t. sousa




14 agosto 2026

yves bonnefoy / uma pedra

  
 
Os livros, o que ele rasgou,
A página devastada, mas a luz
Sobre a página, o acréscimo da luz,
Compreendeu ele que se transformava na página branca.
 
Saiu. O rosto do mundo, dilacerado,
Pareceu-lhe de uma outra beleza, mais humana.
A mão do céu procurava a sua mão no meio das sombras,
A pedra, onde se vê que o seu nome se apaga,
Entreabria-se, transformava-se em palavra.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
as tábuas curvas (2001)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026