O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a
arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará
as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças
que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não
deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com
soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para
ele erguemos um altar.
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel
filipe mochila
maldoror
2024
Sem comentários:
Enviar um comentário