28 janeiro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
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Quando o despertador toca, quem primeiro abre os olhos são as palavras, uns olhos intensos através dos quais Deus nos espia. Depois abrem-se portas interiores, corredores estreitos por onde a luz matinal avança como um rio de água fresca. A ordem é ligeiramente mutável: agora não saberia precisar se se abrem primeiro as pétalas ou os sinos, se se abre primeiro o meu amor por ti ou o teu amor por mim, a doce sincronia do despertar a dois. Tudo o que é vivo acaba por se abrir, como um pressentimento: as laranjas sobre o mármore, a cor sobre a matéria, a borboleta sobre o perfil, a rosa sobre o pescoço, o corpo sobre o corpo. Para quê falar do futuro? O amor não é uma linha recta traçada a lápis sobre o calendário: nem ir, nem chegar, nem avançar. Simplesmente abrirmo-nos em círculos delicados, tu a padra, eu a água.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021





 

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