03 julho 2026

vitorino nemésio / navio

  
Tenho a carne dorida
Do pousar de umas aves
Que não sei onde são:
Só sei que gostam de vida
Picada em meu coração.
Quando vêm, vêm suaves,
Partindo, tão gordas vão!
 
Como eu goto de estar
Aqui na minha janela
A dar miolos às aves!
Ponho-me a olhar para o mar.
– Olha um navio sem rumo!
E, de vê-lo, dá-lho a vela,
Ou sejam meus cílios tristes:
A ave e a nave, em resumo,
Aqui, na minha janela.
 
 
vitorino nemésio
nem toda a noite a vida
antologia poética
asa
2002













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