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18 março 2021

joão miguel fernandes jorge / é uma casa…

 
 
É uma casa de parede coberta de heras e musgo
Corre um banco comprido,
são assim os bancos das aldeias do litoral.
 
É o presságio,
é o olhar sobre a planície.
 
É uma casa de chão batido.
As bilhas de barro chegam da proximidade das manhãs
sob a sombra de dunas e pinheiros.
 
Os barcos ainda não deixaram o porto.
Só depois de o sol nascer largam para ocidente.
Não temos ilusões,
 
a sombra não chega para esta memória.
 
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019




02 fevereiro 2021

joão miguel fernandes jorge / este ano

 
 
Este ano o verão atravessou
Lisboa. O verão foi invisível.
Atravessou a cidade e os outros
levou do meu corpo
memórias do teu nome.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019







21 novembro 2020

joão miguel fernandes jorge / fins de outubro

 
 
Fins de Outubro. As uvas ainda estão
nas ramadas.
É preciso perder o rosto mais próximo
vencê-lo como se fisgam pássaros novos
e ficar preso a esse movimento.
Deixar nos campos crescer a flor do
aloés.
 
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019







09 agosto 2020

joão miguel fernandes jorge / este repouso



Este repouso
quando a luz separa
as mais secretas folhas

e os olhos,
por instante, são o rosto
e a noite

o vento que me prende e
não conheço.



joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019








07 fevereiro 2020

joão miguel fernandes jorge / falava como se um sonho pudesse



Falava como se um sonho pudesse

um sonho não teria tantas árvores
um sonho não as teria tão
suspensas e tão tomadas

que dizia que diziam?
que queriam eles de mim?



joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019








26 junho 2019

joão miguel fernandes jorge / íamos por onde uma erva pudesse crescer



Íamos por onde uma erva pudesse crescer.
Nos cantos da casa, nos mais remotos, onde
cai a chuva e não se sabe onde um dia a
criança deixou pão bolorento depois seco depois cinzas.

Esses remotos sítios das formigas
hei-de entretê-los com pedras
e desbotadas flores de papel
páginas cheias de ninguém.



joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019







27 maio 2019

joão miguel fernandes jorge / o rosto a linha o risco



O rosto a linha o risco
do teu lado intenso à
tua mão?

O rumor
o excessivo inverno
e

E os olhos para não dizer.



joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019






28 maio 2015

joão miguel fernandes jorge / o mar já não era para mim suficiente


2.

O mar já não era para mim suficiente.
Fazia-me falta um rio
um rio sob sombra das árvores.

É difícil a meio da música
suportar a luz do café.

Estávamos juntos
como vejo estar no palco
sob dois projectores.

Os olhos
as mãos
todo o corpo
era só o frio da noite.



joão miguel fernandes jorge
poemas escolhidos,
o roubador de água (1981)
assírio & alvim
1982