30 maio 2026

claudio rodríguez / ouve

  
 
Ouve: em qualquer corrente, em qualquer onda,
algo me impele para ti, pois sabe
que tu me ressuscitas, como a ave
ressuscita o ramo em que se imola.
 
E tu já nunca estás sozinha, olha,
que embora longe todo eu te abrace,
encosta o ouvido, deixa que to lave
como um búzio o meu coração: toda
 
a minha terra hás-de ouvir, não a maresia,
terra feita do espaço mais aberto.
E a sua voz, a minha, que eu quisera
 
meter-te alma adentro noite e dia,
clara como o teu nome, a descoberto
como este mar de amor meu que te espera.
 
[1953]
 
 
 
claudio rodríguez
sem epitáfio
trad.miguel filipe mochila
língua morta
2019
 




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