06 fevereiro 2026

joaquim manuel magalhães / pelos caminhos da manhã

  
TERCEIRO
 
As sete estrelas da ursa maior
repousa nelas a cabeça crucificada.
No baixo céu do norte aonde gira
o orbe que faz de céu à terra
abre-se a grade para este escuro.
 
Entre o mar e o ar sombrias algas,
o dragão, as três donzelas
e a árvore com os frutos doiro.
 
1.
 
Os ruídos dormindo sobre a água
a luz vindo até o dia abrir
sobre os pássaros as casas e os olhos
numa travessia entre detritos.
O último lume da noite
a neblina das mãos
os sons cobertos dos bichos
das plantas voltando a respirar
das pedras onde a humidade seca.
Sob o signo do inimigo pode abandonar-se
este intermédio instante de que os astros fogem.
Perguntas aos homens por quem passas
pelas árvores cujos frutos vais colher
depois de vencido o seu dragão.
É uma fábula, um trabalho quimérico,
mas o abismo existe e terás de passa-lo.
A tristeza e a coragem fazem-te voltar
pelos piores terrenos desta terra
ao encontro do relâmpago mensageiro.
Tão depressa te mostra o procurado
não o decifras,
não resolves esta outra vez da tua vida.
Cego pela luz mortal duma estrela
perdendo-se para que outra nasça
o local que não vês é esses frutos.
 
 
2.
 
No lugar da escuridão procuras
a água de seda desses sóis
pequenos entre a folhagem vigiada,
vagueias como se norte e sul
fossem a mesma estrada.
Sobre ela caminha uma serpente.
Tinhas vencido a outra que no berço
tentara devorar-te, a do desejo
no teu corpo quase sem alma ainda.
Estende-te um dente luminoso
pronto a arrancar-te o rosto,
vai ensinar-te a morte, mestre menor
dos reinos dos sentidos. Esmaga-la
nos braços, ela foge, regressa,
espalha as escamas na poeira.
Feres-lhe os cerros com os paus agudos,
atira-te venenos aos rins ao baço,
tenta cativar essas correntes.
Se a ergueres no ar, se a cortares da terra
que lhe dá as seivas e as seduções,
as mudanças e as aparências,
esmagas-lhe a cabeça aos vários ventos,
passa o portal que o seu cuspe cerra,
atinges as outras perdições.
 
Os pólos opostos do espírito, os deuses da porta,
comparecem nas marítimas furnas do crepúsculo.
A mais escura linguagem compreende o mundo.
A lebre foge nas infindáveis lezírias
seguida pelo cão condutor dos espíritos.
Uma gota de sangue acende clarões na água,
cai ferida uma ave perseguida por condores
e ao enganoso inimigo do que vem
é consumido pelo fogo dos vulcões ocultos,
suas cinzas levadas para o limiar dos gelos.
Enganado, enlouquecido, perseguido
essa lebre é o coração do homem,
essa ave fulminada nos despenhadeiros.
 
As conhecidas coisas da razão
e as pela razão desconhecidas
vais pelos pequenos charcos da chuva
pensando ver o mar e o vento nos arbustos,
na matéria confundido, numa busca sem sentido.
As revelações pequenas, as meditações
os enganos do frágil pensamento
aos ritmos do dia vão lançando
nas superfícies do mundo encantamento.
Eu sei que é tenebroso o que é claro,
que de muito longe vêm evidências
e os ecos dos pássaros são sinais
onde a terra adormece, o sol repousa,
os regatos devoram as imundícies,
as cabras conduzem a humidade tensa das flores.
Mas nas tenções do mestre encontrarás
o brilho que desaparece
para que surja outro fulgor.
 
 
3.
 
O fogo tenta devagar subir na árvore.
A casa move-se. Vêem-se os seixos do rio.
Ouvem-se as lagartixas sobre os muros.
Vão tão alto os pássaros que são luz.
As ruínas da terra cobrem-se de musgo.
Nas manchas da resina correm chamas.
A pele coberta pelos poderes do sol,
o cabelo aberto pelos ácidos do mar,
a boca enegrecida pelas algas,
o outro jovem ensina-te no corpo
como o corpo diminui a sujeição.
As unhas dos seus dedos onde a carne
está pronta a tocar-te,
a conduzir a tua força mais secreta
pelos canais das pernas, pelos braços
a levar-te pela relva negra das lagoas,
pelos côncavos onde amam os escondidos.
Nessas cisternas de acabada água
cobrindo as vozes que nem vós ouvis
perdidos um no outro como no sangue o sangue,
a árvore sagrada é o seu corpo?
um dos frutos sua boca de pele plúmbea,
o outro seu dorso vergado de carícias,
o terceiro o lancinante vértice perdendo-se
do ar e da terra no mais líquido dos fogos?
A esse altar amarrado ouvias as lições
da confusão e do esquecimento.
Mas a lança interior dos outros mestres,
do que vinha nos relâmpagos, nos tornados,
nas cadeias dos homens construindo
a perecível história de que nasce o futuro,
redisseram-te como os frutos vogam
noutro ar mais alto, noutras mais ígneas raízes.
E partisse deixando as cicatrizes
que saberes secavam.
 
 
4.
 
Os cães devoram os vestígios.
Esta ceia de cinzas leva-nos
ao oceano dos números, das derrotas
onde as sombras de deus nos denuncia
o pavoroso fogo do amor. Nesse brazido
os uivos dos animais feridos,
as asas arrancadas, as guelras abertas,
as gargantas rasgadas por metais
sobem ao encontro dos fantasmas,
descem às lamas, aos estrumes,
a boca devora os excrementos,
alimenta a selva doméstica
de cactos, fungos e venenos.
Os cães regressam, escavam
túneis onde a carne repousa.
 
Pelo visco das lágrimas corriam
os abutres lacerando o fígado,
correntes ao granito esmagando os ossos:
salvaste do castigo ao que trouxera
aos homens o sinal da mudança
e viste-o no deserto que lutara
contra ocultações, opressões, terrores
em armas contra a morte encarcerado.
E paraste-o nos campos cultivados
para ajudar colheitas,
no centro das habitações dos homens
nos mecanismos corruptores
para transformar o pão diário e a coragem.
 
Um homem com um arco mata um lobo,
a seu lado um corvo vai voando.
O rei negro no seu trono negro
esmaga com os pés o ventre rubro
dum jovem deitado sobre um grão de areia.
Dá um som imenso pela névoa do mar,
as palmas das mãos dançam na água
entre as ferozes plantas e os limos.
As separações dos desígnios e do mundo
estão conciliadas. As duas colunas da desgraça
caem num imenso planalto
de chuvas de vinhas de flores.
As justas balanças não oscilam.
Os órgãos dançam esquecidos
num corpo solar que retriunfa.
 
5.
 
As mãos deles traziam-te as maçãs.
As primeiras estrelas aparecendo
enquanto o sol se põe,
os animais cobertos do último calor,
as plantas bebendo o primeiro escuro
vêm com eles entregar-te os frutos.
Os olhos apavorados do repouso tocam-te na testa.
A aranha voltou, o suco negro dos fungos.
De repente toda a árvore floriu, tão branca
entre a chuva, os distantes detritos, os trovões.
Eram esses o caminho.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
pelos caminhos da manhã
arcádia
1977
 



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