303 – Todas as épocas têm uma palavra que resume e centraliza o que
nela mais significa. Nós não temos nenhuma a não ser em negativo. Talvez «desagregação».
Porque tudo o que é visível e sensível só diz não a tudo. O nosso vocabulário
reduziu-se porque muitos vocábulos deixaram de servir. Amor, decoro,
honestidade, honradez, seriedade, fidelidade, recato, decência. Opostamente, os
vocábulos mais obscenos deixaram de ferir os ouvidos mais delicados. E não
apenas os que se soltam em situações agressivas, mas mesmo em conversas normais
e até em títulos de livros como um romance. O que é curioso é que nesses restos
de reserva ou pudicícia não se dizem em voz alta esses títulos expostos numa
livraria. Assim, se alguém os quer comprar não os pede pelo nome mas por outras
formas de o referir como por exemplo apontando-os com o dedo ou apresentando-os
simplesmente nas livrarias para o pagamento. Sempre existiram os palavrões, mas
não expostos à publicidade e sim lidos com recato. Mas hoje vale tudo porque
nada vale nada. incluindo a própria vida que tosos os dias se assassina numa
vulgar bulha de facas. E não são precisas razões, que dão trabalho a descobrir
ou seja a inventar. Basta faca.
vergílio ferreira
escrever
edição de helder godinho
bertrand editora
2001
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