16 dezembro 2017

herberto helder / elegia múltipla



III
Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.
Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

- a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

- como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.



herberto helder
poesia toda
a colher na boca
assírio & alvim
1996





15 dezembro 2017

amadeu baptista / praia da granja





Pelo que quer que seja a exaltação habito aqui,
nesta casa de sete janelas,
com uma pequena porta e uma varanda verde.

A praia incendeia-me os olhos,
e chamo, chamo à mulher espiral do mundo.

Toco com um dedo o muro branco e acrescento
ao entendimento ervas amargas, animais solares
e obscuros, um antigo instrumento de trabalho,
o búzio, o barco, o arado,
um ramo de salgueiro, esta pedra incisiva,
uma maçã vermelha.

Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
a interrogar as sombras
e no poema murmura o poder das cintilações
sobre a cânfora,
a hortelã,
os figos,
o encantamento,
a cabeça da víbora.

A extensão desta casa é a dimensão desta praia
divina sobre as águas,
tal como é divina a mulher que me acompanha
e a quem chamo espiral do mundo
por ter criado um sortilégio assim,
uma casa grega,
branca,
nítida,
com sete janelas,
uma pequena porta e uma varanda verde
sobre o mar.

antologia A Sophia, Lisboa, 2007



amadeu baptista
caudal de relâmpagos
antologia pessoal 1982-2017
edições esgotadas
2017





14 dezembro 2017

tatiana bessa / enchemos de whisky as gloriosas manhãs do passado




enchemos de whisky as gloriosas manhãs do passado,
em distraídos suicídios acocoramo-nos
sob os pórticos
cortamos os cabelos outrora banhados ao vento
mortos aos 20 anos gargalhamos sinfonias de mozart
perante o medo insistente de como ele morrer sozinhos
passeamos os nossos cães com uma trela
de melancolia-de-todo-o-mundo
para que nos acompanhem à campa desde sempre desenhada
à nossa espera
como beatnicks ressuscitados encostamo-nos
às estantes dos supermercados
onde uma gaja sem nome regista o álcool
que beijaremos em casa, murchos
junto ao corpo demasiado conhecido da solidão.
no constante confuso silêncio onde por vezes
uma-tosse-feminina-se-ouve-ao-longe-no-final-de-uma-sinfonia.


tatiana bessa
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015





13 dezembro 2017

ruy cinatti / símbolos



A estrela e a cruz, ó Che Guevara,
meu raro amante, que me adormeceste
no teu braço esquerdo – juntos os pés.
Tenho dormido contigo em muitos homens
e fui eu que os adormeci e lhes dei sossego.
O teu retrato vive no meu quarto
e multiplica-se nos altares do mundo
com S. Francisco, esse lindo parvo…
com Santa Clara lá num claustro em Assis, que me diz tudo,
como em Cuba me disseste e na Bolívia-Inca
e em Portugal agora… Paz, meu Deus!

6/3/77



ruy cinatti
56 poemas
de antiguidades burlesco-sentimentais
relógio d´agua
1981





12 dezembro 2017

antónio ramos rosa / no silêncio da terra




No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no interior aberto.
Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.

Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.

Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.

o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.



antónio ramos rosa
vagabundagem na poesia de antónio ramos rosa
seguido de uma antologia
casimiro de brito
quasi
2001





11 dezembro 2017

rainer maria rilke / elegias de duíno



a segunda elegia

Todo o anjo é terrível. E todavia, ai de mim,
a vós cantei, ó aves quase mortais da alma,
sabendo como sois. Onde param os dias de Tobias,
quando lá estava um dos mais radiosos, à porta simples da casa,
meio disfarçado para a virgem e já não mais aterrador;
(jovem para o jovem, ao mirar curioso para fora).
Desse o arcanjo agora, o perigoso, de detrás das estrelas,
um só passo a descer delas para cá: de tão forte sobressalto
se nos destruiria o próprio coração. Quem sois vós?

(…)

(excerto)


rainer maria rilke
elegias de duíno e os sonetos a orfeu
trad. de vasco graça moura
quetzal
2017




10 dezembro 2017

natércia freire / não




Não formar nenhuma ideia
Do que somos ou seremos
Mas entre as vozes que fogem
Precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
Abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
Enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
Que penetraram no espaço
De eventos primaveris.
E dar a mão aos espectros
Beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
Correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
Abraçar quem nos ignora
Dormir com quem não nos vê
Mas precisar do calor
De quem nunca nos encontra.



natércia freire
os intrusos
1971





09 dezembro 2017

florbela espanca / tarde de mais...




Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E para o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste, enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia de oiro dos desertos
Procurara-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu fui nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!...


florbela espanca
sonetos
livraria bertrand
1981



08 dezembro 2017

yvette centeno / relato




Da paisagem da sombra
não te direi mais nada.

Percorre-se.

Em cada canto
um abismo.

E entre o pasmo
e o riso

caem pessoas
mortas.



yvette centeno
a oriente
edit. presença
1998






07 dezembro 2017

sylvia plath / balões




Desde o Natal que eles têm vivido connosco,
Simples
E transparentes,
Ovais animais com alma,
Movendo-se e roçando-se nas sedosas

E etéreas correntes de ar
A guinarem e a rebentarem
Quando atacados, depois fugindo a toda a pressa para uma calma
   ainda tremente.
Serviola amarela, chúmbea azul –
Tais são as estranhas luas com que vivemos,

Não com mobília fúnebre!
Tapetes de corda, paredes brancas
E estes viajantes
Globos de ar fino, vermelhos, verdes,
A encantar

O coração como desejos ou os livres
Pavões que abençoam
O chão antigo com uma das suas penas
Embutida no fundo de eças de metal luzente.
O teu irmão

Mais pequeno faz
O balão dele guinchar como um gato.
Parece estar a ver
Através dele um divertido mundo cor-de-rosa que talvez possa
  comer,
Morde,

Depois senta-se
De novo, pote gordo
A admirar um mundo transparente como a água.
Um resto de vermelho
Esfarrapado na sua mão pequena.



sylvia plath
ariel
trad. maria fernanda borges
relógio d´ água
1996




06 dezembro 2017

wislawa szymborska / a curta vida dos nossos ascendentes




Poucos chegaram aos trinta anos.
A velhice era privilégio das pedras e das árvores.
A infância durava a das crias dos lobos.
Havia que ser rápido, acompanhar a vida,
antes que se ponha o sol,
antes que a primeira neve caia.

Geradoras de filhos aos treze anos,
aos quatro assaltantes de ninhos nos juncais,
aos vinte dirigindo a montaria,
ainda há pouco mal estavam, agora já não estão.
As pontas do infinito depressa se alongavam.
As bruxas ruminavam os anátemas
ainda com toda a primeira dentição da mocidade.
À vista de seu pai o filho amadurava,
ao baço olhar do avô brotava o neto.

E por fim nem sequer os anos eles contavam.
Contavam tachos, redes, barracas e machados.
Tão benévolo o tempo para qualquer estrela
e estendia-lhes uma mão quase vazia
para logo a retirar como se achasse pena.
Um passo mais, mais dois ainda,
ao longo de um rio tremeluzente,
que das trevas escorre e as trevas volta.

Não havia nem um momento a perder,
perguntas a adiar, revelações tardias,
se não fora tudo experimentado previamente.
A sensatez não podia esperar pelos cabelos brancos;
havia que ver claro antes de a claridade vir,
ouvir a grande voz antes que o som se propagasse.

O bem e o mal –
pouco sabiam sobre eles e, porém, tudo:
quando triunfa o mal, o bem esconde-se;
quando o bem aparece, fica o mal de atalaia.
Um e outro impossíveis de vencer
ou de afastar para uma distância sem regresso.
Eis porque, se alegria – com angústia misturada,
se desespero – nunca sem esperança muda.
A vida, embora também longa, é sempre curta.
Curta de mais para dizer mais do que isto.



wislawa szymborska
paisagem com grão de areia
trad. júlio sousa gomes
relógio d’água
1998







05 dezembro 2017

luiza neto jorge / pelo corpo



infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublinhada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo


luiza  neto jorge
o amor e o ócio
poesia
assírio & alvim
1993





04 dezembro 2017

vasco graça moura / a escola de frankfurt



IX

e uma tarde tu
falaste-me da sombra,
da solidez do reino
de árvores imponderáveis.

mostrei-te a luz das praças
e das arcadas, viste
que a sombra era um reduto
só de acompanhamentos.

e viste o sol, o seu
benéfico poder, as tuas
narinas estremeceram
como se de um perfume

de archotes aromáticos:
as árvores ardiam.


vasco da graça moura
a escola de frankfurt
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007



03 dezembro 2017

fernando pessoa / a esperança como um fósforo inda aceso,




A esperança como um fósforo inda aceso,
Deixei no chão, e entardeceu no chão ileso.
A falha social do meu destino
Reconheci, como um mendigo preso.

Cada dia me traz com que esperar
O que dia nenhum poderá dar.
Cada dia me cansa da esperança...
Mas viver é esperar e se cansar.

O prometido nunca será dado
Porque no prometer cumpriu-se o fado.
O que se espera, se a esperança é gosto,
Gastou-se no esperá-lo, e está acabado.

Quanta acha vingança contra o fado
Nem deu o verso que a dissesse, e o dado
Rolou da mesa abaixo, oculta a carta,
Nem o buscou o jogador cansado.

22-11-1928



fernando pessoa
poesias inéditas (1919-1930)
ática
1956