em contraluz (use a cinquenta, Tonino,
use a cinquenta, não tenha medo
que a luz se degrade – vamos filmar isto
contra a natureza!).
a erva fria tépida, murcha tenta,
velha nova – sobre Acqua Santa.
Ovelhas e pastor, uma cena
de Masaccio (experimente com a setenta e cinco,
e chariot para um primeiro plano).
Primavera medieval. Um Santo herético
(a quem os comparsas chamam Blasfémia.
Será um chulo, como de costume. Pedir
ao dolente Leonetti um parecer
sobre a prostituição na Idade Média).
Depois, aparição. A paixão popular
(um travelling infinito com Maria
a avançar, perguntando em úmbrio
pelo filho, cantando em úmbrio a agonia).
A Primavera traz um manto
de carqueja-brava tenrazinha, de prímulas…
e um misto de atonia dos sentidos e luxúria.
Depois da aparição (orgias
Mortuárias, ímpias – de putas),
uma «prece» nos prados ardentes.
Putas, chulos, ladrões, camponeses
de mãos juntas sob o rosto
(tudo com a cinquenta em contraluz).
Filmarei os mais ensolarados Apeninos.
Quando os Anos Sessenta
tiverem passado como o Ano Mil,
e o meu esqueleto já não tiver
saudades deste mundo,
que importará a minha «vida privada»,
que importará, míseros esqueletos sem vida
privada ou pública, chantagistas?
O que importará serão as minhas ternuras,
serei eu, depois da morte, na Primavera,
a ganhar a aposta, na fúria
do meu amor por Acqua Santa ao sol.
de «la realtà»
poemas
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2005
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