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17 dezembro 2020

manuel cintra / os primeiros passos…

  
 
   Os primeiros passos são mais ou menos perros.
 
 
   Devagar, descola-se a noite do peito.
   Nevoeiro, em pedaços, entorpece os ouvidos.
   Frio, às baforadas, morde nuvens nos olhos.
   E os ruídos que contorcem a manhã
   não são forçosamente o único fechar de porta
   com torcer
 
 
(e pergunto à larva se dói tecer o casulo, à carne da
borboleta se a morte próxima responde ao recente dei
tar de ovos. Tento dosear marés de lembrança e de
esquecimento.)
 
 
   O que eu quero é ser como o sol,
   que, segundo consta, nunca arrefeceu.
 
 
(e a coluna vertebral do tempo
                                            osso a osso a oiço
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981






18 agosto 2019

manuel cintra / tenho no peito da memória



                                                                                                                                                             à Catarina






Tenho no peito da memória os vincos do levantar, a voz dela, os pés pequenos a não querer entrar nos sapatos do dia. Depois imagino-te, mão grande naquela mão pequena, a tentar que prometes. E ela finge que sorri, tem uma dor escondida que te vás embora. Até logo mãe, ou então menos,


um beijo rijo de silêncio no ar injusto da manhã




manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981







20 novembro 2018

manuel cintra / dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo




Dobrou-se sobre ela puxou-lhe fogo
Escancarou-lhe os olhos puxou-lhe fogo
Cerziu-se-lhe no peito puxou-lhe fogo
Tirou-lhe pó de cima puxou-lhe fogo
Sentiu-se tão pesado puxou-lhe fogo
Cobriu-a de ar; destapou-lhe a carne; mordeu.

Era fim de tarde era depressa era comprido
Verteu palavras tenras até já não ter voz
Chorou, soletrou-lhe o corpo membro a membro
E foi no soalho a solidão de a desventrar
Tremeu tremeu puxou-lhe fogo


E ela ardeu



manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981








27 março 2018

manuel cintra / levas-me inteiro


  


                Levas-me inteiro
                Mais longe nos tecidos
                Algures a germinar
                Um ovo
                Em estado de promessa.

Choro, talvez
Chore ainda mas ainda mais talvez

Lavas-me, escorro
De ti para as ruas ainda mais de ti

                Seria simples imaginar
                Uma das tuas mãos
                Com os ossos da minha.
                A  outra, a carne.

Mas eu não gosto de coisas simples.



manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981