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09 fevereiro 2018

andré breton / rano raraku





Como o mundo é belo
A Grécia nunca existiu
Não passarão
O meu cavalo acha a ração na cratera
Homens-pássaros remadores arqueados
Voaram-me em volta da cabeça porque
Também sou eu
Quem lá está
Atolado a três quartos
A troçar dos etnólogos
Na amena noite do Sul
Não passarão
A planura não tem fim
Quem se destaca é risível
As altas imagens caíram.



andré breton
Xénophiles (1948)
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994






12 junho 2017

andré breton / improcedente




Arte dos dias arte das noites
A balança das feridas que se chama Perdoa
Balança vermelha e sensível ao peso de um voo de ave
Quando as amazonas de gola de neve de mãos vazias
Empurram os seus carros de vapor por cima dos prados
Essa balança incessantemente enlouquecida eu a vejo
Vejo a íbis com belas maneiras que regressa do tanque laçado no meu coração
As rodas do sonho enfeitiçam os esplêndidos trilhos
Que se levantam muito alto sobre as conchas dos seus vestidos
E o pasmo salta daqui dali por sobre o mar
Parte minha querida aurora não esqueças nada da minha vida
Toma estas rosas que trepam no poço dos espelhos
Toma as palpitações de todas as pestanas
Toma até mesmo os fios eu sustêm os passos dos funâmbulos e das gotas
                                                                                                                      de água
Arte dos dias arte das noites
Estou à janela muito longe numa cidade cheia de pavor
Lá fora homens de cartola seguem-se a intervalos regulares
Semelhantes às chuvas que eu amava
Quando precisamente o tempo estava tão bom
«Na raiva de Deus» é o nome de um cabaré onde eu ontem entrei
Está escrito na frontaria branca em letras mais pálidas
Mas as mulheres-marinheiros que deslizam por detrás das vidraças
São demasiado felizes para serem medrosas
Aqui jamais corpos sempre o assassinato sem provas
Jamais o céu sempre o silêncio
Jamais a liberdade a não ser pela liberdade.



andré breton
«Non-lieu», Le Revolver à cheveux blancs (1932)
vozes da poesia europeia III
traduções de david mourão-ferreira
colóquio letras 165
2003





11 agosto 2016

andré breton / os beijos de socorro



Os beijos de socorro: Assimilados como estão aos pombos-correio, mostram, de forma menos figurada, a necessidade que tenho de um gesto que todavia recuso, necessidade essa que não é estranha às etapas do caminho já mencionadas. Nem por isso se encontram esses beijos menos bem situados aqui, no plano das possibilidades, dada a sua posição entre os pombos-correio (ideia de uma pessoa favorável) e os seios, dos quais me vi forçado a dizer, no decorrer da narrativa, que me roubavam toda a coragem de renunciar.


andré breton
o amor louco
tradução de luiza neto jorge
estampa
1971


23 setembro 2015

andre breton / no teu lugar desconfiaria



No teu lugar desconfiaria do cavaleiro de palha
Essa espécie de Rogério libertando Angélica
Leitmotiv aqui das bocas do metro
Dispostas em fila nos teus cabelos
É uma encantadora alucinação liliputiana
Mas o cavaleiro de palha o cavaleiro de palha
Põe-te à garupa e ambos vos lançais na alta alameda de álamos
Cujas primeiras folhas perdidas põem manteiga nas rosas bocados de pão do ar
Adoro essas folhas tanto como
O que há de mais independente em ti
A sua pálida balança
De contar violetas
Apenas o necessário para transparecer nos mais ternos sulcos do teu corpo
A mensagem indecifrável capital
De uma garrafa há muito tempo no mar
E adoro-as quando se junta como um galo branco
Furioso na escadaria do castelo da violência
À luz dilacerante onde não se trata já de viver
Na clareira encantada
Com o caçador a apontar uma espingarda de culatra de faisão
Essas folhas que são a moeda de Danaé
Quando é possível chegar-me a ti até deixar de te ver
Estreitar em ti esse lugar amarelo devastado
O mais resplandecente do teu olho
Onde as árvores voam
Onde os prédios começam a ser sacudidos por uma alegria de mau porte
Onde os jogos do circo prosseguem na rua com um luxo desenfreado
Sobreviver
Do mais longínquo desprendem-se duas ou três silhuetas
Sobre o pequeno grupo ondula a bandeira parlamentar.


andre breton
l´air de l´eau (1934)
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994



16 setembro 2014

andre breton / fata morgana



(…)

Estar vestido de branco deste homem é evidente que nunca voltará a ser
encontrado
Depois o choque duma lança contra um elmo aqui o músico fez maravilhas
É toda a razão que se vai quando podia soar a hora sem que tu estejas
presente

Nas sombras do cenário permite-se ao povo contemplar os grandes festins
Comer em cena é sempre do agrado geral
De dentro da empada rematada a faisões
Anões metade pretos metade arco-íris levantam a tampa
E soltam-se ajaezados de guizos e de risos
Brilho contrastado de vestígios de tiros das côdeas sobrastes
Plano sequência do baile dos Ardentes flash-back desfocado do episódio que
vem logo a seguir ao do cervo

Um homem talvez ágil demais desce do alto das torres de Notre-Dame
A rodopiar numa corda
Seu pêndulo de archotes clarão insólito à luz do dia
A sarça dos cinco selvagens quatro deles cativos um do outro o sol de plumas
O duque d’Orléans segura o facho a mão a mão fatal
Às oito horas da noite tempos depois a mão
Não esquece a brincar com a luva
A mão a luva uma vez duas vezes três vezes
A um canto com o palácio mais branco em fundo as belas feições ambíguas de
Pedro de Luna a cavalo

Personificando o segundo luminar
Acabar sobre o brasão da rainha em lágrimas
A mágoa Nada mais me é nada nada me é mais nada
Sim sem ti
O sol




andre breton
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994



30 dezembro 2013

andre breton / a respeito de divindades



                                                        A Louis Aragon


«Pouco antes da meia-noite perto do cais.
«Se uma mulher desgrenhada te seguir não te importes.
«É o azul. Nada deves temer do azul.
«Haverá grandes rendas de seda numa árvore.
«O campanário da aldeia de cores esbatidas
«Vai servir-te de ponto de referência. Aproveita a ocasião,
«Não esqueças. O geyser escuro que lança contra o céu rebentos de feto
«Saúda-te.»

                 A carta lacrada com três peixes
Passava agora na luz dos subúrbios
Como um cartaz de domador.
                                          De resto
A bela, a vítima, aquela a quem chamavam
No bairro a pequena pirâmide de resedá
Descosia só para si uma nuvem tal qual
Um saquitel de piedade.
                                   Mais tarde a armadura branca
Que se ocupava entre outros dos trabalhos domésticos
Cada vez mais à vontade agarrava com força
O menino da concha, aquele que ia ser...
Mas silêncio. Um braseiro já dava ensejo
No seu seio a um arrebatador romance de capa
E espada.
              Sobre a ponte, à mesma hora,
Assim a cabeça de gata do orvalho baloiçava.
A noite, - e as ilusões estariam perdidas.


Eis os frades brancos que voltam das vésperas
Com uma grande chave por cima da cabeça.
Eis os arautos pardos; eis por fim a carta
Ou os lábios: meu coração é um cuco de Deus.

Mas enquanto ela fala, só fica uma parede
A bater contra um túmulo como uma vela mestra.
A eternidade procura um relógio de pulso.
Pouco antes da meia-noite perto do cais.


andre breton
clair de terre, 1923
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994




25 novembro 2013

andre breton / o grande socorro mortífero


A estátua de Lautréamont
No pedestal de comprimidos de quinino
Em campo raso
O autor das Poesias está deitado de bruços
E perto dele vigia o helodermo suspeito
A orelha esquerda contra a terra é uma redoma
Ocupada por um relâmpago o artista não se esqueceu de
         lhe pintar por cima
o globo azul celeste em forma de cabeça de turco
O cisne de Montevideu de asas abertas sempre pronto a
         batê-las
Quando se trata de atrair do horizonte os outros cisnes
Desceram sobre o falso universo dois olhos de cores
         diferentes
Um de sulfato de ferro sobre o parreiral das pestanas o
         outro de barro diamantífero
Contempla o grande hexágono em funil onde depressa
         se crisparão as máquinas
Que o homem se obstina em cobrir de ligaduras
Reaviva com a vela de rádio as profundezas do crisol
         humano
O sexo de plumas o cérebro de papel vegetal
Preside às cerimónias duas vezes nocturnas celebradas
       para desviar o fogo e inverter os corações do homem
       e do pássaro
A qualidade de convulsionário dá-me acesso a ele
As mulheres deslumbrantes que me introduzem na
       carruagem estofada a rosas
Onde uma cama de rede entrançada com os seus cabelos
       me está reservada
Para sempre
Recomendam antes de partir que não apanhe frio a ler
       o jornal
Parece que a estátua junto da qual a grama das minhas
       terminações nervosas
Chega ao seu destino é afinada todas as noites como
       um piano


  
andre breton
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994


05 agosto 2013

andre breton / poema




Tenho na minha frente a fada de sal
cuja túnica recamada de cordeiros
desce até ao mar
Cujo véu pregueado
de queda em queda ilumina toda a montanha.

Ela brilha ao sol como um lustro de água iridiscente
E os pequenos oleiros da noite serviram-se das suas
unhas onde a lua não se reflecte
para moldar o serviço de café da beladona.

O tempo enrodilha-se miraculosamente detrás dos seus
sapatos de estrelas de neve
ao longo dum rasto perdido nas carícias
de dois arminhos.

Os perigos anteriores foram ricamente repartidos
e mal extintos os carvões no abrunheiro bravo das sebes
pela serpente coral que sem custo passa
por um delgado
filete de sangue seco
na lareira profunda
sempre sempre esplendidamente negra
Esta lareira onde aprendi a ver
e sobre a qual dança sem cessar
o crepe das costas das primaveras
Aquele que é necessário lançar muito alto para dourar
a mulher em cujos cabelos encontro
o sabor que perdera
O crepe mágico o sinete voador
do amor que é nosso.



andre breton
(frança, 1896-1966)
luz da terra
tradução de nicolau saião



07 dezembro 2012

andre breton / um homem e uma mulher




Um homem e uma mulher absolutamente brancos
Lá no fundo do guarda-sol vejo as prostitutas maravilhosas
Com trajes um pouco antiquados do lado da lanterna cor dos bosques
Levam a passear consigo um grande pedaço de papel estampado
Esse papel que não se pode ver sem que o coração se
nos aperte nos andares altos de uma casa em demolição
Ou uma concha de mármore branco caída no caminho
Ou um colar dessas argolas que se confundem atrás delas nos espelhos
O grande instinto da combustão conquista as ruas
onde elas caminham Direitas como flores queimadas
Com os olhos na distância levantando um vento de pedra
Enquanto imóveis se abismam no centro da voragem
Nada se iguala para mim ao sentido do seu pensamento desligado
A frescura do regato onde os sapatinhos delas
banham a sombra dos seus bicos A realidade daqueles molhos de feno cortado
onde desaparecem
Vejo os seus seios que abrem uma nesga de sol na noite profunda
E que se abaixam e se elevam a um ritmo
que é a única exacta medida da vida
Vejo os seus seios que são estrelas sobre as ondas
Seios onde chove para sempre o invisível leite azul



andre breton 



29 fevereiro 2012

andre breton / as atitudes espectrais







Não dou nenhuma importância à vida
Não pego com alfinetes na importância a mais ínfima borboleta de vida
Não importo à vida
Mas os veios do sal os veios brancos
Todas as bolhas de sombra
E as anémonas do mar
Descem e respiram dentro do meu pensamento
Vêm das lágrimas que não verto
Dos passos que não dou passos duas vezes passos -
Na memória da areia ao encher da maré
As grades estão no interior da gaiola
E os pássaros vêm das maiores a1turas cantar diante delas
Uma passagem subterrânea une todos os perfumes
A mulher que lá entrou um dia
Tornou-se tão brilhante que não a vi
Com estes olhos que a mim mesmo viram arder
Tinha já a idade que hoje tenho
E vigiava-me vigiava o meu pensamento como um guarda-nocturno numa fábrica sem fim
Só eu vigiava
A praça continuava a encantar os mesmos eléctricos
As figuras de gesso nada haviam perdido da sua expressão
Mordiam a figa do sorriso
Sei de um tecido numa cidade perdida
Se me apetecesse aparecer-vos vestido desse pano
Imaginariam chegado o vosso fim
E o meu
Enfim as fontes saberiam que não se deve dizer Fontaine
Atraem-se os lobos com espelhos de neve
Tenho uma barca solta de todos os climas
Sou arrastado por um banco de gelo de dentes flamejantes
Corto e racho a lenha desta árvore sempre verde
Um músico ata-se às cordas do seu instrumento
O Pavilhão Negro do tempo de nenhuma história de infância
Aborda um navio que não passa do fantasma do seu
Há talvez uma bainha para esta espada
Mas nesta bainha existe já um duelo
Em que os dois adversários se desarmam
o morto é o menos ofendido
o futuro não é nunca

As cortinas jamais corridas
Tremulam nas janelas por construir
As camas feitas de todas as flores-de-lis
Resvalam sob os candeeiros de orvalho
Uma noite virá
As pepitas de luz imobilizam-se no musgo azulado
As mãos que fazem e desfazem os nós do amor e do ar
Mantêm a transparência para quem vê
As palmas sobre as mãos
As auréolas nos olhos
Mas o braseiro das auréolas e das palmas
Acende-se começa a arder no ermo da floresta
Lá onde os cervos inclinam a cabeça para ver passar os anos
Ainda só se ouve uma fraca pulsação
A gerar mil rumores mais leves ou mais surdos
E esta pulsação perpetua-se
Há vestidos vibrantes
Vibração em uníssono com a pulsação
Mas quando quero ver as caras das que os vestem
Uma grande névoa levanta-se da terra
Por baixo do campanário atrás dos mais elegantes reservatórios de vida e de riqueza
Nas gargantas que escurecem entre duas montanhas
No mar à hora de arrefecer o sol
As estrelas separam os seres que me acenam
Mas o carro lançado a toda a desfilada
Leva-me as hesitações até à última
Que me espera lá longe na cidade onde as estátuas de bronze e de pedra trocam de lugar com as estátuas de cera
Banians banians


Le Revolver à cheveux blancs (1932)





andre breton
poemas
trad. de ernesto sampaio
assírio & alvim
1994



19 agosto 2010

andre breton e paul éluard / o juízo original








Não leias. Olha as figuras brancas desenhadas pelos intervalos separando as palavras de várias linhas dos livros e inspira-te nelas.

Dá aos outros a tua mão a guardar.

Não te deites sobre as muralhas.

Retoma a armadura que abandonaste na idade da razão.

Põe a ordem no seu lugar, desarruma as pedras da estrada.

Se sangras e és homem, apaga a última palavra na ardósia.

Forma os teus olhos fechando-os.

Dá aos sonhos que esqueceste o valor daquilo que não conheces.

Conheci três lampistas, cinco guarda-barreiras mulheres, um guarda-barreira homem: e tu?

Não prepares as palavras que gritas.

Habita as casas abandonadas. Não foram habitadas senão por ti.

Faz um leito de afagos aos teus afagos.

Se eles batem à porta, escreve as tuas últimas vontades com a chave.

Rouba o sentido ao som, existem tambores encobertos mesmo nos vestidos claros.

Canta a grande piedade dos monstros. Evoca todas as mulheres de pé sobre o cavalo de Tróia.

Não bebas água.

Como a letra l e a letra m, pelo meio encontrarás a asa e a serpente.

Fala consoante a loucura que te seduziu.

Veste-te com cores cintilantes, não é hábito.

O que encontras só te pertence enquanto a tua mão está estendida.

Mente ao morder o arminho dos teus juízes.

Enforca-te, bravo Crillon, eles te tirarão da forca com o seu Isso depende.

Ata as pernas infiéis.

Deixa a madrugada aumentar a ferrugem dos teus sonhos.

Aprende a esperar, de pés para a frente. É assim que brevemente sairás, bem coberto.

Acende as perspectivas da fadiga.


Vende com que comer, compra com que morrer de fome.

Faz-lhes a surpresa de não confundir o futuro do verbo ter com o passado do verbo ser.

Sê o vidraceiro da pedra engastada no vidro novo.

A quem peça para ver o interior da tua mão, mostra os planetas não descobertos do céu.

Diz à luz, tu calcularás as dimensões encantadoras do insecto-folha.

Para descobrir a nudez daquela que amas, olha as suas mãos. O seu rosto baixou.

Separa o giz do carvão, as papoulas do sangue.

Dá-me o prazer de entrar e sair nas pontas dos pés.

Ponto e vírgula: vês, mesmo na pontuação, como eles são surpreendentes.

Deita-te, levanta-te e agora deita-te.

Até à nova ordem, até à nova ordem monástica, isto é até que as mulheres mais jovens e belas adoptem o decote em cruz: os dois ramos horizontais descobrindo os seios, o pé da cruz nua no baixo-ventre, ligeiramente avermelhado.

Daquilo que tem a cabeça sobre os ombros, abstêm-te.

Regula a tua marcha pela das tempestades.

Nunca mates uma ave da noite.

Olha a flor da campainha: ela não permite ouvir.

Falha a finalidade aparente, quando tiveres que atravessar o teu coração com a flecha.

Opera milagres para os negares.

Tem a idade deste velho corvo que diz: Vinte anos.

Tem cuidado com os carroceiros do bom gosto.

Desenha na poeira os jogos desinteressados do teu tédio.

Não escolhas o tempo de recomeçar.

Sustenta que a tua cabeça, contrariamente às castanhas-da-índia é em absoluto sem peso, uma vez que ainda não caiu.

Doura a pílula com a centelha sem isso negra pela bigorna.

Faz para ti sem franzir as sobrancelhas uma ideia possível das andorinhas.

Escreve o imperecível na areia.

Corrige os teus pais.

Não guardes em ti aquilo que não fira o bom senso.

Imagina que esta mulher está contida em três palavras e que esta colina é um abismo.

Lacra as verdadeiras cartas de amor que escreves com uma hóstia profanada.

Não deixes de dizer ao revólver: Muito lisonjeado mas parece-me tê-lo já encontrado em qualquer lado.

As borboletas do exterior não procuram mais do que alcançar as borboletas do interior; não substituas em ti, se vier a ser quebrado, um único espelho do revérbero.

Amaldiçoa o que é puro, a pureza está amaldiçoada em ti.

Observa a luz nos espelhos dos cegos.

Queres ter ao mesmo tempo o mais pequeno e o mais inquietante livro do mundo? Pede para relerem os selos das tuas cartas de amor e chora; não obstante tudo, tens razão para isso.

Nunca esperes por ti.

Contempla bem estas duas casas: numa estás morto, na outra estás morto.

Pensa em mim que te falo, põe-te no meu lugar para responderes.

Receia passar demasiadamente perto das tapeçarias quando estás só e ouças chamar por ti.

Torce o teu corpo com as tuas próprias mãos por cima dos outros corpos: aceita corajosamente este princípio de higiene.

Come apenas aves em folhas: a árvore animal pode sofrer de Outono.

A tua liberdade com a qual me fazes chorar a rir é a tua liberdade.

Faz fugir o nevoeiro diante de ti mesmo.

Considerando que a natureza mortal das coisas não te confere um poder excepcional de duração, pendura-te pela raiz.

Deixa ao travesseiro idiota o cuidado de te acordar.

Corta as árvores se quiseres, quebra também as pedras mas tem cuidado, tem cuidado com a luz lívida da utilidade.

Só te fitas com um olho, fecha o outro.

Não anules os raios vermelhos do Sol.

Segues pela terceira rua à direita, depois pela primeira à esquerda, chegas a uma praça, voltas junto do café que conheces, segues a primeira rua à esquerda, depois a terceira rua à direita, lanças a tua estátua por terra e ficas.

Sem saber o que irás fazer com ele, apanha o leque que esta mulher deixou cair.

Bate à porta, grita: Entre, e não entres.

Nada tens para fazer antes de morrer.










andre breton e paul éluard
a imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972








16 junho 2010

andre breton e paul éluard / a ideia do devir



A perfectibilidade humana, pensámos muito nesta espécie de caça ao urso nas montanhas que se sapam a si mesmas antes de se tornarem montanhas que se sapam a si mesmas e são todavia montanhas. O urso em questão não desdenha de aparecer entre duas derrocadas ou duas elevações de buracos e outros acidentes do terreno. Nos seus olhos há vida e morte para dar e receber, o que não acontece sem urna certa consciência da estupidez. Vá! ao muro acabou-se. Mas aquilo que amava... Apontar! Talvez convenha cantar! Fogo! E dizer que talvez ainda me esperem!

A pequena volta que consiste em dar ao desgosto a forma de uma esperança terrível e desamparada não se faz sem o abandono de alguns cuidados de segunda ordem. A dor física nunca foi para nós senão a quinta roda do coche da carne. A confiança nunca se fez luz senão através dos postigos da observação. Prestar justiça nunca foi mais do que o primeiro termo e o menor de uma solução que pode cobrir os homens com o manto transparente da igualdade. Logo, nunca se está bastante seguro da vida para não se estimar dos outros.

Botão do uniforme que não escolhi, botão que tem em relevo a pequena granada do meu espírito, bem me diz que sou substituível. O céu era uma pena para o meu chapéu, a terra urna espora. O que me mata contudo é aquilo que merecia ter sido. Antes que se tivesse regulado os meus passos sobre a bússola a navegação muito longa prosseguia para me permitir produzir-me, eu, pequeno ciclone, muito orgulhoso. O navio sobe a escada em caracol da tromba. Lá no alto dos degraus está surpreendido por ter de saltar no ar para não mais se mirar sendo no futuro de um modo claro e franco. Estas luvas de repulsa que tenho calçadas não foram cosidas para mim. E depois também que mãos são estas que tenho estendidas e para as quais as minhas mãos se estendem, que olhares são estes que lancei para tudo, estes olhares que tudo abandonava, que recordações são estas que mantêm aquilo que será?

Sem ascendência, sem descendência. A caixa das cartas está vazia na extremidade do jardim ou melhor, não: ela atola-se na areia, está magnífica. Cada grão de areia é um aglomerado de parcelas provenientes da usura daquilo que só se usou para voltar a servir. O ponto que não alcancei está tão afastado como o ponto que alcancei. Foi daqui que parti, deste grão de areia mais pequeno que um dedal, ou deste cubo de praias indefinidamente a escorregar na mesa das repetições?

Se fosse para recomeçar, se fosse para recomeçar... A roseira de espuma do mar está de pé a meu lado neste retrato poeticamente definitivo. Ainda me comparo com aquele que não poderia ser. Este ancião olha ao longe os seus bisnetos atirarem uns aos outros bolas de neve através da sua barba, esta criança sonha que morreu, a segurança do dia seguinte faz a ponte sobre o abismo que o separa da véspera. Toda a autoridade com a qual me reduzo na minha fraqueza amalgama as construções dos homens e do tempo.

Certamente, é bem menos que a sorna se se considerar a diferença. Eis os pequenos remédios de hoje nos quais só entram ainda as flores do campo, eis sobre um coxim a última invenção toda emaranhada nos seus fios, eis o lindo ruído do esmagar de cascalho com os pés que se faz numa festa. No esquecimento completo dos terrenos estéreis, as descobertas em potência dormem o seu primeiro despertar. Aparecimento perturbante das noites escuras, um ser que se conheceu é um ser novo. Quantos corredores e que corrida! É tão longe que não haverá ninguém a esperar a chegada. Os primeiros terão mil e mil vezes alcançado os últimos, de tal modo, apesar de tudo, a pista é pequena: ora, como nos defendemos bem, e com razão, de contar as voltas… Nas nossas breves relações com a existência o essencial é que tenhamos mantido um pouco o ritmo. A memória perde-se das curvas do trajecto. É por urna linha indefinidamente recta que a direcção é dada, que o regresso se tornou impossível. E o corredor ultrapassa-se... Tornou-se invisível. O seu dorso loucamente curvado faz parte integrante da encosta que trepa. É necessário que o seu dorso se estenda paralelamente a todos os dorsos curvados, a todos os dorsos admiráveis. Desgraça para aqueles que deles tiverem tentado fazer um pedestal, que será feito com estes abrigos das suas mãos caindo incessantemente num sufocante perfume de terebintina, que será feito com esta poeira que ainda obscurece o mundo, que será feito também com estas carreiras do pior nas verduras do mal, com estes oásis do melhor nos desertos do bem. As invisíveis barreiras do pensamento humano, as invisíveis barreiras dos corpos semelhantes sepultarão ao tombarem todos os inimigos do género humano.




andre breton e paul éluard
amor
a imaculada concepção
tradução franco de sousa
estúdios cor
1972




07 maio 2010

andre breton e paul éluard / o sentimento da natureza







O processo do espelho em esfera serviu mais uma vez para o estudo das origens do orvalho; logo que está completo pelo fogo da chaminé, é possível submetê-lo sem dificuldade a medições precisas, e estudar o fenómeno em todos os seus pormenores; assim se reconhece que as sardas nascem bruscamente, permanecem brilhantes por um curto instante, extinguem-se depois gradualmente. A sua duração total varia com a formação dos anéis de verdura nas clareiras favoráveis à neve. Mas nenhuma dura mais que uma vida média, calculada tendo em conta os seus eclipses e os seus nós.
A grande questão seria conseguir que quando um ser enganou um outro ser, se tornasse incapaz de segurar na mão um copo que não se partisse imediatamente. Muitos inventores dedicaram o seu sono e as suas vigílias à solução deste problema, mas sem que até este momento nenhum dos vidros imaginados tivesse apresentado as qualidades requeridas. O facto está em que se é apenas a elegância do copo que permite beber e se é apenas o tremor do bebedor ou da bebedora quem comunica as suas vibrações à tempestade sempre imaginada no interior do copo vazio, a emoção de um ou da outra não pode bastar na maior parte dos casos para provocar o estilhaçamento de uma parcela de matéria transparente que faz bomba na extremidade dos dedos. Estas saraivadas que amadureceram na inconstância e no olvido não permitem àqueles que bebem tomar a atitude desligada dos amadores do ciúme.
Sob as árvores, às mãos-cheias, o cheiro de roupa queimada de velhas roseiras enche as caves do Outono. O coração da dama do lago foi perfurado por um lagarto. Está na aurora até ao coração. Existe escondido um tal movimento de estrelas que a sombra cai em flocos, um tal movimento de estrelas grandes e terríveis que a vida está em farrapos. E o eco responde: Aqui, há um cadáver.
Pouco a pouco, o cadáver pinta-se. O pó de arroz dá lugar à alvaiade, o sublimado aparece à varanda, é o rei dos cosméticos. O sulfureto de zinco comunica ao corpo bem--amado na noite aquela bela luminosidade verde--esbranquiçada, aquele clarão inteiramente enigmático na meia luz. A neve do pensamento continua a cair contendo sempre no interior dos seus cristais o pó fino do colo da janela, nascido no sangue.
Quando observamos atentamente a própria vida temos muitas vezes a impressão de que as alegrias e as dores se mantêm durante um tempo apreciável. Fomos surpreendidos, da Rua Louis-Blanc à Rua Louis-Noir, com a duração do período do fenómeno oscilatório: segundo a nossa opinião os pontos brilhantes são aqueles onde a vida é vista em ponto pequeno.
O inimigo da sua natureza assombra as fiorestas perigosas cujas grades se fecham todas as manhãs sobre a árvore dos vícios. Finda a saúde as suas geadas de malvas e as suas canículas de tigre. O inimigo da sua natureza está perdido no meio das flores salgadas e leques de gesso. Será necessário indicar-lhe a direcção do deserto? Irei voltá-lo para a estrela polar? Deseja ele que este empedrado que aí está se torne e fique constantemente paralelo ao equador infernal? Agrada-lhe que esta boca que cobiça permaneça indefinidamente à porta do primeiro palácio dos fenómenos? Que escolha! Ou prefere então ter tudo isso na abertura da sua mansarda que dá para o céu aturdido?
- Tudo, responde ele. Com isso e um sorriso do Sol, sem pôr o nariz fora da minha janela, saberei ao certo com que me contentar acerca da força incompreensível das aptérix e dos grampos de ferro dos seus hábitos crepusculares.
Saberei ao certo com que me contentar quanto ao processo empregado para guarnecer o artigo desértico preexistente no velho mundo de personagens, de aves ou de diferentes cenários em relevo, relativamente bastante bem feitos. Em presença do preço módico do conjunto — a vida — e da execução sofrível do cenário pensava que fora sem dúvida empregado um processo mecânico simples, tal como urna moldagem, mas, após exame, pareceu-me que estas ornamentações, sobretudo os pássaros, não eram de despojo e, não podendo sair de um molde vulgar, teriam exigido uma moldagem dispendiosa. Não sei se me será permitido visitar um dia as oficinas do fabricante. É provável que o artista tenha como único material e como ferramentas folhas de macieira e a matéria plástica; que seja com estas folhas de macieira que ele dá forma a esta matéria formada de céu encarneirado (muito produtivo) e de esperma ligado com gulosos de morangueiros. Teve de tirar o almíscar nas cabeças de trutas, misturá-lo com o ácido oxalo-sacárico e encerrá-lo numa primeira hóstia de cor carne. Numa segunda de cor espírito teve de guardar bicarbonato de sódio seco. Na época das chuvas, as duas hóstias misturadas deram ácido carbónoco expirável na forma de hálito.
A maldade que lança o espírito sobre a carne e a carne sobre as imagens do espírito habita as miragens da cabeça e a água gelada das cozinhas surdas. É preciso respirar este ar selvagem que estende os punhos através do apetite voraz das ruínas com cintura de vespa e cabeça de víbora. Elas sobrepõem-se gradualmente e cada um dos seus degraus está coberto de coágulos de musgo vivo que a névoa torna a cobrir de musgo morto. A atmosfera ganha então um tom amarelo mais intenso que o da crosta da aurora. A vista espraia-se sem limites e escava nas profundidades do coração humano, que sempre produziram naquele que as contemplou urna extraordinária impressão.
Gostaríamos de ilustrar este texto com urna curiosa figura representando um animal de tronco excepcionalmente bifurcado a partir do meio do seu comprimento. É assinalada a existência de seres análogos um tanto por toda a parte. Este género de divisão anormal de eixos ou de órgãos habitualmente simples conhecido das árvores com o nome de partimento, ainda não foi estudado senão pelos sexualistas. Foi em Paris, onde íamos herborizando ao longo das fortificações, que pela primeira vez fomos surpreendidos ao avistar uma, depois duas, depois mil destas excrescências lembrando, num grau muito mais avançado de deformação, esta variedade móvel da mandrágora em busca do vento na erva rasa e lamentavelmente observada pelos carrosséis de cavalinhos. A sua excitabilidade representava-nos bastante bem um quadro assaz análogo ao de um leito tal como seria se a velocidade dos movimentos executados pelos vários membros que nele se agruparam estivesse multiplicada por mil. Tudo ali está em movimento, os braços sobem, baixam, torcem as mãos, os troncos contornam em hélice a sua culminância delicada, as bocas rebentam, projectam os seus beijos ao longe, os beijos caídos sobre os olhos não ficam ali, logo partem numa outra direcção, as pernas mergulham nos lençóis transparentes, enfim tudo está cm acção, desde o grito que se abandona até aos dentes de veludo.
Os caminhos que sulcam o arrabalde, nos últimos raios da preguiça, repousam nas redes das grelhas. É difícil dispor os lugares da aldeia para não se deixar morrer de fome, à noitinha. Toda a sua puerilidade não lhe serve senão para confundir os despojos do turismo com o porte estúpido das grandes glicínias da Beauce.
O Verão, como tinta simpática, reaparece a favor de dois negativos quando não está calor não está frio, sobre o palimpsesto coberto de geada da palavra inverno.
O fogo é um amigo que nos presta serviço, é a razão por que a aliança estabelecida com ele lisonjeia tão vivamente a população terrestre. Todo o aparelho preventivo do fogo está colocado num ramo de cerejeira. O ramo de cerejeira alto, sem o botão a dominá-lo, de 0,35 .m, está fixado por quatro parafusos, também em madeira, do modelo conhecido, ao tronco da árvore. Eis-nos no meio da Primavera. Quantas transformações já se cumpriram! O preventivo é visitado por uma borboleta branca que se detém a meio da fotografia. O Outono: a maior parte das folhas caíram; o capitel de um estilo coríntio híbrido faz o regalo de uma libélula.
Um mar imenso de penca vermelha protege os instrumentos de trabalho da centelha. Em breve se dará um eclipse de coragem. As vagas de lava que se rasgam na planície e as incursões do machado inútil, o machado paternal, o machado com dentes de serra já não terão história. A centelha, sempre resplandecente, será glacial. Elevar-se-á teatral e vã, sobre um mundo demasiado afagado pelos simuladores. O monumento do dia fará os sonhos de fuligem.
Preparar-se-ão para o demolirem nos alicerces, logo que estiver saturado de sonho. Cairá enfiando-se umas partes nas outras, à maneira dos telescópios, como dizem os Ingleses, sem destroços ao longe. Então o telégrafo só aparecerá como o chapéu adornado de andorinhas de uma dama parisiense em 1889.
Entretanto, o céu e os seus derivados não fazem efeito no maciço. O sangue é mais procurado devido à sua cor complementar do verde da pele (1914-1918).
Após o sangue vem o negro da glória: peguem num livro branco, limpem-no, mergulhem-no folha a folha durante alguns minutos numa mistura pastosa formada por: 500 gramas de estrume de carneiro, uma pitada de sal, um copo de vinagre a que juntam 200 gramas de pó de bagas de sabugueiro e assinem.
As representações convencionais das origens geométricas da natureza só são sedutoras em função do seu poder de obscurecimento. O cristal é um dédalo seguido pelas toupeiras, as uvas queimam as últimas borboletas. Vista através da substância afrouxada, a paisagem seduz-nos com todas as suas masmorras. Peixes feitos de redes, pássaros de grades, mamíferos de gotas. A flecha odorífera do ar tendo-a atravessado de lado a lado faz que a nossa barca meta água num mar que se esvazia.
Que dizíamos nós? Ah! pois as ruínas empenachadas de avestruz, as ruínas continuam assaz
solidamente belas. Não existe senão um grau de calor entre a foliação do lilás e o último canto do cuco mas pode ter-se a certeza que este grau é bem empregado entre o trigésimo sétimo — daqui — e o quadragésimo segundo — ali.











andre breton e paul éluard
as mediações
a imaculada concepção

tradução franco de sousa
estúdios cor
1972






25 fevereiro 2010

andre breton e paul éluard / nada existe de incompreensível





Que atracção reuniu assim no fundo deste abismo, a mil metros abaixo do nível do mar, alguns dos maiores criminosos do nosso tempo? O local é fresco, mas mais claro que espinhoso. Nenhuma inquietação pelo futuro, nenhuma luz escondida, ali chama por aqueles que procuram através das paisagens as grandes confidências vivas. Uma pequena vivenda de arrabalde fura entre os maciços de coral e os cantos de esferas o seu pára-raios e o seu pombal junto da suave epiderme da alga vermelha. Os que habitualmente vêm a este sítio falam com mais gosto de ódio que de amor. O acaso, este ano, conduziu para esta clareira famosos artistas.
Troppmann, a Brinvilliers, Vacher, Soleilland, Haarmann… Que festa de caridade poderia gabar-se de reunir tão grandes artistas no mesmo cartaz? Contudo, lá estão sem nada terem combinado, por repouso, por estudo também, preparando na paz desta depressão os programas misteriosos de que não nasceram os executores esplêndidos.
Na serenidade das noites a Brinvillers ressuscita os seus venenos perdidos com aquela graça reflectida que lhe permite uma interpretação justa e verdadeira do pensamento arsenical. Vacher evoca a beleza das prostitutas apaixonadas, Haarmann come, Soleilland joga, Troppmann ri, todo um terreno vago nos olhos.
Na volta de alguns carreiros, roçando pelos mastros de barcos submersos, palavras sem canções misturam-se com esta atmosfera de piratas e talvez nunca o seu poder se tenha exercido com mais liberdade. A atracção que agiu nestes criminosos não deve ser mais do que esta pureza, este silêncio do abismo, que permite à linguagem assassina reencontrar, de certo modo, a sua juventude, o ponto de força e de acção onde é absolutamente ela própria, sem que nada a estorve ou a corrompa.
Nunca esqueceremos o dia em que, pela primeira vez, vimos Soleilland entrar no mar. O silêncio estabelecera-se pouco a pouco no quarto quando este homem alto e jovem se aproximou do leito e se sentou. Olhou a cabe leira clara pela qual passara a mão, recolheu-se e era como se tivesse querido passar um pouco da sua emoção e da sua sagacidade para os adoráveis anéis do seu cabelo. Nenhuma afectação neste recolhimento. Sentíamo-lo só e verdadeiramente naquele instante todos nós existíamos mais ou menos através dele. O fenómeno que liga tão estranhamente um homem àquilo que ama não existe aliás fora da autoridade, da exigência: é tanto um abuso da força como uma força e pertence à distracção dos demónios.
Quando a vozearia pública esmoreceu, quando ficou à altura do mar, quando deixou de ser o mais forte, Soleilland apenas descobriu os olhos da criança. Nascidos na surpresa eles afirmavam de súbito a vida num resumo violento e magnífico. Era qualquer coisa que nunca tínhamos encontrado: a obra encontrava neles a sua grandeza, a sua verdade, certas. Ela é longa: de uma ponta à outra a impressão é acrescida de um tal vaticínio que não era possível duvidar de ter assistido à consumação dos séculos.
Tudo se passava, dissemo-lo, sob o mar. Nós não fazíamos mais do que estar sobre a jangada com os nossos contemporâneos, logo bem pouco suspeitos de romantismo. Foi então que se admirou o génio de Soleilland o bem denominado. Compreendeu-se que ele se manifestava para além mesmo da inteligência, por um daqueles dons que fazem crer em qualquer coisa mais do que as habituais possibilidades humanas.
Quando dissemos a Soleilland o que pensávamos dele, respondeu-nos com uma voz juvenil:
— Porque me dizem isso?
— Porque o pensamos.
— Acredito em vós sem dificuldade.
Sorria, maravilhado por o poderem considerar como um dos maiores directores de consciência vivos.
— Mas que fiz eu? acrescentava ele. Sobrecarregava-nos de perguntas para nos ouvir justificar o nosso juízo; e, não tardou, como fosse a nossa vez de o interrogar, que nos contasse a sua infância ao sol, entre os princípios de seu pai e os pressentimentos de sua mãe que, muito jovem, o tinha iniciado nos grandes arcanos e não duvidava de que um dia teria de se tornar um «sol».
Trabalhava com alegria, e já era senhor da sua indiferença e senhor dos seus desejos, quando grandes perturbações sacudiram as suas mãos. Arrancou da parede a gravura que a adornava e representava um homem batendo numa mulher com um violoncelo e todas as suas forças, com o título: «Violoncelo que resiste». Tanto bastou, iria confessá-lo, para que os seus estudos terminassem, para que se tornasse naquilo que escutávamos naquela tarde, um jovem célebre nas profundidades da vida, e que conhecia a glória por não ter conhecido o coração dos outros.
Aquele que cumpre este destino magnífico só pensa em si mesmo: habita um mundo sem vítimas e não está surpreendido com a sua aventura, aqui em baixo, quando se fala com ele.










andre breton e paul éluard
as mediações
a imaculada concepção

tradução franco de sousa
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1972