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02 agosto 2026

ricardo reis / prefiro rosas, meu amor, à pátria,

  
 
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
 
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
 
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
 
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
 
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
 
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
 
1-6-1916
 
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




09 maio 2026

ricardo reis / frutos, dão-os as árvores que vivem,

  
 
Frutos, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nos seres e nas cousas
Te não talhaste imaginário! Quantos,
Com a charrua,
Sonhos, cidades!
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados! Abdica e sê
Rei de ti mesmo.
 
6-12-1926
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




21 dezembro 2025

ricardo reis / o que sentimos, não o que é sentido,

  
 
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
                Nossa caveira breve.
 
8-7-1930
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




02 fevereiro 2025

ricardo reis / manhã que raias sem olhar a mim,

 
 
 
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
        É para mim que sois
        Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
        No que me nega sinto
        Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
        Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
 
23-11-1918
 
 
fernando pessoa
poemas de ricardo reis
imprensa nacional-casa da moeda
1994




16 novembro 2024

ricardo reis / uma após uma as ondas apressadas

 
 
 
Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva espuma
No moreno das praias.
Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o espaço
Do ar entre as nuvens escassas.
Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.
Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.
 
23-11-1918
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946




28 janeiro 2024

ricardo reis / cedo de mais vem sempre, cloé, o inverno.

 
 
 
Cedo de mais vem sempre, Cloé, o inverno.
É sempre prematuro, inda que o espere
        Nosso hábito, o esfriar
        Do desejo que houve.
 
Não entardece que não morra o dia.
Não nasce amor ou fé em nós que não
        Morra com isso ao menos
        O não amar ou crer.
 
Todo o gesto que o nosso corpo faz
Com o repouso anterior contrasta.
        Nesta má circunstância
        Do tempo eternos somos.
 
Só sabe da arte com que viva a vida
Aquele que, de tão contínua usá-la,
        Furte ao tempo a vitória
        Das mudanças depressa,
 
E entardecendo como um dia trópico,
Até ao fim inevitável guie
        Uma igual vida, súbito
        Precipite no abismo.
 
7-7-1919
 
 
 
poemas de ricardo reis
fernando pessoa
imprensa nacional - casa da moeda
1994




19 março 2023

ricardo reis / quatro vezes mudou a estação falsa

 
 
 
Quatro vezes mudou a estação falsa
No falso ano, no imutável curso
        Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde;
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
        Nem o último, e acabam.
 
s.d.



poemas de ricardo reis
fernando pessoa
imprensa nacional - casa da moeda
1994





12 julho 2020

ricardo reis / a cada qual, como a estatura, é dada



A cada qual, como a estatura, é dada
        A justiça: uns faz altos
        O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
        Nada, Lídia, devemos
        Ao fado, senão tê-lo.

20-11-1928




fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946

26 janeiro 2020

ricardo reis / a nada imploram tuas mãos já coisas,



A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
        No abafo subterrâneo
        Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
        Te ergue qual eras, hoje
        Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
        Não lembra. A ode grava,
        Anónimo, um sorriso.

5-1927




fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946






03 novembro 2019

ricardo reis / vou dormir, dormir, dormir,



                                Nirvana


Vou dormir, dormir, dormir,
Vou dormir sem despertar,
Mas não dormir sem sentir
Que estou dormindo a sonhar.

Não insciência e só treva
Mas também estrelas a abrir
Olhos cujo olhar me enleva,
Que estou sonhando a dormir.

Constelada inexistência
Em que subsiste de meu
Só uma abstracta insciência
Una com estrelas e céu.

20-2-1928


fernando pessoa
poemas de ricardo reis
imprensa nacional - casa da moeda
1994








06 outubro 2019

ricardo reis / para ser grande, sê inteiro: nada



Para ser grande, sê inteiro: nada
        Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
        No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
        Brilha, porque alta vive.


14-2-1933



fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946







24 março 2019

ricardo reis / cada um cumpre o destino que lhe cumpre.




Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
E deseja o destino que deseja;
                Nem cumpre o que deseja,
                Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
                Que a Sorte nos fez postos
                Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
                Cumpramos o que somos.
                Nada mais nos é dado.

29-7-1923




fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946







24 fevereiro 2019

ricardo reis / domina ou cala. não te percas, dando




Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.

27-9-1931



fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946








30 setembro 2018

ricardo reis / negue-me tudo a sorte, menos vê-la,




Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
        Que eu, estóico sem dureza,
Na sentença gravada do Destino
        Quero gozar as letras.

20-11-1928


fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946















20 maio 2018

ricardo reis / sê dono de ti




Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.

 
Na dura mão aperta
Com um tacto encavado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra cousa que a palma.

11-8-1918



poemas de ricardo reis
fernando pessoa
imprensa nacional-casa da moeda
1994






21 janeiro 2018

ricardo reis / breve o inverno virá com sua branca




Breve o inverno virá com sua branca
        Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
        E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
        Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
        Dizíamos ao sol
O ave ataque vale triste e alegre,
        Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
        Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
        Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
        Como um rio passemos.

17-7-1914



poemas de ricardo reis
fernando pessoa
imprensa nacional-casa da moeda
1994




05 novembro 2017

ricardo reis / cada coisa a seu tempo tem seu tempo




Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.
Não florescem no Inverno os arvoredos,
Nem pela Primavera
Têm branco frio os campos.

À noite, que entra, não pertence, Lídia,
O mesmo ardor que o dia nos pedia.
Com mais sossego amemos
A nossa incerta vida.

À lareira, cansados não da obra
Mas porque a hora é a hora dos cansaços,
Não puxemos a voz
Acima de um segredo,

E casuais, interrompidas sejam
Nossas palavras de reminiscência
(Não para mais nos serve
A negra ida do sol).

Pouco a pouco o passado recordemos
E as histórias contadas no passado
Agora duas vezes
Histórias, que nos falem

Das flores que na nossa infância ida
Com outra consciência nós colhíamos
E sob uma outra espécie
De olhar lançado ao mundo.

E assim, Lídia, à lareira, como estando,
Deuses lares, ali na eternidade
Como quem compõe roupas
O outrora compúnhamos

Nesse desassossego que o descanso
Nos traz às vidas quando só pensamos
Naquilo que já fomos,
E há só noite lá fora.

30-7-1914




odes de ricardo reis
fernando pessoa
ática
1946




02 julho 2017

ricardo reis / dia após dia a mesma vida é a mesma.




Dia após dia a mesma vida é a mesma.
        O que decorre, Lídia,
No que nós somos como em que não somos
        Igualmente decorre.
Colhido, o fruto deperece; e cai
        Nunca sendo colhido.
Igual é o fado, quer o procuremos,
        Quer o esperemos. Sorte
Hoje, Destino sempre, e nesta ou nessa
        Forma alheio e invencível.

2-9-1923



odes de ricardo reis
fernando pessoa
ática
1946




29 janeiro 2017

ricardo reis / deixa passar o vento



Deixa passar o vento
Sem lhe perguntar nada.
Seu sentido é apenas
Ser o vento que passa…
Consegui que desta hora
O sacrifical fumo
Subisse até ao Olimpo.
E escrevi estes versos
Pra que os deuses voltassem.

12-9-1916



fernando pessoa
poemas de ricardo reis
imprensa nacional - casa da moeda
1994



13 novembro 2016

ricardo reis / não quero recordar nem conhecer-me



Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
        Ignorar que vivemos
        Cumpre bastante a vida.
Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
        Quando passa connosco,
        Que passamos com ela.
Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?),
        Melhor vida é a vida
        Que dura sem medir-se.

2-9-1923


odes de ricardo reis
fernando pessoa
ática
1946