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15 abril 2020

paul éluard / aqui



Uma rua abandonada
Uma rua profunda e nua
Onde os loucos têm menos dificuldade
Que os sensatos a safar-se
Nos dias sem broa e sem carvão

É uma questão de dimensão
N sensatos para um louco
E nada mais para lá da imensa
Maioria do bom senso
Um dia cru sem proporções

A rua tal uma ferida
Que não voltará a fechar-se
Que o domingo torna ainda maior
O céu é um céu de outro lugar
Senhor de uma terra estranha

Um céu cor-de-rosa um céu bem-disposto
A transpirar beleza e saúde
Sobre a rua sem perspectiva
Que me corta o coração em dois
Que me priva de mim próprio

Na rua não se passa nada nem ninguém.



paul éluard
últimos poemas de amor
o duro desejo de durar  1946
trad. maria gabriela llansol
relógio d´água
2002






25 dezembro 2019

paul éluard / viver é partilhar



Viver é partilhar  odeio a solidão
A grilheta da morte quer-me reter ainda
Já não beijo ninguém como beijava dantes
O pão era sinal de ser feliz
O bom pão que nos torna mais quente o nosso beijo

Como abrigo possível só há o mundo inteiro
P’ra mim viver é hoje responder aos enigmas
É renegar a dor que é cega de nascença
E sempre em pura perda estrela sem qualquer brilho
Viver perder-se para reencontrar os homens

Que a palidez do rio encubra o do arroio
Que olhos de maravilha vejam tudo em seu lugar
A miséria acabada e os olhares lavados
Uma ordem crescendo do grão à flor à árvore
Andaimes vivos a sustentar o mundo

A criança a renascer em cada homem e rindo.


paul éluard
poemas políticos
trad. carlos grifo
editorial presença
1971






12 agosto 2019

paul éluard / o último suspiro



Com uma flecha morre um pássaro
Em teus ombros escombros
Pende uma réstia de luz
Valem menos os anos que os dias
E a vida é menos que o amor.

Tua vales ainda um beijo
Só o tempo de sentir
O quanto desperto estou
Tudo é claro sob este lençol branco
Que te liberta e me espera



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






02 julho 2019

paul éluard / a perder de vista



NO SENTIDO DO MEU CORPO


Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                                      [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                               [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                                  [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                              [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






02 maio 2019

paul éluard / em primeiro lugar



IV

Disse-to pelas nuvens
Disse-to pela árvore do mar
Por cada onda pelos pássaros nas folhas
Pelos calhaus do ruído
Pelas mãos familiares
Pelos olhos que se volvem rosto ou paisagem
E o sono dá-lhe o céu da sua cor
Por toda a água da noite
Pelas linhas das estradas
Pela janela aberta por uma fronte descoberta
Disse-to pelos teus pensamentos pelas tuas palavras
Toda a carícia toda a confiança sobrevivem.


paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






01 março 2019

paul éluard / a cabeça contra as paredes




                                                    (fragmento)


Eram apenas uns poucos
Em toda a terra
Cada um se julgava só
Cantavam tinham razão
Para cantar
Mas cantavam como quem saqueia
Como quem se mata

Noite húmida surrada
Iremos nós suportar-te
Mais tempo ainda?
Não vamos nós sacudir
Tua evidência de cloaca
Não esperaremos por uma manhã
Feita à medida
Queríamos ver claro nos olhos dos outros
As suas noites de amor esgotadas
Eles não sonham senão em morrer
As suas belas carnes abandonam-se
Pavanas a rodar no coração

Abelhas colhidas no seu mel
Eles ignoram a vida
E a nós tudo nos dói.



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






24 dezembro 2018

paul éluard / onde é que eu ia?




Faz-se tarde o céu abandona o quarto
Esta noite vou vender as minhas cabras
Caminho atrás de um rebanho
De claridades delicadas
As árvores que me guiam
Fecham-se
Ficam ainda mais seguras
Hoje vou construir uma noite excepcional
A minha noite
Informe como o sol
Toda em colinas redondas sob mãos camponesas
Toda em perfeição em esquecimento de mim próprio

A dançarina imóvel e o peso das suas pernas
Se eu agora a fosse beijar
Suas frívolas cúmplices giram em torno dela
Ondulam alto nas linhas do candelabro
Marcarei de negro o soalho e o tecto
De negro e de repouso de ausência de felicidade
Entre palma e pupila a multidão do prazer
Até no sono se mantém inteira

Esta noite acenderei uma fogueira na neve



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977







30 outubro 2018

paul éluard / no meu bonito bairro





Abrir as portas da noite. Um sonho que equivale a abrir as portas do mar. A torrente afogaria o temerário.

*

Mas , para o lado do homem, as portas abrem-se de par em par. Corre o seu sangue como o seu pesar, e a sua coragem de viver apesar da miséria, contra a miséria, brilha no pavimento enlameado, engendrando prodígios.

*

Não é maravilha nenhuma habitar entre Barbés e La Villette. Nunca me queixei. Para me aborrecer ia a outros lugares, e o meu desejo de outros lugares não tinha então limite. Teria eu realmente necessidade de me aborrecer? Teria eu realmente necessidade de partir para as ilhas com a secreta esperança de esperar aí, com paciência, a morte? Imaginei-o porque fechava os olhos sobre mim. A minha juventude causava-me algum medo.

*

No meu bonito bairro, entre Barbés e La Villette, é honroso viver. E por toda a parte poderia a felicidade ter lugar. O único obstáculo é o tempo, o tempo de morrer. Antes da noite total, dentro da noite furtiva, poderemos ver, teremos o tempo de ver, de nos iluminarmos?

*

No meu bonito bairro, há homens que adquirem sem cessar o direito a tratar da sua vida – e não o fazem, o direito a serem belos – e, quando se olham ao espelho, encolhem os ombros – o direito a punir e a perdoar, o direito a repousar, a amar e ser amado, porque o mereceram. Sabem que as suas ruas não são becos sem saída e estendem desesperadamente a mão para se unirem a todos os seus semelhantes.

*

No meu bonito bairro, a resistência é o amor, é a vida. A mulher, a criança, são tesoiros. E o destino é um vagabundo a quem serão queimados, à luz do dia, os andrajos, os bichos e a estupidez rapace.



paul éluard
poemas políticos
trad. carlos grifo
editorial presença
1971







15 maio 2018

paul éluard / o cutelo vai cair




O cutelo vai cair
Sobre o pescoço condenado

Um herói privado de armas
Uma mãe morta de cansaço

O sono junta-os a ambos
A manhã mal os desperta

Dissolve-os a fadiga
E a miséria separa-os

Vejo as costas de um casaco cinzento
Numa rua baixa sob a chuva

Vejo pigmeus sem consciência
Saudarem as bandeiras e orarem

Vejo soldados no meio da lama
Saudarem as balas com a cabeça

Vejo as casas demolidas
Como que por prazer para uma festa

Vejo um ventre escancarado
Às moscas ao sol apodrecido



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






01 maio 2018

paul éluard / aos meus camaradas tipógrafos




Tínhamos o mesmo ofício
Que ajudava a ver na noite
Ver é compreender e agir
É ser ou desaparecer.

Era preciso acreditar preciso
Crer que está nos homens o poder
De ser livre e de ser melhor
Que o destino que lhe foi imposto

E nós esperávamos a grande primavera
E nós esperávamos uma vida perfeita
E que a claridade se decida
A carregar todo o peso do mundo.



paul éluard
poemas políticos
trad. carlos grifo
editorial presença
1971







28 setembro 2017

paul éluard / em espanha



Se em Espanha há uma árvore cor de sangue
É a árvore da liberdade

Se em Espanha há uma boca faladora
Fala de liberdade

Se em Espanha há um copo de bom vinho
É o povo quem o há-de beber.


paul éluard
poemas políticos
trad. carlos grifo
editorial presença
1971





04 setembro 2017

paul éluard / a aurora dissolve os monstros



Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem de transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela
                                                           [sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977





29 junho 2017

paul éluard / já que não é uma questão de força



Tudo a mais frágil palavra quebra
Sombra de ideia ideia da sombra morte feliz
O fogo torna-se água tépida e o pão migalha
O sangue mascara um sorriso e o raio uma
                                                                    [lágrima
O chumbo que o ouro esconde pesa sobre as
                                                                    [vitórias
Nada semeámos que não tivesse sido destruído
Pelo minucioso bico das delícias íntimas
As asas penetram no pássaro para o fixarem.




paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977




08 maio 2017

paul éluard / de um e de dois, de todos




Sou o espectador o actor e o autor
Sou a mulher e o marido e o filho
E o primeiro amor e o derradeiro amor
E o furtivo transeunte e o amor confundido


E de novo a mulher seu leito e seu vestido
E seus braços partilhados e o trabalho do homem
E seu prazer em flecha e a fêmea ondulação
Simples e dupla a carne nunca se exila

Pois onde começa um corpo ganho eu forma e
                                                                                      [consciência
E mesmo quando na morte um corpo se desfaz
Eu repouso em seu cadinho desposo o seu
                                                                        [tormento
Sua infâmia me honra o coração e a vida .




paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977


06 janeiro 2017

paul éluard / estações



I
O centro do mundo está em toda a parte e em nós

Uma rua ofereceu-se ao sol
Onde se situava ela e qual a sua importância
Na luz suplicante
Do inverno nascido de um amor menor

Do inverno uma criança coisa de nada
Com o seu séquito de andrajos
Com o seu cortejo de pavores
E de pés frios caminhando sobre túmulos

No deserto tépido da rua.


II
O centro do mundo está em nós e em toda a parte

E de súbito a terra bem-vinda
Foi uma rosácea de sorte
Visível com espelhos louros
Em que tudo cantava com a rosa na mão

À folha verde e ao metal branco
Pegajoso de embriaguez e de calor
Ouro sim ouro para brotar do chão
Debaixo da imensa mole humana

Aos pés da vida opressiva e boa


paul éluard
últimos poemas de amor
o duro desejo de durar  1946
trad. maria gabriela llansol
relógio d´água
2002



08 março 2016

paul éluard / juventude gera juventude



Fui tal qual uma criança
E tal qual um homem
Conjuguei com paixão
O verbo ser e a minha juventude
Com vontade de ser homem

Queremo-nos mal quando se é jovem
Um homenzinho
Teria querido fazer de mim uma criança grande
Mais forte e mais justa do que um homem
E mais lúcida do que uma simples criança

Juventude força fraterna
O sangue repete a primavera
A aurora é de todas as idades
Numa qualquer delas se abre a porta
Resplandecente da coragem

Como um diálogo de amantes apaixonados
O coração só tem uma boca para falar.


paul éluard
últimos poemas de amor
corpo memorável 1948
trad. maria gabriela llansol
relógio d´água
2002