21 julho 2026

antónio dacosta / no meio das águas

  
 
NO MEIO das águas está a fresca ilha
Onde do leite de sereia mamaste
No seio daquela que de lá o trouxe
 
Pobre de ti das praias ardentes esquecido
Da Dinamarca te elegeste príncipe
Do veneno bebeste quanto restou
Na corte onde Ofélia amou
 
Da janela do teu bairro com quiosque
De alma aos pés e pénis na mão
Pensaste o ser e não ser de outros que ti
 
E se da ilha só sargaços Circe te deu
Na outra de Próspero foste o grande amigo
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994




20 julho 2026

antónio franco alexandre / segundas moradas

  
 
1
 
ligeiramente suspenso, pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chão, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
 
mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!
 
as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
 
 
 
antónio franco alexandre
segundas moradas
poemas
assírio & alvim
1996
 


19 julho 2026

cesare pavese / és a terra e a morte

  
 
És a terra e a morte.
A tua estação é a treva
e o silêncio. Não há coisa
que viva mais do que tu
afastada da manhã.
 
Quando pareces despertar
toda tu és dor,
está-te no olhar e no sangue
mas não a sentes. Vives
como vive uma pedra,
como a terra dura.
E há sonhos que te vestem,
movimentos, soluços
que ignoras. A dor
como a água de um lago
estremece e envolve-te.
Há círculos à flor da água.
Deixas que se desvaneçam.
És a terra e a morte.
 
             3 de Dezembro de 1945
 
 
 
cesare pavese
virá a morte e terá os teus olhos (11 Março-11 Abril, 1950)
virá a morte e terá os teus olhos
trad. rui caeiro
edições do saguão
2021
 




18 julho 2026

charles bukowski / a zona de pausa

  
 
tens de a ter, caso contrário, as paredes
cercar-te-ão.
tens de desistir de tudo, deitar
fora, deitar tudo fora.
tens de olhar para o que estás a olhar
ou pensar no que estás a pensar
ou fazer o que está a fazer
ou
a não fazer
sem considerar proveito
pessoal
sem aceitar orientação.
 
as pessoas estão consumidas com
o esforço,
escondem-se em hábitos
comuns.
as suas preocupações são preocupações de
manada.
 
poucos têm capacidade de olhar
para um sapato velho durante
dez minutos
ou de pensar em coisas estranhas
como: quem é que inventou
a maçaneta?
 
tornam-se desvivas
por serem incapazes de fazer
uma pausa
de se desarmarem
de se desdobrarem
de desverem
de desaprenderem
de se exporem.
 
escuta o seu riso
falso, depois
vai-te
embora.
 
 
 
charles bukowsky
os cães ladram facas
trad. rosalina marshall
alfaguara
2018




17 julho 2026

léo ferré / os bichos enfim desenfreados

  
 
 
    Os bichos enfim desenfreados
    A prioridade à Esquerda, com licença!
 
    Já não morreremos de nada
    Viveremos de tudo
 
    E os micróbios da estupidez que não tereis deixado de
nos legar, erguendo-se
    Das vossas estrumeiras
    Dos vossos livros armazenados nas vossas silotecas
    Dos vossos documentos públicos
    Dos vossos regulamentos de administração penitenciária
    Dos vossos decretos
    Até das vossas orações,
    Todos esses micróbios jurídico-pantufas
    Ficai tranquilos
    Teremos já as máquinas para os revogar
 
    TEREMOS TUDO
 
    Daqui a dez mil anos
 
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017




16 julho 2026

leonard cohen / corrente

  
 
Saí uma destas noites
Com a maré vazia
E sinais no céu
Mas mal sabia eu
Que seria apanhado
Pela força da corrente
 
E largado numa praia
Aonde o mar odeia ir
Com uma criança nos braços
Um calafrio na alma
E o coração em forma
De tigela de pedinte



leonard cohen
a chama
poemas
tradução de inês dias
relógio d´agua
2019




15 julho 2026

bob dylan / não penses duas vezes, está bem assim

  
 
É inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Não interessa, de qualquer modo
E é inútil sentares-te a pensar porquê, miúda
Se já não o sabes agora
Quando o teu galo cantar ao despontar da aurora
Olha pela janela e eu terei ido embora
Tu és a razão pela qual viajo
Não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil acenderes a luz, miúda
Essa luz que nunca conheci
E é inútil acenderes a luz, miúda
Estou no lado escuro da estrada
No entanto quem me dera que houvesse algo que fizesses ou dissesses
Para tentar fazer-me mudar de ideias e ficar
De qualquer maneira nunca conversámos muito
Por isso não penses duas vezes, está bem assim
 
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Como nunca antes fizeste
É inútil chamares pelo meu nome, rapariga
Eu já não consigo ouvir-te
Vou pensando e magicando estrada abaixo
Outrora amei uma mulher, uma criança, dizem-me
Dou-lhe o meu coração mas ela queria a minha alma
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
Vou por esta longa, solitária, estrada abaixo, miúda
Onde irei parar, não o sei dizer
Mas adeus é uma palavra boa de mais, rapariga
Então direi apenas passa bem
Não estou a dizer que me trataste mal
Podias ter feito melhor mas não me importo
De certo modo apenas desperdiçaste o meu precioso tempo
Mas não penses duas vezes, está bem assim
 
 
 
bob dylan
canções 1962-2001
volume 1 (1962-1973)
the freewheelin
trad. angelina barbosa e pedro serrano
relógio d´água
2008
 



14 julho 2026

laurie anderson / andar & cair

  
 
Eu queria-te. E andava à tua procura.
Mas não conseguia encontrar-te.
Eu queria-te. E procurava-te todo o dia.
Mas não conseguia encontrar-te. Não conseguia encontrar-te.
 
Vais a andar. E nem sempre dás por isso
Mas estás sempre a cair.
A cada passo cais um pouco para a frente
E logo suspendes a queda num instante.
Uma e outra vez tu cais
E logo suspendes a queda num instante.
É desse modo que consegues andar e cair ao mesmo tempo.
 
 
 
laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997



13 julho 2026

till lindemann / só que

  
 
O que se perde
num piscar de olhos?
O momento?
Muitos perdem o tempo
Alguns, a consciência
A maioria, a vida
 
 
 
till lindemann
nas noites tranquilas
trad. pedro garcia rosado
alma mater
2018
 



12 julho 2026

rui nunes / vésperas palestinas

  
 
nestes lugares que rodeiam a cidade
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira:
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
 
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
 
 
 
rui nunes
ofício de vésperas
relógio d’ água
2007
 



11 julho 2026

jorge velhote / fria é a água na escuridão

  
 
.4.
 
Quando amanhece é veloz o frio azul
 
das lágrimas a paixão fareja ainda
 
os lábios e os dedos –
 
ferve na humidade arrastada
 
da respiração um resto de vinho
 
uma canção ardendo na memória – assim
 
sem destino são os teus passos
 
como despidos são no inverno
 
os ramos ou fria é a água
 
na escuridão.
 
 
 
jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018




 

10 julho 2026

jorge reis-sá / o quarto

  
 
Também aqui o tempo passou. A janela aberta trouxe o bosque
para a colcha, entre os lençóis há agora bichos-de-conta dizendo
da sua intimidade. As aranhas relatam as teias em paciência.
 
E um pequeno mamífero escolheu a mesinha de cabeceira para respirar.
 
 
 
jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008




09 julho 2026

jorge de sousa braga / gerês

  
 
Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva
 
 
 
 
 
Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram
 
 
 
jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991




 

08 julho 2026

joaquim manuel magalhães / road and trees

 



 
 
De noite. A meio coração. Perto da barra.
As traineiras, as luzes de mercúrio,
as felinas gaivotas,
a hulha do fortim,
as janelas ao luar da cerração.
 
A luz cega da felicidade
acende no escuro de cada rocha
a ardente natureza dos pinheiros,
de freixos e salgueiros, da mal-amada
árvores dos figos e do pez.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
uma exposição
consequência do lugar
relógio d´água
2001
 



07 julho 2026

gonçalo m. tavares / poema raro

  
 
Se o poema raro, não publicado,
se encontrasse escrito nos lençóis da maca,
debaixo das costas do moribundo,
o intelectual, informado de tal facto,
não hesitaria um segundo.
Empurraria o moribundo, se possível ligeiramente para o lado,
se necessário para o chão,
e com uma caneta entre os dedos,
copiaria para o seu caderno preto
a preciosidade finalmente descoberta.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004





 

06 julho 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
II
 
e havia a casa
onde,
na armadilha das horas
e no arbítrio da luz,
íamos crescendo,
crescendo
até esta memória
mas não era a casa
não apenas a casa
era o caminho
as dunas, o pinhal,
o mar e o cheiro do mar
o voo dos pássaros
ou apenas os pássaros
caídos sobre
o caniçal, espalhados
no que parecia ser
o azul do céu
o branco imperfeito
duma nuvem ou dum muro
tudo tão insconstruído
tudo tão desenhado,
imaginado,
não se sabe por que
destino.
Não sabíamos
que era o amor
podia ser
mas não sabíamos
o amor só se sabe
muito mais tarde
quando já não há tempo
quando já não é possível
estar dentro
do tempo do amor
 
talvez seja por isso:
a felicidade
é sempre uma recordação
uma memória, sim
algo que era
e não sabíamos
 
qualquer coisa
que nos aparece construída
muito mais tarde
mas sobre a qual
já não temos qualquer domínio
uma perda, uma ausência
uma impossibilidade
 
 
 
gil. t. sousa






 

05 julho 2026

rui diniz / ode e esboço do sonho

  
 
A veemência do mar repousava-me de um sonho:
Uma mulher doida corria pela praia quente.
(De vez em quando o céu, olhando essa doente,
Lembrava um sôfrego olho, cego desse sonho).
 
Dias escorriam na memória lenta,
Dias desembocados no bordado das vagas,
Dias finais, sem mágoa, sem tormenta,
sem voz, sem tempo, dias sujas asas.
 
A mulher dedicava as mãos ao sol:
Com uma faca retalhava-as e chorava.
Com o seu sangue e ria e o lambia.
 
Por fim do corpo exausto e sem controlo,
extraía um filho morto e o olhava,
antes de dá-lo ao mar que o acolhia.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





04 julho 2026

agustina bessa-luís / férias

  
 
As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
 
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
 
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado, impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso, conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós – hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa virtude – h~? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de ignorância que a experiência deixa à deriva.
 
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas, caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia, recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um, já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca há-de ser.
 
 
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008




03 julho 2026

vitorino nemésio / navio

  
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves,
Partindo, tão gordas vão!
 
Como eu goto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar.
– Olha um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.
 
 
vitorino nemésio
nem toda a noite a vida
antologia poética
asa
2002













02 julho 2026

paul celan / fala também tu

  
Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.
 
Fala –
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.
 
Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanto exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.
 
Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! –
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.
 
Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?
Sobe. Tacteia no ar.
Torna-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se cintilar: na ondulação
das palavras errantes.
 
 
 
paul celan
sete rosas mais tarde
antologia poética
trad. joão barrento e y. k. centeno
relógio d´água
2023





01 julho 2026

zbigniew herbert / o nosso medo

  
 
o nosso medo
não usa camisa de dormir
não tem olhos de coruja
não levanta a tampa
não apaga a vela
 
também não tem o rosto de um cadáver
 
o nosso medo
é um pedaço de papel
encontrado no bolso
«avisar o Wójcik
esconderijo da Rua Dhuga incendiado»
 
o nosso medo
não voa nas asas da ventania
não se senta na torre da igreja
é terra-a-terra
 
tem a forma
de uma trouxa feita à pressa
com agasalhos
provisões secas
e uma arma
 
o nosso medo
não tem o rosto de um cadáver
os mortos são gentis para connosco
levamo-los às costas
 
dormimos debaixo da mesma manta
fechamos-lhes os olhos
retocamos-lhes os lábios
escolhemos lugares secos
para os enterrar
 
não demasiado fundo
nem demasiado à superfície
 
 
 
zbigniew herbert 
estudo do objecto (1961)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024