31 agosto 2026

luís miguel nava / o mar

  
As ondas fazem-se às imagens, a manhã
do sol caindo os raios
esticam-na
na água despenteada.
 
O macho cujo peito em poderosos
e lentos haustos é
para Melville o mar
do sol servem-lhe os raios de cabelos.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



30 agosto 2026

nuno júdice / imagem

  
 
Desce do verão com as suas mãos cansadas
de sombra. Encosta-se ao ombro da nuvem
mais branca, onde o seu rosto se reflecte.
Deixa que os meus dedos a toquem, como
se fosse uma harpa de silêncio. A música
demora-se no abraço da tarde. e os seus
olhos têm a luz lenta de uma despedida.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 



29 agosto 2026

manuel antónio pina / todas as palavras

  
 
As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
 
 
 
manuel antónio pina
atropelamento e fuga (2001)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012
 



28 agosto 2026

herberto helder / teoria das cores




  

 
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
 
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
 
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
 
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.
 
 
 
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001


27 agosto 2026

louise glück / na praça

  
 
Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.
 
 
 
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de frederico pedreira
relógio d´água
2021


26 agosto 2026

lawrence ferlinghetti / conheça a miss metro

  
 
Conheça a Miss Metro
1957
Veja a Miss Metro
1957
girando no Rápido de Times Square
ida e volta
às quatro da madrugada
 
Conheça a Miss Metro
1957
com rolhas de algodão do tamanho de moedas
de meio dólar no nariz negro e chato
indo e voltando a correr
no Rápido de Times Square
às quatro da madrugada
bem agarrada
às argolas de ferro celestes
com braços de ouro retalhados
uma prisca negra numa mão negra
 
Pode conhecer a Miss Metro
Pode ver a Miss Metro
1957
com umas calças de licra tristes
uma mala a condizer
a navegar pelas carruagens
sempre agarrada
com braços negros cansados
uma beata negra numa mão negra
E os vagões de ferro
para sempre indo e voltando
para a morte e as trevas
 
ó perdido rio Ubangui
 
cambaleando
pelas «ogivas sucessivas» do Inferno
até à última escada
de incêndio de Dante
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



25 agosto 2026

pier paolo pasolini / poemas mundanos

  
 
23 de Abril de 1962
 
 
Um manto de prímulas. Ovelhas
em contraluz (use a cinquenta, Tonino,
use a cinquenta, não tenha medo
que a luz se degrade – vamos filmar isto
contra a natureza!).
a erva fria tépida, murcha tenta,
velha nova – sobre Acqua Santa.
Ovelhas e pastor, uma cena
de Masaccio (experimente com a setenta e cinco,
e chariot para um primeiro plano).
Primavera medieval. Um Santo herético
(a quem os comparsas chamam Blasfémia.
Será um chulo, como de costume. Pedir
ao dolente Leonetti um parecer
sobre a prostituição na Idade Média).
Depois, aparição. A paixão popular
(um travelling infinito com Maria
a avançar, perguntando em úmbrio
pelo filho, cantando em úmbrio a agonia).
A Primavera traz um manto
de carqueja-brava tenrazinha, de prímulas…
e um misto de atonia dos sentidos e luxúria.
Depois da aparição (orgias
Mortuárias, ímpias – de putas),
uma «prece» nos prados ardentes.
Putas, chulos, ladrões, camponeses
de mãos juntas sob o rosto
(tudo com a cinquenta em contraluz).
Filmarei os mais ensolarados Apeninos.
Quando os Anos Sessenta
tiverem passado como o Ano Mil,
e o meu esqueleto já não tiver
saudades deste mundo,
que importará a minha «vida privada»,
que importará, míseros esqueletos sem vida
privada ou pública, chantagistas?
O que importará serão as minhas ternuras,
serei eu, depois da morte, na Primavera,
a ganhar a aposta, na fúria
do meu amor por Acqua Santa ao sol.
 
 
 
pier paolo pasolini
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005




24 agosto 2026

wislawa szymborska / grande sorte é

  
 
Grande sorte é
não se saber exactamente
em que mundo se vive.
 
Seria necessária
uma existência longuíssima,
decididamente mais longa
que a do próprio mundo.
 
Ao menos para comparar,
conhecermos outros mundos.
 
Erguermo-nos para lá do corpo
que nada sabe fazer tão bem
como limitar
e criar obstáculos.
 
A bem das pesquisas,
da clareza da imagem
e das conclusões finais,
elevarmo-nos para lá do tempo,
no qual tudo em turbilhão se precipita.
 
Nesta perspectiva,
desistam para sempre
de detalhes e episódios.
 
Contar os dias da semana
deveria parecer
um acto sem sentido,
pôr uma carta no correio
capricho da louca mocidade,
 
a tabuleta «não pisar a relva»,
uma tabuleta estúpida.
 
 
 
wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998
 



23 agosto 2026

antonia pozzi / pensamento

  
 
Ter duas longas asas
de sombra
e dobrá-las sobre essa tua dor;
ser sombra, paz
nocturna
à volta do teu apagado
sorriso.
 
 
 
antonia pozzi
morte de uma estação
trad. inês dias
averno
2019
 



22 agosto 2026

paul bowles / canção de amor

  
 
A cabeça está onde o grilo canta
As faces são aquilo que os dentes hão-de morder
O lago está onde o amante se atira
Ao outro pela calada da noite
Os lábios estão onde está o sangue
Os olhos são o que os dedos prendem
Sabendo agora o que podia ter sido
Dirão os lábios o que os olhos viram?
 
                                            1940
 
 
paul bowles
poemas
trad. josé agostinho baptista
assírio & alvim
2008
 



21 agosto 2026

zbigniew herbert / objectos

  
 
Os objectos mortos estão sempre bem e, infelizmente, nada lhes pode ser apontado. Nunca consegui ver uma cadeira que saltasse de uma perna para outra, nem uma cama que se apoiasse nas patas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão cansadas, não se atrevem a ajoelhar-se. Suspeito que os objectos o façam para nos educar, para nos repreender continuamente pela nossa inconstância.
 
 
 
zbigniew herbert 
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024




20 agosto 2026

john updike / despida

  
Jovens homens belos – brasileiros, com
um capataz grego de ar fúnebre – vieram
e rasparam cem anos de tinta desta nossa
casa. Como método, foi árduo,
bicadas a cercarem o ar todo, raspando-me
também o interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu em madeira crua, de cor
mais loura do que o esperado, morna
 
e vulnerável, como uma mulher que viveu
cem anos em branco de noiva e agora
está nua para um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira substância macia, o seu granulado
e matiz tão carnais que vemos por fim que,
nestes anos nossos, ela nos envolveu e nos amou.
 
 
 
john updike
ponto último e outros poemas
trad. ana luísa amaral
civilização editora
2009




19 agosto 2026

primo levi / agosto

  
 
Quem fica na cidade em Agosto?
Só os pobres e os loucos,
As velhas esquecidas,
Os reformados com os seus canitos,
Os ladrões, alguns cavalheiros e os gatos.
Pelas estradas desertas
Ouve-se um percutir fincado de tacões;
Vêem-se mulheres com sacos de plástico
Na linha de sombra ao longo dos muros.
Junto da fontezinha com o pequeno touro
Dentro da poça verde de algas
Está uma náiade de meia idade
Com cerca de dez centímetros e meio:
Traz vestido apenas o soutien.
Alguns metros mais para lá,
Apesar da célebre proibição,
Os pombos mendigantes
Circundam-se em bando
E roubam-te o pão da mão.
Ouves farfalhar no céu, em voo
Estafado, o demónio do meio-dia.
 
                            22 de Julho, 1986
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 



18 agosto 2026

paul celan / a arte paga o seu preço

  
 
A ARTE PAGA O SEU PREÇO, O SER HUMANO
não paga nenhum.
Vós sois pela liberdade da arte,
do ser humano
falais apenas sob
este
signo.
E afinal
existe em todos nós
o mesmo Deus, feio-
-belo,
e verdadeiro.
 
 
 
paul celan
a morte é uma flor
trad. de joão barrento
relógio d´água
2022




17 agosto 2026

s. kierkegaard / estranho

  


 
Estranho! Com quanta angústia ambígua, de perder e conservar, se agarra um homem nesta vida. Por vezes, pensei em dar um passo decisivo, em comparação com o qual todos os anteriores seriam meras brincadeiras de criança  – partir para a grande viagem de descoberta. Tal como um navio, quando é lançado à água, é saudado com salvas de canhão, assim quereria eu saudar-me a mim mesmo. E no entanto… É coragem que me falta? Se uma pedra caísse e me matasse, isso seria, ainda assim, uma saída
 
 
s. kierkegaard
diapsalmata
trad. de bárbara silva, m. jorge de carvalho,
nuno ferro e sara carvalhais
assírio & alvim
2011 




16 agosto 2026

sophia de mello breyner andresen / pranto pelo dia de hoje

  
 
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
 
 
 
sophia de mello breyner andresen
obra poética
as grades
assírio & alvim
2015
 



15 agosto 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
III
 
a solidão dos navios
na palma
duma mão antiga
 
e o tempo generoso
preso no mármore azul
do mar
cantando, cantando
 
 
 
gil. t. sousa




14 agosto 2026

yves bonnefoy / uma pedra

  
 
Os livros, o que ele rasgou,
A página devastada, mas a luz
Sobre a página, o acréscimo da luz,
Compreendeu ele que se transformava na página branca.
 
Saiu. O rosto do mundo, dilacerado,
Pareceu-lhe de uma outra beleza, mais humana.
A mão do céu procurava a sua mão no meio das sombras,
A pedra, onde se vê que o seu nome se apaga,
Entreabria-se, transformava-se em palavra.
 
 
 
yves bonnefoy
antologia poética
as tábuas curvas (2001)
trad. luís serrano
edições fantasma
2026
 




13 agosto 2026

josé emílio pacheco / encontro

  
 
Já me encontrei comigo numa esquina do tempo.
Preferi não me dirigir palavra,
em vingança por tudo o que a mim mesmo fiz com sanha.
E passei ao largo, e deixei-me a falar sozinho.
– com grande ressentimento, pois claro.
 
 
 
josé emílio pacheco
siglo passado (desenlace)  (1999-2000)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



12 agosto 2026

carlos de oliveira / estrelas

  
 
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
 
 
carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982




11 agosto 2026

victor oliveira mateus / o retrato de wilde

  
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
não era de nenhum jovem
que ele tivesse conhecido
nos lupanares de londres
ou nas deambulações que fizera
pelo norte de áfrica
com gide ou com bosie
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
trouxera-o ele de dublim
era uma parte de si
(a consciência moral)
que ele plantara no parapeito da janela
mas veio um pássaro e comeu-a
 
o retrato não passava de um fantasma
(clone dele mesmo)
de que nem ele se apercebia
mas que encarquilhava apodrecia
exatamente como acontece connosco
quando decidimos ser nós próprios
sem atenuantes nem desculpas
 
 
 
victor oliveira mateus
uma casa no outro lado do mundo
labirinto
2021




10 agosto 2026

egito gonçalves / o anjo do relógio / chartres

  

Ainda o vi, o anjo do relógio. Era como Rilke
nos dissera: nada sabia do nosso ser,
sorria no seu pétreo resplendor, apenas
segurando a mensagem da sombra
que obedecia à convenção das horas. Asas curtas
nos ombros, demasiado curtas
para o voo, para qualquer viagem…
 
Na segunda vez já não estava. O sorriso
estatelara-se
no solo. Rilke saberia já da tempestade
que assaltaria a forte catedral
para deixar o poema solitário?
Ou o anjo
tentara com as suas asas frágeis
quebrar o tempo, o cansaço das horas
negadas às estrelas?
 
                                            24.7.91
                    de E No Entanto Move-se
 
 
 
egito gonçalves
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


09 agosto 2026

maria f. roldão / carne de ébano

 
 
O sangue castanho do pau-ferro
sobe pelos pés baloiçando as traves.
Sustém os movimentos síncronos
dos músculos – breves estalidos de
 
caruncho, tão alegre nos túneis
abertos. Os pés da cama enchem-se
de febre – tesão no trepidar dos veios.
Líquido amniótico que atravessa
 
o estrado e as barras laterais
quase a fazer nascer, amparar,
com mãos de madeira,
o orgasmo em cima dela.
 
A cama recolhe o cansaço
                    e embala-o.
 
 
 
maria f. roldão
a cadeira de mogno
edição do autor
2025
 




08 agosto 2026

paulo campos dos reis / as chávenas do meu tio agora são minhas

  

A minha mãe não as queria usar
porque são muito lindas
e podiam estragar-se na máquina
de lavar a loiça.
 
Fiquei com as chávenas do meu tio
mas lavo-as à mão com cautela.
 
A minha mãe deu-mas e não a quis decepcionar.
 
Com o uso imoderado, entretanto
porque são muito lindas
parti-as todas.
 
As chávenas do meu tio que
a minha mãe me deu.
 
Guardei os cacos num papel dobrado.
 
 
 
paulo campos dos reis
habilitações literárias
volta d´mar
2022
 



07 agosto 2026

emily dickinson / sem saber

  
 
Sem saber quando virá a Aurora,
Abro todas as Portas,
Ou terá Asas, como se fosse Pássaro,
Ou, como Praia, Vagas –
 
 
emily dickinson
duzentos poemas
trad. ana luísa amaral
relógio d´água
2014
 





06 agosto 2026

allen ginsberg / um asfódelo

 



 

 
Ó meu caro doce e rosado
                inalcançável desejo
… que triste, não há maneira
                de mudar o doido
asfódelo cultivado, a
                realidade visível…
 
e as pétalas espantosas
                da pele – o quanto me inspira
estar assim deitado na sala que vive
                de visitas é brio e nu
e sonhando, na ausência
                da electricidade…
vezes sem conta a comer a raiz baixa
                do asfódelo,
destino de cinza…
 
                rolando em ímpeto de geração
no sofá às flores
                como numa margem de Arden –
minha rosa hoje à noite tão só
                a prenda da minha própria nudez.
 
 
                                                        Outono, 1953
 
 
 
allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014



05 agosto 2026

antónio gancho / segunda

  
 
Por sobre a noite uma voz me preenche
e assim se dirige uma voz por sobre a noite
uma ausente luz desce, mexe e enche
o coração açoitado e onde o açoite
 
E é por sobre a noite que uma voz assim
e que assim dirigida se me a mim, se me a mim
e assim por sobre ausente uma desce e enche
luz que preenche o coração em açoite
 
E assim o poema e assim finalizado
e por sobre a noite ai uma luz a mim
e onde o açoite o coração açoitado
e é por sobre a noite que uma voz assim
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã (1960 - 1967)
o ar da manhã
assírio & alvim
1995




04 agosto 2026

eugénio de andrade / eu começara a ganhar raízes

  
 
Eu começara a ganhar raízes pelas barreiras. Ia aprendendo a conhecer os répteis pelo rumor. Quando o sol apertava, uma cobra azul, não, verde, não, azul, aproximava-se, os olhos cor de basalto. Ficava por ali a olhar-me, eu a olhá-la. Fascinados. Um dia não sei que me deu, corri atrás dela, entrou num buraco de silvas, ainda lhe acertei com a pedra, por momentos a cauda agitou-se crispada em convulsões, depois desapareceu, talvez lhe tivesse quebrado a espinha, nunca mais a vi. Era azul. Verde. Um braço de sol.
 
 
 
eugénio de andrade
limiar dos pássaros
limiar
1976
 


03 agosto 2026

federico garcia lorca / norma e paraíso dos negros





 
 
Odeiam a sombra do pássaro
na preia-mar da branca face
e o conflito de luz e vento
no salão da neve fria.
 
Odeiam a flecha sem corpo,
o lenço exacto da despedida,
a agulha que mantém pressão e rosa
no rubor gramíneo do sorriso.
 
Amam o azul deserto,
as vacilantes expressões bovinas,
a mentirosa luz dos pólos,
a dança curva das águas na margem.
 
Com a ciência do tronco e do ancinho
enchem o barro de nervos luminosos
e patinam lúbricos por águas e areais
provando o frescor amargo à sua saliva milenária.
 
É no azul crepitante,
azul sem nenhum verme nem pegada adormecida,
onde os ovos de avestruz são para sempre
e vagueiam intactas as chuvas bailarinas.
 
É no azul sem história,
azul de uma noite sem temor de dia,
azul onde a nudez do vento vai partindo
os camelos sonâmbulos das nuvens vazias.
 
É ali que os torsos sonham sob a gula da erva.
Ali os corais embebem o desespero da tinta,
os que dormem apagam o perfil sob a madeixa dos seus caracóis
e fica o espaço da dança sobre as derradeiras cinzas.
 
 
 
federico garcia lorca
nova iorque num poeta
trad. antónio moura
hiena editora
1995
 
 


02 agosto 2026

ricardo reis / prefiro rosas, meu amor, à pátria,

  
 
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
 
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
 
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
 
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
 
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
 
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
 
1-6-1916
 
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




01 agosto 2026

cesário verde / heroísmos

  
 
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
 
Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
 
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’ água quase assente,
 
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
 
                                                                                       Lisboa
                                          Porto, Diário da Tarde, 7 de fevereiro de 1874
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024