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Quando o despertador toca, quem primeiro abre os olhos são as palavras,
uns olhos intensos através dos quais Deus nos espia. Depois abrem-se portas
interiores, corredores estreitos por onde a luz matinal avança como um rio de
água fresca. A ordem é ligeiramente mutável: agora não saberia precisar se se
abrem primeiro as pétalas ou os sinos, se se abre primeiro o meu amor por ti ou
o teu amor por mim, a doce sincronia do despertar a dois. Tudo o que é vivo
acaba por se abrir, como um pressentimento: as laranjas sobre o mármore, a cor
sobre a matéria, a borboleta sobre o perfil, a rosa sobre o pescoço, o corpo
sobre o corpo. Para quê falar do futuro? O amor não é uma linha recta traçada a
lápis sobre o calendário: nem ir, nem chegar, nem avançar. Simplesmente abrirmo-nos
em círculos delicados, tu a padra, eu a água.
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel
filipe mochila
do lado
esquerdo
2021
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