acabei de escrever um outro nome no reverso da terra.
o teu nome, e o pó das palavras escorrega, lentamente
escorrega, na ampulheta. doem-me estes olhos de tanto
os fixar nos jornais antigos. é a letra miúda, oca, negra,
onde tudo se diz, arma e se disfarça, que fode quase tudo:
as asas deste anjo que sou são de paus, papel e cera velha,
os braços e as pernas como canas da índia mal descoberta,
as grilhetas de um fraco metal transformado na escória
apanhada a eito nas escombreiras da serra de santa justa.
cravada por um rei perdido em lendas de guerras africanas:
a tempestade turva a limpidez das águas próximas, as nuvens,
as negras nuvens que pairam sobre mim, em março, como hoje,
acabam por afastar-se, e agora o penetro no jardim proibido,
onde estão todas as fontes da cidade, sem água, sem mágoa,
silenciosas cúmplices dos jovens amantes entre os arbustos.
afinal, que me importa a ilha, esta ilha, as suas líricas gaivotas:
é que o ogre lá está devorando os pequenos ogres e o resto,
mesmo esse teu nome e os teus manuscritos abandonados.
que se erguem do lado de cá do rosto, mal anoto a primavera,
a estação dos derradeiros comboios. sábado? sábado? disse
sábado? revolvo-me no sofá, escondido da luz coada da tarde.
é uma tarde de merda, já disse, em que deveria estar diante
de um espelho, e de um velasquez, os dedos do pianista
mal tocando as teclas: as variações goldberg são um tributo
de bach para que o silêncio seja mais harmonioso. harmonioso?
aproximas as tuas mãos das minhas, este sábado é a entrada
de um velho museu de história natural,, pálido e com algum pó.
nem fantasmas, nem música, proscrito dos mares e do areal;
elas afundam-se numa tarde de sábado, submergem na água
de lavar a louça da semana. e ainda na verdade, esse homem
que atravessa a sala e penetra na parede do quarto de dormir
não é fernando pessoa, quem diria? trata-se de jão roiz
castelo branco: partem tão tristes os tristes. infelizmente
nasci com a pátria bem doente e um amargo sorriso afivelado:
poe, penha, pessanha, guillevic, éluard, machado, e uns versos
perdidos dos seus poetas, talvez demasiadas prosas sem teatro.
a boca e mostro as línguas a mim mesmo, tenho bolhas
de medo e riscos de nascenças nas mãos, mais manchas de
veneno nas línguas. o espelho embacia-se, a água da torneira
é acastanhada, o telefone toca e é engano, mas de novo
digo que esta tarde de sábado é uma merda de olhos postos
em mim. de um bolso da camisa tiro o papelinho do mapa
das fontes da ilha onde nasci, de outro um belo cd-rom
com as raízes de quem sou, a crónica genealógica deste sangue
perdido, deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
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