05 julho 2026

rui diniz / ode e esboço do sonho

  
 
A veemência do mar repousava-me de um sonho:
Uma mulher doida corria pela praia quente.
(De vez em quando o céu, olhando essa doente,
Lembrava um sôfrego olho, cego desse sonho).
 
Dias escorriam na memória lenta,
Dias desembocados no bordado das vagas,
Dias finais, sem mágoa, sem tormenta,
sem voz, sem tempo, dias sujas asas.
 
A mulher dedicava as mãos ao sol:
Com uma faca retalhava-as e chorava.
Com o seu sangue e ria e o lambia.
 
Por fim do corpo exausto e sem controlo,
extraía um filho morto e o olhava,
antes de dá-lo ao mar que o acolhia.
 
 
 
rui diniz
noemas
noemas
língua morta
2022





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