23 janeiro 2026

eduardo pitta / dois poemas

 


 

1
 
Os elefantes da rua 79
 
A pé de Union Square para Central Park West
hesitas quanto à natureza do travo que trazes
agarrado à língua.
É o frio a arder na boca sempre vulnerável
ou só o bitterness
 
do Chilled Pineapple-Moscato Zabaglione?
Até que, de repente, os elefantes
olham para ti com irreprimível garbo
e nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.
 
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada, perplexa do décor manuelino
que a rodeava, também não sabia.
Mas foi naquele átrio que tudo começou.
Trinta anos, trinta
anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto. Mudou o quê? Os calções de cáqui
com ravina e mar ao fundo.
Agora, blindado em caxemira, atravessas o parque
entre fiapos de neve e a coreografia dos batedores.
 
A tarde cai, mas o rodopio de tanto olho fulgurante
provoca um clarão.
Muito jovens, ignorantes de simetrias,
não sabem ainda que um dia irão cruzar-se com o flash
de uma cena assim.
 
( – para que se repita uma cena – cf. Borges)
 
 
2
 
O divã e a caçada sexual
 
O dr. Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
 
Sebastian não teve tempo. outros, como ele,
descobriram um dia que a luta dos negros freedom fighters
era parecida com a sua
e trocaram as voltas à simbologia da mamã.
Eles sabem que a rua é um campo de batalha
 
seja na Bowery ou nos socalcos da Ponta
Vermelha.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
 
(– dr. Cukrowvicz e a senhora Venable – cf. Tennessee Williams)
 
 
 
eduardo pitta
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 





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