13 março 2023

rui diniz / explicação

 
 
Sem dizer que outrora entre lâmpadas
de seda o som cítio traçou um olhar
de incêndio. Sem dizer que o que sentimos
se transformou no que dissemos, e o
céu alagou-nos os olhos de uma véspera
de lágrimas. Então que nos fica por dizer?
 
Em bruxelas à noite as ruas e os bairros
humedecidos, encontrados, desencontrados.
A razão para escrever. Os sempre longos
losangos de chuva. A ínfima degolação
da mágoa como o apagar-se de um nome
na memória esgotada de azul e febrecitude.
 
Invento de um engenho que apesar dos
anos nos mantenha despertos para buscar.
Apenas os lábios de dessedentam com tais
palavras. Tal como os sobre a mesa pousados
escritos. Recordo-me de apenas uma mágoa.
De um cântaro deverão quebrado num
alpendre, depois do bulício e do sonho em
que o vi.
 
Sem descrever com amor os séculos e
as rodas das azenhas. Sem com as mãos
já muito doentes folhear o céu, na vã
vontade de o ler. Que poderei eu nestes
lugares procurar e encontrar, além de
rubro desânimo?
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022




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