31 janeiro 2020

yorgos seferis / garrafa ao mar



XII

Três rochedos alguns pinheiros queimados e uma ermida
e mais acima
a mesma paisagem copiada recomeça;
três rochedos em forma de pórtico, enferrujados
alguns pinheiros queimados, negros e amarelos
uma pequena casa quadrada enterrada na cal;
e mais acima muitas vezes ainda
a mesma paisagem recomeça em escadaria
até ao horizonte até ao pôr do céu.

Aqui atracámos o barco para remendar os remos partidos,
beber água e dormir.
O mar que nos amargurou é fundo e inexplorado
e desdobra uma serenidade infinda.
Aqui entre os seixos encontrámos uma moeda
e jogámo-la aos dados.
Ganhou-a o mais novo e perdeu-se.

Voltámos a embarcar com os nossos remos partidos.


yorgos seferis
romance
poemas escolhidos
trad. de joaquim manuel magalhães e nikos pratisinis
relógio d´água
1993





30 janeiro 2020

sylvia plath / berck-plage



I

É então isto o mar, esta enorme suspensão.
Como o remendo do sol evidencia a minha queimadura.

Sorvetes de cores eléctricas, tirados da geladeira
Por raparigas pálidas, andam pelo ar em mãos queimadas.

Por que está tudo tão silencioso, que estarão a esconder?
Tenho duas pernas e movo-me sorridentemente.

As covas na areia destroem vibrações;
Estendem-se por quilómetros, vozes já quase sem som

Acenando sem suporte, metade da altura que tinham.
As linhas dos olhos, escaldadas por estas superfícies nuas.

Bumerangue preso por elásticos, ferindo o dono.
É de admitir que ele ponha óculos escuros?

É de admitir que ele exiba sotaina preta?
Aí vem ele no meio dos apanhadores de cavala

Que se põem como um muro à sua volta.
Agarram nos losangos pretos e verdes como se fossem bocados
     de um corpo.

O mar, que tudo isto cristalizou,
Afasta-se lentamente, como as serpentes, soltando um longo
     e triste silvo.


sylvia plath
ariel
trad. maria fernanda borges
relógio d´ água
1996





29 janeiro 2020

jorge figueira / era a pessoa mais fria




2  era a pessoa mais fria que se pode imaginar. às vezes
    não tinha olhos. sentava-se aqui em silêncio. o seu
    corpo estabelecia difíceis relações com a mesa,
    as conversas, os cantos. todas as outras pessoas eram
    uma promessa quebrada com o balcão, a cerveja, aquele
    espaço de reunião.
    a desordem era algo exterior, portanto, por dentro,
    infantis peixes jogavam às escondidas, aos polícias
    e ladrões, assegurando paz, equilíbrio.

    sem degraus, sem palavras, sem conflitos.
    como um filme sem legendas.



jorge figueira
hífen 3 out. 88/ mar. 89
cadernos semestrais de poesia
1988





28 janeiro 2020

tomas tranströmer / madrigal




     Herdei uma floresta densa onde raramente ponho os pés. Mas lá chegará o dia em que os defuntos e os viventes troquem de lugares. É então que a floresta se põe em movimento. Não perdemos ainda toda a esperança. Os maiores crimes continuam por desvendar, malgrado o esforço de tantos polícias. Do mesmo modo, algures nas nossas vidas, há um grande amor por revelar. Herdei uma floresta densa, mas hoje entro numa outra, plena de claridade. Tudo o que vive canta, serpenteia, abana, rasteja! É primavera, e o ar que respiramos é fortíssimo. Tenho um exame da universidade do olvido, e as mãos tão vazias como a camisa pendurada na corda de secar roupa.



tomas tranströmer 
50 poemas
tradução de alexandre pastor
relógio d´água
2012







27 janeiro 2020

eugéne guillevic / carnac (fragmentos)


4

TENS qualquer coisa a ver
Com a noção de Deus,

Água que já não és água,
Poder desprovido de mãos e de instrumentos,

Peso sem emprego
Para quem o tempo não existe.



guillevic
poesias de guillevic
tradução de david mourão-ferreira
editora ulisseia
1965






26 janeiro 2020

ricardo reis / a nada imploram tuas mãos já coisas,



A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
        No abafo subterrâneo
        Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
        Te ergue qual eras, hoje
        Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
        Não lembra. A ode grava,
        Anónimo, um sorriso.

5-1927




fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946






25 janeiro 2020

tiago fabris rendelli / mensagem para além da carne


foto: wladimir vaz

sou parte da aritmética louca:
do podre surge o mofo
flor fruto vida e morte
círculo eterno
de criar restos
desintegrar
e refazer o mundo.

sou o outro a outra
aquele e aquilo
e sei que existem mortos
que esperam o verbo certo
para subir aos céus.

sou um punhado de dias de que não me lembro
as tardes que perdi no horizonte
o soldado morto de alguma guerra esquecida
a família no campo depois da seca
a terra dura
o solo pueril
a despedida
a colheita que não vingou
o tempo de promessa esquecido.

sou os barcos perdidos
o sonho de Ícaro
a alquimia de Melquíades
os espantos de Pedro
as rezas de Maria
a primeira estrela existiu
e a luz que transporta a mensagem
                             do seu próprio fim.

é a finitude que nos abre o infinito.




tiago fabris rendelli
& wladimir vaz
terra seca
editora urutau
2017







24 janeiro 2020

fernando lemos / veneno



Veneno
ou uma viola branca
ventre ou duas luvas
brancas

vidro
ou eu abatido na cama

domingo
ou eu recebendo à bala
os vizinhos

tu
ou eu cego de te inventar

eu
ou apesar da fúria
sombra em pedaços
cintilantes


fernando lemos
poesia
porto editora
2019








23 janeiro 2020

juan luis panero / antes que chegue a noite


Antes que chegue a noite sobre o mar
e atire o vento da nortada
as minhas húmidas cinzas para o nada.
Antes que os gastos gestos se dissolvam,
tal como um sorriso que se transforma em esgar
ou os cansados espasmos de um amor extinto.
Antes, ainda, como este sol sobre as ilhas,
tenaz ponto de luz, cor intensa,
que minhas palavras desenhem meu fantasma,
salvo e perdido, na pura intensidade da vida.


juan luis panero
poemas
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2003









22 janeiro 2020

luiza cantanhêde / sangrias desatadas




Eu sangro sim
Enquanto os galhos
Das benzedeiras
Retalham meu
Corpo de solidão
E fuga

Penitência
Santidade
Fugiram com
Meus pés de
Sangue e de
Barro

Para poder viver
Bato na porta
Do tempo que
Acende a claridade.



luiza cantanhêde






21 janeiro 2020

valter hugo mãe / john balance está morto




vem ver-nos
tarda nada chega a primavera
e as flores que plantámos no
quintal vão florir como
símios loucos aos teus pés




valter hugo mãe
publicação da mortalidade
poesia reunida
terceiro livro
livro de maldições
assírio & alvim
2018







20 janeiro 2020

yvette k. centeno / e as mulheres



E as mulheres
são quase todas brancas
e vermelhas
e todo o dia
esperam pela noite
e quando é noite
acendem-se nas ruas
e esperam
novamente

Persegue-nos a lua
na cidade marítima
de noite

Em cada canto
a lua
persegue toda a gente



yvette k. centeno
o barco na cidade
entre silêncios
poesia 1961-2018
glaciar
2019






19 janeiro 2020

antero de quental / uma amiga



Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!


antero de quental
sonetos






18 janeiro 2020

josé saramago / não há mais horizonte



Não há mais horizonte. Outro passo que desse,
Se o limite não fosse esta ruptura,
Era em falso que o dava:
Numa baça cortina indivisível
De espaço e duração.
Aqui se juntarão as paralelas,
E as parábolas em rectas se rebatem.
Não há mais horizonte. O silêncio responde.
É Deus que se enganou e o confessa.



josé saramago
os poemas possíveis
porto editora
2018








17 janeiro 2020

luís falcão / o clarão dos gritos



O clarão dos gritos
rasurando
nos seus próprios fundamentos
a matéria luminosa
que se insinua nos limites do silêncio
acendendo
na quietude de uma ordem imprescritível
a devastação
daqueles que pensavam vir apenas por uma noite



luís falcão
bruma luminosíssima
artefacto
2016







16 janeiro 2020

francis ponge / o fogo



     O fogo classifica: primeiro, todas as chamas se dirigem num certo sentido…
     (Não se pode comparar o andar do fogo senão ao dos animais: é preciso que ele deixe um lugar para vir a ocupar um outro; anda ao mesmo tempo como uma amiba e como uma girafa, sacode o pescoço, rasteja de pé)…
     Depois, enquanto as massas metodicamente contaminadas desabam, os gases que se libertam vão sendo transformados numa única rampa de borboletas.


francis ponge
alguns poemas
tradução de manuel gusmão
livros cotovia
1996











15 janeiro 2020

claudio rodríguez / adeus



Trocaria a vida por qualquer coisa
esta tarde. Qualquer coisa pequena,
se alguma há. Martírio é o sereno
rumor sem escrúpulos dos teus sapatos
rasos, que já não voltam. Que vitórias
quer quem ama? Porque são tão direitas
as ruas? Não olho para trás, mas
já não te sei perder de vista. Esta
é a terra do escárnio: os amigos dão
informações falsas. A minha boca
beija o que morre, e aceita-o e até a pele
do lábio é a do vento. Adeus. É útil,
normal este facto, dizem. Aceita
as nossas coisas, tu que podes tê-las.
Eu vou para onde me levar a noite.



carlos rodríguez
sem epitáfio
língua morta
2019







14 janeiro 2020

rafael mendes / ano novo



a felicidade contagia as casas
afloram bons dias, abraços
saudações aprazíveis a desconhecidos
buzinas e rojões rasgam o céu

famílias relembram histórias
tantas vezes já repetidas
mas apreciadas com esmero
como a impúbere criança

quando já alto o dia
uns repousam vencidos pela fartura
outros permanecem em silêncio
gozando dos momentos derradeiros

rápido virá o amanhã
e tudo não será como hoje

lá a corrupção e a chaga
aqui remanso e júbilo



rafael mendes
ensaio sobre o belo e o caos
editora urutau
2019






13 janeiro 2020

konstandinos kaváfis / quando se excitam



Procura guardá-las, poeta
por muito que sejam poucas as coisas que podem ser detidas.
As visões do teu erotismo.
Mete-as, meio escondidas, nas tuas frases.
Procura segurá-las, poeta,
quando se excitam na tua mente,
à noite, ou no esplendor do meio-dia.



konstandinos kavafis
os poemas
II (1916-1918)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005








12 janeiro 2020

vitorino nemésio / ultra-violeta



Sonho muito.
Tiro pedaços de sangue à noite, pretérito do dia
(Eu é que fico pretérito – preterido: - a noite irá).
Esclareço assim pequenas confusões adiantadas no senso,
Na cinza científica (azoto, silício, etc.),
No preconceito serial caligrafado a néon.
Escrevo torto/morto
E de repente tenho boa letra, vivo e não rimo:
Fugiu do meu sangue o ritmo do tambor auricular,
E, à sístole que fecha, a diástole abre e levanta
A Catedral do Homo Sapiens que abençoa sem mitra
                                                                    [os ignorantes,
O Poeta de sangue, dador de sangue,
Cheio de picadas e rosas como uma pulga e um lençol,
Uma roseira brava ou um avental de menina,
Seja Rosa de Lima ou vá pela mão do Snr. Rosa.

Sangro muito.
Forço a protecção do epitélio
Destruindo o equilíbrio aos glóbulos sem núcleo,
Meras esferas admiráveis, rubras,
Levemente gordurosas,
Pã, pã, reflectindo o silêncio interior nas almofadas
E tingindo as estradas da pintura sagrada do acidente
(Cruz ao morto!).

Sangro muito.
Avermelho o branco deslumbrante até ao infra
E deliro ainda mais sobre o violeta, que queima:
Por isso há quem me chame o Pelicano esvaído,
Mas eu, o pai dos Nomes, chamo-me só Poeta,


vitorino nemésio
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987