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20 agosto 2020

carlos de oliveira / descida aos infernos


5
(E descendo
é como se descesse dentro de mim
nas cobardias-detritos das águas,
nos heroísmos-resíduos das fráguas.

E seja por que for
no suor anónimo das mágoas)



carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001







12 maio 2020

carlos de oliveira / infância



II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.

  


carlos de oliveira
turismo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998






06 março 2020

carlos de oliveira / descida aos infernos



4
Desço
para o centro da terra,
atravessando o sono inicial
dos fetos líquidos dos lagos.

E passando, levemente acordo
os profundíssimos olhos verdes, vagos,
das águas esperando
o calor filial dos peixes.

No dorso deste espírito dorido
que flutua pelas eternas penumbras,
cavalgo devassando as fontes da vida
donde goteja um leite amargo e turvo.



carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001






29 outubro 2019

carlos de oliveira / infância




I

Terra
sem uma gota
de céu.




carlos de oliveira
turismo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998










13 agosto 2019

carlos de oliveira / tarde



A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo,
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.



carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998








29 abril 2019

carlos de oliveira / papel




                Pego na folha de papel, onde o bolor do poema se infiltrou, levanto-a contra a luz, distingo a marca de água (uma ténue figura emblemática) e deixo-a cair. Quase sem peso, embate na parede, hesita, paira como as folhas das árvores no outono (o mesmo voo morto, vegetal) e poisa sobre a mesa para ser o vagaroso estrume doutro poema.



carlos de oliveira
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001













02 janeiro 2019

carlos de oliveira / praias






               Dorme, flutua numa espécie de lago. A respiração dos seios empurra contra as paredes do quarto, em ondas lentas, o meu corpo afogado. Não consigo dormir.

                Esperarei toda a noite nessas praias de cal, desertas, verticais.



carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998








21 setembro 2018

carlos de oliveira / desenho infantil



II

Os camponeses, esses, destinados às sepulturas rasas, aos estratos de mortos sobre mortos, servem-se do pinho, dos adobes (materiais perecíveis), erguem casas na lama, manuseiam utensílios tão rudimentares como a charrua de madeira. Passam sobre a areia e as pegadas somem-se depressa, «mas carregam aos ombros a pedra do meu lar (pensa a criança obscuramente) e a minha lápide futura».



carlos de oliveira
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001










18 agosto 2018

carlos de oliveira / vento




As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.


carlos de oliveira
cantata
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001








25 maio 2018

carlos de oliveira / descida aos infernos



3
Descendo sempre
em redor me projecto
na lama escura quase por criar
e pelas margens ácidas deste mortal trajecto
arrepiam-me estrelas a levedar.

Toldam-me os olhos gigantes de placenta,
génios abortados no parto destas furnas
onde não chega nunca, ó coisas diurnas,
a vossa luz piedosa,




carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001








09 abril 2018

carlos de oliveira / árvore



I
As raízes da árvore
rebentam
nesta página
inesperadamente,
por um motivo
obscuro
ou sem nenhum motivo,
invadem o poema
e estalam
monstruosas
buscando qualquer coisa
que está
em estratos
fundos,

II
talvez poços,
secretas
fontes primitivas,
depósitos, recessos
onde haja
um pouco de água
que as raízes
procuram
de página
em página
com a sua obsessão,
múltiplos filamentos
trespassando o papel,

III
seguindo o fio
da tinta
que desenha
as palavras
e tenta
fugir ao tumulto
em que as raízes
grassam,
engrossam, embaraçam
a escrita
e o escritor:

como podem
crescer
de tal modo

IV
no poema,
se a árvore
foi dispersa
em pranchas de soalho,
em móveis e baús
que fecham
para sempre
coisas
tão esquecidas,
como podem
romper
de súbito impetuosas
na aridez
do livro

V
e perseguir-me
assim,
se a areia
donde vêm
já vitrificada
pelo tempo
oculta
a árvore que morreu:

procuram
instalar-se
no interior da linguagem
ou substituí-la
por uma
infiltração

VI
quase
mortalizante:
mas
de repente
como apareceram
as raízes sossegam
[que terão
encontrado?]
e retiram
com o mesmo fluxo
do mar que se retraie deixa
atrás de si
silêncio:

VII
é então que vejo
no halo mais antigo
a árvore desolada,
os ramos em que poisam
as aves
doutros livros,
e pressinto
as raízes
através da sílica
onde a família dorme
com os ossos dispostos
nessa arquitectura
duvidosa
de símbolos

VIII
que chegaram
aqui
de mão em mão
para caberem todos
na constelação
exígua
que fulgura
ao canto do quarto:
o baú ponteado
como o céu
por tachas amarelas,
por estrelas
pregadas na madeira
da árvore.


carlos de oliveira
micropaisagem
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998






12 março 2018

carlos de oliveira / descida aos infernos



2
(E procurando
sai para fora da minha alma,
maior que ela,
a grande sombra errante
dos corcéis
                     da amarga loucura
que outrora desceram por estes vales
ateando clarões
nos olhos de Dante).



carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001






24 novembro 2017

carlos de oliveira / quando a harmonia chega




Escrevo na madrugada as últimas palavras deste livro: e tenho o coração tranquilo, sei que a alegria se reconstrói e continua.

Acordam pouco a pouco os construtores terrenos, gente que desperta no rumor das casas, forças surgindo da terra inesgotável, crianças que passam ao ar livre gargalhando. Como um rio lento e irrevogável, a humanidade está na rua.

E a harmonia, que se desprende dos seus olhos densos ao encontro da luz, parece de repente uma ave de fogo.



carlos de oliveira
terra de harmonia
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998





26 julho 2017

carlos de oliveira / descida aos infernos


1
Desço
pelo cascalho interno a terra
onde o esqueleto da vida
se petrifica protestando.

Como um rio ao contrário, de águas povoadas
por alucinações mortas boiando levadas
para a alma da terra,
procuro os úberes do fogo.




carlos de oliveira
descida aos infernos
antologia poética
quasi
2001





22 junho 2017

carlos de oliveira / as marés em redor da tua ilha



As marés em redor da tua ilha;
o pequeno arquipélago na paz
da solidão marinha; a maravilha
do jeito da onda eu o teu corpo faz.

Sobre o pálido estuque da parede,
como um espelho da minha própria imagem,
uma seara de Van Gogh morre à sede
no óleo espesso e fulvo da estiagem.

Ao calor do céu de tela passa,
arrancando pedaços de céu velho,
um bando de aves que pressente a ameaça
no horizonte de cor, raso vermelho.

E de repente dou comigo absorto,
as mãos entre papéis de antigos versos,
soprando um lume que supunha morto
e aquece ainda os dias já submersos.

Ó mãos inquietas, porque não parais?
Mais do que penso, sonho: donde vim?
e as pupilas do tempo, azuis, mortais,
acordam a chorar dentro de mim.




carlos de oliveira
a noite inquieta
antologia poética
quasi
2001





22 maio 2017

carlos de oliveira / descida aos infernos


9
Eis-me no centro do assombro,
onde não há distinção nenhuma
entre ser queimado e ser fogo.

No centro do assombro,
mordido pelas chamas
e a mordê-las:



carlos de oliveira
descida aos infernos
antologia poética
quasi
2001




04 março 2017

carlos de oliveira / cal



A cal
o amor
guardado para os mortos
dissolvente perfeito
da tua solidão
descarnada
em meu peito,
a cal,
o coração.



carlos de oliveira
terra de harmonia
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1998