Ai, restos de António Boto,
Canção de veludo tinto
Em caixa de zinco estreito:
Não somos nada no mundo!
Digo-o e pareço que minto
Se desta ilusão me enfeito
Pensando ter a valia
De quem canta perdoando
Ou chora para salvar
Um viver à revelia
Que destino miserando,
Como casca, atira ao mar.
Cortina de disfarçar
Sentimentos proibidos,
Quem sabe até se fingidos
Prà triste vida ganhar?!
Com fraquezas de tostão
E ar de pirata cativo
No reino da solidão,
Enterrado na tristeza
Com velas da sua altura
Pingando amor e a nobreza
De alguma palavra pura!
Como o marinheiro novo
E a gaivota horizontal,
Acabando adoecido
Por fadário do seu povo
Numa enxerga de hospital!
Se assim não foi, não faz mal,
Que maior glória não vejo
Para um poeta, em Portugal!
Como niño só deixado
Por mãe de quem tanto gosta:
Entornou-se o candeeiro,
Julga-se cravo de aposta
Nas cinzas do pardieiro!
Tão dandy naquele Chiado!
Antes sujinho, antes roto
Que suspeito condenado!
E de chagas procuradas:
Eis o salário que cobras
Nas salas abandonadas
Por galãs entontecidos
De princesas fastientas:
Sorrisos compadecidos
Na vida, que lhes aguentas!
Devolvendo uma cantiga
Por cada insinuação
E pondo a faca na liga
(Nossa maior distinção
Portuguesa!...)
À que a não merece, não!
Ninguém a compra, é condão:
Durma à paz da natureza
Teu remoto coração!
colóquio letras 113-114
fundação calouste gulbenkian
1990
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