
Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia
o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a
tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó
desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário
o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde
estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele
agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos
factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o
nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do
real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na
sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica,
mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o
da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe
amarelo.
herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
2001
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