07 fevereiro 2026

diego doncel / o job dos estábulos

  
O burro do tio Satour tem gravado por cima dos olhos
um aviso espiritual: «Eu não sou o mais tolo»
E na verdade ao percorrer a cinza amarga dos campos,
ao sentir na sua alma o peso triste do planeta,
que é a medida de todas as coisas,
aprendeu o alfabeto da desolação,
um alfabeto feito de moscas e de pó.
 
Equilibrista dos pedregais, palhaço metafísico,
de tanto pensar na sua melancolia tornou-se nisto:
um castrado para o pensamento.
Como profeta de riso enigmático
as suas olheiras sujas denunciam o humor sem sentido das suas profecias,
esse andar por aí a fazer troça, com paradoxos ridículos,
daqueles que numa mansidão ignorante
não mudaram para si todo o saber.
– O excesso de inteligência – zurra às vezes satisfeito –
traz desordem ao esplendor da lua e do sol,
desmorona as montanhas, seca os rios e perturba
 a sucessão das estações.
 
Será por isso que ele, como um visionário sem salvação,
ficou lorpa e irónico, feito um tumulto
de ossos debaixo da sua pele ruiva de diabo.
A doçura fê-lo enlouquecer e deu-lhe uma infinita serenidade,
mesmo quando vai pelas ruelas a cabecear
ao sol cansado do entardecer e rumina divertido a ideia
de que o homem é um ser superior só porque faz o mal.
 
São muitos os motivos que tem para se revoltar
contra os deuses e contra os homens,
mas são mais as razões para apaziguar-se com as troças
que brilham no seu olhar escarninho e pavoroso e nas suas húmidas olheiras.
– A paz que não dura uma eternidade é um pesadelo – diz.
 
A sua alma é apenas um rascunho de alma, uma piada
dita por alguém para mover o cansaço deste enorme esqueleto.
Por isso a ironia é o disfarce de todo o seu cepticismo e de toda a sua desmemória,
a melhor arte para sobreviver entre imbecis.
 
Aí vai ele a rir-se de si mesmo por uma terra
oxidada de ervas secas, por uma terra
onde uma nuvem de insectos assola na sua neurose
a derradeira frescura da noite.
O seu riso é espectral, como o de um Job dos estábulos,
como o de um punhado de pó e de silêncio
que se divertisse por penetrar cada noite
no absurdo do mundo.
 
 
 
 
diego doncel
em nenhum paraíso
trad. joaquim manuel magalhães
averno
2007





 

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