13 fevereiro 2026

eduarda chiote / o rapaz das rosas

  
 
1.
 
O poeta surgira das alvas rosas
pois, nelas, uma ardência
gelada
concentrava o purificado odor do ramo
calcinado – São para si: disse.
– Não faço anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas as que lhe ofereço
não têm a volatilidade
da sua exaustão delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei que vestia uma túnica larga
por onde o magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés descalços de mistério e de baixa
entropia: pois e apenas
imaculado e híbrido, bondoso
me sorria; de modo que lhe perguntei
porque me escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua culposa santidade?
 
 
2.
 
Escuta: sou a embrionária e perene pele
da matéria primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo, calcinar as faíscas
que nadam dentro
dos partos e cantos puros
da minha autenticidade
caótica? – Não me importo. Não me importo.
Acho-me em sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem o seu veneno
e olhos sem pálpebras criam peixes
de mundos onde podemos ser
covardes e corajosos; simultaneamente
frágeis e fortes.
Paira, sob a solidão carente da empatia
o que persiste no
odor apiedado do dia
em que murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo acabe definitivamente
ou não, juro, não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a poesia tenta
o contrário: Não há acordos entre
prosa e poesia.
 
 
3.
 
Suprema irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos deuses e Deus
por pura idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de cinco em cinco minutos.
Astuciosos e indiscretos, cultivamos
um apego ao sémen
idêntico aos pequenos lavores
que despontam nos botões das rubras rosas
e catamos no doce pêlo do animal
a sintonia entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de modo que me interrogo; – Quem
e o que somos neste contexto, agora?
– Ridículo, ter a “bomba operacional” passado de
moda: mil toneladas de dinamite
causarão daqui em diante adicionais catástrofes
de floridas rosas: e daí, repito, quem se
importa, interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e não desafina a eterna melodia
que da mais escura noite os mochos
forjam fabulosa e furtivamente;
a alva luz do dia e o mísero apelo ao
ao que justifica opostos.
 
 
4.
 
De novo apareceu atravessando
a preocupação da sua furtiva imagem,
mas eu reconheci-o com a precisão
de um relâmpago no vidro
da janela da casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase familiar, entregou-me
um livro.
Para meu espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da dedicatória: “Para os que
nasceram sem identidade, mínima esperança
de entender que o inferno é capricho terreno
e paz a vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo, semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia que estoicamente suporta
o seu vazio.
 
 
5.
 
Numa perspetiva romântica
esqueço, não sei porquê, convenientemente
um espaço para construir jardins
aturdido por gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas – confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e como se o Homem tivesse regressado
à fonte em chamas de “um marxismo
imaculado”, de fabulosa, extrema dor e saudade.
 
 
6.
 
A consciência começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo sobrenatural e invisível
do fogo fora do tempo, pela descida ao barro
dos oleiros divinos.
Benditas as mãos desfiguradas
da criança mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do lugar onde o ovo deposita a
galinha.
 
 
7.
 
Conto.
Resumo.
Não vale a pena tentares,
leitor,
entender que dentro em pouco,
a imobilidade pode ficar totalmente presa
a miseráveis desinibições
de uma monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o poema está
pronto.
 
 
8.
 
Esta compulsiva ganância de escrever que
inventas preciosa, esmerada e em aristocrática matriz
virginal de grande classe,
atrai a apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a tua infantil imprudência
e masculina menoridade.
– A quem tentas iludir ao fazeres passar
a incompetência por criatividade
inteligente? Repara: nem os rigores
das palavras te pertencem nem o talento.
E o pior de tudo é roubá-lo
a ti mesmo- – Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva ganância de escrever
pode até ser um diabólico amor pelo poder
pois quem o tem não o usa: inteligência,
ou pura estupidez de empatia?
 
 
9.
 
Era devastadora a fúria da tempestade,
marginalizando a casa isolada, ao extremo das
grades do terraço desabarem
descomunalmente; mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e paciente.
Como assassino de si mesmo.
– Só tenho um minuto minúsculo
mas queria, precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos das rosas
no seu incerto entendimento.
 
Aproximei-me do seu vulto.
 
Numa observação fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado, dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor encomendada.
 
Antes de mais, os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de que não vale a pena luxos
quando se decide ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das rosas choravam: profissionalmente pagas.
 
 
 
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026
 





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