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01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



20 dezembro 2025

bertolt brecht / da violência

  
 
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976




27 junho 2025

bertolt brecht / quem é o teu inimigo?

  
 
O que tem fome e te rouba
O último pedaço de pão chama-lo teu inimigo
Mas não saltas ao pescoço
Do teu ladrão que nunca teve fome.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976





21 março 2025

bertolt brecht / os tempos modernos




 
Os tempos modernos não começam de uma vez por todas.
Meu avô já vivia numa época nova,
Meu neto talvez ainda viva na antiga.
 
 
A carne nova come-se com velhos garfos.
 
 
Época nova não a fizeram os automóveis
Nem os tanques
Nem os aviões sobre os telhados
Nem os bombardeiros.
 
 
As novas antenas continuaram a difundir as velhas asneiras.
A sabedoria continuou a passar de boca em boca.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976







 

02 maio 2020

bertolt brecht / a lição do jardineiro



Pequeno reino de sebes e canteiros
O meu jardim me ensina
Que até a rosa nobre de Mileto
Tem de, para ser bela, ser podada.
Também ela deve compreender
Que a couve, o alho e outros legumes
De origem modesta, mas não menos úteis,
Têm, como ela, direito
À sua ração de água.
O jardim seria mato
Se só na rosa imperial pensássemos.



bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976






29 outubro 2018

bertolt brecht / lendo horácio





Nem o próprio dilúvio
Foi eterno.
Um dia as negras
Águas partiram. Mas como,
É verdade, houve poucos
Sobreviventes.



bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976










30 dezembro 2017

bertolt brecht / algumas perguntas a um «homem bom»




Bom, mas para quê?
Sim, não és venal, mas o ralo
Que sobre a casa cai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas, o que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?


Tens coragem.
Contra quem?
És cheio de sabedoria.
Para quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?


Escuta pois: nós sabemos
Que és nosso inimigo. Por isso vamos
Encostar-te ao paredão. Mas em consideração
Dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo da terra boa.


bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976





13 janeiro 2017

bertolt brecht / citação


Assim falou o poeta Kin:
Como escrever obras imortais, se não sou célebre?
Como responder, se ninguém me interroga?
Por que perder tempo com versos que o tempo perde?
Escrevo as minhas propostas em forma duradoura
Com medo que muito tempo corra sem que elas se cumpram.
Para atingir o que é grande há que passar por grandes
                                                                    transformações.
E as pequenas transformações são inimigas das grandes
                                                                        transformações.
Tenho inimigos. Logo devo ser célebre.



bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



05 janeiro 2015

bertolt brecht / aos que virão a nascer

 
 
I
 
Éverdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa
Revela insensibilidade. Os que riem
Riem porque ainda não receberam
A terrível notícia.
 
Que tempos são estes, em que
Uma conversa sobre árvores é quase um crime
Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,
Não estará já disponível para os amigos
Em apuros?
 
É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso. Nada
Do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou perdido.)
 
Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber quando
Roubo ao faminto o que como e
O meu copo de água falta a quem morre de sede?
E apesar disso eu como e bebo.
 
Também eu gostava de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
Retirar-se das querelas do mundo e passar
Este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência
Pagar o mal com o bem
Não realizar os desejos, mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!
 
 
II
 
Cheguei às cidades nos tempos da desordem
Quando aí grassava a fome
Vim viver com os homens nos tempos da revolta
E com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
 
Comi o meu pão entre as batalhas
Deitei-me a dormir entre os assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
 
No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo
Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
 
As forças eram poucas. A meta
Estava muito longe
Claramente visível, mas nem por isso
Ao meu alcance.
E assim passou o tempo
Que na terra me foi dado.
 
 
III
 
Vós, que surgireis do dilúvio
Em que nós nos afundámos
Quando falardes das nossas fraquezas
Lembrai-vos
Também do tempo de trevas
A que escapastes.
 
Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos
As guerras de classes, desesperados
Ao ver só injustiça e não revolta.
 
E afinal sabemos:
Também o ódio contra a baixeza
Desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
Torna a voz rouca. Ah, nós
Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade
Não soubemos afinal ser amáveis.
 
Mas vós, quando chegar a hora
De o homem ajudar o homem
Lembrai-vos de nós
Com indulgência.
 
 
 
bertolt brecht
a rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
trad. joão barrento
assírio & alvim
2001



11 agosto 2013

bertolt brecht / há homens que lutam um dia



Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis

  

bertolt brecht