06 julho 2026

gil t. sousa / alguns poemas de verão

  
II
 
e havia a casa
onde,
na armadilha das horas
e no arbítrio da luz,
íamos crescendo,
crescendo
até esta memória
mas não era a casa
não apenas a casa
era o caminho
as dunas, o pinhal,
o mar e o cheiro do mar
o voo dos pássaros
ou apenas os pássaros
caídos sobre
o caniçal, espalhados
no que parecia ser
o azul do céu
o branco imperfeito
duma nuvem ou dum muro
tudo tão insconstruído
tudo tão desenhado,
imaginado,
não se sabe por que
destino.
Não sabíamos
que era o amor
podia ser
mas não sabíamos
o amor só se sabe
muito mais tarde
quando já não há tempo
quando já não é possível
estar dentro
do tempo do amor
 
talvez seja por isso:
a felicidade
é sempre uma recordação
uma memória, sim
algo que era
e não sabíamos
 
qualquer coisa
que nos aparece construída
muito mais tarde
mas sobre a qual
já não temos qualquer domínio
uma perda, uma ausência
uma impossibilidade
 
 
 
gil. t. sousa






 

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