11.
Adormeceste.
A maré subiu.
O teu barco
navegou à bolina.
Naufragaste.
Ao saíres dos
sonhos, sentiste o arrepio de uma memória
falsa. A memória que o sonho te deixou.
Abraçavas a tua
irmã. Ela teria uns quatro anos; tu eras
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
A menina não
percebia quem tu eras; sabias perfeitamente
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
Quando a
largaste, a tua irmã era outra, então adulta,
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
Começas a
acordar. Tens saudades da tua irmã.
O mundo devia
ser mais pequeno do que é.
Os mecanismos
do tempo realinham-se.
As rodas
dentadas beliscam-te o sono.
Abres os olhos.
Estás acordado.
joão narciso
estes ventos negros
edições caixa alta
2021
falsa. A memória que o sonho te deixou.
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
estes ventos negros
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