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06 agosto 2019

rui diniz / os anos de transição – uma canção de exílio



Em Paris vi as raparigas escuras, por entre
a neve, respirando a solidão,
nas esquinas ásperas das tardes, descendo
nos passeios, procurando talvez os amigos
desaparecidos. Estava sentado nos cafés, a
escrever um romance sobre um grupo de pessoas,
muito jovens, que se reunia nos cafés para
estudar e vadiava e bebia, a maior parte do tempo,
e também às vezes alguém se apaixonava
por alguém de uma maneira terrível e se
preocupava durante dias e às vezes meses seguidos
com isso. Eu próprio, de vez em quando,
parava de escrever e bebia um bocado
de pernod que encomendara.
De certo modo, as minhas recordações eram assim,
com pessoas a amarem-se secretamente, nos cafés,
enquanto conversavam sobre a opressão e os meios
de revolucionar os dias e as tardes, rindo nervosa-
mente, bebendo bagaços ou mesmo «moscas».
E as raparigas que entravam nos cafés e se sentavam
para tomar cafés e começavam a ler um livro
tirando os óculos escuros, eram as mesmas que
eu conhecera e talvez amara em Lisboa, os mesmos
rostos tristes, quase sem palavras, onde uma
alucinação milenária brilhava, em certos instantes, tão
terrivelmente.
Em Paris vi o inverno dilatar-me roxas olheiras
e aumentar-me a fome e não fui capaz de
escrever o romance porque o meu vocabulário
sempre tinha sido muito restrito e afinal eu
nunca soubera escrever na minha vida.
Uma tarde de Dezembro, no café Versailles,
tomei um whiskey com soda e conversei com
o criado sobre o vício em que todos os exilados
como eu ali se afundavam, e vi-o concordar
e várias vezes sorrir-me com uma quase piedade,
e nessa altura paguei, levantei-me, e pensei pelo
caminho muito seriamente se voltaria a
frequentar aquele café.



rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977







27 julho 2018

rui diniz / a situação literária em 1968




Ainda nos séculos se pergunta uma respiração.
O poema é a consciência irreversível que gira
cruelmente na tarde.
Consumimos tabaco na penumbra. Aqui estou
rindo convulsivamente o tom pestilento da
opressão, meditando uma bebida e nunca
a imaginar a terra.
No calor incidem as moscas que lembram
lentamente um destino, pétalas que destilam
a necessidade de publicar.

Quentes mãos que temi em dias de olhares.
Compreendendo assim os ares, os espaços…

Põe poema a tua metafísica azulada
nas fendas dos lábios de aldeia.
A literatura do sul é o sono profundo das memórias.
Tudo ali nos entontece confusamente.
As erínias zumbem com o vento nas narinas.
O mar gera as crianças estagnadas. É talvez
Tudo uma intensa visão. O ócio do cansaço…

Ainda nas casas as paredes se idolam.
Os poetas param à beira dos poços, passam
Um dedo pela cal, pensam
em publicar. Vão para as searas,
abraçam friamente as avós, conversam
debaixo do crepitar das uvas, preferem
dizer que as braseiras não existem.

É-lhes a noite propícia às surtidas, à visita.
E ao convencimento da cultura, à virgem idade dos
livros.

Isto leva-nos à contemplação dos demónios, aos
obscuros encandeamentos. Assim as lâmpadas
condenam por todo o sempre a palavra que
foi escrita.



rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977






31 janeiro 2018

rui diniz / esboço





Sentados nas esplanadas da margem ouvíamos
o grito das civilizações. Havia semanas de silêncio
nas cidades litorais. Eu beberia entretanto cerveja
após cerveja e lia the Sun also rises. Que
mais escrevera este homem no seu solar
em Davim? Ninguém gostou de um poema que
que escrevi sobre o suave génio das gerações. E então
decidi partir para Bruxelas.

De todos os destinos o de Alice Toklas fora
o mais doloroso. Ela escrevera pacientemente
a biografia de todos os monges loucos e
por fim, enlouquecida pelos seus feitos, destruíra
os manuscritos enquanto dizia poemas de chaucer.

O seu olhar cintilava roxas estações, negros
campos de peste, livros e livros lidos pelas
insónias adiante.

E nós permanecemos sentados durante anos e
e anos nas esplanadas vazias, escrevendo loucamente
a incapacidade do tempo, a fúria dos dias e
das noites, a incansável desolação de cada palavra.

Repetimos o amor no interior das casas.
Recebemos um fulgor fácil das horas marítimas,
poemas vieram facilmente escritos aqui e ali.

Também da vida dissemos a alucinação exacta, os
motivos febris da inspiração, o ópio, o espaço
das flores de álcool, o olhar coincidindo
com a humilhação, os lábios distorcendo a mágoa
e a pouco e pouco já apenas o medo, o puro
medo de de repente em nós a voz se deteriorar.



rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977






11 novembro 2016

rui diniz / descida de dante ao céu



e naquele outono rio estive com antónia pela última
vez em singapura. Cloé cambaleava drogada à
nossa frente na manhã que raiava. Um estranho
país, a índia, onde vagos coronéis se queimavam
vivos uma praça, execuções quase diárias, apenas
um exemplo. Céline teria gostado disto. Ou das
casas amarelas no outono, ou da bomba que
destruiu uma noite a fachada da casa do
governador. Antónia, suas mãos. O gelo dos olhos
valia o ouro do corpo, o sangue do céu, a
economia morta. Grande era a tendência para
passar fome. O mal de Cloé era a sua anemia
impiedosa, o que ela tinha que suportar pela
altura das chuvas. Nos dias históricos enviava-me
o meu pai, pontualmente, uma madeixa
do seu bigode, uma perfeita imposição de respeito.
A minha força filial era, por seu turno, enorme.
Não – dissera eu a antónia mas ela nem sequer falara.
A sua voz (antónia) podia
sair da garganta ou do ventre, indistintamente.
Não que ela fosse ventríloqua, mas o
certo é que sofrera muito. Dachau, provavelmente.
Ou um outro lugar, muito pior, que não
chegara à celebridade. Eu, pessoalmente, não
desejava confessara cloé o meu imenso amor. Mas
houve um dia em que tive que o fazer. Em
singapura, como sabem, não há mar. O índico
porém, baila nas pupilas da branca cloé, e
o incêndio da sua casa, na virgínia.
Episódios da guerra civil. Cloé,
antónia, o meu pai, eu, Céline
e coronéis carbonizados. Quando pela ultima vez
em baden-baden olhei na rua antónia e
cloé morta sem sangue, que antónia levava
pela mão.



rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977



05 setembro 2016

rui diniz / invocação de quem se amava



Bebi a desolação em Baltimore num
café. Sentia-me só. Escrevia cartas aos
exilados e tinha uma terrível dor de cabeça.
Por momentos vira os lugares alagarem-se
nas maldições dos mosteiros. Alguém me
lembrava Mr. Kite pagando as bebidas aos
poetas saídos da prisão, e, depois, a própria
prisão de Mr. Kite e a sua morte dias depois.
Chovia, Kite, nos teus cabelos sem cor. Tinhas
as mãos enfiadas nos bolsos, cheias flores
de obstinação. Eu lia os livros da hora
revoltada, os escuros atentados desses
dias,  inútil harmonia dos poemas. Para
mim, eram essas horas de um intenso
esquecimento e os poemas lidos desapareciam,
desapareciam os escritores da
infelicidade. Eu  procurei os lugares sombrios
e vi que tinham sido extintos, abandonados
na maior precipitação. Aí estive alguns
anos e aí vivi o obscurecido ópio da
minha vida, a decisão brusca dos teus
lábios de morta. Morta – eis como te avizinhavas.
Rindo, rias da minha vida áspera, de
revolucionário, aparecias frequentemente
nos cafés clandestinos da margem sul
e acusavas o que eu escrevia, as cartas
aos exilados.
Até que uma manhã eu próprio me ri
e vi lágrimas de medo transformarem-me
o rosto – era chegada a época da
nossa condenação. Era chegado o outono
com o seu cortejo de corpos amnésicos,
sua orgia desprovida de repouso.

  
rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977




01 julho 2016

rui diniz / a propósito da revolta nos países do sul



Talvez em Avignon no Outono a frivolidade
a bebêssemos num café por tempo escuro.
Esquecia-me de ann radcliffe que conhecera
no verão em san sebastian. Aí o mar inclinava
as ondas até ao seu corpo frágil, separava-lhe
os cabelos, quentes do sol e da adoração.
Ouvia Alice moderno recitar enquanto bebia
várias cervejas e fumava tabaco inglês. Na
holanda eu escrevera cartas aos amigos que
lutavam longe no país, à beira de um rio
que a noite fascista enegrecia. Dessa brasserie
as emoções partiam embrulhadas em álcool,
eu falava-lhes da estratégia, dos mortos e
sobretudo da respiração sufocada em hannover,
na praça das mil lanternas. Eu tinha então
o costume de escrever sobre as cartas, sobre
os filmes e os salões de jogo, onde bebia
por vezes até que me expulsavam. Nessa altura,
nas ruas frias e desertas, reparava em como
me fora fácil chegar à miséria, à fome
imensa dos exilados, à roxa degradação.
Vivi dois meses com uma prostituta suíça, perseguido
pelas suas pestanas trágicas, pelos seus longos
monólogos cheios de palavrões e pragas, insultando
os poetas que eu lia já possuído de indiferença.
Com o tempo fui-me esquecendo. As frases eram
compostas por um balbuciar vago e doloroso, como
se eu fosse apenas um alcoólico amnésico
incapaz de amaldiçoar. Talvez por isto, quando
uma manhã dei por mim sentado numa
esplanada em Avignon, a beber lentamente
a frivolidade de todos os outonos,
não me surpreendi.


rui diniz
ossuário
(ou: a vida de james whistler)
& etc
1977



01 junho 2016

rui diniz / colagem



Albéniz percorreu as épocas mesetárias
num velho Renault de 1911. O seu
sorriso era a herança de um veleiro
ou um corsário do tempo de isabel, a católica.
O campeão dos bebedores de cervejas,
um tal hornblwer, espalhava a alegria
por todo o país. A viagem diluía as ruas
de basalto, os oleiros de córdova, a cera
das próprias asas. E os pavios das velas
extintos, extintos.

Foi o vinho tinto, catalunha
mais de um mês durou a botija
de couro.
A cantábria
ébria
ufana
do áspero vento. A virgem lola.

Músicos d´españa.



rui diniz
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987






11 maio 2016

rui diniz / argumento




Escrevi um longo conhecimento do desespero.
Um dia abri na noite as razões silenciosas.
Senti o cérebro torcer-se lentamente e depois
parar, toldado pelo esquecimento. E na amnésia,
entre alguns rios lisos de cores escuras, dias
e noites permaneci. Ao fim de alguns meses
recordei uma cidade, que um rio atravessava,
onde eu conhecera outrora todas as pessoas
destruídas pela sua própria vida e onde só
pessoas assim eu conhecera. Lembrei-me da
maneira estranha como tantas delas tinham
morrido. O alcoolismo era então uma enorme
razão. Alguns dos amigos fumavam marijuana.
O seu riso rachava o muro da noite e descobria,
para trás, lentos cemitérios onde o luar
tingia. Os livros consumiam-me os olhos e
a cabeça doía-me. Pude assim lembrar-me
de ter escrito poemas sobre a doença de
imensa gente, uma espécie de febre, ou uma
coragem constantemente estrangulada, um
último oferecimento do seu desejo à vertigem
e depois, uma manhã em que se sabia dos
suicídios.
Mortos, os seus dedos floresciam a penumbra
dos quartos, os seus lábios apodreciam já
sob poeira azulada, as praças inclinavam-se
uma vez mais como sítios de uma única
ternura. Os seus quartos estavam sempre cheios
de lixo quando os encontravam, e alguns
ainda sorriam daquilo que os tinha feito
dizer: amo-te e podemos tentar ser muito
felizes e depois, quando o desespero os elucidava:
amávamo-nos, poderíamos ter sido felizes.
Escrevi este longo conhecimento dos amigos
mortos e eu próprio escapei a uma noite
qualquer. Mas nesta amnésia de só algumas coisas
ainda mais permaneci.

Essa cidade e esses nomes dissolveu-os o
que pude lembrar: poentes nas esplanadas,
tomando aperitivos e rindo e vendo
a multidão descendo os espessos lugares.
Noites nos dancings ou nos quartos, fumando
a desolação, escrevendo poemas sobre ruínas
e vidas que se consumiam em abandonos
e viagens.
Tudo era estéril como a doença que nos
movia, de lugar para lugar, uma fome pura
e quase construída, uma indiferença que
compreendia tudo e os anos através das
caras e dos corpos e mais tarde o desalento
e estarmos vivos.

Escrevi sobre as tardes e a sua lenta solidão
e depois as vozes vindas através dos sítios
essa cidade em que esqueci o que poderia
escrever ainda, a minha recordação talvez
dos anos, nas bocas azuladas, no repouso
com sangue, com lentos sonhos dentro
dos olhos lívidos, com o último olhar de
esquecimento, o mais árido lugar,
a insuportável solidão.

E repeti dias e dias o desassossego. Os nomes
que poderia lembrar. A cidade com os seus
lugares de desespero o que me foi sendo
possível recordar. E neste desolado hospício,
hoje, vi todo o meu enlouquecimento – um
propósito de me lembrar de todas essas coisas
e o seu lento e doloroso sabor. Um
obsessivo crescer do sofrimento – maior amor.



rui diniz
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987




20 abril 2016

rui diniz / o desaguar dos crepúsculos no ebro



Eu estava presente quando o corpo do hernandez
deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente
roxo, evocava os últimos dias da sua vida,
quando se demorava o menos possível nos cafés de
barcelona, perseguido até por si próprio.
De facto a loucura procurava-o lentamente.
Durante a noite, em tempo de lua cheia, a sua
sombra por vezes corria pelo silêncio dorsal
das colinas, rindo. Eu lia então até tarde as
suas descrições de uma espanha enlouquecida,
sonhadora de sangue, impulsionada pelos
cemitérios sombrios onde corpos se iam decompondo
enquanto esperavam. Os seus dedos crispavam-se
quando o vi trazido para terra naquele poente
áspero como poentes da cantábria. Os seus olhos
eram duas covas percorridas por algas e
peixes minúsculos, os lábios articulavam ainda as
últimas palavras para o aniquilamento negro dos
seus dias. Mas a boca, submetida no silêncio de
estar morto, esboçava o mais puro sorriso,
a ironia de poemas inteiros meditando o mais
violento infortúnio.

A noite escurecia a praia e os rostos estranhos
das falésias. Vinha com as asas de morta humedecidas
de sangue, irmã de hernandez despedindo-se
suavemente da lua negra.
Olhei-o uma derradeira vez:
o ebro cobria-lhe os cabelos agitados
e no espesso desaguar das narinas
o seu estilo reaparecia.



rui diniz
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987