vasto céu do meu bairro
nem de vós telhados que detendes as cascatas de ar
belos telhados felpudos cabelos das nossas casas
nem de vós chaminés laboratórios de tristeza
abandonadas pela Lua pescoços esticados
nem de vós janelas abertas-fechadas
que rebentais quando morremos além-mar
que conhece todas as minhas fugas e regressos
apesar de pequena não sai debaixo das pálpebras fechadas
nada conseguirá devolver-me o cheiro do reposteiro verde
nem o ranger das escadas por onde levo a lamparina acesa
nem a folhagem do portão
da casa
sobre o seu toque áspero e rangido amigável
e mesmo sabendo muito sobre ele
repito tão-só uma ladainha de palavras comum cruel
Cabem tantos sentimentos entre dois batimentos cardíacos
tantos objectos podem ser acolhidos entre duas mãos
e que só tratemos as coisas pelos nomes com ternura
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
1 comentário:
Que poema de uma delicadeza comovente.
Há nele um pudor bonito diante do mundo, como se as coisas telhados, janelas, chaminés, a casa fossem grandes demais para caber na linguagem comum. O eu poético parece saber que nomear é sempre um risco, porque nenhuma palavra devolve o cheiro, o som, o toque exato da memória.
Gosto especialmente dessa consciência: “Não vos admireis que não saibamos descrever o mundo”. Talvez por isso reste a ternura tratar as coisas pelo nome, mas com cuidado, como quem toca o que ama sem querer quebrar.
Um texto que faz da memória um lugar vivo e da poesia um gesto humilde e profundo.
Obrigada por partilhar.
Fernanda
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