20 agosto 2026

john updike / despida

  
Jovens homens belos – brasileiros, com
um capataz grego de ar fúnebre – vieram
e rasparam cem anos de tinta desta nossa
casa. Como método, foi árduo,
bicadas a cercarem o ar todo, raspando-me
também o interior do crânio. Quando acabaram,
a casa surgiu em madeira crua, de cor
mais loura do que o esperado, morna
 
e vulnerável, como uma mulher que viveu
cem anos em branco de noiva e agora
está nua para um interlúdio, a madeira a sua
verdadeira substância macia, o seu granulado
e matiz tão carnais que vemos por fim que,
nestes anos nossos, ela nos envolveu e nos amou.
 
 
 
john updike
ponto último e outros poemas
trad. ana luísa amaral
civilização editora
2009




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