17 setembro 2026

eugéne guillevic / carnac (fragmentos)

  

 
8
 
SEI bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
 
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
 
E quando digo mar
É sempre o de Carnac.
 
 
 
guillevic
poesias de guillevic
tradução de david mourão-ferreira
editora ulisseia
1965
 


16 setembro 2026

eugénio de andrade / as mãos e os frutos

  
 
XI
 
Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás nas mãos de quem te espera.
 
 
 
eugénio de andrade
as mãos e os frutos
poesia
fundação eugénio de andrade
2000
 



15 setembro 2026

salah stétié / às árvores




 

 
Eis-te adormecida no leito do aroma
À tua volta pedras
Reunidas na única rosa respirada
Na hora em que a água vai gerar o leite nocturno
Timidamente, socorrida pelas estrelas
Temíveis e que a recusarão
 
Por amizade das árvores!
Não deixem, árvores minhas, os vossos braços fecharem-se
Nem voarem para longe as vossas folhas livres
Guardiãs das nossas portas varridas pelo vento azulado
Sendo as casas aqui a casa do pai
A criança sonhada iluminando com a sua lanterna
O incêndio das colheitas
 
 
 
salah stétié
poemas                           
tradução de rosa alice branco
encontros de Talábriga
1999




 

14 setembro 2026

nazmi ağıl / a cisterna


 

 
Então assim, levei-te até à “Cisterna, o subconsciente
da imensa cidade… – não, o metro não é o mesmo
quando, lá dentro, tende alguém a desaparecer e não
se sabe por quanto tempo… – ou tal como água da chuva, filtrada
no solo e por entre seixos, deixando tudo o que é desnecessário
à superfície, nós mesmos nos esvaecemos como duas almas, Beatrice e eu;
a agitação que deixámos para trás, a ruidosa multidão e os carros, o
eléctrico e toda a intensa actividade mercantil… se mantiveram
afastadas, longe, no sereno e materno ventre, da antiguidade.
Então na penumbra, lembro-me de ti como uma bola de luz flutuando
no ar e enquanto os peixes vinham nadando sobre
a tua reflexão tocando uma curiosidade instintiva;
tu te lamentavas com a música, que, no entanto,
com o som da tua voz, se tinha então transformado
numa melodia e começado a fazer derreter a parede congelada
ameaçando ainda a temível influência da Medusa.
Assim por isso ela nos fixou com tanta ira e lançou seu olhar frio
que por nós passou milagrosamente sem um arranhão
que caiu sobre a lente da câmara, que estava prestes a captar
as nossas imagens para as reter enquanto a memória electrónica
durar, mas que, agora, nos fará viver ante o seu olhar hirto
e suspenso até à eternidade.
 
 
 
nazmi ağıl
trad de rui cóias
nervo 28 set/dez 2026
colectivo de poesia
2026
 
 
 

 

 

13 setembro 2026

eduarda chiote / usamo-nos e abusamo-nos

  
 
Vítimas do seu mau uso, os comboios
reflectem a dor dilacerante
dos atirados aos magotes e ainda muito jovens
para um campo de concentração, algures,
onde, um deles, porventura
mais diferenciado, sente verdadeira gratidão
face à honra que lhe foi concedida
de repartir igualmente por todos os prisioneiros
o pão: milímetro a milímetro.
Poupado, este futuro desertor, de ser atirado à vala
como os sem enterro, terá tido o privilégio,
claro e inequívoco
de vivenciar
que se pode ultrapassar um qualquer ideológico conflito,
se a sua compreensão
estiver mais interessada na transformação do que
na combinação.
Por tal, quando. Faminto e iluminado
Consegue, finalmente, e a pé
Chegar à pouca,
Parca – minha e dele -, esquecida e atrasada terra
nossa
de cabras afogadas em rochas,
de moiras em muralhas de castelos cativas,
este fugitivo
de um campo de concentração, cultíssimo e anónimo,
se fez voluntária e verifícavelmente
alimentador de comboios.
Ora. Sabendo eu
que Brecht pensava em abolir os
comboios, preferindo ao velho e bom
e por motivos vários
o novo e o mau, suponho poder ainda escrever
cantigas de escárnio e mal dizer
apenas para me fazer entender sobre o que terá
significado em e para duras terras de neve e de geada,
uma linha férrea abandonada:
sem comentários!
 
 
 
eduarda chiote
nervo/16 outubro 2022
colectivo de poesia
2022
 



12 setembro 2026

yvette k. centeno / a almofada

  
 
Onde pousamos a cabeça
afundamos um pouco
a almofada.
Nessa pequena cova
ficam guardados os sonhos
que ainda falta sonhar
 
9 de Julho, 2021
 
 
 
yvette k. centeno
existir
eufeme
2022





 

11 setembro 2026

javier salvago / correcções

  
 
A vida perece-se com esses poemas
que brotam, a princípio, intermináveis,
retóricos, grandiosos e banais.
 
Depois vais corrigindo até deixá-los
no pouco que importa: nos dois versos
que dizem o que todos já sabemos.
 
 
 
javier salvago
poesia espanhola de agora vol. I
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1997




10 setembro 2026

gonçalo m. tavares / aprender

  
 
             Uma criança que ainda não sabe escrever diz que odeia os pais.
             E quer escrever isso no papel: que odeia os pais.
          Sabe algumas letras, mas ainda não sabe escrever. Pergunta à mãe como se escreve o nome dela e o do pai. A mãe diz-lhe, soletra, explica. Depois o menino pergunta como se escreve odeio-vos. A mãe hesita, mas depois soletra, explica, ajuda a desenhar as letras.



gonçalo m. tavares
short movies
caminho
2011


 

09 setembro 2026

elio pecora / também este verão

  
Também este Verão
(e agora começa
com os longos ocasos,
com as largas tépidas tardes)
também este passará
desiludindo;
são fracas as vozes,
incertas as vizinhanças.
E já pressinto o Outono
das chuvas subtis,
dos temporais nocturnos,
e de novo a espera
incauta de Junho.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
motivetto (1978)
tradução de simoneta neto
quasi
2008
 




08 setembro 2026

douglas coupland / a vida depois de deus



 

 
Quando somos novos, estamos sempre a contar que o mundo vá acabar. Depois vamos ficando mais velhos e o mundo continua a bulir e vemo-nos obrigados a rever a nossa posição quanto ao apocalipse, bem como a nossa relação com o tempo e com a morte. Percebemos que o mundo vai mesmo continuar, connosco ou sem nós e sem as imagens que temos dentro da cabeça. E tentamos perceber antes as imagens.
 
 
douglas coupland
a vida depois de deus
trad. telma costa
teorema
1994




 

07 setembro 2026

joão rebocho / lento

 


 
 
lento
quer dizer:
perto da porta
 
aliás, em outras palavras, vale dizer ou melhor
dizendo
reformular uma ideia?
esclarecer:
todas palavras inúteis
 
lento
só quer dizer:
perto da porta
 
 
 
joão rebocho
salvo erro
edições fantasma
2026
 




06 setembro 2026

herberto helder / um nome que me digas ou me não digas duas vezes

 



 

 

um nome que me digas ou me não digas duas vezes
em dois abismos de sono, esse nome
faz-se carne no mais âmago de mim mesmo,
esse nome trabalha-me,
é igual ao segredo: pão,
eu cômo-o no mais escuro do mundo,
cortado a água e mais nada,
quase como quando se morre mais devagar,
se é noite que entra: pão profundo mastigado
acaso na maior das noites seguidas umas às outras
 
 
 
herberto helder
letra aberta
porto editora
2016




05 setembro 2026

alexandre o'neill / velhos

  
1
 
Tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno.
Tira-o não se sabe donde.
Guarda os baraços dos embrulhos,
desfaz-lhes os nós («Os japoneses põem os meninos nas escolas a desfazer nós!»)
e, baraço a baraço, fabrica um novelo multicor
que pode fornecer fio para atar um embrulho,
por exemplo, o da louça chinesa que, peça a peça,
vai pondo no prego.
Não se engana (e já trepou aos oitenta e muitos)
a declinar o rosa-rosae que aprendeu em coro quando pequena.
Gosta de cães, mas tem medo, desde que outro dia,
isto é, há vinte anos,
lhe morreu o Kiss atropelado,
das trelas sentimentais.
Numa gaveta defendida a naftalina,
dentro duma caixa de cânfora,
guarda palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos,
longos alfinetes ornamentais (aqueles de chapéu).
Arrasta consigo um passado a sépia de fotografias.
Diante de cada uma, recita parentescos, genealogias.
E a fechar o cortejo mostra sempre a do seu casamento.
Era formosa, cheiinha, um verdadeiro quanto-baste de mulher.
Enviuvou: sobreviveu a dois filhos; vive com uma amiga.
Às vezes está amuada, não sai do seu quarto e passa o dia inteiro a tisanas.
Quando visita o bisneto,
insiste em ensinar-lhe o rosa-rosae:
quer que ele seja um causídico.
Já não escolhe a comida; escolhe os dentes.
É um passarinho.
Mas nos seus olhos doces, azuis e moços,
uma gaiata traquina.
 
 
 
alexandre o´neill
a saca de orelhas (1979)
poesias completas
assírio & alvim
2000