As férias são uma coisa do passado. Não me lembro de ter férias pelo
menos desde que se inventou a agricultura, desde Caim, aproximadamente. Noutros
tempos eu ia para uma praia fedorenta de algas secas, também com alguns
narcisos nas dunas, e gostava assim-assim.
Em vez de férias, faço viagens – que não é a mesma coisa.
As férias eram lentas, duravam meses, eram uma sucessão de longos dias
decorridos em diversos estados de alegria. Um objecto de alegria era diferente
de outro, e por isso a alegria era diferente. Não era a mesma coisa ir ao
cinema, entrar numa gincana, comer um gelado, ler um livro de aventuras ou de
amor. Nada se confundia, a natureza de cada paixão (encontrar a circunstância
perdida desde as férias passadas podia significar paixão) era explicada como a
natureza da pessoa, o facto que nos afectava era observado, e posto em causa, e
feito motivo de confidência e diálogo. Os amigos eram diferentemente
reconhecidos, multiplicadas as espécies de simpatia ou de desagrado que cabiam
num longo dia de férias. Os mestres deixavam de ter o mesmo poder sobre as
nossas vidas; tornavam-se inofensivos, vestidos «à paisana», como cobras a que
arrancassem o dente do veneno. De repente, notava-se se eram pobres ou se não
sabiam falar com mulheres novas, e se coravam porque eram tímidos, e
remediados. Durante o ano inteiro tinham-nos humilhado, catalogado, numerado,
impondo-nos notas boas e más, medalhas e castigos, tudo um pouco ao acaso,
conforme o regime da impaciência, o estilo da disciplina. Tinham-se rido de nós
– hã? Tinham pensado mal dos nossos pensamentos, dos nossos corações, da nossa
virtude – h~? não basta ter a experiência, é preciso avaliar a parte de
ignorância que a experiência deixa à deriva.
Os professores, como estavam fora das nossas vidas, agora que em vez da
bata vestíamos o fato de banho! Eram estranhos, sabiam mesmo que o eram, e
tratavam-nos com uma espécie de adulação perniciosas, um caloroso apelo à nossa
identidade de estranhos, que nós éramos também. As espias, desempregadas,
caídas na mísera condição sem expediente de mães de família, já não as
temíamos. «Bom dia, Dona Albina, estupor mentiroso!» – dizíamos, entre dentes. As
férias davam para tudo. Amor de mil rostos, ódio de mil artes e maneiras. Um dia
era como novecentos anos e ainda chegava para ler Wenceslau de Morais, que era
já um sintoma de estar bem com a nossa consciência e fazermos uma coisa
completamente por capricho, uma coisa para o «quadro de honra» e que nos dava
de repente a impressão de que as férias duravam demais. Mas, ao outro dia,
recomeçava-se, e os projectos, como um ramo de flores, desfolhavam-se um a um,
já chegada a hora da viagem – que não era nada parecida com as férias. E nunca
há-de ser.
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008
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