05 janeiro 2026

josé emílio pacheco / o novo ano

  
 
O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para ele erguemos um altar.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024




 

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