25 fevereiro 2020

herberto helder / lugar



III
As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São broncas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias brilhantes de desgraça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema
com o fogo podre de um sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.

O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois a europa tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma europa exaltada.



herberto helder
poesia toda
lugar
assírio & alvim
1996








24 fevereiro 2020

fernando alves dos santos / o sol e a fronte



III

Ferido pelos astros que imagino, porquanto sei do desejo de conhecer a última voz, reconheço quanto o preço é de cinza e de loucura. Todavia, existo, para que existam estas praias e estes sonhos, para que cruzem nas minhas ruas todos os que comigo se cruzam e o reconhecem, todos os que passam de intuição e surpresa nesta tranquilidade só aparente, feita de sangue e de lamentos e de pânicos e de águas desaparecidas na própria lei que nos fará desaparecer como a lua, batida pelo vento, mas sempre devolvida.

Este é o preço de fadigas. Este regresso que me envolve no desejo de ouvir a última voz.



fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005









23 fevereiro 2020

daniel faria / sou gémeo de mim



Sou gémeo de mim e tudo
O que sou é
Distância.
Estou sentado sobre os meus joelhos
Separado.
Aquilo que une
É um rumor.
Não descanso. Sou urgência
De outro sítio. E pudesse velar-me
Longe
Dos homens como se neles
Adormecesse.



daniel faria
poesia
quasi
2003








22 fevereiro 2020

fernando echevarría / em certas casas



Em certas casas o silêncio quase
reduz as estruturas à evidência,
de forma a os alicerces lhes fundarem
aquela irredutível diferença
que as institui. E desentranha a habitável
capacidade de luz e de paciência.
Porque o silêncio as sabe
translúcidas. Sua substância entra
com um alento de subtilidade.
E por dentro dos poros a sustenta.



fernando echevarría 
geórgicas
afrontamento
1998








21 fevereiro 2020

manuel antónio pina / palavras



Palavras perpetradas em silêncio
na cama, lugar de assassinos.
Escondo-me para morrer. Nenhuma lógica é mais mortal
que esta estúpida perversão, esta morte.

Estúpidos lençóis; escrita de
corpos grosseiros; crimes passionais.
Falta-me uma palavra essencial,
um som perverso para morrer: um sonho.

Contraem-se os músculos na vigília.
Preciso do sono e do movimento dos corpos
para dirigir devidamente o pequeno crime
da tua morte. Agora calo-me um pouco.


manuel antónio pina
rebis
algo parecido com isto, da mesma substância
poesia reunida 1974-1992
afrontamento
1992




20 fevereiro 2020

josé gomes ferreira / viver sempre também cansa!



Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
«Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela.»

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosse acordar
a Morte ainda menina no meu colo…



josé gomes ferreira
viver sempre também cansa! 1931
poesia I
portugália
1972




19 fevereiro 2020

cesare pavese / o tempo passa



Uma vez, um homem velho, sentado na erva,
esperava que o filho regressasse com o frango
mal esganado e pespegou-lhe duas bofetadas. Pelo caminho
– iam de madrugada por aqueles montes –
explicava-lhe que os frangos se esganam com a unha
– entre os dedos – do polegar, sem ruído.
Empanturrados de fruta, caminhavam debaixo das árvores
no fresco amanhecer e o rapaz levava
ao ombro uma cabaça amarelada. O velho
dizia que as dádivas da natureza são de quem delas precisa,
é tanto verdade que não nascem debaixo de telha. Primeiro olha-se
bem à volta e depois escolhe-se com calma a videira mais escura,
e sentamo-nos à sombra dela, sem bulir, enquanto não estivermos
                                                                                    atestados.

Na cidade há quem coma frangos. Nas ruas
não se encontram frangos. Encontra-se o velhote mirrado
– é tudo quanto resta do outro homem velho –
que, sentado à esquina, olha para quem passa
e, quem quer, lança-lhe duas moedas. Não abre a boca
o velhote: estar sempre a falar faz sede
e na cidade não há tonéis entornados,
nem em Outubro nem nunca. Há a grade do tasco
que cheira a mosto, especialmente à noite.
No Outono, à noite, o velhote caminha,
mas já não tem a cabaça, e as portas defumadas
dos tascos expelem bêbados que falam sozinhos.
É uma gente que só bebe à noite
(pensam nisso logo de manhã) e assim se embebeda.
O velhote, em rapaz, bebia com calma;
agora, só de o cheirar, treme-lhe a barba:
por fim, mete um pau entre os pés dum bêbado
e derruba-o. Ajuda-o a levantar-se, esvazia-lhe os bolsos
(ao bêbado às vezes resta-lhe qualquer coisa),
e às duas expulsam-no também a ele
do tasco cheio de fumo, pois canta, pois grita
e que quer a cabaça e deitar-se à sombra das videiras.


cesare pavese
cidade no campo
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997





18 fevereiro 2020

nuno / par coeur



                                                             O homem pode o seu coração
                                                                                   Manuel de Castro


Anda comigo,
vamos ver paisagens caran d´ache,
– dizias.

Arrefecias no chão
um coração incandescente
em anamnese lacónica
de nós

Anda comigo,
tenho ainda escuridão para ti,
– dizia.


nuno
livro de visitas
díptico
ed. do autor
2019





17 fevereiro 2020

manuel resende / uma palavra


Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho de explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.



manuel resende
poesia reunida
edições cotovia
2018






16 fevereiro 2020

álvaro de campos / há mais de meia-hora



Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo).
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da «Enciclopédia Britânica».
Ao lado direito —
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.
Quem pudesse sintonizar tudo isto!

3-1-1935



fernando pessoa
poesias de álvaro de campos
edições ática
1944






15 fevereiro 2020

edmundo de bettencourt / noite vazia


Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspensão da mágoa.
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço.
E a morte espreitando a lentidão
irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!


edmundo bettencourt
poemas surdos 1934-1940
poemas de edmundo de bettencourt
assírio & alvim
1999






14 fevereiro 2020

saint-john perse / amargos



[…]

Tu aí estás, meu amor, e só tenho lugar em ti. Elevarei para ti a fonte do meu ser, e te abrirei a minha noite de mulher, mais clara que a tua noite de homem; e a grandeza em mim de amar te ensinará talvez a graça de ser amado. Licença então aos jogos do corpo! Oferenda, oferenda, a favor de ser! Abre-te a noite uma mulher: o seu corpo, as suas angras, a sua praia; e a noite anterior onde jaz toda a memória. Dela faça o amor o seu refúgio!

[…]


saint-john perse
antologia poética
trad. carlos cunha e alfredo margarido
guimarães editores
1961




13 fevereiro 2020

vasco gato / esta música, ouves?


Esta música, ouves?

sabe que
quando nos separamos

– tu seguras uma ponta,
Eu seguro outra –

as coisas do mundo
tocam o cordel
da nossa distância.



vasco gato
um passo sobre a terra
língua morta
2018







12 fevereiro 2020

rui coias / a ordem do mundo


7.
Em qualquer momento, no começo e no fim,
mesmo na medida de toda a vida – falhos de toda a pena,
permanecemos sem amanhã nem princípio,
esbatidos na idade e na distância, saqueados na sua mentira,
apenas acumulando areia para o fundo de um recreio
a simular um amuleto contra o regresso impossível.
Não temos trégua – não podemos voltar – e afastamo-nos – sem
ruído – lá para onde de longe chamamos, no ar rarefeito
– figuras resumidas a uma branca poeira informe,
em quantas inumeráveis semelhanças com a morte.
Pressentida ruína, a do íntimo declínio disto tudo,
demais cientes na incerteza como o sinal exposto da memória,
resina que nela se abate à frente dos olhos, que
esmaga cada braçada do tempo ao seu embuste
e nos recusa a menor separação do abandono –
que por nada existimos – e só acenamos – acenamos –
senão para crer no que julgamos não ter acontecido,
senão a entender a justa aceitação da nossa vida.




rui coias
a ordem do mundo
quasi edições
2005







11 fevereiro 2020

sarah kirsch / orvalho negro


  
O acaso conduziu-me a esta planície
Onde durmo sobre juncos como sobre seda.
Na terra pantanosa vive-se sem calendário
O inverno faz-se sentir mas não se sabe o seu ano.




sarah kirsch
trad. maria teresa dias furtado
hífen 7 abril
cadernos semestrais de poesia
dias inúteis
1992









10 fevereiro 2020

pat boran / a bondade de um homem



A bondade de um homem vê-se
pelo que ele diz a um cão
quando tem de saltear da cama
a meio de uma noite de inverno
porque um maldito cão tem estado a ladrar

e vai, abre a porta
de camisola interior e boxers
e ali à frente no baldio cheio de buracos
a que chamam campo de jogos
dá com o rafeiro de pata

no ar na expectativa
e um ar que diz: Graças a Deus
por momentos pensei
que só eu estava acordado
nesta terra de merda.



pat boran
o sussurro da corda
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018