20 janeiro 2026

paulo da costa domingos / não desceu à terra?...

  
 
Santa Catarina, o melhor lugar
para os irmãos correrem
de um lado para o outro com bilhas de gás
ameaçadores: mau vinho pior poesia.
 
Ou refulgiam imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se ao vento sul.
Foi há tanto tempo, foi no princípio
do bando; entrava-se e saía-se numa correria
 
por portas a respirarem
sobre os ombros de miúdos
ainda sem idade para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do corpo, nas comissuras dos lábios.
 
Carne um bocado brutalizada
que algum poema coroa
a bem da Literatura… Porque no princípio
era o bando, o Verbo do terror
 
com iguanas a estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem preferisse dormir
apesar do ruído dos livros,
a cabeça pousada no extintor
 
à espera de uma maré silábica, salina
… nessa altura ainda não sabíamos
quão injuriosa pode a Cultura ser: é o fim
do século.
 
Afinal, que temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
 
com ele vão pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos da talha. –
Do outro: memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de arremesso, cedem os vitrais
 
a uma vontade caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o conhecimento… o plaino
 
Afiado da falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a gavetas cheias de cabras que tilintavam
 
à mínima espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora, mora o inimigo! Era só
sair a acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos pela televisão.
 
Dias torcidos a ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em lamúrias de sangue
mal drogado nas veias, e depois o tal regresso
ao noticiário, ao mito, à museologia.
 
Posso neste palco afinal
lembrar dessa Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar que cede, um petroleiro
que explode, poemas jacentes
 
domando o mal, o sangue difuso
em telefonemas sussurrados. Deslizes
mínimos corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre sempre os segredos roubados
 
ao mundo canalha. É a festa
a celebrar o trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas da roupa enroladas nas pernas
para que os tropeços da inspiração
 
dêem fruto: uma guerra e peras
com episódios escolhidos contra a ideia
latente da arca de cânfora…
ou da bilha do gás. Exaltação, peculiares
 
divindades, vinde sobre os poetas derramar
a terrível agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
 
 
 
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




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