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20 março 2020

nuno júdice / acalmia



O vento sopra no vazio da pele,
quando a abandona o desejo; levanta
as palavras caídas, ergue-as
até às nuvens, onde as vejo misturarem-se
com as aves embranquecidas do ocaso.

O vento deita-se nas equimoses do espírito,
abrandando a dor de quem ama sem
objecto nem eco. Ouço-o por dentro das veias
rápidas de um luxo de emoções, como
se gritasse por um tropel de troncos.

O vento morre nos braços de florestas
petrificadas, saudando um degelo de re-
soluções. Respiro o ar imóvel com um odor
de folhas calcinadas – como se pisasse o teu
corpo, terra lívida do meu abraço.




nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997





11 novembro 2019

nuno júdice / elegia



Demora-se o outono numa eclosão de frutos
secos: as taças onde puseste as mãos, sem
esperar que a chuva te molhasse os cabelos.
Ao fim da tarde, quando já parece noite,
as nuvens distraem-se com a falta de vento.
Esperam que lhes fales, como se as palavras
pudessem atravessar os limites da treva.
Ainda paras; e olhas para trás, onde os arbustos
te esperam numa hesitação de folhas. Depois
retomas o caminho. Deixo de te ver. É inverno.




nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997








01 agosto 2018

nuno júdice / proximidade




A diferença entre o alto e o baixo, o céu
e a terra, a superfície e o fundo, o igual
e o diverso, é imperceptível para quem
não sabe o que está para além de si próprio.
O mundo, que muda a cada instante, não é
mais do que um lago se o coração não se apercebe
de vertas variações, do brilho que
transparece de uns olhos quando o som das
palavras neles se reflecte, ou desse instante
em que, sem que se diga alguma coisa, o
contacto da pele une o princípio e o fim
dos seres. Falo do amor: a melancolia não
tem nada a ver com este sentimento que
nasce das contradições, nem a percepção
da vida pode ignorar a emoção com que
se assiste ao florescer do desejo na terra
estéril da idade. Sim: a emoção de um contacto
rejeita as condições lógicas da razão e o
equilíbrio que sustenta a resignação dos
infelizes. Mas também no dia cinzento há,
por vezes, um fulgor breve e a expectativa
da luz permite que se atravesse a noite
sem ceder à sua treva, adivinhando apenas
o primeiro instante luminoso, e o acordar
do teu rosto na claridade tingida da névoa.




nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997







11 maio 2018

nuno júdice / voo




Por duas vezes o pássaro atravessou
o horizonte, deixando atrás de si o dia
e a noite, confundidos para quem, no
limite da praia, olhava o seu voo; e
por duas vezes o sol hesitou, antes
de morrer, como se tivesse outra
saída para além do outro lado da terra.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997










14 fevereiro 2018

nuno júdice / gramática




Com que gramática se escreve? A
de  um luar antigo, por onde voaram
as aves nocturnas em busca
de alvorada? A de uma sintaxe matinal,
emprestando ao verso o soletrar
luminoso das vogais? Ou a dessa tarde
que deixou nos lábios o sabor
de palavras secas como as folhas
de outono?

Aprendi essas gramáticas nos
compêndios da imaginação; decorei
as suas regras com o fervor obscuro
das mnemónicas doentes; repeti
os seus exemplos em estrofes
vazias como as caixas amontoadas
num sótão de infância.
“Terá valido a pena esse
trabalho?”, perguntas-me. De facto,
não sei que resposta te poderei
dar. Os livros – arrumados nesse
canto do infinito em que nunca
nos havemos de encontrar; as frases,
sem ligação, como se a vida
as tivesse desfeito no moinho
da eternidade.

Então, pergunto eu: de que corpo
és a sombra sem rosto, o pulso
sem emoção, a queixa sem a música
de um murmúrio?




nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997








19 dezembro 2017

nuno júdice / ofício nocturno



Nos campos onde a neve se estende,
o vento arrasta uma brancura de passos.

Troncos que foram verdes são
braços negros em gestos de pedinte.

Vagueiam almas num desejo de cume,
perdidas, de pensamento preso com a névoa.

Só não sabem a que noite pertencem
os pássaros brancos em busca de rio.

Mas a corrente dorme sob o gelo,
sonhando uma primavera de estuários.

É quando o vidro da janela não devolve
mais do que o próprio rosto de quem espreita;

reflexo que nem a treva aceita,
ocupada em trabalhos de linha e tear.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997





16 novembro 2017

nuno júdice / é isto o amor







Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


nuno júdice
pedro, lembrando inês
as  vozes do silêncio
edições apuro
2017



08 fevereiro 2017

nuno júdice / projecto




O objectivo é fugir. Atravessar as ruas
do tamanho de uma vida – para encontrar
do outro lado, o quê?, que mãos estendidas
até à parede em fogo do teu corpo? que
deus fugido dos pântanos de almas em
que ambos perdemos? Fugir, sim, até
onde não conseguimos mais do que estar
um com o outro, e os olhos se encontrem
– os meus com os teus olhos cuja cor
esqueci – e esse encontro, perfeito facto,
cresça de dentro do hemisfério que sobrou
de uma colheita estival (mas de rosas de
todo o ano, as mais efémeras).
  

nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997




15 dezembro 2016

nuno júdice / fotografia



Ainda me lembro: as dúvidas
que nasciam por entre os teus dedos,
e as tuas mãos que se transformavam em
folhas de uma vegetação abstracta…
Era de manhã, quando o ar frio encrespava
a pele e a humidade batia no rosto
como os fios de uma teia invisível. Era
a hora em que nenhum táxi parava, nem
se podia andar pelos passeios sem
atolar os pés de lama. No café,
porém, um calor nascia no intervalo
de um aquário: o teu amor. E mo o peixe
eu bate no vidro sem saber para onde ir
andava às voltas, procurando a saída
para te encontrar enquanto tu
sacudias a água dos cabelos e, sem te
importares comigo, sorrias, como
nenhuns outros lábios sabiam sorrir,
até hoje.


nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997



17 outubro 2016

nuno júdice / o jogo



Eu, sabendo que te amo
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997




17 agosto 2016

nuno júdice / a penosa descoberta



«Poética», disse ele, pousando o copo.
Posso não acreditar em nada, nem seguir
o barulho regular dos relógios, continuou
no mesmo tom de voz: a minha vida
aproxima-se do ideal poético superior.
Abriu a janela e recebeu na cara os ventos
do norte. Nada o impedia, agora,
do encontro com a solidão irremediável.
Pousou a bebida no parapeito, agarrou
com a mão direita um ramo de árvore e,
com a mão esquerda fechada no ar, disse
em voz alta: «Poética», para que todos
ouvissem. No entanto, ao dar-se conta
de que estava só, em plena madrugada,
fechou a janela, fechou o livro que começara
a ler, na véspera, fechou a luz
 – e à claridade baça e fria do inverno
sentou-se no chão de madeira, a pensar,
como se não houvesse mais ninguém
naquele mundo.


nuno júdice
o mecanismo romântico da fragmentação
editorial inova
1975


09 abril 2016

nuno júdice / botânica sentimental



No meio de algumas folhas, uma
outra folha: esta, seca, arrancada
de um ramo por mãos que
já não existem. De que recordação
terá sido o pretexto? Oferta de quem
a quem, quando a primavera se
prestava a esses jogos? Hoje,
porém, não é mais do que isso: a folha
que cai de um livro e que,
por um escrúpulo de limpeza,
alguém deita para o lixo.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997



21 março 2016

nuno júdice / a noite do porto



Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há-de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflecte nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão-de voltar
a nascer. Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997